September 13, 2008

Gente que faz

Todas as quartas-feiras do mês de setembro e a primeira quarta de outubro a Escola da Medicina da Universidade de Maryland abre suas portas à comunidade através de um programa chamado Mini-Med School, ou Mini-Escola de Medicina. É uma forma muito legal de "retribuir" à comunidade. Qualquer um pode se inscrever e durante duas horas o público assiste uma palestra sobre um tema interessante ligado à saúde. As palestras são voltadas ao público leigo, sem conhecimentos de medicina ou biologia.

Como a minha chefe este ano está apresentando o programa, todas as quartas estou lá para montar o nosso stand e divulgar nosso trabalho. É bem cansativo, mas muito bacana ver o interesse das pessoas e a alegria delas quando ficam sabendo que podem ser atendidas, mesmo que sem plano de saúde e mesmo fora de Baltimore.

Na semana passada o tema foi genética. A primeira palestra não vi, mas fiz questão de assistir a segunda, pois me pareceu superinteressante. Um fotógrafo nova-iorquino que tinha passado anos fazendo fotos de moda, depois de observar uma menina albina num ponto de ônibus em Manhattan, ficou encantado com a beleza exótica dela -- cabelos lindos e volumosos quase brancos, olhos quase vermelhos e pele alvíssima. Ficou intrigado com o que viu e começou a pesquisar a condição clínica dela. Depois de procurar livros a respeito, ficou chocado ao perceber que as fotos eram deprimentes -- os pacientes sempre constrangidos, tarjas pretas sobre os olhos, posições curvadas. Foi então que ele teve uma idéia -- quem seriam estas pessoas por trás destas fotos? Será que elas eram tão diferentes assim ou era só a sua aparência?

Rick então começou a fotografar indivíduos que vivem com albinismo em seu estúdio, usando sua lente poderosa e seu talento para mostrar ao mundo a beleza destas pessoas e os resultados começaram a aparecer logo. Estas pessoas, principalmente crianças, pela primeira vez sentiram-se especiais e amadas e orgulhosas de si mesmas. E logo Rick começou a fotografar outras condições genéticas, como síndromo de Down e outras condições ainda mais raras. Foi assim que nasceu a Positive Exposure.

Me coloquei no lugar daquelas crianças e imaginei a carga que elas carregam com elas. Eu tenho uma simples cicatriz na barriga e já passei há muito da infância, mas olhares curiosos nunca deixam de me acompanhar quando insisto em usar meu bikini. No início estes olhares me incomodavam bastante, hoje às vezes nem percebo. Mas com as criaças as coisas são bem diferentes, pois as outras crianças podem ser cruéis, e ser diferente, todo mundo sabe, não é fácil.

Então o trabalho do Rick se torna ainda mais importante, pois ele não só enxerga a beleza na diferença, mas faz com que nós mortais sejamos capaz de fazer o mesmo. Com a sua organização não-governamental ele ja viajou o mundo todo fotografando crianças portadoras das mais diversas mutações genéticas. Agora ele também faz palestras sobre esta diversidade. Muitas vezes a convite dos pais e até das crianças, visita escolas e sensibiliza outras crianças sobre a situação enfrentada pelos próprios colegas.

Um outro projeto do Rick é trabalhar com estudantes de medicina e enfermagem e tentar colocar estas fotos -- de crianças felizes -- no lugar das fotos deprimentes exibidas nos livros médicos.

O final da palestra fez todo mundo chorar. Ele mostrou um coral na África do Sul formado por crianças que tinham alguma deficiência física -- algumas eram cegas, outras albinas, outras não conseguiam se locomover bem e outras tinham problemas mentais -- mas todos cantavam maravilhosamente bem. O sonho destas crianças era participar do Festival de Corais, mas os organizadores não os deixavam participar por causa de suas deficiências. Mesmo assim, eles nunca pararam de ensaiar e um dia acabaram sendo conseguindo ir ao tal concurso como convidados. Este vídeo é de arrepiar! Eles começam cantando bela mais timidamente e aos poucos, ao ouvirem os aplausos da platéia vão se soltando. Era a primeira vez que cantavam na frente de uma platéia -- de 10 mil pessoas!!! O sucesso foi tão grande que no ano seguinte eles foram chamados para participar da competição e advinhem? Ganharam o concurso!!! A platéia em Baltimore delirou e muita gente, como eu, saiu enxugando as lágrimas.

É incrível como somos egoístas e sempre achamos que nossos problemas são os mais urgentes e mais importantes no mundo... Às vezes temos mesmo que levar uma chamada para colocar as coisas em perspectiva.

Quem tiver interesse em ver o portfólio do Rick Guidotti -- e eu recomendo muito!!! -- e saber mais sobre a Positive Exposure é só clicar aqui. Este vídeo também é o máximo.

1 comment:

Anonymous said...

Por que nascem albinos? É realmente mistura de raças?
Bjos,
MOM