March 13, 2008

Encontro com Isabel Allende

Respondendo a pergunta da Fê França, resolvi contar um pouquinho do meu encontro com uma das minhas autoras preferidas, a chilena Isabel Allende.

A primeira vez que tive contato com o trabalho dela foi -- pasmem -- durante o último ano de faculdade, aqui nos Estados Unidos. Estava terminando o bacharelado em Relações Internacionais, com foco na América Latina, e obviamente tive que ler muita coisa durante o curso. Um dos livros de leitura obrigatória era A Casa dos Espíritos. Li o livro em um dia, escrevi meu paper em poucas horas, apresentei o trabalho e fiquei viciada no trabalho da Isabel Allende para sempre...ou quase.

Claro que o estilo dela lembrava muito o estilo do Gabriel García Marquez, afinal trata-se de realismo fantástico, mas a narrativa dela é mais leve e mais fácil de ler. Dali para frente li todos os livros lançados até aquela data e depois fui comprando os novos assim que chegavam às livrarias. Tenho livros dela em inglês, espanhol, portugês e francês. Dependendo de onde estivesse, comprava e lia o livro na hora.

Paula foi sem dúvida uma das obras mais lindas que li. Um relato sincero em forma de despedida para a filha que perece ali de uma doença raríssima. Isabel escreveu o livro enquanto acompanhava a filha Paula num hospital na Espanha. Não consigo imaginar nada mais triste do que uma mãe aguardar a morte de uma filha que até pouquíssimo tempo era perfeitamente saudável.

Lendo aquele livro, senti uma conexão imensa com a autora, especialmente quando ela fala sobre seu amor pela leitura e seus questionamentos sobre o jornalismo. O diálogo com Pablo Neruda é inesquecível. Foi naquele momento que Isabel entendeu que deveria se aventurar no mundo da ficção. Quem ainda não leu o livro, não deve perder tempo.

Pouco depois de ler o livro, mudei para Nova York, onde fiz mestrado em...jornalismo!!! Enquanto estudava full-time, fazia muito freela para revistas brasileiras, principalmente as femininas. Escrevi várias matérias para a Cláudia e outras revistas da Abril. Escrevia sobre tendências mas também fazia muita matéria "mundo-cão", com um toque feminino, é verdade, mas falávamos de drogas, gravidez na adolescência, pedofilia, etc... Então, uma vez ou outra, eu conseguia emplacar uma matéria mais levinha sobre o "hair stylist" da Madonna ou os restaurantes mais fashion de Manhattan.

Um dia fiquei sabendo que ninguém menos que Isabel Allende faria uma noite de autógrafos na Barnes & Noble pertinho da minha casa. Não acreditei!!! Será que conseguiria realizar meu sonho de entrevistá-la para uma revista brasileira? Ela certamente iria "se conectar" comigo, afinal eu também era novinha (tinha vinte e pouquinhos anos) e estava começando minha carreira de repórter numa revista feminina latino-americana, assim como ela na década de 70.

Esperei semanas para o tal dia. Chegei cedo para pegar um lugar bem na frente e fiquei esperando minha "ídolo" chegar. Alguns minutos, depois vejo uma figura pequena, cercada de uma grande entourage se aproximando do tablado. Não tive dúvidas , era ela!

Segundo o programa, primeiro a autora leria alguns trechos de seu livro mais recente, Afrodite, depois ia falar um pouco sobre sua obra e por último responder a perguntas. O livro era esteticamente lindo, mas tive uma enorme decepção ao folheá-lo: não tinha nehuma história, nenhum conteúdo. Não passava de um livro de receitas pseudo-eróticas metido a engraçadinho, uma egotrip sem tamanho da autora.

Assim que Isabel começou a falar, senti meu coração apertar... Sabe quando a voz não combina com a pessoa, e pior, quando o conteúdo das palavras fica muito aquém do esperado? Foi exatamente o que senti. Minha autora preferida, esta intelectual latino-americana que tanto admirava, estava ali posando de "latina exótica" para gringo ver. O sotaque, as palavras, ela parecia uma J-Lo de meia-idade, com um acento mais carregado. Tudo ali soava tão artificial! Ela se esforçava tanto para agradar a platéia gringa, nem parecia dona de uma passado semi-revolucionário, muito pelo contrário, parecia preocupada em escondê-lo.

Mas decidi que não poderia julgá-la sem antes falar com ela. Fiquei esperando a fila diminuir e me dirigi até ela, com meia dúzia de livros para autografar. Tinha comprado o lançamento, mas obviamente tinha trazido alguns mais antigos comigo. Vocês acham que ela olhou para minha cara? Perguntou meu nome? Nada! Só assinou e colocou uma florzinha no final. Ela não desistia mesmo de ser "fofa", apesar de não se esforçar nem um pouco para ser simpática.

Como o tempo era escasso resolvi fazer meu "elevator pitch", ou seja, em poucos segundos fiz meu pedido, expliquei que era brasileira e repórter, etc, etc, achando que ela fosse simpatizar comigo, mas de nada adiantou. Ela simplesmente respondeu: "Minha agente está ali na porta. Fale com ela." Disse isso com uma frieza nórdica.

Não sou o tipo ultra-sensível que se acha mais importante do que a maioria dos mortais -- afinal morei muito tempo em Nova York e apredi a ser bem durona e pé no chão -- mas sempre achei que por trás daquelas palavras lindas naqueles livros mágicos havia uma pessoa sensível e acessível. Me enganei redondamente. Claro que entendo que ela deveria estar exausta e louca de vontade de sair daquele lugar, mas só ali entendi que a voz naqueles livros é muito dissonante na pessoal real que estava ali na minha frente e foi difícil não me decepcionar.

Nem me lembro se falei com a tal agente ou não. Só sei que a minha vontade de saber mais sobre a tal Isabel Allende acabou ali. A culpa não era dela -- disso eu sempre soube -- mas minha, por ter criado uma personagem irreal. Como diria a minha mãe, os ídolos são de barro. Naquele momento entendi exatamente o que esta frase queria dizer. A "Isabel Allende" tinha se despedaçado ali naquela livraria nova-iorquina.

Saí de lá cheia de livros autografados e com a impressão de que não passavam de pedaços de papel sem sentido. Depois do "encontro" e da leitura de Afrodite, prometi a mim mesma boicotar a escritora chilena, que tinha virado casaca depois de ter casado com um gringo e se mudado para Sausalito, Califórnia.

O tempo passou, acabei comprando A Filha da Fortuna. O livro é interessante, mas a voz da Isabel Allende nunca mais foi a mesma para mim. Perdeu o encanto.

4 comments:

Fe França said...

Gostei demais de conhecer a história desse encontro que deve ter sido mesmo uma decepção. Os ídolos são de barro, sua mãe está certa. Pra mim, a imagem dela é aquela de antes de ela se casar com o americano, na verdade até onde o livro Paula conta, que é quando ela o conheceu e tal. E toda a vida dela pareceu tão rica, e ela tão bacana que, sinceramente, fiquei decepcionada junto com você. Ainda quero ler A Casa dos Espíritos... mas acho que é melhor que eu me prenda às palavras e não a quem as escreveu. Que pena! Quais seus outros escritores favoritos? Beijo grande, Fê - www.fernandafranca.com

Anonymous said...

Nao entendo como pode ter esta pessima impressao da Isabel Allende. Talvez pq vc foi cheia de pretensao em conseguir fazer uma entrevista com ela. Se vc fosse um pouquinho mas bem informada e profissional, saberia que entrevistas sao agendadas antes, em comum acordo... Estive em uma noite de autografos da Isabe Allende em Barcelona-Espanha, em 2009, na ocasiao do lancamento do ultimo livro dela, La Luna bajo el mar... Livro lindo, que nara a saga da escrava Zarite... Isabel chegou linda,pequenininha,a formosura em pessoa, super simpatica, educada, e quando comecou a falar fiquei impressionada com a docura das suas palavras, a suavidade da voz, a ternura nos gestos, a expressao no olhar ela irradia paz e vida, a mulher vibra enquanto fala, a voz dela eh cristalina, pura, doce, meiga, meiga ate dizer pode parar! E olha que Isabel eh conhecida como uma verdaderia dinamite, um furacao, polvora pura, no que diz respeito a personalidade dela. Mas, mesmo sendo esta dinamite, ela eh doce, transparente, quase eterea. Brincou muito com todos os que estavam ali presentes, fez piadas, riu muito, riu ate dela mesma quando uma fa falou que achava o novo penteado dela lindo, Isabel riu e dise que era um apliqe novo que ela tinha acabado de comprar ali mesmo em Barcelona, na grande loja de departamnto El Corte Ingles... E ainda tirou o aplique, que era um rabo postico preso com uma fivela...e mostrou pra todo mundo... e contou que era baratinho, somente 6 (seis!!!) euros!!!) Fiquei ainda mais apaixonada e mais fa desta mulher, pequenininha no tamanho, uma voz pequenina tambem, voz de menina, voz de anjinho e tem uma forca espetacular, qdo ela falava dava vontade de cristalizr o tempo e congelar para sempre o som daquela voz. Qto a vc dizer que ela casou com um americano e se tornou artificial para agradar a plateia gringa, vc comete um grande erro. Isabel sempre declara nas entrevistas e ate mesmo em alguns dos seus livros, que ela nao gosta nem um pouquinho do estilo de vida americano, alias ela sempre deixa isto muto claro, que acha os americanos frios, sem sentimentos, sem muita expressividade quando precsam demonstrar emocoes e sentimentos. Isabel alardeia, grita para quem quiser ouvir, que ela tem orgulho de ser latina, chilena, mesmo tendo nascido em Lima -Peru. Fico me perguntado se vc realmente era fa de Isabel, ja que pelo visto sabe tao pouco dela. Nesta noite que ela lancou o livro, eu, que sou Jornalista, mas fui ali como fa, com meu livrinho debaixo do braco, para ela autografar, fui atendida por ela com muito carinho, ganhei um autografo lindo, e nao tinha nem uma florzinha(Isabel nao usa ou coloca florzinha no autografo, pelo contrario, se tivesse que fazer algum desenho duvido que ela desenharia uma florzinha..!) E quando eu falei: "Muchas Gracias", ela perguntou de qual pais eu era, e disse que adorou o meu acento (sotaque). Falei que era brasileira e ela disse que adorava o Brasil. Gostou tambem do meu nome e sabia ate que era de origem grega. E isso tinha uma fila de pessoas atras de mim, todos esperando um autografo. E nos duas ali, conversando... Ate que ela disse: Eu quero conversar mais com voce. Pode ser daqui a pouquinho depois que termino de atender todos e sair daqui?" Eu disse que sim, claro. Resumindo: Esperei ali uns 30 minutos e depois conversamos muito. Tive a oportunidade de fazer uma grande entrevista com ela, se este fosse meu objetivo, mas nao era esta minha intencao. Ate falei com ela que eu era Jornalista, ela riu e falou: "Primeira vez que estou frente a um e nao sou entrevistada. Gostei de voce..!" Viu a diferenca? Vc foi ali cheia de ideias na cabeca, com vontade e fazer uma entrevista, eu fui em um lancamento de livro, da minha escritora favorita, somente com meu coracao e desejo de conhecer pessoalmente uma grande escritora e grande mulher. E te garanto: Ela nao eh de barro nao, Isabel eh de carne e osso!! E de sentimentos...!

Dani said...

Olá Anônimo(a),
Obrigada pela visita. Gostaria de deixar bem claro que o objetivo deste blog é somente expressar minhas opiniões e pensamentos. Deixo o jornalismo para os veículos que me pagam por matéria. Sendo assim, todos os relatos aqui são baseados em experiências pessoais minhas, em coisas que realmente vivi. Nunca disse que sou dona da verdade e que a minha opinião é a única que conta, mas é direito meu tê-la e obrigação de quem vem aqui respeitá-la. Estou sempre aberta a debate e troca de ideias, mas sempre embasada em argumentos reais e nunca em ofensas pessoais.

Anonymous said...

Desculpe se voce se ofendeu... Mas foi vc mesma quem disse: "como o tempo era escasso resolvi fazer meu "elevator pitch", ou seja, em poucos segundos fiz meu pedido, expliquei que era brasileira e repórter, etc, etc, achando que ela fosse simpatizar comigo, mas de nada adiantou. Ela simplesmente respondeu: "Minha agente está ali na porta. Fale com ela." Ou seja: vc foi ali com segundas intencoes... Aposto que se Isabel tivesse te atendido e te desse confianca vc nao teria escrito este texto... e sua opniao sobre ela seria outra...!