June 15, 2009

Desapego II

Continuando o mesmo assunto do desapego, acho que tanta tristeza que tomou conta de mim semana passada me fez enxergar o que realmente importa. Quando a gente passa os dias tentando consolar uma família que se despede de um jovem de 28 anos de um caráter impressionante e uma força de vontade absurda, problemas mundanos que podem ser facilmente resolvidos passam a ocupar o lugar que lhes é devido. Carros rebocados, porões alagados não merecem metade da atenção que os damos.

Sexta-feira, conversei com a minha acupunturista sobre a minha semana. O bacana da acupuntura é que ela funciona como terapia também... Depois de me ouvir incrédula quando disse que nem tinha me abalado com o reboque ou com a multa, minha acupunturista Kayia, suspirou e disse "Talvez seja este o grande presente que seu amigo Todd está deixando para você: a habilidade e a sabedoria para enxergar o que realmente importa. Talvez tenha sido este o motivo do encontro de vocês. Se você pode levar um pouco de alegria e de esperança até ele, ele também foi capaz de fazer com que você enxergasse certas coisas por si mesma."

Fiquei pensando e não é que a Kayia tem mesmo razão?! É muito fácil a gente achar que ao visitar pacientes num hospital está se doando, quando na verdade o que acontece é uma enorme troca. Esta troca nem sempre é fácil ou indolor, mas é uma experiência sempre intensa. E a gente não troca só com o paciente, troca também com a família e com aqueles que o cercam.

A gente aprende com as relações deles também. Nos últimos meses, depois de te recebido o OK dos médicos tenho pensado em engravidar. Quando pensava nesta possibilidade, imaginava um bebê, seu quartinho e o tamanho da minha felicidade se este dia chegar. Coisa de filme, de comercial de margarina, coisa que não é real.

Ultimamente olhando para a Carmi e presenciando o amor infinito que ela sente pelo filho, a idéia de maternidade vem ganhando uma dimensão completamente diferente para mim. Como dizia uma amiga minha, "Parir é o mais fácil. Difícil mesmo é educar, é ser mãe 24 horas por dia." A Carmi, esta mulher decidida e de personalidade forte, deixou tudo para trás em Iowa para estar perto do Todd o tempo inteiro. Viajou metade do país, pediu licença no emprego para vir sozinha cuidar do filho tão doente, sem data para voltar.

Ela é mãe, enfermeira, advogada, uma verdadeira leoa defendendo o filhote, lindo e frágil. Ao receber a notícia de que o quadro era praticamente irreversível, os irmãos do Todd tiveram atitudes diferentes mas completamente esperadas -- a irmã caiu em prantos e o irmão engoliu em seco e disse que só acreditaria no que visse -- os dois tinham lágrimas nos olhos. Na falta de maiores explicações médicas e de respostas, Carmi olhou para os dois e disse: "Não é sobre nenhum de nós agora! Nós não temos nenhuma importância. A única coisa que me importa agora é o Todd. A única coisa que existe é o meu filho." E enxugou as lágrimas, limpou o rosto e voltou para o quarto dele, para que o Todd não ficasse sozinho, enquanto nós tentávamos consolar uns aos outros.

Então agora sempre que penso em ser mãe, não são as fraldas e as mamadeiras que me vem à cabeça, mas um amor tão enorme que é capaz de colocar o próprio sentimento de lado, de deixar a própria vida para trás para estar perto da cria. Um amor tão forte e tão profundo que permite aceitar que talvez seja melhor ver um filho partir do que vê-lo sofrer.

6 comments:

A menina que roubava idéias said...

Vou para casa ler seu blog com mais calma. Você me comove sempre. Ano passado eu conheci uma família que mora no morro e tinham uma filha com osseossarcoma, 9 anos, idade do meu mais velho, apeguei muito a eles, ia visita-los na Quimioterapia. Ela faleceu no início do ano. Não consegui voltar ao hospital para ver as outras crianças, mas preciso ir, beijos,

Dani said...

Obrigada pelo carinho.
Sei que é muito difícil conviver com a perda e também me pergunto como vou voltar ao hospital quando o Todd não estiver mais lá. Mas creio que Deus, que parece querer levar o Todd para junto dele, é o mesmo Deus que vai me dar forças para voltar lá.
Bjs

Daniela said...

Oi Dani, que triste isso tudo!
Fazia tempo que não passava aqui pq por algum motivo não estava conseguindo entrar no seu blog...
Espero que Deus dê muita força e mande muita luz para essa família.
Um beijo
P.S. Rodolfo continua nas infindáveis quimios, mas está bem.

paula said...

Querida Dani,

Sinto muito pelo ocorrido em sua casa, mas é ótimo que você tenha chagado a este estágio, dar as coisas a importância que ela realmente tem. Até que enfim encontrei alguém como eu, há cinco anos, quando estavamos decorando o apartamento que moro hoje, as pessoas não entendiam muito bem como eu não ficava histérica com a demora das coisas, algo que dava errado e sempre tem algo dando errado, quebradeira, etc., mas é isso, aquilo para mim não tinha esta importância que os outros colocam, os outros não entendem, não adianta. Sobre o fato da maternidade, concordo totalmente, me coloco no lugar da minha mãe, o que ela enfrenou comigo, em outro estado, somente eu e ela, meu pai não podia se ausentar,na época, meus irmãos tiham 19 e 15 anos, ficaram em São Paulo sozinhos, meu pai na época era casado comoutra mulher e ia sempre em casa ver os meninos,mas nós duas ficamos lá sozinhas,ela enfrentou tudo com serenidade, me espantava até!!
Coisas que somente uma mãe faz, e assim ví inúmeras situações cmo essa acontecendo no hospital.
Você vai ter seu bebê sim, seu pensamento não é comercial de margarina, vai acontecer, tenho certeza disso!! E ele vai ter a maior sorte do mundo de ter uma mãe como você, ah vai!!
Tenho esperanças do Todd, tenho mesmo!! Já ví muitos médicos se enganarem quanto ao prognóstico dos pacientes.
Peço um favor, não esqueça da falar para a Carmi que o tempo inteiro penso nele, até a noite na hora em que vou dormir, fico torcendo para que no dia seguinte as notícias sejam boas e que ele esteja melhor.

Bjs,
Paula

Cristina said...

Já disse que da próxima vez que eu voltar a Laurel a casa estará mais cheia (e pode até ser que eu vá com alguém). Lindo o post. Me deu paz. Soube ontem de um amigo que está com câncer de pancreas, retirou parte dele, do intestino, da vesícula, do canal biliar etc Triste, muito triste, mas está fazendo quimoterapia, tratamento por 6 meses...isso depois de um feriado maravilhoso. O que me lembra que a felicidade é um estado que desejamos que se prolongue o maximo de tempo possivel. Força para Dona Carmi e a familia do Todd!

erika said...

Nao posso mais ler seu blog q choro! Muito triste essa impotencia nossa diante dos designios dessa vida tao doida ne...

Tb desejo forca pra mae do Todd q vive a doenca diariamente,(eu bem sei o q eh viver a doenca de um parente diariamente...) e pro resto da familia dele. Pra ele desejo muita luz e muita paz! um exemplo de rapaz.

beijinhos.