March 31, 2009

O Problema das Crianças

Lembro que há muitos anos atrás, li uma matéria no New York Times que me chamou atenção. O autor tratava de um tema controverso: a batalha travada entre os com-filhos e os sem-filhos, pois aqui nos EUA trata-se de dois grupos completamente antagônicos e automaticamente excludentes. O sujeito sem filhos é visto como egoísta e superficial pelo cara que tem filhos e aqueles que tem filhos são simplesmente o terror para os que não tem, pois só falam nos pequenos e não conseguem dar um passo sem eles.

Já vivi uma situação no mínimo estranha quando vim visitar o Blake aqui antes de nos casarmos. Um casal amigo nos chamou para uma festa na casa deles. A festa na verdade era para ver a final do Superbowl (campeonato de futebol americano). Chegando lá, a casa estava lotada, de adultos e crianças, todas com menos de três anos, todas lindas e superbem vestidas. Lá pelas tantas um ruivinho, que deveria ter uns dois anos, vem pro meu lado e começa a me chamar de mamãe. A coisa mais linda!!! Fiquei brincando com ele até que o pai veio se explicar "Desculpas por ele se rassim tão atirado, mas é que você tem o mesmo cabelo da mãe dele..." Eu sorri e continuei brincando com ele. Até que lá pelas tantas chega a mãe do ruivinho. Ao nos ver, ela se aproxima e me pergunta meu nome e se eu tenho filhos. Ao ouvir a minha resposta, ela simplesmente vira as costas. Sem mais nem menos! Fiquei chocada! Como assim? Desde quando o fato de eu não ter filhos me torna um pária? Mesmo não tendo filhos, é óbvio que gosto de crianças, afinal estava brincado com o filho dela havia horas...

Fiquei passada. Mas depois conversando com uns amigos, entendi. O problema não era comigo, era com ela mesma. Ao dizer que não tinha filhos, aniquilei qualquer chance de uma conversa entre nós, pois não haveria troca, já que o único assunto que ela dominava ou lhe interessava não era pertinente a mim. Coisa de maluco, eu sei, mas ilustra bem a vida da americana classe média que abre mão da carreira (se é que ela um dia teve) e da própria vida para se dedicar completamente aos filhos. Mas é esta mesma mãe americana que, quando o filho completa 18 anos e sai de casa para a faculdade, já vai logo avisando que dali para frente ele vai ter que seguir seu rumo. Nem pense em voltar para casa e se voltar, saiba que para morar no basement tem que pagar aluguel!!! Não que eu seja a favor de pais superprotetores e nem de filhos com trinta e poucos anos que vivem a custa dos pais, mais exigir que alguém de 18 anos que foi paparicado a vida toda siga seu rumo de um dia para o outro é bem cruel.

Mas voltando às crianças, o problema das crianças americanas em geral (sim, eu sei que todo estereóptipo é falho, mas se é estereótipo, então tem uma razão de ser...) é que elas são descontroladas! Juro que se fosse psicóloga estudaria a questão mais a fundo, mas ao contrário da maioria das crianças brasileiras, as americanas não tem a menor noção de como se portar em público. Culpa dos pais, penso eu. Como aqui neste país, tudo é 8 ou 80, ou a mãe larga as crianças com a babá e nem olha para cara das coitadinhas, ou resolve abrir mão da vida para não perder nenhum detalhe da vida dos pimpolhos. (Fala sério, um pouco de independência nunca matou ninguém!!!) Então elas param de trabalhar para criar os filhos e não abrem mão da companhia da prole por nada deste mundo. Até aí tudo bem, problema delas. Acontece que, como diz o ditado brasileiro, o seu direito acaba quando começa o direito do outro, então por mais lindas que elas achem suas pestinhas, quando começam a destruir a minha casa, o problema passa a ser meu também.

Conversando com a minha mãe, ela disse que não gostava de levar os filhos para festas de adultos porque nunca se divertia. A questão aqui é que as mãe levam os filhos e TAMBÉM se divertem, ou seja, não estão nem aí para o que as pestinhas estejam fazendo. Esta é a diferença de mentalidade. Longe de mim ser nazista ou inimiga das crianças, quem me conhece sabe muito bem que eu ADORO os pequenos. Também não sou fanática por limpeza e nem ligo muito para bens materiais -- quebrou já era. Mas para mim tudo tem um limite, e sábado as coisas chegaram perto do caos. O Blake, que é muito mais ligado nestas coisas do que eu, já decretou: outra festa nas mesmas proporções NUNCA MAIS. Não que não tenhamos planos de abrir nossa casa outras vezes, muito pelo contrário, mas serão festas mais íntimas e restritas a adultos. Claro que pode haver exceções. Temos um casal de amigos cuja filha de oito anos é uma graça e adoramos quando ela vai nos visitar: supercomportada, esperta, inteligente, não dá trabalho nenhum. Infelizmente a imensa maioria das crianças é bem diferente da Lauren.

O engraçado também é que os pais acobertam os filhos. Nós temos dois sobrinhos, um de 13 e outro de 11. Até dois anos atrás, os dois eram verdadeiras pestes e a minha cunhada, para desespero de toda família, sempre insistiu em carregá-los para todos os lados, o que significa que as reuniões de família eram um verdadeiro circo. Hoje o mais velho, já adolescente, é completamente diferente. Passa vários dias conosco em casa e não dá trabalho nenhum. Adora ir ao shopping, fica horas no Wii sozinho, enfim, se sente em casa. Como mais comportado, fizemos um trato com ele: se nada fosse quebrado, ele ganharia 20 dólares e ele adorou a idéia. De fato apesar da sujeira, nada se quebrou e nós notamos que ele havia escondido algumas almofadas do resto das crianças.

No final da festa, a minha cunhada me sai com essa: "As crianças nã deram problema nenhum." Ao que meu sobrinho, filho dela, responde "Não deram problema?! Você diz isto porque não estava lá!" Quando eu pergunto o que tinha acontecido e quem eram os envolvidos, ele responde "Ora quem?! Meu irmão e os meninos asiáticos." Ela olha para ele com um ódio absurdo e dispara "Você sempre tem que estragar tudo. Você e esta sua língua!" E puxa o garoto em direção ao carro.

Para bom entendedor a mensagem da mãe não poderia ter sido mais clara "Acoberte as estripulias do seu irmão ou vai sobrar para você!"

O que ela não sabia era que o Blake tinha visto o sobrinho mais novo com a cara toda vermelha chorando lá pelas tantas. Nossa conclusão: ele foi dar uma de abusado e os meninos chineses devem ter dado um tremendo kung-fu para ele deixar de ser engraçadinho. Aliás, nunca vi chinesinhos tão pestinhas na minha vida...

Sábios foram os nossos gatinhos, que quando viram o tamanho da confusão, se enfiaram embaixo do sofá e lá ficaram o resto da noite.

7 comments:

Luciana Misura said...

Dani, acho que você só teve experiência então com os pestinhas, porque a maior parte da minha experiência aqui nos EUA é radicalmente oposta a sua.

A maioria das mães americanas que eu conheço exige que os filhos se comportem como adultos desde cedo - não pode fazer barulho, nem gritar, nem rir alto, nem correr, nada. As crianças não podem ser crianças e minha mãe mesmo já presenciou isso em algmas vezes que veio visitar. A gente comentava que se esses americanos todos vissem as crianças no Brasil eles iam ficar de cabelo em pé simplesmente porque elas correm e riem alto.

Aliás, a maioria absoluta dos americanos que conheço não levam os filhos a nenhuma festa a noite por dois motivos 1) festa de noite não é lugar de criança 2) as crianças aqui dormem 6-7 da noite então na hora de qualquer festa já estão dormindo há tempos. Me lembro até hoje que quando estava organizando o meu casamento (que foi em Michigan) a família do meu marido toda me falou que crianças não eram convidadas e que isso aqui nos EUA era comum (e depois vi que é comum mesmo, mas foi chocante não ter crianças no meu casamento depois de crescer indo a trocentos casamentos de família com os meus primos).

Enfim, já vi grande parte do que você escreveu a respeito de mães x mulheres sem filhos acontecer mesmo, e também sobre o fato das mulheres pararem de trabalhar pra criar os filhos, mas a minha experiência nos 7 anos aqui vendo crianças de todas as idades não poderia ser mais diferente que a sua. Beijos!

Dani said...

Que coisa mais engraçada, Lu!!! As crianças que conheci aqui e em NY eram impossíveis! Aliás o comentário geral no casamento de uma amiga minha, que caou com um americano no Brasil, era que as crianças brasileiras eram uns anjinhos e superbem comportadas, e que as americanas não poderiam nem sonhar a ir a um casamento à noite e se portarem como a Julia.
Será diferença geográfica então, pois aqui em MD o povo leva os filhos para tudo? Ou será o tipo de gente que eu conheço por aqui??? Se bem que da última vez que vi meus amigos em NY, vi a filharada toda também...Sei lá, agora fiquei curiosa!

Anônima said...

Menina, finalmente alguem falou desse assunto. Eu sempre disse que essas criancas Americanas sao descontroladas e todo mundo me criticava e dizia pq eu nao tinha filho....

Mas se eu tivesse nao seria criado da forma que os gringos educam.

paulaalves00 said...

Não convivo com crianças americanas, mas acho que pais devem estabelecer limites e não podem deixar de ter vida por causa dos filhos. Se vai levá-los pra festa, que se comportem então porque tenho horror de criança mal educada que acha que pode tudo!! Tenho 2 sobrinhas lindas que são incapazes de mexer nas coisas quando estão em casa de amigos e sabem respeitar os mais velhos. E isso, vem da família, vem do exemplo que vem de casa.

Anonymous said...

Dani dá uma olhada no bolg do Tio Ribeiro!!

Beijoss

Ana Rosa

paula said...

Oi Dani,

Concordo com você em termos..., acho as crianças americanas umas pestinhas, já presenciei muitas coisas absurdas, mas as brasileiras também não ficam atrás, minha sobrinha de 4 anos, por exemplo, eu amo ela, mas...simplesmente não tem limite nenhum, minha mãe fala que é falha de criação, mas acho que as crianças hoje estão assim, é incrível!! A Carol quando vai na minha casa, se eu nãofico atrás, ela acaba com a casa, outro dia quase teve uma enchente de tanto que ela encheu a banheira, eu estava dormindo e quando ví...
Agora sobre as mulheres que têm filhosxque não tem, a sensação que tenho é que algumas se acham superiores e nos julgam ET´s porque não temos, desculpe, minha sinceridade, mas para mim quem abre mão de TUDO na vida para cuidar de filhos e deposita toda a responsabilidade da felicidade delas nas crianças é que é ET, se eu te contar, já ouvi cada uma!!!
Teve uma louca que me falou que o meu casamento devia ser muito triste porque eu não tenho um filho, ao contrário, émuito feliz!! Muito mais felizdo que muitos que vejo por aí em que as pessoas apenas se aturam por terem filhos, não acha? Sou muito feliz e tenho certeza de que você também é, claro se eu tiver um bebê vou adorar, mas tenho um compromisso comigo de ser FELIZ!!

Bjs,
Paula

Cristina said...

Dani,
quanto à crianças americanas não posso opinar. Sei que não era a sua intenção mas eu até dei uma risada com a história do seu sobrinho no final da festa :-)
Acho que independente da nacionalidade, é uma questão de limites postos pelos pais e educação dada por eles (ou deseducação). Tem uma novela aqui falando de pitboy e o pai apoiando. Eu vejo umas posturas hoje que me assustam.
Quanto ao embate filhos X sem filhos, eu já vivenciei isso com uma amiga minha aqui (quando ela estava empregada!). Só que pior que o que aconteceu com a Paula, é a cara que ela fazia qdo eu dizia que não tinha dado certo com um namorado. Concordo com ela, o importante é ser feliz!