October 28, 2008

Compartilhar ou não?

Uma vez ou outra fico em dúvida do que devo ou não colocar no blog. Paro e penso bem, às vezes me arrisco, outras não, mas ainda não me arrependi de nada que tenha escrito aqui. Este blog tem duas razões principais de existir: a primeira e mais egoísta é que foi o modo que encontrei de organizar meus pensamentos e me manter relativamente sã durante um período tão conturbado da minha vida. A segunda foi mais um pouco mais nobre, foi uma forma que encontrei de compartilhar as minhas experiências com todos aqueles que tiveram suas vidas tranformadas pela doença, especialmente o câncer. Hoje, infelizmente, é muito raro encontrar alguém que não tenha vivenciado de perto esta doença que não escolhe idade, raça, sexo ou classe social.

Este blog tem mais ou menos um ano e começou meses depois da minha chegada a Maryland. Achei que fosse falar sobre assuntos do cotidiano, mas como não tinha um foco específico, o blog acabou caindo no esquecimento, até aquele fatídico dia 18 de dezembro de 2007, quando o tumor que todos achavam estar destruído mostrou a cara mais uma vez. Foi neste dia que meu mundo caiu.

É normal que quando uma avalanche destas invade a sua rotina você surte um pouco...ou muito. É normal também que as pessoas ao seu redor tenham interesse e muitas perguntas sobre o que está se passando. “Como assim outro tumor? Operar o que? Mas o tumor não tinha ido embora? Será que agora é metástese? Quando vai ser a cirurgia? Quanto tempo você vai ficar aqui? Vai ter que fazer químio de novo? E os filhos, vai poder ter filhos?” O grande problema é que nunca temos todas as respostas e num primeiro momento, depois de receber um golpe enorme, provavelmente não temos nenhuma das respostas que procuramos.

Como jornalista, sempre tive na escrita um refúgio. Aliás, muito antes de ser jornalista eu já era escritora, poetisa ou sei lá o quê. Sempre tive diários ou cadernos de anotações que invariavelmente eram encontrados por alguém da família que acabava me pedindo explicações sobre determinados acontecimentos. (Outro dia mesmo, durante os prepartivos da mudança o Blake achou um caderno que usei de diário durante os últimos anos da minha temporada em Nova York. Podia ter lido tudo e não me contado nada, mas como bom moço que é, disse que leu algumas páginas, sentiu-se envergonhado, colocou de novo no lugar e depois me confessou tudo!!!)

Então o blog começou como um diário virtual, não uma coleção de crônicas do meu dia a dia, mas como uma espécie de filtro de todos os pensamentos e questionamentos que me ocupavam a cabeça, que me assombravam, que me tiravam o sossego. Diante da pergunta vou ou não vou morrer agora, muitas outras surgiram e precisavam de resposta. Ao contrário de muita gente, e ao contrário do que eu mesma fazia até alguns anos atrás, gosto muito de dividir, de compartilhar as minhas experiências, boas e ruins, pois acho que isto me deixa mais em contato com a realidade.

Com esta história da mamografia não foi diferente. Quando recebi o fatídico telefonema da clínica, balancei. Liguei imediatamente para o meu ginecologista e depois para a minha família. Aceitei a sugestão do meu pai que tinha me pedido para eu não colocar nada no blog, mas fiquei com aquilo engasgado na garganta. Aos poucos, comecei a falar para outras mulheres sobre o que tinha acontecido e acabei descobrindo que a minha situação não era tão anormal assim. Várias colegas de trabalho passaram por isto. Minha sogra e a avó do Blake também. A avó do Blake já teve tudo – de melanoma a cistos na mama e já operou tudo – do apêndice à coluna – e está mais viva do que nunca às vésperas de completar 91 anos muito bem vividos. Gosto de pensar que se ela pode, eu posso também!

Como alguns amigos meus me disseram, a maioria das pessoas não expõe suas dúvidas e seus dramas da maneira como eu faço, mas o que fazer se me sinto melhor assim, mais humana, mais real. Dou uma filtrada numa coisa ou outra, às vezes espero um pouco a poeira abaixar, mas acabo contando as coisas aqui e me sentindo sempre mais aliviada depois.

Mas o outro motivo deste blog é mais nobre, confesso, talvez até um pouco altruísta. Decidi contar a minha história para que outras pessoas, principalmente as mais jovens, saibam que é possível, que há vida depois do diagnóstico de câncer. Para que elas entendam que apesar das adversidades a vida vale a pena. Que mesmo alguém jovem, aparentemente saudável e cheio de planos também pode levar um tropeço, mas mesmo assim seguir em frente. Que não vale a pena se torturar em busca de causas, mas que se deve tentar aprender ao máximo e o mais rápido possível.

Foram histórias deste tipo que me deram forças para seguir em frente em momentos desesperadores. Foi por pensar que existia alguém em algum lugar que já tinha vivido aquilo e triunfado que continuei firme na minha luta. Foi a minha busca por outra pessoa que esteja viva depois de enfrentar um hepatocarcinoma que me manteve determinada a levar a minha luta a diante. Tenho certeza que estas pessoas existem, só não tive ainda o prazer de conhecê-las.

Estou determinada a escrever a minha história, o meu destino, não só para mim mas para todos os que vêm depois de mim, para que eles saibam que existem muitas pessoas completamente normais que carregam cicatrizes no corpo e na alma. Foi por isto que optei em colocar as fotos da cirurgia e da cicatriz aqui. É por isto que uso bikini sem o menor problema e vez ou outra ainda me espanto por atrair tantos olhares curiosos. “Que tanto esta gente me olha? Povo estranho,” penso às vezes, sem me dar conta do tamanho da marca exposta no meu abdomen. A cicatriz agora faz parte de mim. Quem me conhece sabe que sou muito mais que aquilo, mas ao mesmo tempo sinto que as minhas experiências por mais duras que tenham sido serviram para me transformar em quem eu sou, mais humana e mais real. As minhas cicatrizes são meus troféus de batalhas vencidas. Jamais pensaria em escondê-las.

5 comments:

Roy Frenkiel said...

A causa eh nobre, desde um principio. Nobre e admiravel. Quando a leio, leio de baixo para cima, consciente de sua superioridade e experiencia em temas essenciais ao funcionamento do planeta. A parabenizo. Bom, muito bom trabalho.

bjx

RF

paulaalves00 said...

Amo o fato de vc se mostrar! Adoro isso em você. Beijos!!!

Anonymous said...

Oi Daniela,
Acho muito importante depoimentos como o seu, pois quando alguem descobre um problema semelhante ao seu e buscar informaçao, certamente ficara feliz de saber que se pode superar, vencer e ajudar.
O cancer é uma doença cercada de uma aura de morte, mesmo que hoje ja se possa vence-lo em muitos casos.
Descobri seu blog na epoca em que voce descobriu o problema pela segunda vez. Escrevi naquela epoca e te pedi um e-mail, pois queria lhe contar uma experiencia minha e seria algo muito grande para se colocar em um comentario. Se quiser enviar-me o seu e-mail, ficaria contente de poder lhe contar.
Outra coisa que lhe pergunto é se teria indicaçoes de sites ou blogs relacionados ao cancer de mama.
A irma de uma amiga minha descobriu um cancer de mama. Infelizmente a descoberta foi feita num momento em que o cancer ja se manifesta em outros pontos (figado e coluna, acho).
Nao sei ou prefiro nao pensar no que isso pode significar, mas quero ajudar com informaçoes positivas e, como voce tem muita informaçao nessa area, talvez possa me ajudar.
Ela vai começar a fazer quimioterapia, pois parece que agora nao se pode operar.
Quanto a sua mamografia, nao se preocupe. Eles precisam mesmo ser bem criteriosos e, como era a sua primeira mamografia, é natural que eles esclareçam todos os pontos, pois ela vai ser a base de comparaçao das proximas.
Ano passado levei um susto imenso depois de uma ultra-sonografia. Havia uma duvida e tive que fazer uma punçao. Graças a Deus era um cisto e tudo foi esclarecido.
Meu e-mail é gabgaby23@yahoo.com.br, se quiser me enviar o seu e-mail sera um prazer.
Um abraço,
Gabriela

Fernanda - www.fernandafranca.com said...

É nobre, sim. E acho lindo você não esconder a cicatriz. Você é linda, não tem que esconder nada mesmo - é a prova de que está viva e feliz. Beijos, Fê.

A grande batalha! said...

O que dizer a você senão parabéns?!
Parabéns pela coragem, determinação, pelo carinho e respeito que tem para com os fãs do seu blog e por ser uma pessoa tão iluminada como é!
Assim como você, eu também me orgulho muito de minhas cicatrizes, e também as considero um verdadeiro troféu, de quem teve como prêmio principal a VIDA!
Te admiro muito!
Um abraço,

Thaís