May 16, 2008

Recepção para os Sobreviventes

Como sou do comitê organizador do Relay aqui da área, me convidaram para ir a uma recepção de um outro Relay aqui perto para ter uma idéia do evento. Fiquei surpresa com a magnitude e com a emoção que senti só de estar lá.

A máxima da American Cancer Society de que o câncer não escolhe nem uma hora nem um alvo específico para atacar se materializou sob os meus olhos. Eu estava ali, num pavilhão imenso, numa área completamente rural em Maryland, rodeada por pessoas que primeiramente não tinham nada a ver comigo: faixa etária, aparência física, jeito de vestir, e tantas coisas mais, mas que na verdade tinham um laço fortíssimo comigo e com tantos outros. Aquelas pessoas sabiam exatamente o tamanho da dor que um diagnóstico ruim pode causar. Todas aquelas pessoas ali tinham vivido e testemunhado um momento cruel e inesquecível e estavam ali todas juntas para mudar o rumo da história.

À minha frente, duas senhoras de uns setenta anos. Ao meu lado, um casal jovem na faixa dos vinte e poucos. Todos tão diferentes mas tão iguais; tão emocionados por poder estar ali. O momento mais tocante, sem dúvida, é a hora das luminárias. Espalhados nas mesas estão velas e sacos de papel, onde os presentes devem escrever os nomes daqueles que travaram a batalha com a doença. "Em memória" dos que se foram e "em honra" aos que sobreviveram".

Foi naquela hora que notei quantas e quantas pessoas queridas para mim mereciam ter seus nomes escritos ali. Não haveria papel suficiente. Foi naquela hora também que pela primeira vez me veio à cabeça que a minha bisavó tinha morrido de câncer, mas ela já era velhinha e naquela época ninguém falava na doença. Estranho pensar que a Vó Clarinda era velhinha naquela época, mas tinha a mesma idade que a filha dela, minha Avó Ruth, tem hoje. Não me parece justo. A minha avó venceu um linfoma há uns cinco anos e me parece ainda tão jovem. Como ela mesmo diz, "a gente só envelhece por fora. Por dentro, a gente permanece a mesma pessoa".

Tudo isto me faz ver como as coisas mudaram. Se há vinte anos, ninguém ousava falar no inimigo covarde, hoje as pessoas são muito mais abertas sobre assuntos que até pouco tempo eram tratados como "particulares e privados". Ainda bem. Ainda bem que não temos mais medo de encarar o inimigo de frente e cada vez mais temos certeza de estar mais perto de uma cura.

Foi por isto tudo que tive que prender o choro durante mais de duas horas. Duas horas de emoções intensas e conflitantes. Felicidade por estar ali e tristeza por tantos que não tiveram a mesma sorte. Alívio por ter conseguido sobreviver e medo, por mais escondido que ele esteja, do que este inimigo ainda pode fazer com a minha vida.

Na maior parte do tempo nem penso no assunto, pois estou muito preocupada em viver a minha vida da melhor forma possível. Ainda tenho tantos sonhos e me ocupo a cada dia em tranformá-los em realidade. Tenho muita sorte de ter a família e os amigos que tenho que me apoiam sempre, mas de vez em quando me dá uma pontinha de medo. E é por isso que insisto em me engajar nesta causa e é isto que me move, pois a cada dia este medo fica menor.

2 comments:

Paula said...

Que o medo seja o impulsionador da sua coragem e que, o sentindo, não pense em parar de lutar nunca!!

Paula said...

Que o medo seja o impulsionador da sua coragem e que, o sentindo, não pense em parar de lutar nunca!!