January 26, 2009

Romance e Doença

Outro assunto que surgiu durante o happy hour da semana passada foi como abordar seu histórico médico durante uma saída com um pretendente.

Sempre fui meio encucada com as coisas, mas juro que neste quesito tirei de letra. Para mim foi muito simples: o fato de eu ter tido um ou mais tumores não poderia ser mudado. A cicatriz está no meio do meu abdomen até hoje e vai ficar ali para sempre, então não havia motivo para esconder o óbvio. Era questão de tempo.

Logo depois da primeira cirurgia fiquei um ano sem beber NADA de álcool. Nunca fui chegada à birita e detesto cerveja, então não me incomodei muito. Mas se eu não me importei o mesmo não podia ser dito de algumas pessoas ao meu redor. Não os amigos que acompanharam tudo, mas os conhecidos ou amigos de amigos que me olhavam como se eu fosse um ET por pedir chá gelado num barzinho, ou Diet Coke (quando ainda havia Diet Coke e quando eu ainda tomava aquele veneno!) numa boate.

Uma vez um infeliz chegou a insinuar que eu tinha cirrose hepática (como se isto fosse motivo de graça) e me chamou de pinguça... Quando disse para ele o real motivo, o queixo do sujeito caiu e ele me olhou como se tivesse vendo um fantasma. "Câncer no fígado?! Mas ninguém sobrevive a câncer de fígado!" Pois é, muito desinformado o cara. Mas só assim ele calou a boca e acho que da próxima vez vai pensar antes de falar tanta besteira.

Mas voltando ao lado romântico da coisa, sempre abordei o meu histórico muito francamente, no esquema love me or leave me, numa de estabelecer a minha identidade logo de cara. Sempre fiz isto com meus amigos gays também. Sempre que começava a sair com um namorado novo, fazia questão de dar um jeito de apresentar meus amigos gays para ele. Queria ver a atitude do carinha, pois a minha era sempre, "estes caras são meus amigos e sempre serão e quem quiser ficar comigo vai ter que gostar deles também." Para minha sorte, todos os pretendentes adoravam meus amigos gays ou não, pois eles são realmente muito especiais. Sorte a minha, mas sempre deixei claro que os pretendentes eram passageiros; os amigos não.

Com a história da saúde também era a mesma coisa. A doença me ensinou muita coisa e a cicatriz faz parte de mim, quem quiser ficar do meu lado vai ter que entender isto, sempre foi meu mantra. Então na primeira oportunidade já ia logo abrindo o jogo, sem muito drama. "Foi isto que aconteceu, mas agora estou bem obrigada." Uma vez ouvi de um carinha "Nossa, ainda bem que estou mais maduro agora. Se fosse uns seis meses antes, já teria ouvido uma vozinha dizendo 'ela é mesmo uma gracinha, mas cai fora que esta é fria." Não sei se foi mesmo a tal da vozinha que acabou falando mais alto, mas no fim das contas o cara sumiu! Melhor para mim, que acabei encontrando minha alma gêmea tempos depois.

Mas é claro que com o Blake foi muito diferente, a começar pelas circunstâncias -- nos conhecemos online e entre os primeiros emails e a ida dele ao Brasil fiz a plástica reparadora na cicatriz da cirurgia. Então uns dias antes, disse a ele que iria dar uma sumida por um dia ou dois. Ele perguntou o motivo e eu disse que era cirurgia. Ele perguntou se era séria e eu disse "desta vez não, é meramente estética." E depois então tive que desfiar o rosário e explicar tudo.

Ele me fez várias perguntas mas não senti um tom condescendente ou distante, pelo contrário. Tempos depois ele me disse que o modo como eu tinha encarado tudo e a forma aberta como tinha contado a ele o tinham impressionado demais. (Mal sabia ele que ia viver aquilo tudo comigo mais uma vez...)

Então meu conselho para as meninas sempre foi um só: Sejam francas. Se o carinha é babaca é melhor saber de cara do que esperar que daqui a um tempo ele venha quebrar seu coração. Sim, já aconteceu comigo também...o meu namorado na época da primeira cirurgia foi saindo meio à francesa e um belo dia, quando eu disse que daquele jeito não ia dar certo, ele disse. "É verdade. Melhor a gente ficar por aqui."

E foi mesmo. Ter saído da minha vida num dos momentos mais difíceis que já enfrentei foi o melhor presente que ele poderia ter me dado. Como diz o ditado, antes só do que mal acompanhada!

4 comments:

paulaalves00 said...

É possível eu gostar ainda mais de você quanto mais lhe conheço?? Que felicidade a minha ter tido a oportunidade de esbarrar em você duas vezes nessa vida... Mesmo que eu só tenha aproveitado a segunda e mais improvável chance!!!!!

Dani said...

Paula,
Ainda bem que tivemos nova chance, né? Ontem na aula de meditação, a instrutora dizia que nós estamos em constante mutação e o que não parece certo hoje pode ser a certeza de amanhã... As vezes acho que a vida é feita de segundas chances.
Bjs

Ana Claudia Lintner said...

Dani,
mais um motivo pra te elogiar. Bom, nao e novidade, Ja ta ficando piegas, mas e verdade: te admiro!
Minha paixao pelo marido ate aumentou fiante da naturalidade e do "bola pra frente" com que ele tem encarado a EX doenca.
Deus acerou em cheio em nos conceder o prazer da presenca de voces.
Bjo

Cristina said...

Adorei Dani. Aos 20 a gente lamenta encontrar esses babacas. Aos 30 e poucos vemos como foi bom eles verbalizarem tanta besteira e darem espaço para os caras legais rsrs. Sexta conheci um carinha e sem saber que escrevi livro, ele me perguntou como eu fazia tanta coisa (e olha que eu so falei de dar aula e cantar...). Já mandei a real que faço muita coisa. Se for para valer a pena, que ligue...