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September 19, 2009

Schwabtoberfest



Esta é a nossa programação de hoje. Um amigo do Blake está fazendo uma Oktoberfest na casa dele logo mais. Apesar do tempo chato que estava fazendo até ontem à tarde, parece que São Pedro cooperou e hoje o sol resolveu dar as caras, o que vai ser ótimo já que a festa será ao ar livre. Tudo me leva a crer que serei a motorista da noite, uma vez que cerveja não é meu forte e que ontem quando saímos quem voltou dirigindo foi o Blake.

Esta é a segunda edição da festa, só que ano passado não pude ir, pois precisei ir ao Rio às pressas por conta do estado de saúde muito delicado da minha avó. Os meses de outubro, novembro e dezembro de 2008 passaram sem que eu percebesse, já que meu corpo estava aqui, mas meu coração estava apertadinho no Brasil. Foram tempos muito difíceis para todos nós mas parece que o impossível aconteceu.

Ontem, meus pais me ligaram de um restaurante. Estavam com a família toda reunida, inclusive meus avós celebrando o segundo aniversário da minha avó. O primeiro comemora o dia que ela nasceu, non dia 13 de setembro, o segundo, que foi ontem, comemora o dia que ela driblou a morte.

Há exatamente um ano, esta cena, de um simples jantar em família parecia tão distante e improvável -- tantas notícias ruins, tantos prognósticos assustadores -- então hoje e os próximos meses que se seguem serão muito especiais para nós. Se há exatamente um ano, os médicos sequer nos davam muita esperança quanto à sobrevivência dela, saber que hoje a minha avó anda sozinha, sai para todo lado e até ajuda a tomar conta das minhas sobrinhas é mais do que eu poderia imaginar e pedir a Deus.

Motivos para brindar na festa mais tarde não me faltam, nem que seja para brindar bebendo água ou suco de maçã!

November 7, 2008

50 Dias

Não consigo nem acreditar que hoje faz 50 dias que este pesadelo começou. Que a minha avozinha Ruth, que antes desta ablação cardíaca estava ótima de saúde, não consegue falar nem respirar sozinha. Nunca pensei que doesse tanto pensar nela aqui de longe.

Hoje conversei com a Andressa que disse que sempre que ouve falar na Kika a minha avó chora... A Chiara faz quatro meses semana que vem. Da última vez que a minha avó pode segurá-la no colo ela tinha dois. A minha avozinha já perdeu metade da vidinha da bisneta que ela tanto queria conhecer. Mas Deus é grande e maior do que tudo. Maior do que a negligência dos enfermeiros que deixaram com que escaras enormes tomassem conta do corpo cansado da minha avozinha. Maior do que a incompetência médica que deixou que ela se alimentasse um dia inteiro depois de ter vomitado durante à noite, causando a broncoaspiração. Deus é maior do que a minha revolta e só Ele é capaz de atenuar a minha dor.

Falei com meu avô Fernando também que lembrou que está há cinqüenta dias sozinho em casa sem a companheira de 60 anos. Ele disse que hoje levou duas páginas batidas à máquinha e afixou perto do leito dela no CTI. Uma diz "Tenho escaras nas costas, por favor me vire a cada 30 minutos." A outra diz "Por favor, não esqueça de pingar meu colírio às 10h da manhã e às 10h da noite."

Me corta o coração só de imaginar a cena. A minha avozinha é superarticulada, agora sequer falar pode. Ela também está reclamando da visão, pois só submeteu à esta bendita ablação para fazer a outra cirurgia de catarata. Sempre devorou livros e jornais vorazmente. Hoje sequer televisão consegue ver.

Sei que não devo ficar pensando nisto, mas é quase impossível achar graça em algo quando uma das pessoas que mais amamos no mundo sofre de uma maneira assim. Só peço a Deus que as escaras melhorem, assim como os pulmões dela para que ela possa logo ir para o quarto, e que desta vez saia de lá para casa. Já passou tempo demais...

Só peço que desta vez a melhora dela seja contínua. E que Ele continue ao lado dela, dando-lhe força e coragem.

November 3, 2008

A Última Bruxa

Pois é, a última bruxa aprontou no dia de Halloween e levou a minha avozinha de volta para o CTI. Aliás, agora ela está na terapia intensiva mesmo, antes ela esteve na coronariana.

Foi uma surpresa muito ruim, pois menos de 24 antes eu tinha falado com ela no telefone pela primeira vez desde 18 de setembro. A voz dela estava ótima, forte e cheia de personalidade. Reclamando da comida e da água que ela tem que tomar com espessante para evitar que ela se engasgasse, mas foi exatamente o que aconteceu. Uma bronco-aspiração, não tão rara em pacientes que respiram e alimentam por sonda muito tempo. Mas na hora um susto horrível e um presente de aniversário péssimo para quem achava que ia receber os parabéns da minha avó via Embratel.

Na hora, fiquei desesperada. A primeira pergunta que me veio à cabeça foi "Será que estou rezando errado? Será que estou sendo egoísta enquanto a minha avozinha sofre tanto?" Fiquei triste mesmo. E tive medo que mais este golpe fosse ser demais para ela, que tem lutado incansavelmente desde aquele fatídico dia 18 de setembro. Meu maior medo era de que ela desistisse... E quem poderia culpá-la? Mas o mais incrível é que ela AMA muito a vida e sabe que tem muita gente rezando por ela.

Assim que soube deste revés, liguei para o meu avô, que tem sofrido como ninguém ao longo destas intermináveis sete semanas. Achei a voz dele já fraca e desanimada, mas fiquei emocionada com algo que ele não cansava de repetir. "Deus é e sempre foi muito bom para nós. Ele escuta as nossas orações." Fiquei emocionada com as palavras dele, já cansado e exausto, insistia em manter a fé.

E agora além de rezar pela pronta recuperção da minha avozinha, rezo também para meu avô, do alto de seus 80 anos, resista a esta tempestade que insiste em não dar trégua.

September 29, 2008

Tortura

As visitas ao hospital são sempre uma verdadeira tortura, carregadas de angústia e apreensão. A verdade é que por mais complicada que a situação esteja existe sempre aquela esperança de que algum mensageiro de Deus na figura de médico vá nos trazer as notícias que tanto queremos ouvir.

Mas não é o que tem acontecido. O médico apesar de muito dedicado e acessível não esconde o desânimo, o que é péssimo para a família do paciente, tão desesperada por encorajamento e boas-novas. É duro, muito duro.

É tão difícil ver meu avozinho, do alto de seus 80 anos, chorar pela companheira de 59 anos. Ele ali tão frágil, tão perdido. Minha mãe e meus tios também tentam ser fortes, mas nestas horas é quase impossível. Volta e meia, alguém cai no choro e então todo mundo, que até então segurava as lágrimas, não agüenta e chora junto.

Procuro ser positiva, afinal a minha avozinha ainda está viva e lutando muito, mas cada dia que passa sem notícias boas, levo um golpe. Hoje, apesar de tudo, por algum motivo absurdo, tive um pouco de esperança.

O problema é a embolia e o trombo que se encontra no pulmão dela. Esta situação precisa ser resolvida o mais rápido possível -- ou o trombo se dissolve ou o sangue encontra canais alternativos para circular. Mas todo e tempo é precioso, então hoje mais do que nunca vou rezar para este trombo diminuir agora. Vou rezar para que o dia de amanhã seja melhor que o de hoje e que as notícias sejam enfim positivas.

Dói demais ver a mina avozinha lá deitada, imóvel, inchada, espetada...naquela sala fria e inóspita. Vou pensar nela aqui, sentadinha na poltrona vermelha que ela tanto ama, na casa da minha irmã com a Kika no colo. Vou imaginá-la usando a roupa nova que ela comprou no aniversário dela, há apenas duas semanas. Vou imaginá-la ao meu lado sorrindo, como sempre.

Preciso que ela me veja nem que seja uma vez mais para que ela saiba o quanto a amo e o quanto preciso dela.

Vou rezar por ela. Eu também acredito em milagres.

September 23, 2008

Avó & netos

Quem me conhece sabe da ligação fortíssima que tenho com a minha avó. Ela sempre foi uma figura muito presente na minha vida. Por causa da profissão arriscada do meu pai, minha mãe optou por morar perto da família – por questões sentimentais e financeiras.

A convivência diária com nossos avós foi o melhor presente que meus pais poderiam nos dar. Como diz a minha irmã, meus pais tiveram a melhor babá do mundo e nós tivemos a melhor professora, pois foi com a minha avó que aprendemos a ler e foi com ela que fizemos todos os deveres de casa até o segundo-grau!!!

No meu trabalho, isto era motivo de piada. Qualquer dúvida que qualquer um de nós tivesse sobre a língua portuguesa, eu ligava para a minha avó na mesma hora. É com dois esses ou cedilha? Tem hifem ou não? A minha avó responde na hora, na lata, explica tintim por tintim e todo mundo aceita. E quando ela tem uma pontinha de dúvida, sai correndo e pega o Caldas Aulete, que ela pediu de Dia das Mães há alguns anos. Antigamente era o Aurélio, mas ela disse que o Caldas Aulete é mais atualizado e quando a minha avó diz alguma coisa sobre educação a gente não discute, implementa.

A minha avó sempre trabalhou, numa época que a maioria das mulheres ficava em casa. Ela nunca foi madame e até hoje tem muito orgulho de ser professora formada pela Instituto de Educação, nos áureos tempos, nos “anos dourados”, como ela gosta de chamar. Apesar de bastante tradicional, a minha avó sempre foi feminista, pois uma das condições impostas ao meu avô, depois de ter aceito o pedido de casamento, foi poder continuar na carreira que ela sempre tinha sonhado. E ele acatou.

A paixão dela era ensinar e foi na sala de aula que ela ficou, até se aposentar. Mas depois da aposentadoria continuou ensinando aos netos em casa. Foi ela que me deu meu primeiro livro, muito antes de eu pensar em começar a ler. Foi na frente dela também que li minha primeira palavra: “faísca” num rótulo do produto de limpeza. Ainda me lembro da alegria dela ao ouvir aquilo na cozinha. Quando eu disse a ela que não tinha lido nada, pois na verdade eu sabia que o nome do tal produto era “faísca” e eu só tinha memorizado, ela não se fez de rogada. “Mas é assim mesmo que se começa. Você está alfabetizada!” Achei melhor não discutir, mas depois disto comecei a ler outras palavras e não parei mais. Graças à paciência e à insistência da minha avó, comecei a ler e devorar todos os livros que via pela frente.

Foi a minha avó também que decretou que eu tinha talento para línguas. Como ela, eu sempre gostei de gramática e de português. Comecei a aprender inglês e para minha surpresa vi que tinha grande facilidade. A minha avó então resolveu me dar um empurãozinho. Como é descendente de alemães, achou que eu deveria tentar aprender o idioma e se propôs a pagar meu curso. Dito e feito. Graças a ela, mais um idioma no meu currículo. Depois do alemão, francês e espanhol. Não sou nenhuma maravilha, mas não digam isso a minha avó!

Mas não é só a minha parte intelectual que teve grande influência dela. A parte emocional também, pois ela desempenha com perfeição o papel de avozinha, aquela que faz bolos deliciosos, que conta histórias interessantíssimas e que reúne a família em torno dela em ocasiões especiais. Verdadeira matriarca sem querer ser, pois ela não gosta muito de ser o centro das atenções. Mas é. Não só o centro das atenções como o motivo de orgulho e alegria para cada um de nós e hoje razão de cada uma das nossas orações.

Fique boa logo, Rutinha, preciso dizer isto a você pessoalmente.

September 22, 2008

Mais um dia em Hopkins

Hoje foi dia de Hopkins e foi tudo bem. Fiz todos os exames e fui atendida pelo médico em duas horas. Impressionante. Inacreditável. Laudo final: “ausência de malignidade e de metástese.” Isto é tudo que eu queria ouvir. Mas hoje não vou gritar nem chorar de alegria. Estou muito feliz, mas a felicidade não pode ser completa.

Entendo perfeitamente o que isto significa para mim: estou saudável, mas o que doeu mais hoje foi um telefonema que não pude dar. Não pude ligar para minha avozinha no Rio que sempre aguarda ansiosa por notícias minhas. Dói demais saber que ela não pode falar comigo, que não pode ficar feliz por mim hoje, como ela sempre fica. Só me resta rezar para poder dividir esta notícia com ela em breve, mas este breve às vezes me parece tão distante...

E aquele buraco no meu coração não quer fechar... Dói demais.

Hoje é dia de Hopkins

Esta última semana foi tão conturbada que pouco pensei no dia de hoje. Melhor assim.

Com a minha avó ainda na UTI parece um egoísmo muito grande eu ficar preocupada com os meus exames hoje. Se Deus quiser, vai dar tudo certo e à noite só vou ter notícias boas para dividir com vocês.

Pensamento positivo sempre. A cabeça está girando a mil por hora. Difícil de me concentrar hoje.

Dias melhores virão. Agora só quero pensar na minha avozinha fora daquele hospital, pois é uma covardia muito grande imaginá-la entre tubos, fios, catéteres e drenos, sem poder falar ou sequer se mover. Só de pensar que ela estava perfeita há menos de uma semana dói demais.

September 21, 2008

Ansiedade

Hoje quando acordei senti meu corpo todo dolorido, como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Só pode ser stress.

O estado da minha avó continua estável, mas ao menos não houve piora e se os exames melhorarem, os médicos vão começar a pensar em suspender a sedação e remover o tubo.

A parte mais complicada disto tudo é estar longe e depender de relatos terceiros para tentar entender e absorver uma situação que parece surreal. É tudo muito distante e nebuloso. Chega a ser aterrorizante. O Blake tem sido fenomenal, mas nada substitui o contato real com quem está na mesma situação que a gente. Nestas horas a gente precisa de colo e precisa dar colo, e estando distante não dá.

Somado a este stress enorme, amanhã vou ter que chegar no trabalho antes das sete da manhã, pois vou sair na hora do almoço para os meu exames em Hopkins. Eles estavam marcados para dia 29 de setembro mas por causa de uma reunião de trabalho, tive que adiantá-los para amanhã. A tomo começa às 13.00, depois rumo para o exame de sangue (se Deus quiser, já com a acesso lindo no braço direito), e finalmente minha jornada chega ao final no consultório do Dr. Pawlik.

Por favor, meu Deus, preciso de boas notícias.

September 19, 2008

A angústia da espera

Não existe nada mais angustiante do que esperar por notícias sobre a saúde de quem amamos. Minha família sempre me disse isto, mas até agora nunca tinha experimentado este sofrimento, pois só estive do outro lado. O outro lado é péssimo também, não me entendam mal, mas esta impotência de quem espera do lado de cá parece que come a gente por dentro.

Tudo que ouvi hoje me fez lembrar uma conversa que tive com o Dr. Ary Ribeiro, que na época era diretor médico da Clínica São Vicente da Gávea, onde fiquei internada depois de complicações na minha primeira cirurgia de fígado. Fiquei lá umas três semanas. Não cheguei a ficar no CTI, mas os médicos me queriam lá para me monitorar e tentar descobrir a razão do meu derrame pleural e fazer mais uns inúmeros exames.

Já pela segunda semana eu começava a me revoltar. Estava lúcida, bem disposta e me sentia pronta para ir para a casa. Não agüentava mais comida de hospital, soro, "procedimentos", ressonâncias, visitas médicas e aquela cama dura. Eu queria ir para casa; estava consciente e alerta, implorava para ter alta.

Um dia, por algum motivo qualquer, a minha família toda estava fora do quarto (acho que devem ter pedido que o Dr. Ary, um médico excelente e ser humano muito sábio, fosse dar uma palavrinha comigo)e o médico chegou. Entrou no quarto e me encontrou impaciente e inquieta. Não fiz questão nenhuma de esconder a minha insatisfação de estar ali. Disse a ele que estava fazendo tudo que eu podia para sair do hospital o mais rápido possível: comendo aquela comida insossa até dizer chega, levando espetada e furada sem dar um ai, tomando soro, remédio e cumprindo todas as ordens médicas para quê? Eu continuava ali; continuava internada e sem previsão de alta.

Ele olhou para mim muito serenamente e me disse uma coisa que vou me lembrar para sempre. "Esta decisão não é sua. Você não tem o controle da situação. Para você, uma moça muito ativa e decidida é muito difícil aceitar que não há ABSOLUTAMENTE nada que você possa fazer que vai tirar você daqui mais rápido. Você está fazendo o que pode, mas não depende de você, então o melhor que pode fazer por si mesma é abrir mão do controle da situação. Você acredita em Deus, então deve entregar este controle nas mãos dEle, pois só Ele pode tirar você daqui, na hora que Ele achar que deve. Você tem como ajudá-lo, e agora o melhor a fazer é entregar sua causa a Ele."

Aquelas palavras me atingiram lá no fundo. Foi ali, pela primeira vez que me vi cara a cara com a minha fragilidade. Até aquele momento ainda guardava uma certa arrogância, tinha uma vaga idéia de que cabia a mim mudar o meu destino. Mas foi naquele quarto de hospital que tive a minha fé posta à prova mais uma vez e por completa falta de opção e desepero, deixei que Deus tomasse as rédeas. Mergulhei no fundo para voltar a superfície, mas voltei renovada.

Hoje, quase seis anos depois, me encontro mais uma vez numa encruzilhada, desta vez de um lado diferente, mas não menos doloroso. Mais uma vez queria que houvesse muitas coisas que eu pudesse fazer. Queria que a minha simples presença ao lado da minha adorada avozinha resolvesse todos os problemas, como num passe de mágica. Mas estas lição, por mais dura que seja, eu já aprendi seis anos atrás. Sei que não tenho este poder.

A mim só me resta a espera e a fé de que a minha avó vai sair desta bem e que na segunda-feira já vai estar indo pro quarto. E no final da semana já vai estar rindo e embalando a nossa Chiara nos braços, como na foto do post aí embaixo.

Fica firme, Rutinha, você sempre foi meu exemplo. A gente ainda vai respirar aliviadas juntas depois desta. Te amo vovó, fique bem. Deus está do nosso lado, mais uma vez. Até dezembro.

September 18, 2008

Minha Avó


Hoje está sendo um dia difícil para mim. Aliás, desde semana passada tenho estado bastante tensa por conta de um procedimento ao qual a minha avó foi submetida ontem à noite. A última notícia que tive foi de que houve alguma complicação no final e agora a minha avó se encontra em coma induzido. Segundo a plantonista da clínica, o estado dela é estável. Será que alguém poderia fazer o favor de me explicar o que é isso? Não sou médica, não sei. Depois de passar a noite em claro, estas são as únicas notícias que tenho. Sinto meu coração bater forte. Um gosto ruim na boca. Uma angústia que não me deixa respirar direito.

Faz uma semana que não durmo bem. Ontem, nos poucos minutos que consegui cochilar, tive pesadelos. Hoje sinto um aperto terrível no peito. Nestas horas é que a gente sente como é horrível estar longe. Esta distância, esta sensação de impotência... Ainda mais para alguém como eu, que gosta sempre de acompanhar tudo de perto, de fazer perguntas, de tentar entender o que se passa. Este exílio é um castigo.

Ontem a minha avó fez uma ablação cardíaca, um procedimento minimamente invasivo que tenta corrigir arritmias, que são batimentos irregulares no coração. Depois de muito pesquisar, cheguei a conclusão de que os riscos eram mínimos, mas nem assim fiquei em paz.

Nos últimos anos a minha avó tem sido uma guerreira, passando por uma cirurgia após a outra. Nestes últimos cinco anos ela operou hérnia, teve linfoma, operou o colo do fêmur, catarata, mas nada disso tirou a força dela. Também teve um período de depressão, depois que começou a sentir os batimentos irregulares e passou a enxergar mal, depois de ter feito a primeira cirurgia de catarata, já que os graus de miopia ficaram muito diferentes. Ficou mal há alguns meses, mas depois de tratada, voltou a ser a Rutinha de sempre, forte e corajosa.

A minha avó fez 80 anos sábado – o tempo passa muito rápido. Teve direito a uma bela festa e estava linda e feliz, cercada da família que tanto ama. Pena que não pude estar lá com ela, celebrando a vida de quem sempre teve uma influência enorme sobre mim: foi ela que me apresentou a coisas que acabaram por formar a minha personalidade, como literatura, ballet e música clássica. Ela tem uma importância tão grande para mim que toda noite rezo para que Deus deixe meus avós por aqui para que meus filhos tenham o privilégio de conviver com eles. Meu avô também é um caso à parte, mas deixo para outro post, pois hoje não consigo pensar em nada, este aperto no coração me sufoca. Só me resta rezar para que mais uma vez a miha avozinha saia desta forte como sempre e que continue por muitos anos por aqui com a gente, esperando os meus filhos chegarem.