March 26, 2008

Enfim Hopkins!


Ainda estou em ritmo de comemoração. Sempre achei que tivesse nascido para ser rainha mesmo, pois comemoração na corte sempre dura no mínimo uma semana inteira. Não faço por menos: estou comemorando a ida a Johns Hopkins até hoje. Acho que merecidamente.

Depois de penar para conseguir marcar uma consulta com o pessoal da equipe de Câncer de Fígado de Hopkins, segunda-feira enfim consegui realizar meu sonho. (Tem gente que sonha em entrar para o Big Brother ou ser artista da Globo, eu sonho em ser paciente do Centro de Câncer de Hopkins. Cada louco com a sua mania!) Para quem não lembra, antes de concordar em me ver, o médico me pediu que enviasse zilhões de laudos e exames por fax. Além disso, precisei fazer uma redação explicando o motivo pelo qual eu deveria ser examinada pela equipe. Não é brincadeira. Alguns dias depois de mandar tudo o que me foi pedido, recebi a ligação da enfermeira, mas que para mim teve o mesmo sabor de um ticket de loteria premiado. Desliguei aos pulos e liguei para o Blake na mesma hora. "Fui aceita em Hopkins! Fui aceita em Hopkins!" Obviamente não como estudante, mas desta vez como paciente. A última vez que gritei tanto assim foi quando ganhei uma bolsa para vir fazer faculdade aqui nos EUA. Tinha de dezessete para dezoito anos...

Depois de tornar a consulta oficial, fiquei aguardando ansiosamente. Aqui nos EUA a coisa é bem diferente do que no Brasil. No país que inventou a máxima, "tempo é dinheiro", o povo cumpre ao pé da letra. Em vez de preencher a ficha quando chega ao consultório do médico, já na hora marcada, aqui o paciente recebe a ficha pelo correio, assim que marca a consulta, e é instruído a já levá-la devidamente preenchida no dia marcado para agilizar o processo de "check-in", que nos EUA não é coisa exclusiva de hotel!

É claro que preenchi minha ficha no mesmo dia que recebi o envelope pelo correio. Verifiquei todos os exames, li todos os relatórios só para ter certeza de que toda a informação ali contida era exata, afinal, tempo é dinheiro e ninguém quer deixar o que está fazendo para consertar coisa alguma. Já pensou se eles acham de não me atender por que esqueci o número de bolsas de sangue que tomei?! Nem pensar!

Fiz a pilha de exames, laudos e relatórios e deixei tudo arrumadinho em cima da mesa. Coloquei tudo em ordem. Me certifiquei do horário e da localização do hospital. A tal ficha vinha com instruções detalhadas de como chegar ao local, onde deixar o carro e o passo a passo já dentro do Outpatient Center, onde seria atendida.

No Brasil, o sujeito vai ao médico pegar a requisição, depois vai ao laboratório fazer o exame, espera tantos dias para receber o laudo, pega o exame, marca a consulta com o médico. Neste vai e vem lá se vão não sei quantos dias. Se o paciente não for muito organizado, na hora da consulta o tal exame já até caducou. Nos EUA é tudo muito diferente. O médico contata o plano de saúde diretamente, recebe a autorização e marca o exame do paciente. Em Hopkins a coisa vai mais além: todos os exames são realizados no dia da consulta e chegam ao médico em questão de pouquíssimo tempo, tudo informatizado através da rede do hospital. Tudo muito organizado. Coisa de primeiro mundo, como diria a minha mãe.

Semanas antes da minha consulta, juntamente com a ficha e com o mapa, recebi a minha agenda detalhada para o dia 24 de março de 2008. Resumindo tudo, eles pediam para que eu me apresentasse ao "patient check-in", no lobby até as 13:30 para meu primeiro exame, uma tomografia computadorizada, marcado para às 13:50. No lobby, assim que fizesse o check-in, recebeira a minha identidade de Johns Hopkins, que é mais ou menos um VIP pass para a boate mais chique ou um American Express Black no mundo hospitalar, ou seja, só um grupo muito seleto (ou muito doente?) tem acesso a tal regalia. Fiquei toda contente quando ganhei meu cartãozinho laranja. Além do cartão VIP, ganhei uma pulseira branca com a data do dia. Ganhei também uma outra pulserinha que era a cópia do cartão VIP.

Segundo a cartinha, que parecia o mapa da mina, depois do check-in no lobby, deveria me dirigir ao terceiro andar para a tomografia. Chego lá, assino a lista de chamada e espero ser chamada. Pontualmente às 13:50, ouço meu nome. A enfermeira simpática me leva para uma outra sala de espera, já na área restrita, e de lá me leva para o "vampiro", que é o coitado encarregado de espetar a gente. Esta é uma das horas mais chatas para mim, já que por uma grande ironia do destino, minhas veias são péssimas! Além de quase invisíveis ou inexistentes elas ainda pulam quando espetadas. Minha mãe diz que veia assim chama-se "veia bailarina". Faz sentido.

Fico lá esperando o tal vampiro aparecer quando de repente avisto um negro dois por dois, que mais parece jogador de futebol americano do que enfermeiro, mas um amor de pessoa. "Hi, my name is Phil. How are you today?" Gente boa o cara. Me apresento e já vou dando meu recado "Minhas veias são um pouco complicadas e temperamentais." Ele ri e depois de examinar meus braços, me dá razão. Normalmente peço para que eles usem "butterfly", o tipo de agulha que eles usam em bebê, mas para este exame eles precisam de uma agulha bem grossa. Azar o meu.

Primeiro o Phil olha o braço direito com atenção, como não vê nada promissor, passa para o esquerdo. Ao notar que a coisa piora deste lado, volta ao direito e se concentra. Respira fundo, mira numa das veias transparentes e fura. Nem dói tanto assim, mas a coitada não sangra!!! Até aí tudo bem, é raro eles conseguirem de primeira. Prendo a respiração, mordo o indicador mais uma vez e ai! outro furo no meu braço. Faço pensamento positivo para a desgraçada da veia sangrar. Parece que está tudo certo. Ele testa o acesso com o soro, tudo OK desta vez. Estou pronta para o exame.

Depois de devidamente furada, sou encaminhada para sala de imagem. Acho estranho ninguém ter me pedido para trocar de roupa ainda, afinal se esbarro em algum ligar, é fácil perder o acesso. Chego na sala, o enfermeiro sorri, elegia meu sapato, me manda deitar na maca, me cobrir com o lençol e abaixar minha calça jeans até o meio da coxa. Nunca vi nada assim em nenhuma das zilhões de tomos que já fiz. O lance é rápido. Faço o que me mandam. Respiro. Prendo. Solto. Respiro. Prendo. Solto. Pronto! Já estou liberada. Inacreditável. Passei da tarefa dois para tarefa três. Pulo uma casinha no jogo. Volto ao primeiro andar.

Fico com o acesso no braço para que eles possam coletar sangue sem me furar de novo, ou assim espero. Sigo as intruções no plano de ataque, de volta ao primeiro andar, me dirijo ao "express check-in", assino a lista e aguardo a minha vez. Em pouco tempo meu número é chamado. Como paciente profissional que sou, já aviso à enfermeira-vampira que vou facilitar a vida dela, pois já venho com acesso pronto. Ela sorri, ainda mais depois de olhar minhas veias invisíveis. Posso ver a cara de alívio dela. Então só para conferir, ela testa o acesso e...surpresa!!! Não funciona mais! Em menos de cinco minutos o perdi! Começa a batalha de novo. Olha daqui, olha de lá. Pouquíssimas opções e dois furos no braço. Ela arrisca o terceiro, mas nada, a veia não dá sinal de vida. Lá vou eu para quarta espetada..e só sai um mera gota de sangue. Nada feito! Na quinta vez, ela pega uma veia boa e eu respiro aliviada ao ver o sangue jorrando e enchendo todos aqueles potinhos coloridos. Aleluia!!! A tortura chega ao fim.

Pelo menos a física, pois a psicológica só vai acabar quando o Dr. Pawlik olhar para mim e disser que está tudo bem. Minha gincana continua. Olho para o mapa, só me falta uma etapa: a consulta médica. Eu e Blake nem acreditamos. São três horas da tarde e eu só tomei um cereal antes das nove, mas não sinto fome nenhuma. Sigo as instruções do papel e me dirijo ao oitavo andar, onde os médicos fazem os atendimentos. Assino a chamada de novo e sento para esperar. Minutos depois, a mesma rotina se repete: ouço meu nome, sou encaminhada para uma outra salinha onde vou esperar para ser atendida. Minutos depois, sou levada para o consultório onde aguardo o Dr. Pawlik, que está um pouco atrasado. O Blake tenta esconder a ansiedade e me pede calma, mas nós dois mal conseguimos ficar sentados na sala. Finalmente Dr. Pawlik chega, minutos depois.

Ele aparenta ainda menos do que seus trinta e poucos anos. Para falar a verdade, aparenta uns 15, no máximo uns 19, recém saído da puberdade. Pawlik é franquizo e branquinho, mas sorridente e acessível. Entra no consultório apressado e logo pede desculpas. Senta na minha frente e olha para a tela computador, onde vê os exames que acabei de fazer no mesmo dia. Mal consigo respirar, quando ele sorri e diz animadamente: "Vejo um fígado enorme e saudável. Isso é ótimo. Então o que você quer de mim? Que eu te monitore daqui para frente? Por mim, tudo bem." A minha vontade ali é me jogar no chão de joelhos e beijar aquele médico. Melhor notícia impossível. Depois de tanto sofrimento, tanta luta, parece que as coisas começam a melhorar para mim. Conversamos sobre meu caso e ele me explica uns detalhes mas se apressa em dizer que precisa examinar meus espécimens novamente. Em alguns casos, nem tão raros assim, os patologistas de Hopkins discordam dos laudos dados por laboratórios externos e este laudo certo é o principal para a conduta de acompanhamento.

Depois das explanações iniciais, tomo coragem e faço as perguntas que me não me saem da cabeça há meses:

* Vou poder engravidar?
* Tenho que esperar dois anos? Por quê?
* Tenho alguma restrição alimentar?
* Quando vou estar liberada para beber um champagne de vez em quando?
* Qual vai ser o método de controle? Qual o perigo da exposição à radiação?
* Qual meu prognóstico de cura? Vou morrer daqui a cinco anos?

Pawlik então sorri e responde: "Pode engravidar amanhã se quiser. Isto é uma opção pessoal sua. Obviamente o risco de uma recidiva diminui com o tempo, então se puder esperar um pouco, melhor, mas se você me disser que ter filhos é uma prioridade sua e que você quer começar agora, não vou me opor. Ao que tudo indica, a gravidez não aumenta seu risco em nada."

Isso era tudo que eu mais queria ouvir. Não porque pretenda ter filhos amanhã, mas saber que tenho esta opção é maravilhoso. Sobre as restrições alimentares, Pawlik disse que não existem, mas elogiou meu empanho em me alimentar de uma forma saudável, o que quer dizer que continuo na dieta vegana. Sobre álcool a reposta dele foi na verdade uma pergunta: "Por que não? Seu fígado está 100% recuperado, então pode beber a hora que quiser, desde que use de bom senso." O fato é que liberada ou não, o álcool, que nunca foi importante para mim, jamais vai ter o mesmo gostinho, então vou continuar tentando evitar ao máximo. (Confesso que depois da consulta, brindei um dia tão especial com uma Mimosa, mas quer ocasião mais especial que esta?)

Sobre o controle, Pawlik diz que tem que ser feito por tomografia, mas isso até eu já sabia. Nos EUA, ninguém usa untrassom para procurar recidivas, mas c'ést la vie. Quando perguntei a ele sobre radiação, ele mais uma vez riu e disse que se recebe mais radiação viajando num avião a jato do que numa máquina de ressonância. Na hora penso, este médico é bom: pão-pão, queijo-queijo.

Finalmente com relação ao meu prognóstico e à suposta morte iminente, Pawlik ri de novo e responde: "De jeito nenhum. Você está curada. O risco de uma recidência sempre existe, por menor que seja, mas nada aqui me faz acreditar que isso vai acontecer. Vamos monitorar você para sempre, mas só. Agora vai viver a sua vida e a gente se vê daqui a quatro meses."

E com estas palavras encerramos a maratona Johns Hopkins. E assim o tão esperado dia 24 de março de 2008 acaba, com um grande sabor de vitória para mim e para o Blake, que vencemos mais um obstáculo no nosso caminho. Um ano de casados, duas cirurgias, muitas batalhas (casamento por procuração, dispensa da arquidiocese para casamento misto, visto americano, mudança, green card, etc), mas acima de tudo muita, muita felicidade. Se o dia 24 de março de 2007 foi o mais feliz da minha vida, o dia 24 de março de 2008 não ficou atrás.

Amém.

10 comments:

Cristina said...

Amei a descrição! UHU! Vida normal. Depois que a gente é obrigada a não beber, mesmo que já bebessemos pouco, qq tacinha torna-se especial, ainda mais a sua vitória!!! Adorei sua coragem de fazer todas essas perguntas e as respostas foram as melhores possíveis. Se der a gente toma 1 taça só em Maio mas da comida vegetariana, se vira, disso eu não abro mão ha ha!!! Coisa de outro mundo mesmo esse Hopkins! O São Vicente de Paula na Tijuca tem os exames on line para o médico ver, mas isso só acontece quando vc está na emergência com suspeita de algo mais grave. (ontem fui a Champanharia não ia há seculos, dormi qdo cheguei do trabalho e agora insonia!!!)

Ro said...

Dani, saúde!!!
Cheguei aqui através da minha filha, Carol, que chegou aqui através das caixinhas de bem casados... Cheguei e fiquei.
Rezei muito por você nestes últimos dias, para que a sua tão aguardada consulta te brindasse com a "liberdade" sonhada e merecida.
Eu também faço controle de 4 em 4 meses (com cardiologista), e continua tudo em paz, seis anos depois do susto. Aproveito e comemoro essas consultas...são um lembrete de que passei tudo o que passei e estou aqui, firme e forte. Que assim seja com você também.
Fica com Deus, em paz e, novamente, SAÚDE!!!
Beijo grande.

Andréa N. said...

Excelentes novas!! Parabens!! Continue com fe, sempre, e comemorando muito. Beijao.

paulaalves00 said...

Amiga linda!!!! Linda e curada!!!! Ufa!!!!!! Graças a Deus!!!

Anonymous said...

Dani:
Muito feliz pela noticia!! É realmente aquilo que já falamos, enfrentar o problema já é meio caminho andado, e a sua disposição para olho-no-olho, só pode trazer vitórias!
Um grande beijo e muita saúde!!
Selma

Fe França said...

Comemore muito!!! Quantas notícias boas, que médico bacana esse! E agora é viver a vida, muito feliz! Você não vai contrariar ordens médicas, né? risos... Beijo grande, Fê - www.fernandafranca.com

Ana Claudia Lintner said...

Dani, que felicidade - uhuuuu!
Que bencao, que maravilha.
Comemore mesmo, comemore muito e Feliz Vida Nova.
Beijos

Malu said...

Gloria a Deusssssssssssssss !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Puxa dani, maravilha !!!
Amei as boas novas !!!

Dani said...

Amém, Malu.
Deus cada dia me dá mais provas de estar ao meu lado.
Já estava com saudade de você. Como vão os lindos pimpolhos?
Beijos

Ana Lucia said...

Que bom Dani, fico radiante com essa otima noticia ! E você tah linda nas fotos do casamento da sua amiga. Bola pra frente ! Beijocas.