July 24, 2009

O que Vem Depois

Ontem à noite finalmente tomei coragem e liguei para a Carmi. Queria deixar passar um pouco de tempo antes de falar com ela, deixar que a poeira se assentasse um pouco. Mas acho que no fundo queria mesmo era criar coragem, afinal o que dizer a uma mãe que perdeu o filho há pouco?

Tinha algumas coisas que queria muito dizer a ela, outras que queria perguntar, mas achei por bem esperar um pouco. Desde aquela manhã chuvosa em junho, foi a primeira vez que falei da ausência do Todd com ela. Muito embora eu tenha sido uma das primeiras pessoas a ver seu corpo sem vida, acho que no meu inconsciente ficou registrado que o Todd tinha voltado para casa, em Iowa para continuar a vida dele e realizar os tantos sonhos que ele tinha. Quando sentia a ausência dele e da Carmi naquele hospital, me fazia pensar que eles tinham voltado para as suas vidas de antes e que estavam muito felizes. Era meu mecanismo de defesa.

Mas ontem tive que finalmente encarar a verdade, a dura realidade da morte prematura de um jovem gentil e corajoso de apenas 28 anos. Pela primeira vez, ao ligar para a Carmi, a pergunta não foi “Como está o Todd?” mas sim “Como vai você?” E ela, com a sinceridade de sempre, me disse “Não vou bem não. Tenho dias melhores que outros, mas o vazio é enorme. Tenho tido dificuldade até em rezar. As noites são particularmente difíceis pra mim. As perguntas não me deixam em paz. Será que eu poderia ter feito mais? Será que houve algo que não percebi? Hoje recebi o atestado de óbito dele, mas um tapa na cara, mas uma incômoda lembrança da realidade de que não tenho mais meu filho comigo.”

E o que a gente diz numa hora destas? Não há consolo para estas coisas. Só pude dizer a ela que ela foi a melhor mãe do mundo e que fez tudo e mais um pouco. Disse a ela também que apesar da curta estadia dele aqui, o Todd fez muito, muito mais do que muita gente que viverá até os 80 anos vai fazer. Ele tocou o coração de pessoas que sequer o conheceram e amoleceu o coração já calejado de tantos médicos e enfermeiras. O Todd foi e será sempre especial, deixando um legado enorme de lições que vou levar pra sempre comigo. Ele me ensinou muito sobre generosidade, sobre amor ao próprio e sobre esperança. Até o final quis ser voluntário nas pesquisas clínicas “Quem sabe eu ajudo e um dia eles descobrem a causa e a cura para a leucemia?,” ele sempre dizia.

As pessoas são diferentes e encaram os problemas de diversas maneiras. Semrpe achei que as mais frágeis fossem os casos mais complicados, mas tenho visto que são as pessoas mais estoicas, mais firmes, as que precisam mais de colo, pois na verdade elas sequer sabem pedir socorro. A Carmi se encaixa perfeitamente no segundo grupo, é tão forte e tão preocupada com os outros que às vezes acaba esquecendo de si mesma.

Depois de alguns minutos ela confessa que está vivendo o luto de uma forma muito intensa. “Não perdi só o Todd. Eu agora não tenho mais vocês ao meu lado para me dar força,” ela diz, se referindo a Elizabeth e a mim. “Vocês foram a minha família durante todos estes meses e agora estou aqui sozinha. Pouco tenho visto minhas amigas de longa data, ainda não consigo sair por muito tempo. Vejo a Angie sempre, mas ela está sofrendo muito e não raro quem tem que consolá-la sou eu,” Carmi me explica com a voz embargada.

Pela primeira vez contei à Carmi sobre o blog e disse a ela que as muitas pessoas no Brasil que rezavam pelo Todd agora rezam por ela. É inacreditável quantas pessoas me perguntaram sobre eles durante a minha visita ao Brasil. Disse a ela também que o Todd apesar de tudo teve sorte de vir ao mundo cercado de tanto amor. É claro que muito disto era mérito dele, mas ele teve sorte de ter pais e irmãos que não mediram esforços para estar junto a ele, o que infelizmente não acontece com todo mundo. Ela concordou. Prometi à Carmi que ficaria em contato e que se por algum motivo visitasse o meio-oeste americano, avisaria a ela, que prometeu me encontrar.

Consegui conter minhas lágrimas durante a meia-hora que conversei com ela, mas ao desligar o telefone, desabei. Acho que pela primeira vez, desde aquela fatídica quinta-feira, entendi que meu amigo não está mais aqui. Nem aqui, nem em Iowa, nem em nenhum lugar onde eu possa vê-lo. Nem eu, nem seus pais, nem seus amigos, nem ninguém. Claro que eu sei que ele está num lugar muito melhor, mas isto não me impede de sentir muito pela família dele, pois se eu tenho a estranha e covarde opção de pensar que ele se mudou e não quis deixar endereço, a mãe dele tem que lidar com este enorme vazio a cada dia e para sempre.

A única esperança que tenho é que um dia esta dor da Carmi se transforme em saudade e não a sufoque tanto. Ontem ao ler o perfil de uma antiga vizinha no Orkut notei uma estranha coincidência, pois há dias vinha pensando em como a Carmi poderia superar esta perda. Pois o filho desta antiga vizinha era meu amigo de infância e morreu num acidente estúpido andando de bicicleta, aos 15 anos. Eu deveria ter uns 10 ou 11 anos e foi a primeira vez que escutei a palavra morte e tive que lidar com algo assim tão próximo a mim. Me lembro que a minha mãe não me deixou ir ao enterro, pois queria nos poupar daquilo, mas até hoje me lembro daqueles diase da tristeza que se abateu por toda a vizinhança. O tempo passou, a família se mudou do Rio mas sempre me perguntei como os pais dele enfrentaram aquela perda. Ontem coincidentemente tive a resposta ao ler a página da mãe do meu amigo no Orkut. Ela dizia:


"Temos 2 filhas, 5 netos e 2 genros, restando a saudade e não a tristeza de 2
outros filhos: uma recém-nascida, que nasceu muito doente, só viveu 1 mês e
meio; outro, Júnior que nos deixou após trágico acidente. Esse fato abalou-me
profundamente. Após o nascimento do meu 1º neto, fui tocada por Deus de novo,
readquirindo uma Fé, uma compreensão e uma vontade muito grande de me reerguer .
Hoje essa Fé me transformou e mostrou a realidade da vida, recuperando a minha
auto-estima e a alegria de viver."


Espero que, assim como a minha antiga vizinha, a Carmi também possa readquirir sua fé e sua vontade de viver. Rezo para que seja em breve.

5 comments:

erika said...

ai Daninha.. faz isso comigo nao... assim eu choro toda vez q entro no seu blog... to aqui tentando segurar, pq afinal de contas fico tentando ser forte com os meus "fantasmas" pessoais tb. Q Deus abencoe essas familias, inclusive aquelas q vi tao de perto e tenho visto todo dia no hospital. Ontem mesmo perguntei cade aquela moca na UTI q estava entubada e tinha um irmao e uma mae tao bacanas? - Faleceu, me responderam. Hoje fui la de novo ver meus medicos e tal e perguntei sobre a transplantada de apenas 28 anos com a qual conversei essa semana e estava bem revoltada com as dores, etc. - Esta muito grave e entubada, me respoderam.

Sorrio e peco a Deus q tudo de certo pra mim,minha mamy, pra essas familias e pra esses pacientes, mas continuo tentando me segurar, pq se eu desabar, tenho ate medo. Tanto sofrimento sabe... Minha valvula de escape eh criar um escudo contra as emocoes e sentimentos q tentam me assolar.

E nisso, os dias vao passando e dou gracas a Deus q o tempo existe.

beijos amiga!

Dani said...

É muito duro, Erika, duro demais, mas não há nada a fazer a não ser rezar. Não sufoque seus sentimentos não! A minha experiência é de que quanto mais escondemos nossos medos, mais eles nos perseguem. Peça ajuda, peça socorro, peça arrego se precisar. Você e sua mamy estão nas minhas orações. Admiro muito a coragem e a força de ambas!
Bjs

jorge henriques said...

Olá,é a segunda vez que aqui entro espero nâo incomodar .Ao ler o post anterior deu-me vontade de comentar mas nâo fui rapido o suficiente e quando aqui cheguei já havia outro post.
Para mim é tambem muito dificil de aceitar o drama de pessoal jovem ser atacado pelo cancer e partir sem ainda ter tido a possibilidade de gozar a vida noutros casos deixando os filhotes ainda muito pequenos é como diz muito duro e infelizmente o numero destes casos é enorme .
Ultimamente tenho lido sobre uns quantos casos que apos um diagnóstico muito mau os doentes optaram por modificar a alimentaçâo (nada de leite e derivados e carne vermelha) e o resultado foi a remissâo do cancer situaçâo que parece intrigar a comunidade médica ,gostaria de lhe perguntar se aí pela USA esta posiçâo em relaçâo ao nâo consumo do leite por parte de quem tem cancer é algo que é falado ou nâo?
fique bem...
jorge

erika said...

Menina, foi mal o desabafo online.. eh q como vc me entende bem, me sinto mais confortavel de te escrever isso. Mas Deus me da forcas pra ir pensando positivamente. Q bom!

Obrigada pelo seu carinho. Beijos.

Dani said...

Jorge,

Aqui nos EUA muito se fala sobre os efeitos da alimentação na saúde. Eu mesma, depois de algumas pesquisas, resolvi deixar de comer carne e tomar leite e só comer frutas e verduras orgâncias. Mesmo que ainda não existam muitas pesquisas para comprovar isto, todos os médicos, nos EUA e no Brasil, com os quais debati o tema, aprovaram minha atitude. Alimentação mais natural possível, sem aditivos químicos, conservantes e corantes. Sei que é difícil, mas procuro me controlar bastante. Melhor prevenir do que remediar!
Boa sorte e obrigada pela visita!