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January 22, 2009

Melhor Notícia dos Últimos Meses

Em tempo...

A MINHA AVÓ RUTINHA ESTÁ EM CASA!!!!

Com tanta coisa acontecendo, deixei de postar aqui esta notícia muito importante e dividir uma alegria ENORME com vocês, que acompanharam de perto o meu sofrimento e aturaram meu choro desde setembro do ano passado, quando a minha avó teve complicações depois de um procedimento cardíaco.

Depois de mais de quatro meses de hospital, sendo três no CTI, ela ainda requer bastante cuidados como enfermagem 24 horas e inúmeras sessões de fisioterapia. Sabemos que a recuperação vai ser longa e às vezes árdua, mas temos certeza que o pior ficou para trás. Uma grade vitória para ela e para todos nós.

Se alguém duvida que milagres existem, precisa conhecer a minha avó! Depois de uma hemorragia no coração, uma embolia pulmonar, outro sangramento enorme no retopereitônio e uma bronco-aspiração, ela continua viva e mais lúcida do que nunca. Agora só falta voltar a andar.

Obrigada por cada oração, por cada pensamento positivo, por cada cometário deixado aqui e por cada email enviado. You guys rock!

December 1, 2008

Luz no Fim do Túnel

Hoje minha mãe me acordou com uma notícia ótima: a transferência da minha avó para a unidade semi-intensiva finalmente foi autorizada, o que quer dizer que ela já está respirando sozinha e que a família vai poder ficar com ela muito mais tempo! Agora é só rezar para que um leito seja liberado logo.

Falei com a minha avó ontem. Minha tia me ligou do hospital e colocou o telefone no ouvido dela. Fiquei lá enchendo os ouvidinhos dela de abobrinhas mas ela pediu que eu continuasse falando. Avisei a ela que falta pouco para eu chegar no Brasil e que quer vê-la fora do hospital no Natal. Avisei que já tinha comprado o vestido e as lembrancinhas do batizado e que ela precisava estar lá. Pedi para que ela reunisse todas as suas forças nesta etapa final da maratona. Parece que ela escutou nossos pedidos. Se os médicos autorizaram um horário de visita mais extenso pois achavam que o estado de saúde dela tinha estagnado, agora devem ter certeza da importância da família junto ao doente no CTI. Isso deveria ser lei!!!! O fim do horário de visitas limitado em CTIs. Aqui nos hospitais dos EUA, as visitas em CTI são liberadas a qualquer horário. E sabe como é americano, tem que basear tudo em evidências, então os estudos comprovaram que o paciente se recupera mais rápido quando têm a família ao lado. Antes que alguem processasse, os hospitais acharam melhor ser mais flexíveis.

Agora espero que ela consiga falar conosco em breve. Se não me engano, em pouco tempo começa tudo outra vez, eles vão fechando a traqueostomia aos poucos com muita fisioterapia e fono. A psicóloga continua indo lá, pois a maioria das pessoas tem achado a minha avó um pouco deprimida, afinal já são 70 dias de CTI, quem não estaria se sentindo assim no lugar dela?

Mas ao que tudo indica, meu presente de Natal está a caminho... Este fim de semana armamos a árvore e recebemos o sofá e o tapete da sala. Depois coloco fotos aqui. Agora é rezar para as coisas continuarem progredindo... Chega de sufoco!!!

November 28, 2008

Revolta

Uns dias me bate uma revolta enorme só de pensar no que está acontecendo com a minha avó. Só de pensar que ela está no CTI há quase três meses e os supostos médicos, que supostamente são seres humanos, proíbem que a família fique com ela mais de uma hora por dia. Dizem que não podem abrir exceções, que são as regras. Que regras? E onde fica o tal Juramento de Hipocrátes que eles fizeram? Salvar vidas a todo custo? Não é isto que tenho visto.

Sempre que um médico vem com estas explicações ridículas pra mim, eu peço lincença e o coloco em seu devido lugar. Tudo bem que ele sabe tudo sobre medicina, ou pelo menos acha que sabe, mas são poucos os médicos que pensam no paciente e na família como seres humanos também.

Quando um médico tem a cara de pau de me dizer que drenagem pleural não dói, eu olho bem para cara dele e pergunto: "Já fizeram em você? Você já sentiu aquela agulha penetrar lá dentro? Então, sinceramente você não sabe do que está falando, pois a gente só entende quando dói na nossa pele."

Hoje depois de muita insistência, o médico do CTI autorizou permanência de um acompanhante com a minha avó durante seis horas por dia. O que os senhores doutores resolveram entender é o que qualquer ser humano com um mínimo de bom senso e sensibilidade sabe desde que o mundo é mundo: o paciente precisa ter a família ao lado durante a recuperação. A minha avó já está no CTI há dois meses e meio, já está cansada e se sente extremamente só, afinal passa 23 das 24 horas do dia deitada num leito de CTI sem poder falar, enxergando pouco e cheia de dores.

Uma parte de mim fica mais tranqüila porque finalmente ela vai ter a família junto dela por mais tempo. Outra parte de mim é só revolta, por que só agora estes médicos atenderam nosso pedido? Por que tanta demora em aceitar uma reivindicação tão justa quanto urgente???

November 23, 2008

Calendário do Advento


A neve deu uma trégua este fim de semana mas o frio continua de lascar. O povo anda dizendo aqui que o inverno será bem rigoroso. Mal posso esperar!!!!

As notícias da minha avó melhoraram um pouco hoje. Na semana que passou ela apresentou um quadro típico de depressão e desânimo, afinal já são 66 dias de CTI! Meu grande medo é que ela se "desconecte" do mundo aqui fora e desista. Mas acho que as fotos espalhadas pelo box dela (mesmo que ela não veja) estão ajudando, pelo menos servem para que os enfermeiros e médicos tenham assunto com ela e a façam lembrar de que tem muita gente esperando por ela fora daquele hospital.

Sexta-feira andando pelo supermercado vi um Calendário do Advento, muito comum na Alemanha, e lembrei da minha avó na hora. Ela ama Natal e sempre que encotrava, comprava um destes calendários, pois eles a faziam lembrar da infância dela, neta de alemãs. Achei a calendário perfeito para a ocasião e amanhã mesmo vou mandar pelo correio com um cartão pedindo que ela se lembre de mim a cada janelinha aberta e dizendo a ela que vamos abrir as últimas janelinhas juntas e em casa, onde ela vai estar, se Deus quiser, neste Natal.

Já prometi a todos que este será o nosso melhor Natal -- todos juntos saudáveis e felizes com a recuperação da minha avó e a chegada mais que esperada da Kika.

November 20, 2008

Y Así Pasan Los Días...

E a semana está passando voando e fico até tonta de vez em quando. Jurava que hoje era quarta, mas falei com a minha mãe de manhã que disse que hoje era feriado de Zumbi no Rio e como era quinta, muita gente tinha viajado.. .Quinta?! Como assim quinta? Achei que ontem fosse terça!!! O bom é que amanhã é SEXTA!

As notícias da minha avó pouco mudaram. Ontem ela esteve muito sonolenta e os médicos vão mudar um pouco a medicação. A esta hora meu avô e meus tios estão lá com ela. As minhas primas, por conta do feriado, também foram dar uma passada lá. Segundo o médico, ela estava bem disposta hoje e mais forte por conta da transfusão que tomou ontem. Ainda no tubo e resistente a desvencilhar-se dele... Uma pena, mas quem sabe hoje o quadro muda um pouco. Pediu também menos visitas, pois como só tem uma hora por dia, quando entram muitas pessoas, ela acaba não falando ou vendo ninguém direito.

A minha mãe, atendendo ao meu pedido, encheu o box da minha avó de fotos e comprou uma lousa branca para que a minha avó possa escrever com um pilot, que é mais fácil de manusear do que uma caneta comum. A primeira frase que a minha mãe escreveu foi "TE AMO". Ela disse que a minha avó leu e disse (ou melhor, movimentou os lábios) TAMBÉM!

É muito difícil ouvir tudo isto de tão longe. Saber que ela está lá sofrendo e que nem um beijo nela posso dar. Mas tenho mandado cartões e ligado sempre. E se Deus quiser, em menos de um mês nos veremos, já em casa.

As orações continuam mais fortes do que nunca para que a minha fé, que de vez em quando enfraquece, seja sempre renovada.

November 18, 2008

Minha Avó Ainda...

Já faz mais de dois meses que a minha avozinha está no hospital, com exceção de uma semana, tem passado cada um destes dias sozinha no CTI. Nem posso imaginar a solidão que ela está sentindo. A minha mãe e a minha irmã outro dia disseram que ela estava desanimada. Meu avô concordou. Hoje, a minha avó estava irritada, segundo elas.

Sei que é normal dentro do quadro dela, mas o meu maior medo sempre foi que ela desistisse e ela ainda existe, afinal a melhora tem sido lenta e a recuperação bemn conturbada. Este tempo todo no CTI tem suas conseqüências... Nestas horas tenho vontade de matar os incompetentes do outro hospital!!! Como puderam alimentá-la depois dela ter apresentado um quadro de vômito?

Depois de uma semana no quarto votar para o CTI é um golpe na auto-estima e na esperança de qualquer ser humano. Comparada à situação dela, minha passagem de cinco dias em 2002 e nem dois em 2008 foi meteórica. Meteórica mas extremamente traumatizante. Só quem já viveu isto sabe.

Outro dia quando me consultei com a minha nova médica aqui, expliquei a ela que sentia uma dor insuportável no peito a cada vez que me lembrava da minha avozinha no CTI. Imaginava a sala vazia e fria e a solidão que ela deve estar sentindo. Uma sensação real. Parece que é em mim.

A médica explicou que isto é natural, que é muito difícil ver alguém que amamos tanto sofrendo assim, mas no meu caso a situação é um pouco mais complicada por conta da minha própria vivência. Só em pensar na agonia da minha avozinha lá, faço uma viagem no tempo e visito um período que foi tenebroso para mim. A solidão do CTI ainda é ampliada pela falta de certezas e perspectivas que o paciente tem – não há prazos, não há garantias. E a minha avozinha teve todas as complicações possíveis, mas continua lá lutando há DOIS MESES.

Estes dois meses têm sido dificílimos para mim. De longe há muito pouco que se possa fazer e, com a minha avó no CTI, nem a minha família que está perto pode passar muito tempo com ela. A questão cruicial é a respiração dela, pois desde a broncoaspiração ela ainda não conseguiu se desvencilhar do respirador, e suspeita-se que as causas psicológicas sejam até mais fortes do que as físicas, já que os exames do pulmão dela estão bons.

Hoje, durante uma reunião de trabalho conversei com uma senhora cuja mãe, de 86 anos, passou pelo mesmo problema que a minha avó. Ela me mostrou fotos – CTI, tubos, traqueostomia, etc... E sabe o que ela me disse que tirou a mãe dela do CTI em uma semana? Fotos! Fotos da família e fotos do bichinho de estimação dela... No fundo, acho que já tem tanto tempo que a minha avó está sozinha que ela se sente desconectada, longe de tudo e de todos, distante da vida que levava. Liguei para a minha mãe e pedi para que ela e toda a nossa família levasse fotos de nós e da gatinha da minha avó, que ela ama de paixão, quem sabe assim não conseguimos que ela volte para a gente mais rápido?

Como acredito muito no poder da oração e do pensamento positivo, peço a todos vocês que me visitam aqui, que hoje lembrem da minha avó Rutinha e mandem pensamentos, orações e vibrações positivas para ela.

November 7, 2008

50 Dias

Não consigo nem acreditar que hoje faz 50 dias que este pesadelo começou. Que a minha avozinha Ruth, que antes desta ablação cardíaca estava ótima de saúde, não consegue falar nem respirar sozinha. Nunca pensei que doesse tanto pensar nela aqui de longe.

Hoje conversei com a Andressa que disse que sempre que ouve falar na Kika a minha avó chora... A Chiara faz quatro meses semana que vem. Da última vez que a minha avó pode segurá-la no colo ela tinha dois. A minha avozinha já perdeu metade da vidinha da bisneta que ela tanto queria conhecer. Mas Deus é grande e maior do que tudo. Maior do que a negligência dos enfermeiros que deixaram com que escaras enormes tomassem conta do corpo cansado da minha avozinha. Maior do que a incompetência médica que deixou que ela se alimentasse um dia inteiro depois de ter vomitado durante à noite, causando a broncoaspiração. Deus é maior do que a minha revolta e só Ele é capaz de atenuar a minha dor.

Falei com meu avô Fernando também que lembrou que está há cinqüenta dias sozinho em casa sem a companheira de 60 anos. Ele disse que hoje levou duas páginas batidas à máquinha e afixou perto do leito dela no CTI. Uma diz "Tenho escaras nas costas, por favor me vire a cada 30 minutos." A outra diz "Por favor, não esqueça de pingar meu colírio às 10h da manhã e às 10h da noite."

Me corta o coração só de imaginar a cena. A minha avozinha é superarticulada, agora sequer falar pode. Ela também está reclamando da visão, pois só submeteu à esta bendita ablação para fazer a outra cirurgia de catarata. Sempre devorou livros e jornais vorazmente. Hoje sequer televisão consegue ver.

Sei que não devo ficar pensando nisto, mas é quase impossível achar graça em algo quando uma das pessoas que mais amamos no mundo sofre de uma maneira assim. Só peço a Deus que as escaras melhorem, assim como os pulmões dela para que ela possa logo ir para o quarto, e que desta vez saia de lá para casa. Já passou tempo demais...

Só peço que desta vez a melhora dela seja contínua. E que Ele continue ao lado dela, dando-lhe força e coragem.

November 6, 2008

Poucas notícias

Ainda sem muitas novidades sobre a minha avó. Esta agonia já dura sete semanas. Parece uma eternidade. Sinto como se a minha vida inteira estivesse congelada num momento ruim e mundo continuasse a girar a minha volta. É muito difícil manter a cabeça funcionando quando o coração está tão apertado, mas nunca fui de desistir, então não seria agora.

Como sei que muitos acabam aqui no blog ao buscar informações sobre câncer, vou fazer uma lista de sites bem legais onde se pode encontrar informação sobre a doença. Vou incluir também informações sobre testes clínicos, pois ao contrário do que acontece no Brasil, aqui nos EUA há muitos deles.

É importante dizer que teste clínico, como diz o nome, é teste e não promessa de cura. Mas infelizmente em muitos casos pode ser a última opção. Felizmente há várias pessoas que estão vivas hoje porque arriscaram, mas há muito que deve ser pensado e questionado antes de se tomar uma decisão destas. Num post futuro, explico melhor. Agora mesmo vou sair para uma reunião sobre o tema.

Peço a todos os amigos que passam por aqui sempre que continuem mantendo a minha avó tão querida e tão valente em suas orações, pois não tenho dúvidas de que elas têm grande poder.

November 5, 2008

Novos Ares

Este é um dia diferente aqui nos EUA. Um dia que muitos acharam que jamais seria possível. O dia em que os americanos elegeram seu primeiro presidente negro. No Brasil, Obama seria chamado de mulato, pois é filho de mãe branca e pai negro e foi criado numa família de classe-média branca, mas aqui nos EUA, quem tem uma gota de sangue negro, negro é. E Obama não seria exceção.

Dizer que raça não teve um papel importante nestas eleições é querer tapar o sol com a peneira. O próprio Obama admite que houve quem votasse nele por causa da cor de sua pele, assim como houve gente que descartou sua candidatura de cara pelo mesmo motivo. Mas olhando bem para os números, o candidato democrata venceu praticamente em todas as faixas demográficas. Os negros se uniram em torno de seu candidado pela primeira vez na história, mas Obama foi além, despertou a paixão em jovens até então apáticos e conseguiu motivar eleitores que jamais tinha exercitado sua cidadania. Ele foi ousado na campanha, equilibrado nas palavras, e conseguiu cavar seu nicho galgando a posição de homem mais poderoso do planeta. Grande mérito.

Difícil foi não sentir por John McCain, herói de guerra e senador respeitado, que teve o sonho da presidência sepultado por Bush não uma, mas duas vezes. A primeira ao perder a nomeação republicana em 2000 e a segunda agora em 2008, porque, convenhamos, depois da lambança de Bush, a chapa republicana nunca teve a menor chance de vitória nestas eleições. McCain foi gentil e classudo até o final, pedindo a todos que se unissem em prol de um país melhor e colocando-se à disposição do novo presidente eleito. Foi sincero, afinal o senador tem um histórico conciliador. Mas foi justo este McCain que os eleitores pouco viram durante a campanha, pois o senador do Arizona sempre foi um republicano moderado, mas tentando agradar os caciques mais conservadores do partido, no final acabou pendendo para a extrema direita e o resultado vimos ontem. Os republicanos moderados e os independentes não gostaram da mudança e mostraram isso nas urnas. Foi uma pena John McCain ter perdido sua essência e o discurso de ontem marcou uma volta a ela. Foi o melhor discurso de McCain em muitos anos.

O futuro do Partido Republicano é mais incerto do que nunca, já que eles não só perderam as eleições presidenciais, mas vários assentos no Senado e na Câmara. Como disse um velho político de New Hampshire, o que houve foi um “tsunami democrata”. Quem sabe não está na hora do partido rever seus conceitos? Isto só o tempo vai dizer.

O que vi ontem e continuo vendo hoje é um sentimento bacana que tomou conta das pessoas que acham que tudo é possível, lema da campanha de Obama “Yes, we can”. Ontem foi um dia histórico não só para os eleitores de Obama, mas para todos os americanos, não só para os americanos mas para todos nós. Quem sabe agora o mundo vai começar a enxergar os EUA como o país extraordinário que é? Há muito tempo venho dizendo para o Blake que o Obama é a prova de que o nosso filho também pode chegar lá, afinal os latinos pela primeira vez passaram os negros como a minoria mais numerosa nos EUA. Coisa de americano sim, mas a verdade é que para as minorias, nas quais me incluo, os horizontes nunca pareceram tão amplos.

E voltando ao tema do post, novos ares e uma grande virada é o que desejo à minha querida avozinha, que agora foi transferida para um outro hospital, onde esperamos que ela vá receber cuidados específicos para os problemas mais recentes. Que a mudança seja muito positiva para ela e que em breve ela saia do CTI e volte logo para casa. Oito semanas de batalha, mas ela continua firme e resoluta. Yes, she can!

November 4, 2008

Alma partida

Hoje me bateu uma saudade absurda da minha avó. Em pensar que na quinta-feira passada conversamos animadas ao telefone e hoje ela não pode nem falar me corta o coração.

Foi tão bom ouvir a voz dela firme e segura. Apesar da distância, pude senti-la tão perto de mim, tão alerta, tão doce, tão ela. Imaginei que dali para frente tudo fosse ficar melhor. Cheguei a pensar que a partir de então iríamos conversar todos os dias. Ela perguntou sobre minha casa e disse que depois de recuperada iria me visitar. Pois é, depois de passar este perrengue sem tamanho, ela disse que não tem mais medo de nada. Nem de avião! Reclamou também da comida que tinha agora uma textura e um gosto diferentes. Disse que nem água tinha mais o mesmo sabor, culpa do tal do espessante. Eu disse a ela que a sua hora ainda não tinha chegado e era só questão de tempo para que ela voltasse para casa. Deus a queria perto da gente, insisti.

Confesso que as notícias de sexta, véspera do meu aniversário, me quebraram um pouco, foram um golpe covarde no meu coração já tão calejado. Procuro não pensar muito no sofrimento da minha avozinha, mas lá no fundo eu sei bem, faço idéia do que ela tem passado. Mas apesar de tantos obstáculos e tantas dificuldades, ela não desiste...nem eu.

Advogado do Paciente


Sei que muita gente deve passar hoje aqui para saber um pouquinho sobre as eleições americanas. Eu mesma fico pensando no quanto a minha vida mudou desde 2000, quando acompanhei sozinha do meu apartamento no West Village, grudada na TV, a eleição mais que contestada de George Bush. Virei a madrugada tentando entender a bagunça eleitora. Hoje vai certamente ser um dia de flashback.

Mas muito mais importante do que as eleições presidenciais americanas para mim é a saúde da minha avó – perdoem-me o egoísmo. Estes últimos dois meses têm sido de um sofrimento fora do nornal para toda a minha família. Mas é no sofrimento que a gente cresce e sempre há uma lição a ser aprendida.

No caso da minha avó, a minha teoria de que o paciente tem que ter advogados atuantes dentro da própria família se comprova a cada dia. Os médicos são na maioria muito bem intencionados, mas muito ocupados e excessivamente racionais. Até pela natureza do trabalho e pelo treinamento que recebem, precisam manter uma certa distância do paciente e de seus familiares. Então cabe aos familiares desempenhar esta função de advogado, de porta-voz do paciente, que na maior parte do tempo está impossibilitado de expressar sua opinião.

A minha avó usa todas as forças para lutar, tem muita garra para viver, mas tenho plena consciência que ela também tem a sorte ao seu lado. Tem muita gente atuante de olho nela. Ela já teve praticamentes todas as complicações listadas nos livros médicos, mas por incrível que pareça, muitas vezes fomos nós, os familiares, que alertamos a corpo médico para uma situação extrema.

Foi assim quando ela teve a embolia pulmonar. O quadro apresentava melhora, mas no dia seguinte ela estava muita agitada. Os enfermeiros diziam que a falta de ar dela era causada pelo stress, mas nós sabíamos que não. Resultado: embolia pulmonar.

Uma semana depois, ao entrar notei que a pressão dela estava alta, 19,0x10,0, ou coisa parecida. Ao sair, comentei com meu pai, que entrou em seguida e notou que a pressão dela tinha caído bruscamente para cerca de 8,0x4,0. De novo os enfermeiros e a médica suspeitavam de emoção stress, mas por sorte e insistência minha que liguei para o médico do meu celular, o cardiologista dela foi acionado. Resultado: hemorragia ocasionada por sangramento do retoperitônio. Quadro perigosíssimo.

Na última sexta-feira a mesma coisa... Ela começa a se agitar e acaba vomitando muito, mas em vez de virarem a paciente de cabeça para baixo, os médicos aguardam... O resultado veio quase 24 horas depois: broncoaspiração e infecção pulmonar. Depois de dez dias no quarto e em plena recuperação (já sem sonda e traqueo), ela volta para o CTI.

Difícil não desanimar com uma notícia destas, ainda mais sabendo que ela tem outros problemas que precisam de tratamento urgente e que só podem ser realizados uma vez que ela deixar o CTI. As escaras que lhe causam tanta dor são prioridade. Não sei se algo poderia ter sido feito para evitá-las, mas o fato é que estão lá enormes e lhe causam um mal-estar terrível. Só depois que a minha mãe levantou o problema, os médicos disseram que iriam fazer um tratemento mais agressivo. Não sei se fariam o tratamento de qualquer maneira, ou se precisavam dar uma resposta à minha mãe.

Longe de mim querer culpar médicos e enfermeiros, pois a maioria deles encara seu trabalho como verdadeiro sacerdócio, mas NADA absolutamente NADA substitui a presença e a atuação da família numa situação destas.

Por questões culturais, nós brasileiros, vemos médicos como verdadeiros deuses, não questionamos sua autoridade ou suas opiniões. Longe de mim querer desafiar o conhecimento científico deles, mas acho que a opinião de um leigo bem informado e que tem a saúde do familiar como maior interesse tem que ser ouvida e respeitada.

Na condição de paciente vivi e ainda vivo isto na pele. Tenho perguntas e preciso de respostas. Hoje já não tenho mais vergonha de exigí-las. E é por isto que ligo para o Brasil mil vezes ao dia e peço que a minha família faça o mesmo: questione, sugira, desafie e mostre total compromisso com a saúde da minha avó. Isto é o mínimo que podemos fazer por ela.

October 27, 2008

Boas notícias


Sei que tem um tempinho que não tenho falado da minha avó, mas como dozem por aqui "no news is good news." No caso da minha avó é verdade. No final da semana passada, ela enfim pôde ir par ao quarto onde vai ficar por mais alguns dias. A incrível coincidência foi ela ter saído do CTI no dia 22 de outubro, quando a família toda comemora o sucesso da minha cirurgia e meu segundo aniversário. (Por estas contas tenho meros seis aninhos!!!)

Mas voltando à minha avó, pelo que me dizem, ela se recupera muito bem e, fora uma escara nas costas, não tem reclamado de dor. O buraquinho da traqueostomia continua lá, mas vai fechando aos poucos e ela tem uma rotina intensa de fonoaudiologia e fisioterapia, afinal foram CINCO semanas de CTI. Inacreditável! A minha avó é Highlander mesmo!

Ontem minha mãe me ligou do quarto do hospital e pela primeira vez pude ouvir a voz da minha avó. Fiquei muito emocionada. Ela ainda fala com uma certa dificuldade e para que possa emitir sons o buraquinho da traqueostomia precisa ser tampado. O pessoal da família já se acostumou com a leitura labial, mas eu aqui de longe preciso ouvir a voz mesmo. Falei mais do que escutei, mas consegui dizer a ela o quanto a amo e a admiro e sei que desta vez ela me ouviu.

Quando parei para pensar, notei que fazia um mês e meio que não falava com a minha avó, coisa que nunca aconteceu antes. Mesmo morando longe, sempre nos falamos pelo menos uma vez por semana e agora com o Skype Phone nos falávamos quase todos os dias. Foi duro, mas passou e se Deus quiser em algumas semanas vamos voltar a nos falar por telefone sempre. Ainda não se tem uma data exta para a alta médica, mas tudo indica que aconteça dentro das próximas duas semanas.

É realmente um alívio e se eu pudesse pegaria um avião e iria ao Rio agora par aconferir tudo com meus próprios olhos. Mas quem mora longe e trabalha realmente não pode se dar este luxo, mas tudo bem, no Natal estarei lá firme e forte.

Depois posto mais fotos da casa nova e falo sobre o Scientific Forum que saiu até no jornal local.

Agora está na hora de voltar ao trabalho...

October 14, 2008

Correria

Parece que tudo acontece ao mesmo tempo. Estamos praticamente acampados em casa -- o Blake já encaixotou a casa toda -- dormindo num colchão no quarto e comendo pizza e sushi porque não temos pratos, e as coisas no trabalho pipocando para todo lado. Pois é, quem mandou deixar o Blake sozinho na cozinha? Acabou empacotando tudo, sorte a minha ter lembrado de avisá-lo para ficar LONGE do meu armário! Caso contrário estaria vindo trabalhar de pijama...

No meio deste caos doméstico, o trabalho não fica atrás. Em uma semana tenho que ter impressos e em mãos nosso novo panfleto (quer terá fotos da família Machado Duran, mas isto é assunto para outro post!), a newsletter e a lista dos médicos aqui da Universidade que lidam com medicina comunitária! Como a minha chefe está fora, vou ter que aprovar tudo sozinha... Ai, ai, ai!

A melhor notícia de todas é que a minha avozinha está sentada agora. Dá para acreditar? Já estão removendo todos os catéteres e dentro em breve a traqueostomia deve ser fechada e ela deve subir para o quarto dentro de alguns dias.

Não disse que milagres acontecem?

Mas enquanto não ganho na loteria, o melhor a fazer é voltar ao trabalho!

October 10, 2008

Boas notícias

A agonia inicial agora vai dando lugar a um pouco de alívio e a muita alegria, já que a minha avó aprensenta melhoras substanciais a cada dia. Ela ainda está na UTI, ainda está traqueostomizada e por isto não pode falar, mas já articula as palavras, faz perguntas, pedidos e obviamente reclamações que a minha família tenta entender por leitura labial.

Pois as primeiras perguntas dela foram -- não sei a ordem:

"A Dani já foi?" -- Então disseram a ela que infelizmente eu não havia podido esperá-la sair do CTI, mas que estava sempre me comunicando com o resto da família. Ela entendeu.

"O Eurico Miranda morreu?" -- Dá para acreditar numa coisa destas?! Uma senhora octagenária sai do coma induzido após três semanas e faz uma pergunta louca dessas?! A resposta deveria ter sido "O Eurico Miranda está bem vivo... Já o Vasco..." Mas como o coração da minha avó já passou por muitas nas últimas semanas, resoveram dizer para ela que o Eurico estava vivo, e só. Afinal das contas, vaso ruim não quebra!

"Quero companhia. Quero gente o tempo todo. Ficar aqui é horrível!" -- I hear you, grandma, I hear you. Só quem já passou uma temporada no CTI sabe como é triste ficar naquele lugar, onde as horas não passam... O horário de visita é restrito e ficar lá entre outros moribundos é muito deprimente... Como fiquei lúcida a maior parte do tempo, ficava fazendo mil contas na minha cabeça. "Agora são sete horas, o pessoal já deve estar se aprontando pra sair de casa. À uma e meia, devem estar almoçando... Nossa já passa das cinco, a esta hora já devem estar saindo do trabalho... E eu aqui, sozinha deitada nesta cama sem me mover, um, dois, três, cinco dias..." A minha avó já está no CTI há mais de três semanas. Bem verdade que até o início desta semana, ela alternava momentos de lucidez e momentos de inconsciência por conta da forte sedação, mas agora ela já está completamente acordade e 100% consciente, então já vai ficando um pouco irritada, com toda razão.

Pena que não posso estar com a minha avozinha agora, mas ao menos as notícias são muito animadoras. A saúde e a personalidade dela aos poucos voltando e a gente já pode notar que a nossa avozinha está de volta. Ontem mesmo ela queria que a minha prima chamasse o Dr. Léo, que ela soube ser solteiro, para um café. Pois é, continua firme na missão de recrutar um médico para a nossa família.

Quando digo que a minha avó não existe...

October 9, 2008

Médicos de verdade

No meio desta confusão toda, esqueci de deixar registrados alguns fatos importantes. A minha ida ao Brasil foi um presente inesperado da minha chefe aqui, workholic total, mas que sempre coloca a família em primeiro lugar. Quando expliquei a minha situação a ela, sem nenhuma expectativa, ela olhou para mim e disse: "E o que você está fazendo aqui que ainda não foi pra casa? Se fosse a minha avó, eu já estaria lá." E no dia seguinte, às oito da manhã me ligou para saber o que eu fazia no trabalho e dizendo que esperava que eu estivesse de viagem marcada para aquela noite. Dito e feito e foi assim que acabei no Brasil. O sonho de ver a minha avó no quarto antes da minha volta, não foi concretizado, mas como diz a minha mãe, o nosso tempo não é o tempo de Deus, mas creio que ainda vou ter a notícia tão esperada ainda esta semana.

Assim que cheguei ao Rio, tive a notícia da embolia, quase fatal. Os médicos estavam assustados e hesitavam em nos dar prognósticos até porque a situação dramática mudava a cada minuto. Não tive dúvidas, liguei para o Dr. Joaquim Ribeiro para relatar o caso e pedir orientação, pois ele é o médico em que mais confio. Dei a minha versão dos fatos para ele que se ofereceu prontamente a visitar a minha avó, mesmo não sendo cardiologista ou pneumologista. Dr. Joaquim disse que veria a minha avó e depois se precisássemos de um clínico ou outro médico, ele nos recomendaria o melhor. E mais uma vez o Dr. Joaquim cumpriu a sua palavra e foi visitar a minha avó. No meio de tanto desespero, de tantas notícias ruins, ele foi sincero, mas como sempre otimista ao me dizer: "Danielle, o caso da sua avó é grave sim, por vários motivos. Ela teve uma embolia séria, mas não há nada de irreversível no quadro dela. Esta situação pode se resolver dentro de sete a dez dias." Aquelas palavras viraram um mantra para mim, pois a cada pancada, a cada notícia ruim, eu repetia para mim mesma "Não há nada de irreversível no quadro dela. Esta situação pode se resolver" e conseguia recobrar a pouca calma que me restava. Mais uma vez, desta vez sem saber, o Dr. Joaquim salvou a minha vida, ao me dar esperança de poder ver a minha avó viva.

O cardiologista da minha avó, Dr. Leonardo Arantes, também tem sido um herói. O jovem médico leva a sério mesmo o tal Juramento de Hipócrates e parte para o sacrifício o tempo todo. É incansável e dedicadíssimo, sempre disponível e paciente ao explicar quinhentas vezes prodimentos complicados para familiares leigos e ansiosos, sempre com humildade e carinho. A minha avó teve muita sorte. Ele tem sido um anjo, sempre ao lado dela. A minha família sempre fala que só de olhar para o Dr. Léo dá pra ver o estado de saúde da minha avó. Se ele está cabisbaixo e tristonho, a gente sabe que a coisa está feia, então quando o vemos sorrir, damos pulos de alegria. Desde a minha partida, andam me dizendo que o Dr. Léo está sorrindo mais.

O outro cardiologista da minha avó é praticamente o neto mais velho dela, o Filipe, que entrou na nossa vida por conta de um ex-namorado da minha irmã e foi ficando... Sobreviveu ao fim do namoro e virou padrinho de casamento dela e meu também. O Filipe também tem sofrido muito com a gente, pois além de médico dos meus avós e do meu pai, é praticamente da família, além de dar plantão nas residências dos Machados e dos Duran vinte quatro horas por dia, correndo de um lado para o outro sempre que a gente precisa de ajuda. A história da minha avó também foi um baque grande para ele.

Pois no meio de tantas notícias ruins, o consolo é saber que estamos cercados de gente boa -- de médicos competentes, dedicados e amigos e de amigos e familiares que têm se mostrado fenomenais. Minhas tias-avós têm dado plantão no hospital, meus primos, sobrinhos da minha avó, vieram de outroas cidades e outros estados e os parentes que moram no Rio vão freqüentemente ao hospital. Temos sorte, muita sorte, de estar cercados de pessoas iluminadas, mas as orações continuam até que a minha avozinha possa agradecer pessoalmente a um por um.

October 8, 2008

A minha avozinha que não me sai da cabeça...



Prometo que quando isto tudo passar e a minha avozinha estiver fora de perigo volto a falar de outros assuntos bem interessantes por aqui. Mas agora todos os meus pensamentos e orações estão com ela e com a minha família no Brasil. Estas últimas três semanas têm sido certamente um dos piores períodos da minha vida e quem me conhece sabe que já passei por poucas e boas. As notícias das últimas 24 horas t6em sido mais positivas, mas os próximos três dias são extremamente importantes, então agradeço muito as orações e o carinho que temos recebido de tantos amigos.

Nestas horas, às vezes volto no tempo e vejo uma época ruim que já passou... Isto me dá mais coragem para seguir em frente. Uma lembrança que ficou muito viva na minha cabeça foi um fato que aconteceu durante a minha primeira cirurgia. Quando a operação acabou, sabíamos que as próximas 48 a 72 horas seriam cruciais. Eu havia perdido muito sangue e o procedimento tinha sido altamente invasivo, os médicos tinham feito tudo o que podiam mas a minha vida mais do que nunca estava nas mãos de Deus.

Na manhã seguinte, a minha tia-avó ligou para o hospital para ter notícias minhas e ouviu o seguinte “O estado da paciente é gravíssimo.” Acho que outras pessoas que ligaram receberam a mesma notícia. Ao saber disto, a minha avó atirou-se no chão e implorou a Deus que se tivesse que levar alguém que a levasse em meu lugar. Se a doença tivesse que atacar alguém, que a atingisse. Não me lembro muito bem, mas todos até hoje comentam que nas semanas que se seguiram a minha cirurgia a minha avó envelheceu anos em dias. Depois fui melhorando e aos poucos tudo voltou ao normal, inclusive a aparência da minha avó.

Um ano mais tarde, esta minha mesma avó decobriu sofrer de um linfoma não-Hodkins, mas enfrentou a doença com uma força e uma coragem fora do normal. Fez químio, fez rádio, ficou com o cabelo ralinho, mas nunca reclamou. Enfrentou o câncer como quem enfrenta uma gripe e apesar de uma seqüela na perna que nunca mais desinchou, recuperou-se rapidamente e continuou sua vidinha de sempre.

Durante a minha breve estada no Rio, ouvi de uma outra tia-avó que a minha avó Rutinha tinha conseguido uma façanha antes só conseguida pela sogra dela, D. Ermelinda, minha bisavó, que consegui apesar de todos os pesares e dificuldades manter a família reunida em torno dela até a morte, aos 94 anos.

A minha avó, sem querer, segue os passos da sogra, e mantém todos os filhos, netos, imãos, cunhados, sobrinhos e agora bisneta bem pertinho. Ela nunca se deu o crédito merecido, nunca disse que o resultado se devia a ela, mas ninguém tem dúvidas de que ela é a maior responsável por isto.

Falo por mim, que cresci ao lado dela. Minha avó me ensinou a ler antes de eu ir à escola. Foi ela que me deu o primeiro livro quando eu deveria ter um ano mais ou menos. Se hoje há livros até para bebês, nos anos 70 a coisa era bem diferente, mas a minha avó era mesmo pioneira e sabia das coisas. Foi nos introduzindo à leitura desde cedo e nos incutindo a paixão pelos livros.

Algumas receitas dela também passam de geração em geração, mas ninguém faz os pratos tão bem quanto ela. Tudo que ela toca tem um sabor especial...mesmo que ela sempre diga que detesta cozinhar. Pelo menos nisto puxei a ela...não tenho muita afinidade com o fogão não...

No meio de tanta dor e de tanta preocupação estas imagens bonitas agora começam a aparecer com mais intensidade na minha cabeça. Tenho fé e peço a Deus que isto seja um sinal...

October 7, 2008

Corpo em Baltimore, cabeça e coração no Rio

Já estou fisicamente de volta aos EUA, mas minha cabeça e mais que tudo meu coração continuam no Rio. Não dá para se concentrar em coisa nenhuma quando a minha avó ainda está naquela UTI.

Nada me faz rir, nada me dá ânimo. Só quero vê-la fora de perigo e em casa. Mas a vida não pode parar – bem que às vezes me dá uma vontade de gritar “Parem o mundo que eu quero descer!” – e a gente vai levando como pode.

Hoje usei o alarme do celular, mas quando o telefone tocou, meu coração deu um salto e ficou apertadinho pro resto da manhã. Só quem já teve um ente querido em CTI sabe que agonia é esta.

Ontem a minha avó colocou o tal filtro de cava, um dispositivo que impede que a maioria dos trombos chegue ao pulmão, evitando assim uma grave embolia, que em alguns casos pode ser fatal. Nestas horas vejo mais uma vez que a minha avó sempre esteve certa – toda família precisa de um médico, pois em momentos como este nós leigos ficamos completamente tontos. Não há nenhum médico na minha, infelizmente. Há sim paciente profissional, esta que humildemente vos fala, mas não tenho talento nem sangue frio para medicina. Nunca pensei estar ligada a questões de saúde, mas feliz ou infelizmente foi onde o destino -- ou será Deus -- me levou.

Agora voltamos ao patamar de semana passada – o quadro é estável apesar de muito grave – mas continuamos orando para que a minha avó se recupere o mais rápido possível, pois como diz o Dr. Joaquim, o quadro é sério, mas não irreversível. Ela tem dado demonstrações de coragem e força ao superar cada um dos desafios que surgem a sua frente, mas corta o coração ver alguém passar por isto. Apesar de tudo, tenho muita fé que ela vai sair de lá, pois eu também já fui desenganada.

Força D. Rutinha, só mais um pouquinho e a senhora vai ficar novinha em folha. Enquanto isto, oramos e aproveito para agradecer as manifestações de carinho dos amigos reais e virtuais. Elas fazem muita diferença. Que o dia de hoje seja melhor que o de ontem e que amanhã seja muito melhor do que hoje.

October 6, 2008

De volta a Baltimore

Saí do Rio ontem à noite, depois de visitar minha avó no hospital. Não foi o quadro que eu havia imaginado, pois queria muito ter saído de lá depois de vê-la no quarto, já fora de perigo. Mas infelizmente não foi possível.

Foi difícil sair de lá e deixá-la no mesmo CTI escuro e frio, mas ao mesmo tempo saí de lá em paz, pois algo me diz que ela vai ficar bem. Diante de cada obstáculo, por mais árduo que seja, ela demonstra força e coragem, sem nunca desanimar. Quando não está sob efeito de sedação dá demonstrações de que sua mente está como sempre esteve, 100%. Pede massagem na perna, reclama de sede e pergunta pela Chiara. Outro dia perguntei se ela estava me confundindo com a minha irmã, ela fez uma cara muito feia, como quem dissesse "sua pirralha, com quem você acha que está falando? Não sou nenhuma velha gagá!" Aliás, ela odeia que a chamem de velhinha...

Acabo de falar com a minha mãe e saber que a minha avó foi levada ao prédio ao lado para fazer uma tomografia computadorizada, pois está se queixando de dores no abdomem. Deus queira que não seja nada. Procuro manter a calma, mas os nervos realmente ficam à flor da pele.

Continuo as minhas orações e sei que muitos amigos por todos os cantos já nos incluíram em suas orações diárias. Peço que continuem, e se possível, que se unam a nossa corrente que acontece todos dos dias às 22h, horário do Brasil. Pedimos pela recuperação da minha avó e de seus companheiros de UTI e pela saúde dos que precisam.

A minha fé como sempre se mantém inabalável e acredito mais que nunca no poder da oração e do pensamento positivo. Sei que dentro em breve minha avozinha vai sair de lá.

October 3, 2008

Agonia

Os médicos acabaram de ligar. Inicialmente disseram ser uma nova embolia, agora afastam esta hipótese, parece que houve alguma hemorragia, não se sabe onde.

Só se sabe que a minha avozinha continua lutando e continua sofrendo. Peço a Deus que tire-a de lá ao menos e que lhe dê alguns anos de vida longe daquele lugar tão assustador.

Por favor, continuem a rezar por ela.

Com isto a minha volta aos EUA que estava marcada para amanhã pode não acontecer. Como vou sair daqui sem ao menos saber do mal que aflige a minha avó? O buraco no peito cada vez teima em ficar mais fundo.

Peço fé, força e coragem -- para ela, para meu avô e para toda a nossa família.

October 2, 2008

Ainda no Rio

Esta semana foi simplesmente punk. Cheguei aqui achando que iria ver a minha avó sentada já no quarto, mas encontrei-a em coma induzido na UTI. Surpresa triste. O pior nestas horas é a ausência de um diagnóstico definido "pode ser isto, mas também pode ser aquilo e ainda não podemos afastar a hipótese de aquilo outro..." diziam os médicos. Como assim, doutor? Como vocês vão descobrir o que há de errado? Quando vão fechar um diagnóstico? Tantas perguntas sem resposta...

No domingo soubemos que a falta de ar terrível que ela havia sentido dias antes tinha um bom motivo -- embolia pulmonar, um quadro bem grave num paciente nas condições dela. E de novo visitamos aquele lugar horrível, um lugar onde só há dúvidas e medo. A posição dos médicos era delicada, pois tudo que poderia ser feito já havia sido e, embora eles não falassem claramente, a situação era óbvia, a vida da minha avó estava totalmente nas mãos de Deus, uma vez que os médicos já tinham lançado mão de todos os recursos. Tínhamos que rezar para que o trombo do pulmão se desfizesse rapidamente, rezar para que novos trombos não se formassem, rezar para que as plaquetas dela se mantivessem altas para que ela pudesse continuar tomando o anticoagulante e rezar para que nenhuma outra intercorrência aparecesse no meio do caminho. Dali para frente, tudo tinha que correr 100% perfeito para que ela tivesse uma chance de sobreviver. Condição incômoda. Situação desesperadora.

Nestas horas bate uma dor profunda e aguda...a tal sensação de impotência chega ao máximo e o desespero é praticamente inevitável. Os ateus que me perdoem, mas nesta hora só a fé nos mantém sãos, na medida do possível. Quando digo fé, não falo em religião, mas num sentimento de que existe algo além disso que vivemos aqui. Parafraseando o genial Shakespeare, tem que haver mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Não faz sentido que a morte seja um fim e que só nos reste esperar por ela.

Não gosto muito de divagar, mas olhando a minha avó deitada imóvel naquele leito de hospital vários cenários se formavam na minha cabeça. Uns belíssimos, outros nem tão otimistas assim e a idéia da ausência dela era simplesmente insuportável. Vê-la ali lutando tanto sem ter certeza de seu destino despedaçava meu coração. Nunca rezei tanto...e olha que não rezo pouco...

Ela ainda esta na UTI, mas tem melhorado a cada dia, como que por milagre. Ainda não respiro aliviada, acho que vou ser capaz de descansar quando ela for para o quarto e mais ainda quando ela for para casa. Depois de duas semanas de um martírio, já não vejo a hora. A idéia de voltar para os EUA e deixá-la aqui nestas condições também me preocupa, mas há muito pouco ou quase nada que eu possa fazer para adiar minha partida. Conseguir vir já foi um privilégio e tanto, então não posso abusar da boa-vontade da minha chefe.

Nestas horas de crise absoluta é incrível perceber como as diferenças desaparecem e como o que é importante vem à tona. Aprende-se muito na dor, mas o grande desafio é guardar para sempre este ensinamentos e continuar aplicando-os depois que a vida voltar ao normal.

Como diz a minha amiga Lu, que lutou contra um linfoma raro e agressivo há algum tempo, mas hoje está totalmente saudável, o negócio e não deixar o impacto da porrada passar. Quando a gente leva um baque destes, revê todos os nossos conceitos, jura que vai mudar da água pro vinho e até muda, mas às vezes as mudanças não duram mais que meses e a gente acaba voltando ao normal. O único saldo positivo da dor e da doença são as lições que ficam e se estas mesmas lições aprendidas na marra aos poucos acabam sendo esquecidas, então a tal porrada não serviu de nada. Uma pena. Um desperdício.

Uma outra amiga, a Flavinha, sempre me dizia que tanto as pessoas mais inteligentes quanto as mais burras cometem erros sempre. A diferença, dizia ela, é que as pessoas inteligentes erram e aprendem com o erro. Fatalmente vão errar novamente, mas vão cometer erros diferentes. As pessoas burras, ao contrário, erram, recusam-se a aprender e ainda teimam em insistir sempre no mesmo erro.

Gostaria de ter chegado a tantas conclusões por conta própria e de forma indolor, mas não foi assim que aconteceu, então o mínimo que posso fazer é não deixar que a pacada perca o efeito. Vou aproveitar que ainda estou em carne-viva para registrar meus pensamentos e voltar a eles a cada vez que achar que a pancada está caindo no esquecimento.