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September 17, 2010

Botando a Boca no Trombone

Pelo visto a melhor tática para lidar com médicos americanos ou de outra nacionalidade que trabalham aqui é chamar o povo na chincha. Quem acompanha o blog há algumtempo vai lembrar da minha choradeira em Hopkins numa das minhas primeiras visitas ao hospital. Quem não conhece a história pode ler aqui.

Pois a minha consulta com a obstetra não foi tão dramática assim, mas certamente expressei minha preocupação e a minha insatisfação com o atendimento. Ela foi supereducada se desculpou muitíssimo e prometeu que jamais aconteceria de novo. Levei uma lista de dúvidas e ela fez questão de pegar o papel da minha mão e me responder uma a uma. A enfermeira também veio me pedir desculpas, quando foi coletar meu sangue para o exame da glicose.

Mas como acredito que atos dizem mais que palavras, fiquei bem aliviada quando a mesma enfermeira me ligou ontem mesmo para dizer que o exame da glicose estava perfeito -- Maravilha! Doces liberados! -- mas que eu estava um pouco anêmica, o que para mim não fou surpresa. Então a médica me receitou um suplemento de sulfato ferroso, o que não é nada demais.

Fora isto, tenho me sentido superbem -- um pouco sonolenta às vezes -- mas nada inchada, tenho engordado bem pouco (nas últimas três semanas só meio quilo para compensar os quase três que ganhei no Brasil!) e tudo vai bem. A busca pela creche para o Joaquim continua e para quem se pergunta o motivo de tanta antecedência, a resposta é "Três das chreches que contatei já estou lotadas para a faixa etária dele!"

Este fim de semana vamos ver se conseguimos fazer uns ajustes no quartinho e assim que estiver tudo quase pronto, coloco as fotos aqui.

Bom fim de semana!

October 9, 2008

Médicos de verdade

No meio desta confusão toda, esqueci de deixar registrados alguns fatos importantes. A minha ida ao Brasil foi um presente inesperado da minha chefe aqui, workholic total, mas que sempre coloca a família em primeiro lugar. Quando expliquei a minha situação a ela, sem nenhuma expectativa, ela olhou para mim e disse: "E o que você está fazendo aqui que ainda não foi pra casa? Se fosse a minha avó, eu já estaria lá." E no dia seguinte, às oito da manhã me ligou para saber o que eu fazia no trabalho e dizendo que esperava que eu estivesse de viagem marcada para aquela noite. Dito e feito e foi assim que acabei no Brasil. O sonho de ver a minha avó no quarto antes da minha volta, não foi concretizado, mas como diz a minha mãe, o nosso tempo não é o tempo de Deus, mas creio que ainda vou ter a notícia tão esperada ainda esta semana.

Assim que cheguei ao Rio, tive a notícia da embolia, quase fatal. Os médicos estavam assustados e hesitavam em nos dar prognósticos até porque a situação dramática mudava a cada minuto. Não tive dúvidas, liguei para o Dr. Joaquim Ribeiro para relatar o caso e pedir orientação, pois ele é o médico em que mais confio. Dei a minha versão dos fatos para ele que se ofereceu prontamente a visitar a minha avó, mesmo não sendo cardiologista ou pneumologista. Dr. Joaquim disse que veria a minha avó e depois se precisássemos de um clínico ou outro médico, ele nos recomendaria o melhor. E mais uma vez o Dr. Joaquim cumpriu a sua palavra e foi visitar a minha avó. No meio de tanto desespero, de tantas notícias ruins, ele foi sincero, mas como sempre otimista ao me dizer: "Danielle, o caso da sua avó é grave sim, por vários motivos. Ela teve uma embolia séria, mas não há nada de irreversível no quadro dela. Esta situação pode se resolver dentro de sete a dez dias." Aquelas palavras viraram um mantra para mim, pois a cada pancada, a cada notícia ruim, eu repetia para mim mesma "Não há nada de irreversível no quadro dela. Esta situação pode se resolver" e conseguia recobrar a pouca calma que me restava. Mais uma vez, desta vez sem saber, o Dr. Joaquim salvou a minha vida, ao me dar esperança de poder ver a minha avó viva.

O cardiologista da minha avó, Dr. Leonardo Arantes, também tem sido um herói. O jovem médico leva a sério mesmo o tal Juramento de Hipócrates e parte para o sacrifício o tempo todo. É incansável e dedicadíssimo, sempre disponível e paciente ao explicar quinhentas vezes prodimentos complicados para familiares leigos e ansiosos, sempre com humildade e carinho. A minha avó teve muita sorte. Ele tem sido um anjo, sempre ao lado dela. A minha família sempre fala que só de olhar para o Dr. Léo dá pra ver o estado de saúde da minha avó. Se ele está cabisbaixo e tristonho, a gente sabe que a coisa está feia, então quando o vemos sorrir, damos pulos de alegria. Desde a minha partida, andam me dizendo que o Dr. Léo está sorrindo mais.

O outro cardiologista da minha avó é praticamente o neto mais velho dela, o Filipe, que entrou na nossa vida por conta de um ex-namorado da minha irmã e foi ficando... Sobreviveu ao fim do namoro e virou padrinho de casamento dela e meu também. O Filipe também tem sofrido muito com a gente, pois além de médico dos meus avós e do meu pai, é praticamente da família, além de dar plantão nas residências dos Machados e dos Duran vinte quatro horas por dia, correndo de um lado para o outro sempre que a gente precisa de ajuda. A história da minha avó também foi um baque grande para ele.

Pois no meio de tantas notícias ruins, o consolo é saber que estamos cercados de gente boa -- de médicos competentes, dedicados e amigos e de amigos e familiares que têm se mostrado fenomenais. Minhas tias-avós têm dado plantão no hospital, meus primos, sobrinhos da minha avó, vieram de outroas cidades e outros estados e os parentes que moram no Rio vão freqüentemente ao hospital. Temos sorte, muita sorte, de estar cercados de pessoas iluminadas, mas as orações continuam até que a minha avozinha possa agradecer pessoalmente a um por um.

March 3, 2008

Médicos made in USA

Nada me irrita mais neste mundo do que lidar com médicos americanos. Realmente só de pensar no assunto perco o pouco humor que me resta. O tal Juramento de Hipócrates, aquele que fala em ajudar ao próximo, servir aos doentes ou coisa parecida não deve valer muita coisa por aqui. Estes seres humanos frios, que se mantém encastelados em consultórios e universidades guardados por secretárias antipáticas e grosseiras, pois é, aqui eles recebem o título de médicos, com raríssimas exceções.

Acabei de ligar para o tal Dr. Choti de novo -- ainda não tive a honra de conhecê-lo, mas já estou de saco cheio dele e da secretária idiota. Liguei para confirmar com a secretária que ela tinha recebido meu fax e para dizer a ela que o tal Dr. Kamel, radiologista, tinha dito que poderia ver meus exames. A débil-mental não fazia idéia de onde estava meu fax e quando comecei a falar do Dr. Kamel, ela ligou a tecla F e atacou com o blablablá default: "A senhora tem que encaminhar seus dados que serão avaliados pela equipe médica. Depois de decidida a conduta, entraremos em contato e decidiremos se há necessidade de marcação de consulta, etc, etc..." Dá vontade de enforcar uma imbecil destas! Será que ela sabe que está lidando com pacientes que têm uma doença seríssima e estão passando por um período muito difícil? Será que esta energúmena sabe o que é ter um tumor que cresce sorrateiramente no seu fígado? Acho que não. Ela não pode ser tão leviana assim.

Desnecessário dizer que estou revoltada. Mas isso não faz bem pro meu fígado, então o Blake vai ter que levar a papelada para o trabalho de novo, mandar o fax e ligar imediatamente para a bendita secretária para ver se ela já nos fez o imenso favor de checar a máquina de fax. E eu aqui que pensava que isto era parte das atribuições dela! Quanta inocência a minha...

Enquanto isso recebo uma cartinha da clínica ginecológica que se Deus quiser -- e os médicos e secretárias deixarem -- passarei a frequentar. Na verdade não se trata de uma carta, mas de uma cartilha com milhares de formulários a serem preenchidos além de uma lacuna onde devo escrever o tipo de plano de saúde que pretendo usar (óbvio, eles não atendem pobre sem plano!) e um lembrete de que se não desmarcar a consulta, paga-se uma multinha de $25.00. Ai que povo mais mercenário! Não me importo tanto com as exigências inúmeras desta máfia de branco por aqui, mas com o modo rude com que os pacientes são tratados, parece que somos lixo!

Agora começo a entender por que os americanos são fanáticos por sites como webmd.org e tantos outros que oferecem informações médicas. O motivo é bem simples: o povo aqui sequer consegue ver a cara do médico, que dirá ter vinte minutos para fazer umas perguntinhas a ele. Uma loucura!

Bem, agora que já desabafei, meu fígado agradece. Como quem está na chuva tem que se molhar, vou lá preencher o formulário da tal ginecologista antes que me esqueça e amanhã volto a encher o saco da idiota da secretária que a estas alturas já está com a orelha quente de tanto que falei mal dela.

Para quem tinha curiosidade, vai mais um pedacinho da minha American Way of Life. A vida no primeiro mundo nem sempre é tão doce quanto parece.

February 26, 2008

Burocracia...aqui também tem!!!

Depois de uma semana de jet-setter em Nova York, chegou a hora de colocar as coisas em ordem aqui em Suburbia, USA.

Ontem fui a mais uma entrevista e por incrível que pareça, o pessoal gostou da minha experiência internacional. Agora vamos ver no que vai dar. O lugar é bem bacana e o escritório lindíssimo e supermoderno, muito claro, com móveis em linhas retas e chão de porcelanato, coisa que a gente não vê quase por aqui!

Finalmente hoje consegui contato com o consultório do Dr. Michael Choti, o cirurgião oncológico especializado em fígado que me foi indicado pelos médicos do Brasil.

Falei com a secretária, óbvio, pois neste país é mais fácil uma audiência com o Papa do que uma conversa com um médico. Expliquei a ela o meu caso e ela me instruiu a mandar todo o material por fax!!! Então disse a ela que fora o relatório do médico, que tiha sido escrito em inglês, tinha muito pouca coisa que poderia ser passada por fax. As minhas imagens eram imensas e além delas tinha trazido "a peça", ou seja o tumor. Ela disse que poderia mandar os slides por fax, então expliquei melhor: "Não, minha senhora, não se trata de fotografia, eu realmente tenho o meu tumor aqui comigo! Trouxe cada partezinha dele dissecada e conservada em parafina. Trouxe tudo na minha mala de mão e gostaria que o Dr. Choti desse uma olhadinha nelas e depois me desse sua opinião." Acho que foi então que ela viu que eu não estava brincando. Perguntou meu nome e disse que iria aguardar as minhas informações e depois então alguém entraria em contato comigo.

Qualquer semelhança com o atendimento no SUS não é mera coincidência! O jeito SUS de ser aqui é bem high-tech. O sujeito tem que ter todos os exames e imagens à mão, mas antes de tudo tem que ter um fax, pois contato face a face não existe, pelo menos não nesta fase. A fila, a agonia da espera, a ansiedade, tudo isso é igual. Mas se no Brasil o povo faz fila na porta do hospital, aqui até a espera é virtual. A gente manda o máximo de informação possível via fax e depois fica esperando a secretária do médico ligar para saber se o dito cujo vai poder atender a gente. Será que meu caso é grave o suficiente? Será que sou digna da atenção do medalhão? Será que a secretária dele vai me ligar? Pareço adolescente esperando a ligação do carinha que encontrei na festa... Vivo o meu limbo, mas desta vez é muito mais grave. Se o carinha não ligar vou ter que arrumar outro médico pra cuidar de mim, e convenhamos que cirurgiões-oncológicos especializados em fígado não aparecem por aí às pencas.

Como aqui neste país tudo é uma competição e apresentação é o que mais importa, vou escrever a minha cartinha pro Baú da Felicidade do Dr. Choti e torcer para ele se emocionar com a minha história o suficiente para querer me ver. Queria pelo menos ter a chance de levar meus zilhões de exames e obviamente os pedacinhos do meu tumor, que ainda estão guardados no meu quarto a espera do verdicto final.

Desejem-me sorte. Pois é, this is the American way of life...