January 31, 2009

Vai Dar Certo

"Vai dar tudo certo, pode ter certeza," esta é uma das frases que a gente mais escuta antes de uma cirurgia. Quanto mais séria a cirurgia, mais gente telefona para entoar o mantra. Todo mundo liga antes e diz praticamente a mesma coisa. O mais estranho de tudo é que a gente acredita. Por algum motivo louco, talvez até uma forma de defesa, aquelas palavras adquirem uma intensidade enorme e viram verdade absoluta. Fulano falou que vai dar certo é porque vai dar certo. Nestas horas a gente passa a achar que todo mundo é sensitivo.

Ninguém tem certeza de coisa nenhuma, mas vai falar o que quando o coitado (sim, coitado, pois ninguém em sã consciência vai querer entrar na faca para retirar um órgão ou cortá-lo em picadinhos. Cirurgia estética não conta e pele e gordura não são órgãos vitais!) não tem outra alternativa?

Lembro que nos dias que antecederam a cirurgia, todos os meus amigos e familiares me traziam mensagens de otimismo, muito embora hoje eu perceba que na verdade eles estavam tão perdidos, ou mais perdidos, do que eu. Eles não faziam ideia da complexidade do procedimento ou dos riscos que eu corria. Melhor assim. Hoje entendo que às vezes é melhor manter-se no escuro, quando a realidade é muito incerta ou desanimadora. Dizem por aqui que a ignorância é uma bênção. Longe de mim apregoar a negação ou a ignorância, mas às vezes muita informação pode doer demais.

Uma das coisas mais difíceis que tive que fazer em relação a doença foi traduzir a minha própria biópsia depois de voltar para os EUA. Fui encaminhada a Hopkins e os médicos de lá precisavam ler a minha biópsia, que estava em português, então lá fui eu traduzí-la. Aparentemente, nada demais, pois o que mais faço na vida (muitas vezes contrariada) é traduzir documentos, websites, artigos, ementas e tudo que vier pela frente. Então nem pensei duas vezes antes de colocar as mãos à obra. Traduzi um texto muito complexo e técnico em uma noite.

O que eu não tinha percebido até me entregar de coração ao projeto é que tinha acabado de burlar uma das regras que eu tinha criado para mim mesma e que os médicos sempre enfatizam com seus pacientes. "Não fazer nenhuma pesquisa na Internet. Não procurar saber detalhes mais científicos. Não ir atrás de estatísticas assombrosas. Não ceder à curiosidade mórbida." E lá estava eu, completamente absorvida, entre neoplasias, células, linfonodos, margens ou outras palavras que prefiro nem me lembrar.

Apavorante seria a palavra mais adequada para ilustrar a experiência. Foi só então que percebi que desta vez a tradutora também era a protagonista da história e aquilo não era bom, mas eu precisava levar o projeto até o final.

Quebrei a promessa e cedi à tentação de saber coisas que não precisava, mesmo que sem querer, mas terminei a tradução, que foi a mais difícil da minha vida por vários motivos:
* Os motivos práticos: é sempre mais difícil trazer o texto do português (minha língua mãe) para o inglês (por mais domínio que eu tenha da língua); além disso o texto médico, mais especificamente patologista, é muito complexo e o vocabulário é completamente diferente para um leigo.
* Os motivos emocionais: ninguém está preparado para esmiuçar sua própria biópsia e saber tantos detalhes sobre algo tão desconhecido e tão incontrolável como a doença. É útil ter informações necessárias para gerenciar seu tratamento e discutir suas opções, mas saber da estensão da neoplasia e do formato das células cancerígenas é perfeitamente dispensável.

Lição aprendida, informação é poder só quando ela pode ser usada a seu favor. Pode soar maquiavélico, mas é a mais pura verdade. E usando uma frase menos conhecida do mesmo pensador, fecho este post: "Onde há uma vontade forte, não pode haver grandes dificuldades."

E assim sigo em frente.

5 comments:

Anonymous said...

Sábado com sol depois de tanta chuva e estou aqui no curso. Aproveito para te mandar um beijo e dizer que concordo com o que disse.
É muito difícil buscar os detalhes, porque não trata-se de algo que se passa dentro de você, mas a informação é fundamental para que a gente possa, de alguma forma (e numa medida que nos parece muito menor do que a que gostaríamos)pegar o leme do barco e comandar.
Não tenho novidades, mas assim que tiver algo novo no front te mando um e-mail, ok?
Um bom findi
Gaby

Silvia said...

Dani, passei para dar um beijo. Te desejar força é algo quase que desnecessário pq você é uma das mulheres com mais fibra que eu já conheci (mesmo que só virtualmente), mas eu posso dizer que estou sempre torcendo e rezando por você e admiro muito sua vontade de viver. Quando crescer quero ser mais que nem você: linda por dentro e por fora!!!!!!
Tive uma semana um pouco corrida, então não tive muito tempo para visitar seu blog, mas as fotos da neve estão lindas!
Mil beijocas!

Ana said...

Ai credo, Dani, acabei de dizer isso pra uma pessoa, to me sentindo péssima, acho tudo isso um horror, porque que certas pessoas tem que passar por isso, e outras passam a vida na sombra e agua fresca, fico com pena da minha amiga, porque acho que ela tah sozinha, eu soh conheço ela ha uns trinta dias, nao sei o que dizer, que merda.

Dani said...

Merda mesmo, Ana. Um horror! Nestas horas só podemos rezar e pedir a Deus que esteja com ela. É muito duro, Ana, muito duro. Mas a gente tem que se proteger um pouco também, às vezes fica tudo muito triste, mas a gente precisa seguir em frente.
Vou rezar pela sua amiga.
Bjs, força e coragem para nós todas

Cristina said...

Coincidentemente, na véspera desse post, eu orei por vc na St Sulpice. Parabéns pela coragem!