January 17, 2008

Sobre as Escolhas

Depois do terremoto que vivi durante as últimas semanas, finalmente aos poucos começo a ter uma vida mais ou menos normal.

Ontem fui conversar com o cirurgião, Dr. Joaquim Ribeiro, o médico que me operou as duas vezes e que, apesar de conviver com casos que variam entre graves e impossíveis, consegue manter um otimismo impressionante.

Fui vê-lo ontem com um misto de esperança e medo, pois só em falar neste assunto, muitas vezes já começo a chorar. E foi mais ou menos assim que comecei a nossa consulta, meio choramingando. Disse a ele exatamente tudo que o outro médico tinha me dito e que era praticamente o oposto do que ele afirmava. Desde a idade do tumor, até a minha dieta daqui para frente, passando pelas características do meu fígado, eles não concordavam e ainda não concordam em absolutamente nada. Mas o Dr. Joaquim foi muito firme e sereno durante a nossa conversa. Me explicou a cirurgia em detalhes, o procedimento de avaliação da amostra e o resultado contestável da biópsia. Lá pelas tantas eu disse a ele que comparando tudo que eu tinha ouvido na véspera com o que ele estava me dizendo naquela hora, parecia uma conversa esquizofrênica. Ele concordou e fez uma colocação que não me sai da cabeça desde então.

Depois de expor os fatos e me ouvir atentamente ele disse. "Então você vai ter que fazer a sua escolha. Não dá para escutar duas opiniões diferentes e antagônicas; você vai ter que escolher o caminho que quer seguir." E foi exatamente isso que fiz. Ali mesmo, naquela hora tomei a minha posição. Decidi acreditar que o tumor é resquício do tumor antigo e que foi todo retirado com ampla margem naquele dia quatro de janeiro. Decidi acreditar também que os 60% que restaram do meu fígado era mais que sadios e que ele agora é completamente normal e que posso seguir a minha vida sem medo.

Tudo isso me parecia tão distante há tão poucos dias que é inacreditável que a minha realidade tenha se transformado tanto em tão pouco tempo. Tudo que me restou da cirurgia foi a mesma cicatriz, que está um pouquinho inchada mas que pouco me incomoda e que tenho certeza é meu grande amuleto da sorte.

Acreditar na minha cura e ouvir meu corpo e minha intuição daqui para frente foram as primeiras decisões que tomei depois do grande susto, agora me preparo para tomar outra, não menos difícil.

Depois de um susto destes, qualquer um tende a reavaliar sua vida e comigo não é diferente. Há coisas que podemos ou não mudar. Voltar para Maryland não é uma opção a esta altura, logo remarquei nossa volta para o dia 12 de fevereiro. Mas retornar ao trabalho na universidade sim, neste momento é uma opção, pois por mais indesejável que seja deixar o emprego que mal comecei, é algo que ainda pode ser feito e justificado agora. Quem não entenderia a minha opção de não querer passar três horas diárias no trânsito e mais oito trancada numa sala sem grandes inspirações intelectuais?

Mas nestas horas bate um medo tão grande. Medo de me jogar de cabeça mais uma vez rumo ao desconhecido. Medo de deixar um trabalho, que por mais mundano que seja, me oferece uma boa estabilidade e salário certo no fim do mês. Medo de ter que começar do zero mais uma vez. Ou será medo de me lançar em busca dos meus sonhos, que de tão sufocados já nem mais sei se existem? Será que é chegada a hora de me jogar de cabeça e tirar este livro de dentro de mim de finalmente? Sempre culpei a minha vida corrida e a minha falta de paciência por não ter colocado esta idéia em prática até hoje, mas será que não foi por covardia? Sim, pois num livro o autor se expõe muito e não sei se estou preparada para isso. Sou muito sensível a críticas. Será que vou conseguir pôr a minha história ou qualquer história no papel? Será que vou conseguir traduzir este emaranhado de idéias e enredos que me assombram há tanto tempo? Será que algum dia meus pensamentos tomarão vida? Será que deixarão de ser só meus e vão ganhar o mundo? Será que eu posso sonhar de novo?

Só de pensar um pouquinho, vejo que esta cirurgia não mexeu só com o meu fígado, mas sinto que de repente pegou um pouquinho do meu coração. Não me causaria surpresa se isto tiver acontecido, tendo em vista que a tal veia cava, que no meu caso está toda mexida e costurada, vai direto do fígado até o coração. Pensando bem isto tudo começa a fazer um pouquinho de sentido...

2 comments:

Claudia said...

Dani, eu acredito que certas coisas acontecem pra chacoalhar a gente... fazer a gente acordar pra vida, perder os medos, enfrentar o desconhecido e se lancar em busca dos nossos sonhos. Eu acredito em fazer o que se gosta, nao se enterrar em algum lugar por conta de salario no fim do mes. Sonha sim, e tenho certeza que com seu talento esse livro sai sim.. e vai ser um sucesso. Eu estarei na fila pra comprar e ganhar autografo!

Cristina said...

Eu também estarei na fila! :-)
E não é por que vc foi no meu lançamento do livro em 2004, é pq eu te admiro muito, amiga!