June 8, 2009

Medo

O estado de saúde de Todd piorou muito nos últimos dias. Semana passada não fui muito lá por causa de uma virose estranha que me pegou, mas na sexta decidi que já estava melhor, então resolvi dar um pulinho no CTI.

De longe, vi a Carmi ao lado de um senhor de meia idade. Achei que fosse o pai do Todd. Ao me aproximar dela, sorrindo, percebi que havia algo de muito errado... seus olhos estavam vermelhos, suas feições duras, a dor era evidente. Meu sorriso também se desfez ali, ao escutar as palavras daquele homem: "Estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance, mas a situação é muito grave. O pulmão dele está completamente fibroso, ele não pode respirar sozinho e esta situação só deve se agravar." O tal homem era um dos chefes do CTI, que prosseguiu dizendo a Carmi que ele estava feliz pois pelo menos o Todd tinha tido alguns dias bons e felizes depois do transplante. Naquele instante, a minha vontade foi sair de lá correndo, mas ainda incrédula e ao mesmo tempo em estado de choque, não consegui me mover. Abracei a Carmi e, como o Todd ainda estava dormindo e o pai dele estava no quarto com ele, fomos para uma saleta reservada.

Ninguém sabe se a situação se deteriou da noite para o dia ou se era algo que já estava acontecendo havia tempos. Como sempre, nestas horas tão cruéis, há muito mais perguntas do que respostas. A Carmi tentava me explicar o que nem ela entendia, mas a necessidade de falar era enorme. Ela me dizia que sentia falta de casa, que não queria que tudo se acabasse ali, que já não suportava mais algumas pessoas naquele hospital e tinha aprendido a amar outras. Dizia também que o Todd alternava momentos de lucidez e de confusão. Me explicava que or irmãos dele já tinham sido chamados e que os médicos tinham dito que a família deveria estar preparada para o pior. Parecia um sonho ruim...como é que as coisas mudam assim tão rápido?

Eu disse a ela que acreditava em milagres e que não estava pronta para desistir ainda. Eu sabia e sei que o Todd também não desiste. Andamos um pouco e voltamos para o quarto. O pai dele estava lá, um senhor claro de quem Todd herdou os belos olhos azuis. Tinha um semblante bom, daquele tipo de gente que a gente simpatiza de primeira. Ele me agradeceu pelo carinho e começou a me contar histórias do filho, que era excelente jogador de futebol e de basquete. Disse também que o Todd nadava muito bem e era excelente jogador de tênis. "Um atleta completo," ele emendou. E o Todd só nos olhava.

Fui para casa arrasada e determinada a voltar a vê-los no sábado. O Blake e eu ficamos lá em torno de uma hora. A Carmi havia saído para pegar o irmão do Todd no aeroporto, o pai dele estava lá. Não consigo imaginar a dor daquele homem ao ver o filho naquela cama. Ao nos ver, ele sorriu e mais uma vez agradeceu pelo carinho. Ficou contente de ter com quem falar. A hora da despedida foi difícil. O Todd ainda acordou e conversou um pouco conosco, falando com muita dificuldade. Segurei a mãe dele, já toda feria e cheia de fios, e pedi que ele continuasse lutando. Prometi que voltaria a vê-lo na segunda e disse que ele tinha que melhorar. Me despedi do pai dele também, sabendo que provavelmente não o verei mais e imaginando a dor dele ao ter que deixar o filho naquele quarto de hospital e voltar para Iowa no dia seguinte. Prendi o choro e quando cheguei na porta do quarto, acenei para o Todd, que acenou de volta.

Nestas horas a gente percebe que quando uma coisa destas acontece, a família inteira adoece. As cicatrizes que o Todd exibe no corpo, os pais tem na alma. A sensação que se tem é de absoluta impotência, beirando a revolta. Mas gosto de pensar que de alguma forma pequena, só por estar ali tentando oferecer algum alento, estou fazendo a minha parte. Nestas horas não há palavras, não há gestos grandiosos, não há passes de mágica. Continuo firme na minha fé e nas minhas orações.

Ainda não tive notícias do Todd e estou me preparando para ir vê-lo no hospital daqui a pouco. Peço a Deus mais uma vez que me dê força, fé e coragem.

2 comments:

paula said...

Olá Querida,

Estou muito triste, que coisa!!!!
Como pode? Mesmo já tendo visto este filme diversas vezes, não consigo entender, ele é um LUTADOR!! Está resistindo bravamente até agora Dani, mas chega uma hora em que temos que aceitar...o inevitável. O que não entendí até agora, trata-se de um GVHD? Ou é uma sequela da quimio? Pelo que você relata é uma sequela, tive isso nos primeiros 05 anos pós-transplante, não desta forma agressiva que ele apresenta, mas meu pulmão direito tem uma pequena fibrose.
É Dani... estou sem palavras, o transplante é algo muito agressivo, cheio de complicações e alta toxicidade, mas no funo tenho ainda a esperança que ele mais uma vez vença e consiga reverter esta condição!! Lembre-se do que eu te falei mais ou menos um mês atrás e dentro do possível, cuide-se.

Bjs,
Paula

erika said...

poxa.. nem sei o q dizer. Sempre venho aqui e acompanho a historia do Todd por vc, sempre torcendo pela melhora dele... Parece ser um garoto fantastico! Uma pena ele sofrer tanto assim e mesmo acreditando piamente que todo esse sofrimento sera valido de alguma forma positiva para ele e a familia, eh muito triste ver isso acontecendo. :(

Nao sei qual sua religiao, mas acredito que certas vezes a gente vem pra resgatar muitas coisas do passado e mesmo tendo esse alento, fico chateada de ver tanta gente boa sofrendo, doente...

Ja adoro o Todd, pelo o q vc fala dele. Diga, se vc o vir, que ha mais pessoas do outro lado do mundo torcendo por ele!

Vc eh uma pessoa do bem Dani e vejo q sua ajuda, seu apoio eh de coracao. Saiba q fazendo pelos outros desinteressadamente, vc esta fazendo por si mesma! um bj