Showing posts with label todd. Show all posts
Showing posts with label todd. Show all posts

December 7, 2009

Carmi

Sábado passado, dia 5 de dezembro, o Todd teria feito 29 anos. Claro que liguei para a Carmi para dar um beijo nela. Imaginei a dor e a saudade que ela deveria estar sentindo, mas ela, de novo, me surpreendeu. Forte e determinada, me disse que estava bem. Que tinha muita saudade do filho, mas também tinha muita fé e sabia que ele estava bem. As palavras dela me comoveram.

Ela disse ter ficado emocionada com a minha ligação, mas me garantiu que estava tranquila, que ia sair com a família toda para jantar num dos restaurantes favoritos do Todd. Achei a ideia otima: a família reunida para falar de lembrar e celebrar uma vida tão bacana. Ela disse que gostaria de repetir o ritual a cada ano.

Quando perde-se alguém tão jovem de uma forma tão brutal é normal procurar por explicações, então o que a gente mais escuta é que "fulano cumpriu a sua missão." É claro que a gente nunca vai saber qual é a missão do outro e o motivo dela ter se encerrado tão rapidamente, mas nestas horas, mais que explicação, a gente precisa de consolo.

Só que no caso do Todd, a missão dele era muito clara, muito óbvia. A missão dele era unir a família que andava dispersal. Os pais dele, que se separaram havia muitos anos, permaneceram unidos ao lado do filho até o final. E mesmo depois da partida do Todd, se veem sempre e continuam muito próximos, pois acho que só um entende exatamente a dor do outro. A relação da Carmi com a filha, que também estava um pouco abalada, hoje é excelente. Durante o tratamento do Todd, Angie passou boa parte do tempo em Baltimore, ao lado da mãe e do irmão caçula. Parece até que o Todd partiu mas não sem antes ter certeza de que a mãe não ficaria sozinha. Aliás, nos últimos dias dele por aqui, quando perguntado sobre medos e preocupações, ele só falava na mãe e na família...

Além disto, ele deixou os pais numa sitação financeira bem confortável. Os investimentos e as economias dele possibilitaram que a mãe pudesse se aposentar mais cedo. Além de deixar os bens para a família, deixou contribuições para instituições de caridade e para financiar uma bolsa de estudos para um jovem portador de câncer que queira continuar a estudar.

O mais surpreendente é que ninguém sabia que ele tinha planejado tudo em novembro do ano passado, antes de fazer o transplante, sem o menor alarde. Incrível pensar que um jovem de 28 anos tenha tido maturidade para enfrentar uma situação tão terrível com tanta coragem e sabedoria. Não consigo nem imaginar como ele pode tomar tantas decisões sozinho.

Então nestas horas não posso deixar de pensar que a missão do Todd por aqui foi cumprida com louvor: em 28 anos ele conseguiu fazer o que muita gente não vai fazer em cem. E assim como a Carmi, não me restam dúvidas de que ele está num ligar ótimo agora...

September 14, 2009

O rosto do Todd



Muita gente aqui torceu, rezou e sofreu muito com a partida do Todd, um cara superbacana e cheio de vida que nos deixou cedo demais. Vocês praticamente conhecem toda a história dele, mas se são um pouquinho como eu, morrem de curiosidade de saber como ele realmente era.

Eu sempre dizia que ele era um cara muito bonito, mesmo visivelmente doente e afetado pela GVHD [doença do enxerto contra o hospedeiro, em português], dava para ver que ele tinha os traços muito bonitos e os olhos era duas continhas azuis.

Mesmo não estando mais aqui, ele vai ser o garoto-propaganda da nossa campanha de doação de medula, então pedi à Carmi uma foto dele para colocar nos posters. Pedi uma foto dele saudável, de antes da doença com a qual ele lutou incessantemente pelos últimos cinco ou seis anos. Ela me mandou a mesma foto que estava na porta do quarto dele e fazia as enfermeiras suspirarem cada vez que passavam por lá.

Sempre disse que o Todd tinha algo angelical, o cabelo, a cor dos olhos e certamente as atitudes e o modo de encarar a vida...e a morte. Acho que a foto fala por si só.

August 27, 2009

Ripple Effect

Outro dia o Blake estava lendo um livro que dizia que as pessoas "se perpetuavam" na Terra não somente através de seus descendentes ou daqueles com os quais tinham tido contato direto, mas através de suas ações e da forma com que tocaram outras vidas, que em retorno vão tocar outras vidas, etc. Em inglês, isto é chamado "ripple effect", que em português poderia ser chamado de "efeito de propagação". Na verdade, o verbo "ripple" quer dizer "ondular" e palavra "ripple" pode ser traduzida como uma "pequena onda".

Basta pensar que quando algo é jogado dentro d'água, uma série de ondas se forma a seu redor e estas ondas vão se propagando e aumentando sua área de influência. Com a vida humana, acontece algo semelhante. Alguém faz alguma coisa que causa reação em outro alguém que decide adotar aquele tipo de comportamento ou atitude e assim por diante.

Fiquei pensando nisto e achei que deveria escrever para a Carmi. Queria que ela soubesse que apesar do Todd não estar mais aqui, muito do que ele se propôs a fazer vai continuar sendo feito por pessoas que aprenderam com as várias lições deixadas por ele. Não que sirva de consolo para uma mãe que perdeu um filho aos 28 anos, mas é importante que ela saiba que mesmo que a passagem do Todd por aqui tenha sido breve, sua influência vai ser duradoura.

Trouxe um cartão para o trabalho que queria escrever e mandar para ela até o final do dia. Qual a minha surpresa, quando por volta das 9.30 da manhã, ninguém menos que a Carmi me liga?! Fiquei até meio tonta e ela notou...

Contei para ela o que se passava e ela riu. O objetivo do telefonema dela era saber se o pessoal do Ulman Fund tem recebido as doações em nome do Todd. Ela vem tentado um contato sem sucesso... Então nós conversamos sobre o que ela, Alan e os filhos queriam que fosse feito com o dinheiro, não só com a quantia deixada pelo Todd, mas com as doações de amigos e pessoas da família.

A Carmi, direta como sempre, disse que queria contribuir para uma bolsa de estudos em nome do filho, pois era isto que ele queria fazer. Além da contribuição que deixou para o Ulman Fund, Todd queria que outra parte do dinheiro deixado por ele fosse para o Hope Lodge, uma organização da American Cancer Society que é uma espécie de hotel para pacientes durante o tratamento. Foi lá que a Carmi morou por nove meses e que o Todd ficou nos períodos curtos de alta, entre uma e outra internação.

É impressionante isto no povo americano. A Carmi ainda está se refazendo dos gastos, já que teve que parar de trabalhar durante a doença do filho, e mesmo assim está disposta a doar $1000 por ano para a bolsa de estudos da UCF e mais uma outra quantia para o Hope Lodge. Tudo para honrar a vontade do filho e para ajudar alguém que atravessa os mesmos problemas que Todd enfrentou com tanta coragem e dignidade. Esta família é mesmo incrível. Nunca deixo de aprender com eles.

É claro que ainda é muito difícil para a Carmi e para toda a família se conformar e aprender a conviver com a ausência do Todd. Para mim é mais fácil, pois cada vez que ando pelos corredores daquele hospital, imagino que ele está num lugar melhor, possivelmente em casa, em Iowa, jogando basquete ou futebol. Outro dia, na minha piscina, percebi que um dos salva-vidas era muito parecido com ele, então acho que meu amigo, que era excelente nadador, ainda está por perto.

Mas assim como a Carmi, a minha grande preocupação é manter vivos os ensinamentos deixados por alguém tão jovem, que mesmo depois de morto, continua a ajudar as pessoas que mais necessitam.

Além da bolsa de estudos em nome dele, vamos fazer o recrutamente de doadores de medula mês que vem, em homenagem a ele. Justo agora que se debatem os gastos com pacientes terminais, histórias como a do Todd tornam-se ainda mais importantes. O Todd foi beneficiado pelo transplante de medula, pela bondade de um doador anônimo, que deu a ele mais seis meses de vida. Se este doador não tivesse existido, o Todd teria partido muito antes e eu não o teria jamais conhecido. Sei que pode ser egoísmo meu, mas sou eternamente grata por ter conhecido não só o Todd, mas a Carmi e toda a família deles.

Estes seis meses que ele viveu pós-transplante foram um enorme presente de valor inestimável para a família, que pode conviver com ele por mais um pouco de tempo. Mas foram igualmente importantes para mim, que tive a honra e o prazer de conhecer um ser humano corajoso e evoluído que passou por aqui tão depressa. O "efeito propagador" do Todd foi e ainda está sendo enorme.

E se os cínicos insistem em dizer que o indivíduo gasta demais nos meses que antecedem a sua morte, vão ter que aceitar que o impacto que este mesmo indíviduo exerce durante este mesmo período é de um alcance absurdo.

Nos seus últimos seis meses de vida, além do transplante e de todos os tratamentos, o Todd decidiu tudo que queria fazer, mesmo quando já não estivesse mais aqui. E além das lições de otimismo e coragem que deixou nos corações de quem conviveu com ele, deixa também a esperança de que outros jovens pacientes de câncer possam concluir seus estudos, conseguir uma medula compatível que pode salvar suas vidas e finalmente seguir em frente, levando uma vida normal e saudável. Chance esta que meu amigo sequer teve.

August 7, 2009

Campanha para Doação de Medula

Ontem tive um dia ótimo! Almocei com a representante do Marrow.org, que é o banco de medulas aqui nos EUA, e com a Kelly, do Ulman Fund e fechamos a campanha para o cadastramento de novos doadores para o mês que vem.

O recrutamento vai acontecer durante "24 Hours of Booty", um evento de ciclismo aqui em Columbia, no dia 26 de setembro. Agora é rezar para o tempo colaborar e para a gente conseguir atrair uma multidão no dia. Claro que além dos participantes, esperamos que familiares e amigos também aparecem por lá e façam algo tão pequeno que pode salvar muitas vidas.

Para mim, vai ter um gostinho especial, pois será uma forma de honrar o meu amigo Todd, realizando um dos seus últimos desejos, que era justamente organizar uma campanha deste tipo para aumentar o número de doadores disponíveis.

É difícil pensar que o Todd não está mais aqui, mas me dá um certo alento de pensar que de alguma forma, o espírito de luta ede generosidade dele continua aqui com a gente. Por mais que ele tenha sofrido por conta do transplante, acho que os nove meses que ele viveu valeram muito a pena.

Se a Carmi autorizar, vamos colocar a foto e a história do Todd no material de divulgação para que fique bem claro que apesar de ter nos deixado tão cedo, o Todd saiu vencedor e seu exemplo de perseverança e doçura vai acompanhar cada um de nós.

Eu não posso doar por motivos óbvios mas já intimei o Blake e vou começar a minha campanha pessoal para cadastrar outros amigos. Para os medrosos, a chance de um doador ser chamado é quase uma em um milhão, então o que custa ao menos tentar? Se de fato acontencer, tenho certeza que não há medo no mundo que não possa ser vencido pela felicidade advinda da possibilidade de salvar um ser humano. Não é qualquer um que tem isto no currículo não! Para mim, isto é a ISO 1.000.0000 para seres humanos, é o selo máximo de que alguém é gente de verdade.

Apesar da minha decepção por não poder ser doadora, vou procurar compensar sendo voluntária no dia e tentando cadastrar o maior número de doadores que eu puder. Diante da minha animação, a Nadya, representante da marrow.org já disse que vai me mandar os contatos do pessoal no Brasil para que da próxima vez eu organize algo semelhante em casa. Mal sabe ela que volta e meia já encho o saco do povo aqui pedindo doação de sangue e de medula.

Quem puder doar qualquer coisa -- sangue, órgão, medula, o que for -- faça isso, por alguém que precisa, por si mesmo e por mim, que não posso. Acho que é por isto que vivo fazendo trabalho voluntário, pois na impossibilidade de doar uma parte minha, doo algo que julgo tão preciso quanto: meu tempo e, no sentido figurado, o meu coração.

July 24, 2009

O que Vem Depois

Ontem à noite finalmente tomei coragem e liguei para a Carmi. Queria deixar passar um pouco de tempo antes de falar com ela, deixar que a poeira se assentasse um pouco. Mas acho que no fundo queria mesmo era criar coragem, afinal o que dizer a uma mãe que perdeu o filho há pouco?

Tinha algumas coisas que queria muito dizer a ela, outras que queria perguntar, mas achei por bem esperar um pouco. Desde aquela manhã chuvosa em junho, foi a primeira vez que falei da ausência do Todd com ela. Muito embora eu tenha sido uma das primeiras pessoas a ver seu corpo sem vida, acho que no meu inconsciente ficou registrado que o Todd tinha voltado para casa, em Iowa para continuar a vida dele e realizar os tantos sonhos que ele tinha. Quando sentia a ausência dele e da Carmi naquele hospital, me fazia pensar que eles tinham voltado para as suas vidas de antes e que estavam muito felizes. Era meu mecanismo de defesa.

Mas ontem tive que finalmente encarar a verdade, a dura realidade da morte prematura de um jovem gentil e corajoso de apenas 28 anos. Pela primeira vez, ao ligar para a Carmi, a pergunta não foi “Como está o Todd?” mas sim “Como vai você?” E ela, com a sinceridade de sempre, me disse “Não vou bem não. Tenho dias melhores que outros, mas o vazio é enorme. Tenho tido dificuldade até em rezar. As noites são particularmente difíceis pra mim. As perguntas não me deixam em paz. Será que eu poderia ter feito mais? Será que houve algo que não percebi? Hoje recebi o atestado de óbito dele, mas um tapa na cara, mas uma incômoda lembrança da realidade de que não tenho mais meu filho comigo.”

E o que a gente diz numa hora destas? Não há consolo para estas coisas. Só pude dizer a ela que ela foi a melhor mãe do mundo e que fez tudo e mais um pouco. Disse a ela também que apesar da curta estadia dele aqui, o Todd fez muito, muito mais do que muita gente que viverá até os 80 anos vai fazer. Ele tocou o coração de pessoas que sequer o conheceram e amoleceu o coração já calejado de tantos médicos e enfermeiras. O Todd foi e será sempre especial, deixando um legado enorme de lições que vou levar pra sempre comigo. Ele me ensinou muito sobre generosidade, sobre amor ao próprio e sobre esperança. Até o final quis ser voluntário nas pesquisas clínicas “Quem sabe eu ajudo e um dia eles descobrem a causa e a cura para a leucemia?,” ele sempre dizia.

As pessoas são diferentes e encaram os problemas de diversas maneiras. Semrpe achei que as mais frágeis fossem os casos mais complicados, mas tenho visto que são as pessoas mais estoicas, mais firmes, as que precisam mais de colo, pois na verdade elas sequer sabem pedir socorro. A Carmi se encaixa perfeitamente no segundo grupo, é tão forte e tão preocupada com os outros que às vezes acaba esquecendo de si mesma.

Depois de alguns minutos ela confessa que está vivendo o luto de uma forma muito intensa. “Não perdi só o Todd. Eu agora não tenho mais vocês ao meu lado para me dar força,” ela diz, se referindo a Elizabeth e a mim. “Vocês foram a minha família durante todos estes meses e agora estou aqui sozinha. Pouco tenho visto minhas amigas de longa data, ainda não consigo sair por muito tempo. Vejo a Angie sempre, mas ela está sofrendo muito e não raro quem tem que consolá-la sou eu,” Carmi me explica com a voz embargada.

Pela primeira vez contei à Carmi sobre o blog e disse a ela que as muitas pessoas no Brasil que rezavam pelo Todd agora rezam por ela. É inacreditável quantas pessoas me perguntaram sobre eles durante a minha visita ao Brasil. Disse a ela também que o Todd apesar de tudo teve sorte de vir ao mundo cercado de tanto amor. É claro que muito disto era mérito dele, mas ele teve sorte de ter pais e irmãos que não mediram esforços para estar junto a ele, o que infelizmente não acontece com todo mundo. Ela concordou. Prometi à Carmi que ficaria em contato e que se por algum motivo visitasse o meio-oeste americano, avisaria a ela, que prometeu me encontrar.

Consegui conter minhas lágrimas durante a meia-hora que conversei com ela, mas ao desligar o telefone, desabei. Acho que pela primeira vez, desde aquela fatídica quinta-feira, entendi que meu amigo não está mais aqui. Nem aqui, nem em Iowa, nem em nenhum lugar onde eu possa vê-lo. Nem eu, nem seus pais, nem seus amigos, nem ninguém. Claro que eu sei que ele está num lugar muito melhor, mas isto não me impede de sentir muito pela família dele, pois se eu tenho a estranha e covarde opção de pensar que ele se mudou e não quis deixar endereço, a mãe dele tem que lidar com este enorme vazio a cada dia e para sempre.

A única esperança que tenho é que um dia esta dor da Carmi se transforme em saudade e não a sufoque tanto. Ontem ao ler o perfil de uma antiga vizinha no Orkut notei uma estranha coincidência, pois há dias vinha pensando em como a Carmi poderia superar esta perda. Pois o filho desta antiga vizinha era meu amigo de infância e morreu num acidente estúpido andando de bicicleta, aos 15 anos. Eu deveria ter uns 10 ou 11 anos e foi a primeira vez que escutei a palavra morte e tive que lidar com algo assim tão próximo a mim. Me lembro que a minha mãe não me deixou ir ao enterro, pois queria nos poupar daquilo, mas até hoje me lembro daqueles diase da tristeza que se abateu por toda a vizinhança. O tempo passou, a família se mudou do Rio mas sempre me perguntei como os pais dele enfrentaram aquela perda. Ontem coincidentemente tive a resposta ao ler a página da mãe do meu amigo no Orkut. Ela dizia:


"Temos 2 filhas, 5 netos e 2 genros, restando a saudade e não a tristeza de 2
outros filhos: uma recém-nascida, que nasceu muito doente, só viveu 1 mês e
meio; outro, Júnior que nos deixou após trágico acidente. Esse fato abalou-me
profundamente. Após o nascimento do meu 1º neto, fui tocada por Deus de novo,
readquirindo uma Fé, uma compreensão e uma vontade muito grande de me reerguer .
Hoje essa Fé me transformou e mostrou a realidade da vida, recuperando a minha
auto-estima e a alegria de viver."


Espero que, assim como a minha antiga vizinha, a Carmi também possa readquirir sua fé e sua vontade de viver. Rezo para que seja em breve.

June 24, 2009

Obituário do Todd

Para vocês, que acompanharam comigo a batalha do Todd, se quiserem saber mais sobre o meu amigo, o obituário dele saiu hoje no jornal local, em Des Moines, Iowa.

Apesar de ter visto seu corpo sem vida num leito de hospital, para mim o Todd está e estará sempre jogando basquete em Iowa. Sei que era isto o que ele mais gostava de fazer e é esta imagem que vai ficar comigo para sempre.

June 18, 2009

Lições

E finalmente percebi que no final, o trabalho voluntário não era para o Todd mas para mim...

Nestas últimas semanas tive a minha fé testada, pois muitas vezes ao rezar me perguntava o que estava fazendo, implorando a Deus que fizesse a minha vontade e não a dEle muitas vezes. Pedindo que prolongasse o sofrimento do meu amigo que já tinha lutado mais do que o suficiente. Durante muitos dias senti um vazio enorme no meu peito, que aos poucos foi dando lugar a paz. Claro que ainda alterno momentos de tristeza profunda, maso que me consola é a certeza de que o Todd está num lugar melhor...que é mais um anjo de cachos dourados e olhos azuis.

Hoje ao entrar no quarto dele, fiquei surpresa ao vê-lo lá ainda, sereno, mas já sem vida. Não havia ninguém no quarto, por um instante me sento cimo uma estranha perturbando o descanso dele, até que a Carmi saiu do banheiro. "Preciso manter alguma compostura," ela disse ao me ver. Fui ao encontro dela para abraçá-la e disse que agora o Todd tinha ido em paz.

O ambiente era de paz absoluta. Todd parecia dormir um sono profundo, o sono dos justos. A minha reação me surpreendeu bastante pois o fato de vê-lo ali sem vida não me chocou nem um pouco, pois sabia que meu amigo já tinha partido. Conhecer o Todd me ajudou a entender a separação entre carne e espírito, corpo e alma. Se de tanto lutar, o corpo dele já estava completamente depauperado, o espírito continuava intacto, ele continuava gentil e otimista, ainda que ciente da gravidade da doença. O comentário geral no hospital é que o Todd jamais se queixou, nunca reclamou, nenhuma vez questionou -- dos médicos às meninas da faxina, todos são unânimes ao dizer isto.

A Carmi me disse que na noite anterior, o padre tinha rezado com ela e o Todd apesar de não dizer nada, prestava atenção. Pouco tempo depois, entrou numa espécie de coma e não voltou mais. Era como se estivesse esperando algo.

Ontem à tarde, ficou claro para mim que ele não estava mais ali, que ele já estava fazendo a passagem, que o espírito dele se encaminhava para algum lugar, mas seu semblante era de muita calma, o que me trouxe um certo conforto. Depois que saí do quarto, a enfermeira e o médico que cuidaram dele entraram. Dr. Agpak era o preferido da família. Angela, a enfermeira, conversou com o Todd e disse a ele o quanto todos ali o amavam. Dr. Agpak, com um nó na garganta, pediu desculpas ao Todd por não ter podido fazer mais e conseguiu dizer baixinho "Te amo, Todd." A Angie estava no quarto e viu tudo. Só o Todd mesmo para fazer um médico da unidade de TMO chorar.

O grande medo da Carmi era que o Todd fosse sofrer mais ainda na hora da partida, mas felizmente não foi isto que aconteceu. Ela disse que abraçou o filho e disse a ele que já havia chegado a hora, que ele poderia ir e que todos iam ficar bem. Ela perguntou a ele se ele tinha visto o rosto de Deus, mas ele não respondeu, não podia mais. Sendo assim, ela foi ao banheiro lavar o rosto e quando voltou percebeu logo que o Todd já não estava mais ali, era só o corpo tão sofrido que havia ficado, a casca, pois seu espírito estava enfim liberto. Tenho certeza que o Todd não só viu o rosto de Deus, mas que ele está junto ao Pai neste instante.

O Todd e a família foram e serão para sempre uma grande inspiração para mim. Vou guardar no meu coração muitas lembranças deles e as lições aprendidas ao longo dos últimos três meses.

Acho que este trecho bíblico resume bem a trajetória do Todd, que apesar de breve não poderia ter sido mais bonita:

"Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé..." Timóteo 4:7

A Despedida de Todd

Meu amigo Todd partiu hoje por volta das 5.35 da manhã, horário de Baltimore. Fui dormir ontem pensando se ainda conseguiria vê-lo com vida no dia seguinte. Por volta das 7.30 de hoje, tive a resposta. Não fui pega de surpresa.

Ontem, ao vê-lo, percebi que seu tempo por aqui se esgotaria rapidamente. Seus olhos já estavam cristalizados, ele respirava com muita dificuldade e a cor da sua pela denunciava icterícia. Ao entrar no quarto, senti que teria que me despedir dele naquele instante.

Pedi licença a Carmi, disse algumas coisas no ouvido dele e depois dei-lhe um beijo na testa. Nesta hora a pressão dele subiu um pouco e as máquinas começaram a apitar. Gosto de pensar que ele sentiu minha presença lá e meu carinho por ele. Logo depois, o médico entrou no quarto e eu saí. Saí sabendo que tinha visto meu amigo vivo pela última vez.

A verdade é que se ele tomou seu último fôlego esta manhã, sua alma já vinha se preparando para fazer a passagem há algum tempo. Quase três semanas atrás, percebi o primeiro sinal disto.

Numa sexta-feira, chuvosa como o dia de hoje, fui vê-lo no CTI. Carmi não estava lá, nem a Elizabeth. Eu entrei achando que ia ficar pouco, senti que ele estava cansado. O Todd era meio calado e eu sempre falava mais do que ele, então não quis forçar. Mas naquele dia, tive a nítida impressão de que ele queria desabafar, então fiquei mais um pouco.

Apesar do seu estado de saúde, Todd não gostava de falar em doença e nem na sua luta diária que já durava cinco anos. Ele gostava de falar de esporte, da família, de comentar as notícias diárias e de me contar sobre os planos para o futuro. Não naquele dia. O olhar dele parecia perdido. Ele olhava em volta do quarto, via as máquinas e tantos monitores ligados e tentava encontrar sentido naquilo tudo. “Eles disseram que vão fazer a biópsia no meu pulmão na segunda,” Todd me contou. “Vamos torcer para que eles descubram o problema,” argumentei. Mas ele logo rebateu: “São três furos, um procedimento difícil. Não queria ter que passar por isto, mas se é inevitável...”ele mesmo se conformou e continuou “Cada vez que eles me fazem passar por um destes procedimentos me sinto como um cavalo de corrida. Dou o melhor de mim, saio exausto e eles sempre voltam de mãos vazias. Nunca descobrem o que há de errado comigo. E cada vez que vou para o centro cirúrgico é como se tirassem mais e mais as minhas forças,” ele concluiu. “Mas eles vão descobrir desta vez,” menti para ele, mesmo sem saber. “E você não pode desistir, por favor. Não desista,” pedi a ele, que me olhou com um sorriso de cansaço, dizendo “Tudo bem, não vou desistir.” Desconversei um pouco, a Carmi chegou e me despedi dele, como de hábito: “Fica bem aí e aguenta firme. A gente se vê na segunda!” Ele sorriu e acenou.

Esta foi sem dúvida a conversa mais profunda que tive com o Todd. Saí de lá com o coração pesado e liguei direto para a Elizabeth. Dali para frente a situação só se agravou e nos últimos dias o quadro se tornou irreversível. Nunca pensei que fosse participar tão ativamente do processo da partida dele. Nunca pensei que fosse me apegar tanto ao Todd e à família dele, mas não me arrependo. Aprendi muito com eles durante os últimos meses, acho que foi um curso intensivo de “como ser gente de verdade”. Com o Todd, vi que nosso filósofo estava certo, gentileza gera gentileza. O Todd era um amor com todo mundo e todo mundo gostava muito dele. (As enfermeiras estavam chorando quando cheguei lá hoje de manhã). Aprendi que o que vale mesmo é o que a gente tem dentro. Mesmo que a aparência atual dele fosse muito diferente do jovem louro, alto e de olhos azuis da foto na porta do quarto, o espírito do Todd era o mesmo, inquebrável. Com a Carmi aprendi que há dignidade até no sofrimento. Esta mulher acompanhou a via crucis do filho por nove meses sem sequer reclamar e sempre agradecia a menor demonstração de carinho ou de atenção. A Angie e o Chris eram só carinho com o irmão caçula.

Nos últimos dias, a Carmi colocou uma foto do Todd antes da doença na porta do quarto. “Quero que as pessoas lembrem dele como ele realmente era. Quero que elas saibam que meu filho tinha uma vida feliz antes disto tudo começar,” ela me explicou. Volta e meia via enfermeiras paradas na porta do quarto hipnotizadas... “Que lindo,” elas suspiravam. Hoje uma delas pediu para ficar com uma foto do Todd, pois ele vai fazer muita falta. Achei o gesto bonito e a Carmi ficou feliz ao dar a foto para ela.

Amanhã vou levar a Angie para o aeroporto. No fim de semana vamos ajudar a Carmi a arrumar as coisas. O Todd terá um funeral com honras militares em Iowa, onde a família mora. Ele merece todas as honras do mundo, foi valente até o final.

June 16, 2009

Inexplicável

Ontem ao visitar o Todd no hospital, vi que o quadro se agrava a cada dia. Pela primeira vez, ema praticamente não interagiu com a gente. Fiquei lá mais de uma hora, conversando mais com a Carmi do que outra coisa.

A fé dela me emociona, pois não é uma fé cega e irracional, é uma fé profunda e conformada. No meio de tanta dor, ela ainda agradece por poder estar com os filhos a seu lado, agradece por não ter tido que tomar nenhuma decisão difícil sobre a saúde do Todd, agradece o carinho da gente... Agradece por tudo! E quando ela se questiona sobre alguma coisa, logo diz para si mesma que o filho nunca foi assim, nunca foi desagregador, nunca foi revoltado, então ela também não pode ser. Ainda ontem ela dizia ter esperanças de que o Todd de alguma forma tenha ensinado algo aos médicos e enfermeiros que cuidam dele. Claro que a gente não tem a ilusão de tocar o coração de cada um, mas sempre existe no meio de uma multidão de funcionários burocratas e sem alma, alguém que enxerga as coisas de um modo diferente, alguém especial.

É impressionante como para algumas situações não existem respostas, então temos que aceitar mesmo os desígnios de Deus, que quer levar alguns mais cedo do que outros. Se fosse por coragem e determinação, o Felippe estaria aqui até hoje, pois jamais pensou em desistir e a cada dia que o quadro se complicava, mais determinado ele estava para vencer a luta. Mas ele partiu. Se fé deixasse alguém aqui com a gente, a Thalita estaria aqui até hoje. Ela tinha uma fé enorme e em nenhum momento deixou de colocar sua vida nas mãos de Deus. Se resignação aumentasse o nosso tempo aqui, o Daniel não teria partido depois de mais de sete anos de luta. Com atitude de samurai, ele vivia um dia de cada vez, dentro das muitas limitações impostas pela doença, mas sem abrir mão de fazer o que gostava. E por fim, se fosse por obediência e gentileza, o Todd viveria até os 200 anos, pois ele jamais descumpriu uma ordem médica e até agora aceita qualquer procedimento sugerido pelos médicos.

Nestas horas fica claro que não há receitas, não há causas, não há explicações. Dói bastante ter que entender e conviver com isto, mas não existe razão em questionar o inexplicável.

June 15, 2009

Desapego II

Continuando o mesmo assunto do desapego, acho que tanta tristeza que tomou conta de mim semana passada me fez enxergar o que realmente importa. Quando a gente passa os dias tentando consolar uma família que se despede de um jovem de 28 anos de um caráter impressionante e uma força de vontade absurda, problemas mundanos que podem ser facilmente resolvidos passam a ocupar o lugar que lhes é devido. Carros rebocados, porões alagados não merecem metade da atenção que os damos.

Sexta-feira, conversei com a minha acupunturista sobre a minha semana. O bacana da acupuntura é que ela funciona como terapia também... Depois de me ouvir incrédula quando disse que nem tinha me abalado com o reboque ou com a multa, minha acupunturista Kayia, suspirou e disse "Talvez seja este o grande presente que seu amigo Todd está deixando para você: a habilidade e a sabedoria para enxergar o que realmente importa. Talvez tenha sido este o motivo do encontro de vocês. Se você pode levar um pouco de alegria e de esperança até ele, ele também foi capaz de fazer com que você enxergasse certas coisas por si mesma."

Fiquei pensando e não é que a Kayia tem mesmo razão?! É muito fácil a gente achar que ao visitar pacientes num hospital está se doando, quando na verdade o que acontece é uma enorme troca. Esta troca nem sempre é fácil ou indolor, mas é uma experiência sempre intensa. E a gente não troca só com o paciente, troca também com a família e com aqueles que o cercam.

A gente aprende com as relações deles também. Nos últimos meses, depois de te recebido o OK dos médicos tenho pensado em engravidar. Quando pensava nesta possibilidade, imaginava um bebê, seu quartinho e o tamanho da minha felicidade se este dia chegar. Coisa de filme, de comercial de margarina, coisa que não é real.

Ultimamente olhando para a Carmi e presenciando o amor infinito que ela sente pelo filho, a idéia de maternidade vem ganhando uma dimensão completamente diferente para mim. Como dizia uma amiga minha, "Parir é o mais fácil. Difícil mesmo é educar, é ser mãe 24 horas por dia." A Carmi, esta mulher decidida e de personalidade forte, deixou tudo para trás em Iowa para estar perto do Todd o tempo inteiro. Viajou metade do país, pediu licença no emprego para vir sozinha cuidar do filho tão doente, sem data para voltar.

Ela é mãe, enfermeira, advogada, uma verdadeira leoa defendendo o filhote, lindo e frágil. Ao receber a notícia de que o quadro era praticamente irreversível, os irmãos do Todd tiveram atitudes diferentes mas completamente esperadas -- a irmã caiu em prantos e o irmão engoliu em seco e disse que só acreditaria no que visse -- os dois tinham lágrimas nos olhos. Na falta de maiores explicações médicas e de respostas, Carmi olhou para os dois e disse: "Não é sobre nenhum de nós agora! Nós não temos nenhuma importância. A única coisa que me importa agora é o Todd. A única coisa que existe é o meu filho." E enxugou as lágrimas, limpou o rosto e voltou para o quarto dele, para que o Todd não ficasse sozinho, enquanto nós tentávamos consolar uns aos outros.

Então agora sempre que penso em ser mãe, não são as fraldas e as mamadeiras que me vem à cabeça, mas um amor tão enorme que é capaz de colocar o próprio sentimento de lado, de deixar a própria vida para trás para estar perto da cria. Um amor tão forte e tão profundo que permite aceitar que talvez seja melhor ver um filho partir do que vê-lo sofrer.

June 12, 2009

Altos e Baixos

Estou me sentindo a própria médica passando visita em hospital, só com uma pequena grande diferença: não entendo lhufas de medicina. Se às vezes é frustrante, outras vezes acho que é melhor assim.

Hoje a Monica fez uma pequena cirurgia no intestino, mas ao que parece está tudo sob controle. A Lilian se recupera bem da cirurgia dela e espera ter alta nos próximos dias. O Todd está na Unidade de transplante de medula e os médicos vão tentar um procedimento contra a GVH, o que me diz que eles ainda não desistiram dele. E muito menos o Todd desistiu da luta. Ele está mais calado, com dificuldade para respirar, mas o espírito permanece intacto, inquebrável. Cheguei lá e ele estava fazendo fisioterapia...voltei e ele disse que estava cansado, mas não se queixou. Conversei com os irmãos dele, que são ótimas pessoas, e volta e meia ele queria saber sobre o que estávamos conversando. O cabelo dele cresce e aos poucos volta ao tom louro natural, os braços estão desinchando.

Sei que o caso dele é grave, mas ninguém ainda desistiu... O difícil nesta hora e administrar tantas informações conflitantes. Como se acompanhar um caso tão sério não fosse complicado o suficiente, o paciente e a família ainda tem que tentar entender a posição dos médicos, que varia de acordo com o dia e com a percepção de cada um. Nestas horas a gente vê que não há como ser imparcial, que entram em jogo nem só a competência e a medicina, mas as crenças e as atitudes de cada um.

Saí de lá um pouco mais aliviada hoje... Não em negação, mas aceitando que nem sempre os médicos sabem o que dizer. Quando saí de lá na última sexta, a Carmi tinha acabado de receber a notícia que o Todd não viveria mais que uma semana...Hoje faz sete dias. Quando a Angie perguntou aos médicos sobre o tal procedimento sugerido, que leva de quatro a seis semanas, eles responderam que não tem respostas. Mas acho que vão continuar tentando.

Pedi pro meu amigo aguentar firme até segunda. Ele me respondeu "OK!" Nunca vi guerreiro igual, gracioso até quando apanha.

June 10, 2009

Mais um dia difícil

Passei boa parte da tarde no hospital com a família do Todd. É impressionante a dignidade de certas pessoas, até nos momentos de maior dor, elas se mantém educadas e gratas, o que torna ainda mais difícil vê-las sofrendo tanto.

Acompanhar o sofrimento do Todd tem sido um experiência muito dolorida para mim, pois nem nos momentos de extrema dor física, ele deixa de ser gentil. As enfermeiras chegam para espetá-lo e apertá-lo e ele nunca se esquece de dizer obrigado. O incrível é que o corpo dele está bem, mas os pulmões sofreram danos irreversíveis e provavelmente vão levá-lo à morte.

Agora que tenho convivido mais com a família dele, entendo melhor de onde isto tudo vem. Como diz a minha mãe, educação vem de berço. De verdade. A Carmi realmente criou bem os filhos.

Hoje a Angie, irmã do Todd, disse que nunca tinha perdido ninguém próximo e que preferia ir na frente do irmão caçula para que ele ao menos tivesse alguém para recebê-lo na chegada. O engraçado é que sem pensar eu disse "Nem se preocupe com isto. No lugar que ele vai só tem gente maravilhosa."

É real. Se a situação cada dia fica mais sériaqui, a mim só me resta pensar que o céu realmente existe e deve ser um lugar maravilhoso, pois as pessoas que Deus tem levado pra lá ultimamente são de altíssimo calibre... Fico imaginando o Felippe, a Thalita e o Daniel batendo animados papos por lá, prontos para receber o meu amigo Todd. Ainda bem que todos os meus amigos brasileiros falam inglês superbem...

June 9, 2009

Reflexões

Uma vez li num livro que os pacientes de câncer eram os mais temidos pelos médicos, principalmente aqueles que haviam chegado ao estágio avançado da doença, o dito estágio terminal. O motivo é muito simples, estes pacientes aos quais resta muito pouco a fazer são a prova concreta de que médicos não são deuses, de que apesar dos enormes avanços da medicina, ainda há muitas perguntas sem resposta e muitos casos sem explicação. E quando confrontados com estes pacientes para os quais todos os tratamentos já foram esgotados, a estes médicos que se julgam deuses, só lhes resta fugir. O confronto com sua impotência e até vulnerabilidade dói demais. É um golpe duro demais para o ego de alguns.

Médicos entram e saem do quarto do Todd. Munidos de máquinas, pranchetas e agulhas falam entre sim, como se tivessem esquecido que naquele leito, muito além de um corpo frágil existe um ser humano. Os internistas não concordam com os pulmologistas que discordam dos hematologistas. Mas ninguém tem a solução...e o tempo passa.

A última coisa que escutei foi que o Todd seria transferido de volta para a Unidade de Transplante de Medula, onde passou a maior parte do tempo, para que pudesse partir em paz de lá.

Ele tem se mostrado mais irritado do que o normal. A irmã dele diz que é o jeito dele de fazer com que o sofrimento dos entes queridos seja menor depois da partida... Ele diz que só não quer que eles sofram. Vai ser difícil não sentir saudade de uma pessoa assim, que à beira da morte ainda pensa nos outros.

Difícil

Confesso que nos últimos dias tenho tido muita dificuldade para rezar. Tenho pedido muito a Deus que poupe a vida do Todd, que deixe ele mais tempo por aqui com a gente. Ainda mais agora que conheço tão bem a família dele, pessoas tão boas e tão estóicas, já tão sofridas. Tipo aquelas famílias bem americanas que a gente vê nos filmes.

Tenho tido muita dificuldade em aceitar os fatos, pois ao que tudo indica a partida do meu amigo é iminente. Mas enquanto isto, ele está lá, lutando. Às vezes noto seu olhar perdido, outras vezes percebo que ele presta atenção no que falamos. Vez ou outra, apesar do cansaço, ele resolve participar.

Às vezes me pergunto se ao pedir que alguém fique conosco não estamos sendo egoístas ao extremo. Se eu acredito, como afirmo, que as pessoas boas nos deixam para irem morar ao lado de Deus, que sou eu para pedir que elas fiquem mais tempo aqui? Quem sou eu para tentar barganhar um ano ou muitos com Deus, fazer com que Ele "mude de idéia"? Como posso pedir tal coisa a este mesmo Deus que quer estas pessoas que aprendi a gostar, não junto a mim, mas ao lado dele?

Sou católica, mas acima de tudo tenho muita fé. Minha fé não nasceu comigo, ela cresceu em momentos não tão felizes da minha vida. Aos poucos aprendi a enxergá-la nos momentos de extrema felicidade também, quando me dou conta que só um Ser bom e magnânimo poderia estar por trás de coisas tão perfeitas.

Em horas como estas percebo o quanto sou imperfeita, pois apesar de rezar desde que me entendo por gente, acho que ainda não consigo realmente compreender que "seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu."

Apesar de todas as notícias ruins, ainda tenho esperança e creio que ela vai ficar comigo até que meu amigo dê seu último suspiro. Sei que pode ser puro egoísmo, sei que posso estar pensando na família dele antes dele mesmo, mas tomara que esta hora não venha tão cedo...

June 8, 2009

Todd de novo

Acabo de voltar do hospital. Confesso que morri de medo de entrar lá e não encontrar mais o meu amigo. Mas ele estava lá, bem frágil, mas lúcido e disposto a lutar.

Quando estava lá com a mãe e os irmãos dele, o chefe do CTI apareceu para nos dar explicações. O fato é que o Todd precisa começar a apresentar uma melhora significativa agora, pois quanto mais tempo ele precisar do respirador e de tantos outros acessos, mais ele vai estar exposto a qualquer tipo de infecções. Por conta do transpante, ele é um paciente extreamente frágil e imuno-suprimido, então qualquer complicação pode ser fatal.

Claro que o quadro é gravíssimo, mas ainda há esperanças. Se a alta dosagem de corticóides fizer efeito, o quadro pode ser revertido. Então é nisto que eu acredito. Acredito em milagres, acredito que o Todd vai se recuperar. Vou rezar mais do que nunca, pois acho que ele vai sair desta.

Dói muito vê-lo entubado e inchado deitado numa cama, ainda mais quando vejo o quadro com a foto dele que a irmã trouxe de casa...um menino lindo e forte, como dizem as enfermeiras, parece artista de cinema! Mas ainda consigo vê-lo assim e o vejo ainda mais bonito, por dentro, pois é o que conta.

Resolvi passar para vê-lo agora, depois de uma reunião, e fiquei feliz com o que vi. Claro que não houve mudanças drásticas no quadro, mas ele já demonstra uma certa irritação, uma impaciência. Quando disse à Carmi que achava que isto poderia ser positivo. Ela sorriu e disse, "Eu sei que é, Dani, sei disso. Isto me deixa mais tranquila, saber que meu filho ainda está lutando, que ele não desistiu."

Nem ele, nem eu. Amanhã volto com mais notícias -- espero que sejam melhores.

Medo

O estado de saúde de Todd piorou muito nos últimos dias. Semana passada não fui muito lá por causa de uma virose estranha que me pegou, mas na sexta decidi que já estava melhor, então resolvi dar um pulinho no CTI.

De longe, vi a Carmi ao lado de um senhor de meia idade. Achei que fosse o pai do Todd. Ao me aproximar dela, sorrindo, percebi que havia algo de muito errado... seus olhos estavam vermelhos, suas feições duras, a dor era evidente. Meu sorriso também se desfez ali, ao escutar as palavras daquele homem: "Estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance, mas a situação é muito grave. O pulmão dele está completamente fibroso, ele não pode respirar sozinho e esta situação só deve se agravar." O tal homem era um dos chefes do CTI, que prosseguiu dizendo a Carmi que ele estava feliz pois pelo menos o Todd tinha tido alguns dias bons e felizes depois do transplante. Naquele instante, a minha vontade foi sair de lá correndo, mas ainda incrédula e ao mesmo tempo em estado de choque, não consegui me mover. Abracei a Carmi e, como o Todd ainda estava dormindo e o pai dele estava no quarto com ele, fomos para uma saleta reservada.

Ninguém sabe se a situação se deteriou da noite para o dia ou se era algo que já estava acontecendo havia tempos. Como sempre, nestas horas tão cruéis, há muito mais perguntas do que respostas. A Carmi tentava me explicar o que nem ela entendia, mas a necessidade de falar era enorme. Ela me dizia que sentia falta de casa, que não queria que tudo se acabasse ali, que já não suportava mais algumas pessoas naquele hospital e tinha aprendido a amar outras. Dizia também que o Todd alternava momentos de lucidez e de confusão. Me explicava que or irmãos dele já tinham sido chamados e que os médicos tinham dito que a família deveria estar preparada para o pior. Parecia um sonho ruim...como é que as coisas mudam assim tão rápido?

Eu disse a ela que acreditava em milagres e que não estava pronta para desistir ainda. Eu sabia e sei que o Todd também não desiste. Andamos um pouco e voltamos para o quarto. O pai dele estava lá, um senhor claro de quem Todd herdou os belos olhos azuis. Tinha um semblante bom, daquele tipo de gente que a gente simpatiza de primeira. Ele me agradeceu pelo carinho e começou a me contar histórias do filho, que era excelente jogador de futebol e de basquete. Disse também que o Todd nadava muito bem e era excelente jogador de tênis. "Um atleta completo," ele emendou. E o Todd só nos olhava.

Fui para casa arrasada e determinada a voltar a vê-los no sábado. O Blake e eu ficamos lá em torno de uma hora. A Carmi havia saído para pegar o irmão do Todd no aeroporto, o pai dele estava lá. Não consigo imaginar a dor daquele homem ao ver o filho naquela cama. Ao nos ver, ele sorriu e mais uma vez agradeceu pelo carinho. Ficou contente de ter com quem falar. A hora da despedida foi difícil. O Todd ainda acordou e conversou um pouco conosco, falando com muita dificuldade. Segurei a mãe dele, já toda feria e cheia de fios, e pedi que ele continuasse lutando. Prometi que voltaria a vê-lo na segunda e disse que ele tinha que melhorar. Me despedi do pai dele também, sabendo que provavelmente não o verei mais e imaginando a dor dele ao ter que deixar o filho naquele quarto de hospital e voltar para Iowa no dia seguinte. Prendi o choro e quando cheguei na porta do quarto, acenei para o Todd, que acenou de volta.

Nestas horas a gente percebe que quando uma coisa destas acontece, a família inteira adoece. As cicatrizes que o Todd exibe no corpo, os pais tem na alma. A sensação que se tem é de absoluta impotência, beirando a revolta. Mas gosto de pensar que de alguma forma pequena, só por estar ali tentando oferecer algum alento, estou fazendo a minha parte. Nestas horas não há palavras, não há gestos grandiosos, não há passes de mágica. Continuo firme na minha fé e nas minhas orações.

Ainda não tive notícias do Todd e estou me preparando para ir vê-lo no hospital daqui a pouco. Peço a Deus mais uma vez que me dê força, fé e coragem.

May 28, 2009

Surpresa

Ontem na hora do almoço passei no hospital para ver o Todd. Na véspera tinha ido visitá-lo, mas ao chegar lá a Carmi me falou que ele tinha acabado de dormir. Como ele estava entubado, preferimos deixá-lo descansar.

Notei, ali na porta do CTI, que naquele momento quem precisava de mim era ela, que precisava falar. Conversamos pouco menos de uma hora sobre as opiniões médicas e as opções de acompanhamento/tratamento a longo prazo para o Todd. Todos concordam que eles devem voltar para o Iowa assim que a situação dele se estabilizar. Lá eles tem família e amigos, lá eles estarão em casa, mais perto de uma vida normal. Ao final da nosa conversa, Carmi estava mais tranquila e me agradeceu pelo carinho, disse que poder contar com a Elizabeth e comigo nos últimos meses tem ajudado bastante. Fiquei feliz e saí de lá mais aliviada. Embora ainda estivesse no respirador, o estado de saúde do Todd era melhor, garantiam os médicos.

Então, ontem, ao entrar pela primeira vez no novo quarto de CTI quase não acreditei. O Todd estava sentado, bem ereto, com o comuputador numa mesinha e um livro de economia na mão! Quase caí pra trás! Falei com ele rapidamente e notei que ele não me deu muito papo, estava concentradíssimo. A enfermeira entrou disse que ia precisar puncionar uma veia, mexeu nos fios, mas ele parecia em transe.

A Carmi me puxou pro lado e disse "Cheguei aqui às 7.30 e ele já estava estudando, parece que o prazo de entrega do trabalho é hoje! Ontem ele estava todo entubado lendo o tal livro. Disse que tinha perdido um dia de aula e precisava compensar." Pois é, não seria mais uma visita ao CTI que iria estragar os planos do Todd de continuar a faculdade. "Já perdi muito tempo quando era mais novo, agora falta um ano e meio pra eu me formar. Depois engato o mestrado," ele tinha me confessado antes.

E ali, naquele quarto de CTI, me senti pequena. Pequena por enxergar muitas vezes obstáculos insignificantes ou que sequer existem, pequena por às vezes pensar em desistir antes mesmo de começar.

Aquela cena, que se eu tivesse que sintetizar em uma palavra seria "determinação" me fez lembrar a frase do Cocteau que eu vivo dezendo aqui "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez." Com a mesma tranquilidade e estoicismo de sempre, com pouquíssimas palavras, ontem mais mais vez o Todd deu mais uma demontração de fibra, resiliência e determinação.

May 26, 2009

Todd de novo

Acabei de voltar do hospital. O Todd estava dormindo, mas fiquei quase uma hora conversando com a mãe dele, a Carmi, uma mulher determinada e forte que é uma verdadeira leoa ao prteger sua cria. Ela saiu de Iowa em setembro, quando o Todd faria o transplante que foi adiando para dezembro, e nunca mais voltou. Não sai do lado do filho caçula por nada.

Quando cheguei lá, ela me disse que o Todd estava dormindo, então percebi que quem precisa falar era ela. Nos sentamos na sala de espera do sétimo andar, do lado de fora do CTI e la me contou as últimas novidades.

Os pulmões do Todd são realmente o foco do problema. Desde o início, a suspeita foi GVHD, mas os médicos ainda não puderam comprovar nada. Às vezes, eles descartam a hipótese, outras vezes ela volta com força total. Carmi, que é enfermeira, pressionou para que fosse feita uma biópsia. Os médicos tentaram adiar ao máximo, mas o medo é que se a causa do problema não for encontrada logo, Todd pode perder a chance de viver.

Pela manhã, um dos médicos explicou a ela, que de cada quatro transplantados, um não sobrevive ao transplante, um supera os primeiros obstáculos e passa a levar uma vida normal e dois acabam sucumbindo não à dopença, mas em decorrência das complicações. Este tal médico basicamente colocou o Todd no grupo daqueles 50% que vão acabar partindo por conta das complicações.

Imagine o que é isto para uma mãe?! Uma mãe como a Carmie, que não pensou duas vezes antes de largar a vida dela no meio-oeste americano para ficar dia e noite ao lado do filho? Ela diz que tem lido muito e que tem se preparado para aceitar a vontade de Deus, mas que ainda não chegou ao ponto de desistir, já que o Todd continua lutando.

Mais tarde, entretanto, um outro médico foi conversar com ela e disse que tem esperanças de que o Todd vai sair desta. Disse que se for mesmo constatada GVHD, eles vão entrar com remédios bem fortes que devem ajudar a combater o bandido. Este médico, de acordo com a Carmi, é bem humorado e parece gostar do Todd. Quem pode não gostar dele, um garoto realmente ótimo.

É nestas horas que a gente vê que há médicos e médicos. Claro que entendo que muitas vezes o dever do médico é preparar a família e dizer sempre a verdade, mas há várias formas de fazer isto. Ninguém é idiota de pensar que o caso do Todd não é grave, mas se ainda há tratamentos possíveis, então ele ainda tem chance. Como se a doença não fosse cruel o suficiente, o paciente e a família ainda tem que lidar com isto, muitas vezes com a inabilidade dos médicos e enfermeiros em dialogar. No meio de tanta dor, entre tantas dúvidas, a gente ainda tem que optar por qual médico ouvir. Ninguém quer ser enganado, mas morrer ou ser desenganado antes da hora é duro demais.

May 19, 2009

Humor Macabro

Ontem quando saí do trabalho dei uma passada no hospital para ver o Todd, que ainda está no CTI, mas já está fora do tubo. Um alívio! Como diz a mãe dele, ele é o único paciente que parece vivo no andar inteiro.

A passadinha virou visita de quase duas horas e o coitado ainda teve que escutar as fofocas do fim de semana, pois quando cheguei a Elizabeth também estava lá.

O Todd está mais magro e me disseram que ele estava mais abatido, talvez deprimido. Não foi o que eu vi. Acho que a Elizabeth já devia tê-lo animado, pois ele me pareceu bem.

Claro que volta e meia a gente fala de doença e estavamos conversando sobre alguém que nós duas conhecemos mas que a Elizabeth descofia não estar tão doente como a tal pessoa diz que está. Nossa conhecida diz que está no fim, mas tem uma vida bem normal, pelo que vemos, o que torna meio difícil acreditar em tudo que ela fala. No meio da conversa, o Todd me sai com esta: "Bebe cerveja, anda normalmente, come tudo...pra mim ela não está cheia de câncer, está cheia de "merda" (full of shit, que o povo usa quando quer dizer que alguém está mentindo descaradamente.)

Conversamos também sobre recidivas e eu saí procurando madeira para a doença não voltar. O Todd, olha pra mim e diz "Pois se quiser que o câncer volte agora mesmo, basta comer isto aqui!", e aponta para o prato de comida que a enfermeira tinha deixado para ele. Nós três rimos a beça.

Para terminar, ele pergunta quantos anos tem a tal pessoa de quem estavamos falando. E a gente diz uns 37, 38. Então me sai com esta "Nossa ela já é velha!" Ao que nós duas protestamos, "Peraí, Todd, tudo bem que você é garoto, mas aqui no quarto tem gente que está quase chegando lá!" Ele riu meio sem graça e foi logo se desculpando "Não foi isto que eu quis dizer. Me referi a ser velha demais para ficar inventando coisas!"

E aos poucos nós vamos formando uma família, disfuncional e às vezes pouco saudável, é verdade. Em vez de nos reunirmos em volta da mesa, nos reunimos em torno do leito. Em vez de fazermos passeios no parque, a gente anda pelo CTI mesmo. E sem querer o Todd já virou o irmão mais novo da gente. Até parte da fofoca o coitado já está fazendo. Prometi a ele que levaria o Blake lá para que eles possam ter uma conversa de homem, pois o coitado já não aguenta mais falar de celulite e gordura localizada!

April 23, 2009

Subidas e Descidas

Na sexta-feira, fui visitar o Todd com a Elizabeth e ele estava ótimo. Andando, já na casa de apoio, sorridente e feliz por ter saído do hospital depois de quase dois meses. Pediu para que sentássemos com ele no jardim e tivemos uma tarde agradabilíssima, jogando conversa fora. Saí de lá feliz e aliviada.

Qual foi a minha surpresa quando recebi um torpedo da Elizabeth que dizia "Todd está no CTI. Parece que é algo grave. A família já foi chamada." Fiquei arrasada! Ao que parece, naquela mesma sexta, horas depois, ele se sentiu mal e foi internado às pressas devido a um problema grave no pulmão. Os médicos já descartaram GVHD mas ainda aguardam resultados de mais exames.

Quando a Elizabeth me pediu para visitá-lo com ela no CTI, tremi, pois detesto CTI. É um lugar que me traz lembranças muito recentes e dolorosas, mas sei também que é onde o paciente mais precisa de apoio. Ao vê-lo lá, entubado e imóvel, também vi um pouco de mim e da minha avó, h'a poucos meses. Cena triste. Mas ao mesmo tempo pensei que se nós duas tínhamos conseguido sair de lá, o Todd também conseguiria.

Começamos a conversar e logo ele se mexeu, mostrando para nós que estava nos ouvindo. Contei a ele sobre a minha experiência naquele lugar, sobre as coisas que eu fazia ou pensava e sobre a minha saída. Pedi que ele ficasse calmo, já que nós entendíamos que ele estava alerta.

Ontem, ao voltar ao hospital, ele estava dormindo. Encontramos, na sala de espera, sua irmã e sua mãe. A irmã tinha vindo às pressas de Iowa e a mãe está com ele aqui desde outubro. Conversamos um pouco sobre hospitais, Baltimore e é claro, sobre o estado de saúde do Todd.

A irmã dele também nos mostrou uma foto dele antes da doença. Ele era simplesmente LINDO! Louro, de olhos azuis, forte, mais de 1,90m!!! Fora os olhos, agora mais tristes e escondidos atrás dos óculos, é até difícil imaginar... Mas aí me lembrei das palavras da Paula, quando me disse ter ficado irreconhecível na época do transplante e pensei comigo mesma "isto tamb'em vai passar".

Depois fomos até o box dele e ele acordou. Nos viu no corredor e pelo seu olhar, notei que havia nos reconhecido. A mãe entrou e me pediu para entrar também, afinal ali eu era a única que tinha experiência de CTI. Ele ainda estava entubado, mas por sinais entendemos que ele queria os óculos. Depois pediu papel e caneta. No início não tinha forças para segurá-la (vi que os braços dele estavam inchados de soro, talvez), mas depois escreveu mais forte. CAPS...ficamos sem entender... Ele ia ficando impaciente. Pergutamnos se ele queria um boné? (cap, em inglês). Ele fez que não. Escreveu "hockey". Então entendemos que ele queria saber o resultado do jogo da véspera, Capitals, ou Caps, é o nome do time de hockey de Washington. Não tivemos dúvida que a cabeça dele estava perfeita...agora só faltam os pulmões.

Daqui a pouco vou ligar para mãe dele para saber como eles passaram à noite. Sei que deve ter sido mais uma noite difícil, mas a força e a esperança deles me comovem. Ontem mesmo a irmã disse que ele nunca havia reclamado. O máximo que ele disse foi "Puxa, este negócio não me dá descanso." E só.

Fico aqui na torcida para que depois deste susto, ele se recupere logo. Não quero isar a palavra descansar, pois nestas horas ela me assusta. Prefiro pedir para que ele se recupere.