Respondendo a pergunta da Fê França, resolvi contar um pouquinho do meu encontro com uma das minhas autoras preferidas, a chilena Isabel Allende.
A primeira vez que tive contato com o trabalho dela foi -- pasmem -- durante o último ano de faculdade, aqui nos Estados Unidos. Estava terminando o bacharelado em Relações Internacionais, com foco na América Latina, e obviamente tive que ler muita coisa durante o curso. Um dos livros de leitura obrigatória era
A Casa dos Espíritos. Li o livro em um dia, escrevi meu paper em poucas horas, apresentei o trabalho e fiquei viciada no trabalho da Isabel Allende para sempre...ou quase.
Claro que o estilo dela lembrava muito o estilo do Gabriel García Marquez, afinal trata-se de realismo fantástico, mas a narrativa dela é mais leve e mais fácil de ler. Dali para frente li todos os livros lançados até aquela data e depois fui comprando os novos assim que chegavam às livrarias. Tenho livros dela em inglês, espanhol, portugês e francês. Dependendo de onde estivesse, comprava e lia o livro na hora.
Paula foi sem dúvida uma das obras mais lindas que li. Um relato sincero em forma de despedida para a filha que perece ali de uma doença raríssima. Isabel escreveu o livro enquanto acompanhava a filha Paula num hospital na Espanha. Não consigo imaginar nada mais triste do que uma mãe aguardar a morte de uma filha que até pouquíssimo tempo era perfeitamente saudável.
Lendo aquele livro, senti uma conexão imensa com a autora, especialmente quando ela fala sobre seu amor pela leitura e seus questionamentos sobre o jornalismo. O diálogo com Pablo Neruda é inesquecível. Foi naquele momento que Isabel entendeu que deveria se aventurar no mundo da ficção. Quem ainda não leu o livro, não deve perder tempo.
Pouco depois de ler o livro, mudei para Nova York, onde fiz mestrado em...jornalismo!!! Enquanto estudava full-time, fazia muito freela para revistas brasileiras, principalmente as femininas. Escrevi várias matérias para a
Cláudia e outras revistas da Abril. Escrevia sobre tendências mas também fazia muita matéria "mundo-cão", com um toque feminino, é verdade, mas falávamos de drogas, gravidez na adolescência, pedofilia, etc... Então, uma vez ou outra, eu conseguia emplacar uma matéria mais levinha sobre o "hair stylist" da Madonna ou os restaurantes mais fashion de Manhattan.
Um dia fiquei sabendo que ninguém menos que Isabel Allende faria uma noite de autógrafos na Barnes & Noble pertinho da minha casa. Não acreditei!!! Será que conseguiria realizar meu sonho de entrevistá-la para uma revista brasileira? Ela certamente iria "se conectar" comigo, afinal eu também era novinha (tinha vinte e pouquinhos anos) e estava começando minha carreira de repórter numa revista feminina latino-americana, assim como ela na década de 70.
Esperei semanas para o tal dia. Chegei cedo para pegar um lugar bem na frente e fiquei esperando minha "ídolo" chegar. Alguns minutos, depois vejo uma figura pequena, cercada de uma grande entourage se aproximando do tablado. Não tive dúvidas , era ela!
Segundo o programa, primeiro a autora leria alguns trechos de seu livro mais recente,
Afrodite, depois ia falar um pouco sobre sua obra e por último responder a perguntas. O livro era esteticamente lindo, mas tive uma enorme decepção ao folheá-lo: não tinha nehuma história, nenhum conteúdo. Não passava de um livro de receitas pseudo-eróticas metido a engraçadinho, uma egotrip sem tamanho da autora.
Assim que Isabel começou a falar, senti meu coração apertar... Sabe quando a voz não combina com a pessoa, e pior, quando o conteúdo das palavras fica muito aquém do esperado? Foi exatamente o que senti. Minha autora preferida, esta intelectual latino-americana que tanto admirava, estava ali posando de "latina exótica" para gringo ver. O sotaque, as palavras, ela parecia uma J-Lo de meia-idade, com um acento mais carregado. Tudo ali soava tão artificial! Ela se esforçava tanto para agradar a platéia gringa, nem parecia dona de uma passado semi-revolucionário, muito pelo contrário, parecia preocupada em escondê-lo.
Mas decidi que não poderia julgá-la sem antes falar com ela. Fiquei esperando a fila diminuir e me dirigi até ela, com meia dúzia de livros para autografar. Tinha comprado o lançamento, mas obviamente tinha trazido alguns mais antigos comigo. Vocês acham que ela olhou para minha cara? Perguntou meu nome? Nada! Só assinou e colocou uma florzinha no final. Ela não desistia mesmo de ser "fofa", apesar de não se esforçar nem um pouco para ser simpática.
Como o tempo era escasso resolvi fazer meu "elevator pitch", ou seja, em poucos segundos fiz meu pedido, expliquei que era brasileira e repórter, etc, etc, achando que ela fosse simpatizar comigo, mas de nada adiantou. Ela simplesmente respondeu: "Minha agente está ali na porta. Fale com ela." Disse isso com uma frieza nórdica.
Não sou o tipo ultra-sensível que se acha mais importante do que a maioria dos mortais -- afinal morei muito tempo em Nova York e apredi a ser bem durona e pé no chão -- mas sempre achei que por trás daquelas palavras lindas naqueles livros mágicos havia uma pessoa sensível e acessível. Me enganei redondamente. Claro que entendo que ela deveria estar exausta e louca de vontade de sair daquele lugar, mas só ali entendi que a voz naqueles livros é muito dissonante na pessoal real que estava ali na minha frente e foi difícil não me decepcionar.
Nem me lembro se falei com a tal agente ou não. Só sei que a minha vontade de saber mais sobre a tal Isabel Allende acabou ali. A culpa não era dela -- disso eu sempre soube -- mas minha, por ter criado uma personagem irreal. Como diria a minha mãe, os ídolos são de barro. Naquele momento entendi exatamente o que esta frase queria dizer. A "Isabel Allende" tinha se despedaçado ali naquela livraria nova-iorquina.
Saí de lá cheia de livros autografados e com a impressão de que não passavam de pedaços de papel sem sentido. Depois do "encontro" e da leitura de
Afrodite, prometi a mim mesma boicotar a escritora chilena, que tinha virado casaca depois de ter casado com um gringo e se mudado para Sausalito, Califórnia.
O tempo passou, acabei comprando
A Filha da Fortuna. O livro é interessante, mas a voz da Isabel Allende nunca mais foi a mesma para mim. Perdeu o encanto.