October 30, 2008

Poeira ao Vento...

Tem cenas que não deixam nunca a nossa memória.Comigo não haveria de ser diferente. Aliás, há várias que me acompanham eternamente e outras que me assombram a vida inteira. Mas a imagem que quase sempre me persegue não tem nada de especial, não é um fato marcante, um acontecimento, nada, mas não me sai da cabeça.

Lembro que depois de saber que estava doente de novo, meu mundo caiu. A vida para mim parou ali, naquele exato instante, naquela sala fria e escura. Foi ali que senti que todas as minhas esperanças haviam sido roubadas, que a minha vida tinha sido raptada, e a minha alma invadida. E naquele milésimo de segundo me senti traída e enganada. E a pergunta que não me saía da cabeça era “E agora?”

Obviamente não encontrei a resposta para aquela pergunta ali. No fundo eram várias perguntas numa só. “E agora como vou sair e contar para o meu pai o que aconteceu? Como vou falar para minha mãe e pro Blake que estão em casa esperando meu telefonema? Meus avós já idosos e minha irmã grávida, onde é que vou encontrar forças para repetir esta história para todo mundo sem me desesperar?”

São momentos assim que ficam para sempre na memória da gente. Depois de passar horas no hospital só para ter certeza do que todos já sabiam – era verdade o tumor estava lá bem visível e outra cirurgia tinha que ser marcada imediatamente – só me restava voltar para casa, dividir a dor com a família e encarar a vida de frente.

Aquele foi talvez o percurso mais longo da minha vida. Eu estava ali no carro, não me lembro bem quem dirigia... Acho que era o Giovanni, que trabalha com meu pai, mas a partir daquele momento ficou tudo muito embaçado para mim. Deixamos o meu pai no trabalho e seguimos para casa.

Me senti só. Dentro de mim fazia um frio horrível, mas lá fora era um dia de verão magnífico, daqueles que só o Rio tem. Dentro de mim o mundo havia parado, mas do lado de fora do carro, as pessoas continuavam suas vidas agitadas. Corriam para atravessar a rua, apertavam o passo para pegar o ônibus, outros ficavam ali esperando no ponto e pensando na vida. Ainda havia gente que sorria. Como eles ousavam sorrir naquele dia!? Sabiam eles da minha dor? Conheciam eles a minha história? Tinham idéia do que me aguardava e de como eu sofria ao saber que a minha vida agora era uma enorme incógnita?

Não, claro que não. Aquele dia, que era tão triste e sombrio para mim, era só um dia qualquer na vida de tanta gente. Aquelas pessoas ali na rua estavam interessadas em viver suas vidas, exatamente como eu estava até poucas horas antes, quando levei outro tropeço e fui parar lá embaixo naquele lugar horrível.

Então percebi que aquele dia, que seria para sempre inesquecível para mim por um motivo terrível, era um dia completamente normal e ordinário na vida de milhões e milhões de pessoas. E mais, provavelmente seria o dia mais feliz na vida de alguém que talvez não estivesse fisicamente tão distante de mim.


1 comment:

paulaalves00 said...

Nossa, Dani... Tive exatamente a mesma sensação no dia da cremação do meu pai: seu azul lindo, dia bonito, pessoas levando suas vidas normais, árvores mexendo com a brisa... Normal. Pra muitas pessoas. Pra mim, um dia triste.