February 5, 2009

Bring Sean Home

É certamente a história mais triste dos últimos tempos e me chamou atenção, logo quando aconteceu.

Um dia lendo O Globo vi a notícia de que uma mulher de 33 anos tinha falecido na Casa de Saúde São José por conta de complicações no parto. A notícia me parecia surreal, pois quem morre de parto em pleno século XXI? E ainda por cima na São José, um dos melhores hospitais do Rio, onde várias amigas minhas tiveram bebês e só tem elogios ao atendimento de lá. (Minha avó ficou internada lá -- CTI, Semi-intensiva e quarto -- três meses e somos muito gratos a todos da equipe.)Quem é carioca sabe que a classe média só tem filho em dois lugares: na São José ou na Perinatal.

Me chamaram atenção a idada da mãe, 33 anos, e o nome da filha, Chiara. A minha irmã teve a Chiara aos 33 anos e o parto só não foi na São José porque no dia não havia vaga. Li a notícia e fiquei com o coração partido, pois além da recém-nascida Chiara, ela deixava um filhinho de oito anos. Uma fatalidade, uma coisa inexplicável. Depois fiquei sabendo que a Bruna era muito querida na sociedade carioca, e amiga de amigos meus, o que fez com que todo aquele drama ficasse ainda mais próximo de mim.

Dias mais tarde, assistindo o Today Show em casa, vi a chamada para uma matéria sobre um pai que depois da morte da esposa tentava trazer o filho de volta aos EUA. A esposa era brasileira! Na mesma hora liguei os fatos e pensei "Não é possível! Será que é a história da Bruna?" Fiquei grudada na TV e as minhas suspeitas se confirmaram. O filho mais velho da Bruna era mesmo deste americano de New Jersey e o pobre menino era o alvo da batalha judicial. Louca, esta tal de Bruna, pensei. A menina saiu do país, voltou para o Brasil e ainda casou de novo. Ainda por cima bígama!

A história cada dia ficava mais confusa. Conversando coma minha mãe, soube que a Bruna era casada com um primo de uma amiga dela, o tal Lins e Silva. Logo depois meu telefone tocou, era a amiga da minha mãe chocada com a repercussão história toda. Eu disse logo "Mas a Bruna era bígama! Raptou o filho e depois sumiu, cortou todos os laços com o pai!"

A amiga da minha mãe, do outro lado da minha, disse que o buraco era muito mais embaixo, que tinha grana envolvida, que a família da Bruna, dona do Quadrifoglio, era milionária, que sempre tinha ajudado a filha e o genro nos EUA, inclusive mandando dinheiro para comprar a casa, que o David tinha ganhado uma grana deles, etc, etc... Explicou que o divórcio tinha acontecido à revelia no Brasil, o que muita gente cansa de fazer e que durante esta confusão toda ela tinha se apaixonado pelo advogado, o João Paulo, e refeito a vida dela.

Me contou também que a menina tinha conhecido o David quando estudava fora, engravidado e se casado às pressas, aos vinte e poucos anos. Mais uma vez me imaginei no lugar dela...O que teria feito se isto tivesse acontecido comigo? Provalmente abandonado meus planos e ambições para 'fazer a coisa certa' e dar um lar ao meu filho. Mas até quando suportaria viver uma vida tão diferente daquela que tinha imaginado para mim? Será que eu também não surtaria? Sim, pois a Bruna surtou, caso contrário como explicar as ações dela?

Nos documentários que passam na TV aqui, vemos imagens de uma jovem distante, que não parece feliz, que se isola. Não sei se ela procurou ajuda...mas eu entendo. Tiro por mim. Sempre tive uma vida muito confortável no Brasil, minha família está longe de milionária, mas sempre tive acesso a tudo. Gosto de agito, badalação, praia, correria, calor, moda, eventos... Minha vida social sempre foi para lá de intensa. Por escolha minha, me casei e vim morar em Maryland, suburbia USA, e tomei um choque.

Já vim bem mais velha do que a Bruna, depois de ter morado nos EUA durante oito anos, mas nada tinha me preparado para a vida pacata e parada daqui. Quase surtei também, mas mais experiente, sempre ciente de que tinha sido uma escolha minha, fiquei e estou aqui até hoje. Pelo Blake e só. Porque ele me preenche de uma forma que provavelmente o David não preenchia a Bruna. Por isto ela fugiu. Eu não. Foi culpa do David? Será que ele era um mau marido? Longe de mim dizer isso, mas uma coisa é certa, a Bruna precisava de coisas que ele não podia oferecer. E o resto é passado.

Vejo que muita gente a critica, mas depois de ouvir muito sobre ela, não consigo. Acho que ela agiu errado, sim. Penso que ela deveria ter pedido divórcio e lutado pela guarda da criança, mas entendo que seria uma batalha difícil, sendo ela estrangeira aqui. (Tenho uma amiga que passou por situação semelhante e depois de quase ir à falência pagando advogados, teve que voltar ao Brasil sem a filha para se recapitalizar. Faz anos que não tem nenhum contato com a menina, pois o pai não deixa.) Acho que a história da Bruna se resume a uma série de passos mal dados que resultou numa catástrofe, deixando muita gente ferida.

Estive no Rio duas vezes desde que o drama começou a ser veiculado na imprensa, aqui e no Brasil. Nem preciso dizer que todo mundo fala no assunto. Cada um diz uma coisa, que o David era interesseiro, que era viciado em droga, que era a Bruna que era doidinha, etc, etc. Incrível como nestas horas todos acham que podem ser a palmatória do mundo. Alguém me falou também dos pais da Bruna, que obviamente estão arrasados. Perderam a filha de uma forma estúpida e agora estão prestes a perder o neto. Imaginem...

No fim do ano, jantando com umas amigas, o assunto surgiu mais uma vez. O Sean, filho da Bruna, é amigo de escola dos filhos da minha amiga Clara. "É um amor de menino," dizia a Clara, "não consigo acreditar no que está acontecendo. Ela está superbem aqui, tão adaptado, tão feliz com a irmãzinha. Já não basta o trauma da morte da mãe?," a minha amiga perguntava.

Difícil encontrar uma solução que não seja traumática. Entendo a posição de pai do David, que ama o filho e teve sua vida virada de cabeça para baixo do dia para a noite. Entendo perfeitamente que ele tenha que lutar pelo direito de criar o Sean, mas sinceramente não sei se é o melhor para o menino, pelo menos agora.

Muitos comparam este caso ao de Elián Gonzalez, um menino cubano que fugia da ilha com a mãe, mas com o naufrágio do barco ela morreu e ele chegou a Miami. De acordo com a lei americana, o cubano que chegar a salvo aos EUA tem direito de ficar aqui. A família de Elián, que até então não o conhecia, queria ficar com o menino no país, enquanto o pai, obviamente queria ver o filho em Cuba. No final das contas, como os cubanos em Miami estavam dificultando as negociações, a SWAT invadiu a casa (numa ação muito criticada na época) e resgatou o menino, que voltou para os braços do pai. O mais incrível é que há fotos de toda a ação policial e pode se ver os agentes munidos de metralhadoras tirando o menino de dentro do armário!

Acho o caso do Sean diferente porque ele está com o pai adotivo e com os avós há quatro anos. Hoje o pai seria mais estranho para ele... Nada que uns meses não possam mudar, tenho certeza.

Por isto não sei de que lado estou, sinceramente. Acho que a mãe errou, mas morro de pena dos avós e do menino. Ao mesmo tempo, sinto pelo pai, que há quatro anos luta para ter o filho de volta.

Tudo isto me trouxe de volta uma conversa que tive com o sábio Dr. José Kogut. Ele me falava que uma de suas filhas estava grávida e que o marido era estrangeiro... Ele estava feliz, mas visivelmente preocupado. Quando perguntei o motivo, ele disse, porque se o casamento der errado é muito complicado. Uma das amigas dela era casada com um francês e tem dois filhos. Separou-se. Recentemente perdeu o emprego. Não consegue outro. Está em dificuldades financeiras e o ex-marido não ajuda. Ela quer voltar para o Brasil, onde pelo menos vai contar com o apoio da família e tem mais chances de conseguir uma colocação. O ex disse, "Pode ir, mas sem os filhos." E ela está aqui deprimida, infeliz e falida, mas pelo menos tem os filhos.

Que triste.

12 comments:

Luciana Misura said...

Dani, tambem penso como voce, acho que o pai do menino aqui nos EUA tem direito de ver o filho mas traze-lo pra ca assim de repente nao acho que e a melhor opcao pro menino. Eu fico longe de opiniar sobre esse caso porque as pessoas ja tornaram isso tudo uma briga EUA x Brasil ha muito tempo. E tudo uma tristeza, para ambas as familias.

Dani said...

Pois é, Lu, no final as coisas acabam indo apra um lado que não tem nada a ver. Sinceramente, acho que tem muita gente tirando os recalques em cima desta história.
Bjs

kleen said...

I know the Goldman family. David is not a drug addict, or trying to extort anyone. He is a devastated father who has spent many thousands of dollars and done everything his attorneys have told him to do in order to be reunited with his child. This child was brutally ripped away from him. He is a loving Dad that wants to be with his son. Whatever mistakes Bruna made in how she decided to leave him are in the past. Bruna is gone, JPLS is not the child's father. The extended family in the US is very concerned about the emotional health of the child, and all of the harsh losses he has had to bear already in his short life. They have a lot of love, and very good common sense. They want to help him heal. He has cousins his own age ready to befriend him again, and everything possible will be done to make sure that he is properly supported while transitioning back to the USA.

Dani said...

Kleen,
Thanks for reading my blog and voicing your opinion.
I just want to make it very clear that I NEVER said that David is a drug addict and that he is trying to extort money from Bruna's family. What I said is that there is a lot of hearsay.
I take that you DO NOT speak Portuguese, so maybe the translation tool led to some misunderstanding.
I just hope and pray that the Courts decide on what's best for this poor eight-year-old boy.
Regards,
Dani

Ana Claudia Lintner said...

Dani,
obrigada por dividir conosco o seu ponto de vista.
Bato o meu pe no que diz respeito a arbitrariedade praticada pela justica Brasileira.
Por mais doloroso que fosse o processo de divorcio e a real separacao desta familia, nao justifica-se o fato.
Assim como, sob o meu ponto vista, nao justifica-se manter Sean longe do proprio pai.
Se o problema e que pode ser traumatica esta transicao, porque nao propoe-se um processo, mesmo que a longo prazo, para que este ocorra de maeira o mais suave possivel. Quem sabe facilitando o acesso, mesmo que apenas para visitas (a principio)? Aos poucos e com os devidos cuidados, a situacao seria resolvida com menores prejuizos.
Facil? Nao, mas POSSIVEL.
Porem, ate entao, tudo que vi e muito triste e lamentavel.
Que Deus ilumine a todos nos tanto para que nao facamos julgamentos (apesar que nao consigui ser imparcial, sorry) e para que esta situacao tenha um desfecho saudavel.

Dani said...

Aninha,
Acho que a única saída plausível é mesmo uma transição a longo prazo. Concordo com você, mas ao contrário de muita gente, eu prefiro não opinar sobre o assunto, só postei aqui porque muita gente estava me cobrando um post sobre o caso. Então disse exatamente o que me passou pela cabeça, sem a intenção de fazer julgamento de carater de nenhuma das partes.
Só peço a Deus que o menino não sofra mais do que já sofreu e rezo para que jamais passe por uma situação destas, difícil demais.
Bjs

Ana Claudia Lintner said...

Sim sim, Dani, certa voce. Venho tentando nao expressar minha opniao a respeito da atitude dela, Bruna, mas nao podia deixar de exprimir meu sentimento de indignacao no que diz a respeito a "justica" dos homens.
Beijo

Isabella said...

Oi Dani, tenho acompanhado essa história por blogs e, uma vez, vi uma matária no Today Show. Nunca vi nada na imprensa brasileira e estou aqui no Brasil há 2 meses. Sabemos que quem tem dinheiro aqui ainda se safa de muita coisa, o que é absurdo. Tenho um filho de um casamento que não deu certo. O pai dele é frencês/americano e espero jamais ter que passar por uma situaçao dessa. Para o meu filho de 5 anos seria extremamente doloroso. Tb não julgo a decisão da Bruna e entendo perfeitamente a comparação que vc fez entre a vida que levamos no Brasil e a que levamos aí. Acho que temos perfis bem parecidos nesse caso. Eu me adpatei muito bem a vida aí e gosto daqui tb, claro mas que é diferente é...

Que esse menino não tenha que sofrer o resto da vida por decisões feitas à revelia dele...

bjs de Brasília : )

Dani said...

Isabella,
Obrigada pela visita e pelo ponto de vista equilibrado, o que tem se tornado cada vez mais raro neste caso.
Concordo inteiramente com você e sei que o dinheiro fala alto, infelizmente não só no Brasil, mas em todo lugar. (Talvez isto seja mais óbvio no Brasil, mas não acho que seja tão diferente assim no resto do mundo.)
O que me choca mesmo é como as pessoas ficam completamente cegas ao julgar este caso. Já vi gente sugerindo que o pai rapte o menino e o leve para o Consulado Americano e depois fuja de volta para cá! Gente, isto é o cúmulo! Este menino já sofreu demais. Claro que o pai biológico tem direitos, mas tirar o Sean de tudo que lhe é familiar do dia para a noite é no mínimo cruel. Acho que qualquer decisão tomada tem que levar em consideração o bem-estar do menino em primeiro lugar e qualquer transição tem que ser feita a longo prazo.
Bjs de Maryland!

Cristina said...

Dani, eu li uma notinha no Globo quando a mãe do menino faleceu, achei o fim pq justamente tenho vários filhos de amigos que nasceram lá e não imaginei que ainda se morresse de parto hoje em dia. Não sabia também da dimensão que o caso tomou - nos EUA, até pq o pai é americano e até nisso eles são extremamente nacionalistas. No Brasil, não sabia que o caso tinha tomado esse rumo. Sem querer opinar, pq não tenho base para isso, queria te dizer que a esposa de um amigo meu quase morreu na Perinatal às vésperas do ano novo e o parto da esposa de um colega foi muito difícil. O que está acontecendo???

Roberto said...

Obviamente as opiniões aqui são basicamente do ponto de vista das mulheres ou seja femininas, se fala com certa naturalidade que o Sean deveria ficar no Brasil ou com o pai. Recentemente temos visto alguns casos de mulheres que abandonaram seus bebês, mas que se arrependeram, e muito provavelmente recuperaram a guarda dos filhos.

Alguns tem criticado David, por ter exposto o filho, por causa das camisetas com o rosto do filho,etc..., mas eu como um pai brasileiro, tendo morado nos EUA entre 2001-2007, e com um filho morando na Florida e casado com uma americana, faria até mais para recuperar a "companhia" do meu filho, eu sinto falta do meu filho mesmo ele já com mais de 20 anos de idade.

Agora tudo, absolutamente tudo, que se tem comentando, em blogs, na imprensa, inclusive a adapatação do Sean ao Rio, o convívio com a família Brasileira, o possível erro do David de não aceitar as condições que a Bruna impôs para ele visitar o filho, ainda a vontado de Sean, nada disto ESTÁ ACIMA DO SEU DIREITO DE PAI (agravado agora com a falta da mãe), até por que não existe nada que que manche a conduta do David.

Eu tenho sinceramente pensado de que forma eu, como cidadão Brasileiro, poderia fazer alguma coisa a favor do David, que tem sofrido pelo "modus operandi" da justiça brasileira assim como a proteção que os L&S receberam de parte da imprensa brasileira, especialmente as organizações Globo.Esta em curso uma idéia minha de lançar um Website com um manifesto em favor do David.

Aguardem.

Rose said...

Olá,
Sempre leio alguma matéria sobre este caso. É mesmo muito triste.
Minha opinião:"o garoto deve voltar ao convívio do pai biológico." Sei que os avós sofrerão, mas eles criaram seus próprios filhos. Eles deveriam se por no lugar do tal "David". Imagine você ter que abrir mão de seu filho para um padrasto-viúvo de sua ex-mulher. Nem mais padrasto ele é. O único vínculo é sua meio-irmã. O pai é tão importante quanto a mãe. Sou mãe e posso dizer isto. Meu filho adora o pai. Eles se adoram. Não conheço nenhum envolvido, não sei do passado do pai americano, tampouco do padrasto. A família brasileira é rica, então, este caso se arrastará por anos...