November 11, 2010

Jonas Sisters



Lembro que desde pequena, quando assitia filmes, achava estranho quando as famílias americanas se reuniam e comiam depois de um funeral. Acho que para a maioria dos brasileiros enterro não combina muito com comida ou com coversas superficiais. Talvez pelo drama inerente a nós latinos, enterro é uma ocasião triste que a gente quer que acabe logo, quanto mais rápido melhor.

Aqui nos EUA, com a exceção dos judeus que enterram seus mortos muito rápido como nós brasileiros, a maioria das famílias leva ao menos uma semana para organizar o enterro dos entes queridos. Foi assim com a minha amiga Dawn, que faleceu no dia dois, mas cuja cerimônia fúnebre só acontenceu ontem.

Senti que tinha que ir. Não só por ela, que era de fato uma pessoa iluminada, mas por toda a sua família, pois me tornei muito próxima de seus pais e suas irmãs. A Dawn tinha uma irmã mais velha e outra mais nova, as duas maravilhosas como ela; deve ser genético, herdado dos pais.

Lembro que a empatia foi imediata, pois conheci Judy, sua mãe, antes de sequer ver a Dawn, que estava dormindo do quarto. Aos poucos fui conhecendo seu pai, suas irmãs e seus amigos. O que mais me impressionava era a unidade e a harmonia daquela família. E a fé, por pior que fossem as notícias, ninguém demonstrava desespero ou revolta. Jamais.

Acho que me vi um pouco na relação que a Dawn tinha com suas irmãs, que apesar de morarem em outros estados (a mais velha no Alabama e a mais nova na California), jamais saíram de perto da irmã doente. E apesar das circunstâncias tão difíceis estavam sempre felizes por simplesmente estarem juntas. Uma das enfermeiras resumiu bem quando disse que a cada vez que entrava no quarto de Dawn se sentia como convidada de honra numa festa do pijama. “Sente nesta cadeira aqui que reclina; a sua é muito dura. Quer chocolate? Coca-cola? Pega um bolo que a mamãe trouxe pra gente! E aí, como vai o trabalho?” A preocupação delas era sempre com a convidada! E a gente se sentia em casa imediatamente.

Ontem, ao olhar as fotos delas, desde bebês até os dias de hoje, foi difícil segurar as lágrimas, pois as Jonas Sisters nunca mais serão três...estarão para sempre desfalcadas, pelo menos por aqui. E isto dói. É complicado imaginar que a Dawn não está mais presente, pois apesar da gravidade da doença, ela nunca parecia frágil, nem física nem emocionalmente, embora ao mesmo tempo demonstrasse que estava pronta para cumprir sua missão, mesmo que significasse partir.

Na última vez que nos vimos, quatro dias antes dela falacer, eu tinha acabado de fazer a minha utra e ela e sua mãe foram as primeiras pessoas a ver as imagens. Ficaram genuinamente emocionadas e felizes... E eu ali pensando de onde tiravam este sentimento, diante de tamanho sofrimento que havia se abatido sobre elas. Não sei explicar como, mas a alegria delas por mim era real, impressionantemente real,e eu me sentia muito bem de estar ali, entre amigas.

Como disse o padre na homilia, as missas fúnebres são para os vivos, não para os mortos, pois nos dão uma oportunidade de refletir, de pensar, de fechar um ciclo. Acho bacana o modo como o americano encara a “celebração da vida de alguém que nos deixou,” no caso da Dawn, cedo demais, aos 36 anos. Ao chegar a igreja, muitas fotos dela e da família, um laptop com clipes e momentos felizes vividos por eles. Parecia que ela estava mesmo ali.

Durante a missa, minha echarpe virou lenço e a cada informação nova, eu ficava mais emocionada. Os pais de Dawn optaram por cremar a filha e guardar suas cinzas em casa para que sejam enterradas com quem partir primeiro, Judy ou Clyde. A razão deles? “Jamais deixamos nossa filha sozinha em vida e não vamos abandoná-la na morte.” É de cortar o coração ou o que? Verdade seja dita, ao contrário da maioria dos doentes, Dawn nunca passou um minuto sozinha...e sempre foi muito grata por isto. Ao mesmo tempo, era muito fácil ficar ao lado dela, sempre positiva e feliz.

As palavras finais do padre me emocionaram demais, e como boa brasileira, só pensava em sair correndo para o carro para chorar sozinha, mas fiquei para dar um abraço nos pais e nas irmãs dela. Para minha surpresa, foram eles que me consolaram, dizendo que a Dawn tinha passado mal rezando o terço ao lado do pai e que depois disso tinha perdido a consciência.

“Sou grata por ela ter tido uma morte rápida e, espero, indolor,” me disse DeeDee, a caçula, que descobriu-se há pouco grávida de seu primeiro filho. A data provável do parto? Duas semanas depois do aniversário de Dawn, mas de acordo com a tradição da família, todos os bebês nascem com duas semanas de atraso. “Esta história de ciclo da vida me pregou uma peça desta vez,” me confessou a minha amiga, “mas tenho certeza que tudo vai fazer sentido no final.” Eu também, DeeDee, eu também.

É difícil explicar como há pessoas que nos tocam tão profundamente ainda que num tempo tão breve. Com a Dawn foi assim, não só com ela, mas como toda sua família. Como todo ser humano egoísta, me vi um pouco ali, na situação deles. E apesar de tantas diferenças, vi que o laço de amor que une algumas famílias americanas, brasileiras ou japonesas é o mesmo e tem a mesma intensidade.

A Dawn partiu cedo demais, mas enquanto esteve por aqui teve realmente uma existência singular e iluminada. Quando já achava que ela era especial demais, me contaram seu último desejo: Dawn quer que a casa onde ela morava sozinha seja doada para um de seus melhores amigos. Na verdade, ela era muito amiga de um casal que teve uma filha, mas recentemente se separou. Como a grana é curta, o pai alugou um apartamento no mesmo condomínio para ficar mais perto da filha pequena e poder vê-la todos os dias. Detalhe: eles moram no mesmo condomínio que a Dawn morava e ela pediu para que a casa fosse doada a eles, para que o pai pudesse ter uma vida mais confortável ao lado da filha...

Digam se uma pessoa destas não é um anjo que esteve de passagem na Terra? Sofrendo horrores, durante 14 meses, depois de três transplantes de medula sem sucesso, além de deixar os pais numa situação financeira muito confortável, se sensibilizou com os problemas familiares de um casal de amigos.

O mundo é hoje um lugar mais triste. O céu certamente está em festa.

3 comments:

Só uma menina said...

Estou emocionada...

Anonymous said...

Acho que, quando encontramos exemplos assim, de pessoas reais, com as quais podemos conviver, o mínimo que a gente pode fazer, além de amá-las é refletir sobre esse espírito de generosidade e tentar reproduzí-lo.
Em algumas pessoas isso é espontâneo, natural. Era o caso de sua amiga e da família. Mas durante aquele período em que não estive bem, aprendi muitas coisas e uma delas é uma frase que tento colocar em prática (pensando bem, talvez menos do que deveria, mas é sempre tempo de mudar):
"A disciplina precede a espontaneidade".
Se a gente não é generoso naturalmente, pode se disciplinar até que isso se torne natural.
O que você contou só me faz crer que é mesmo isso e que pessoas assim viverão "para sempre", enquanto nós vivermos, porque não as esquecemos. Acho que isso é eternidade. Não são necessariamente os filhos, que carregam a nossa herança genética, que nos perpetuarão. O amor é que faz isso.
Um beijo
Gaby (gabgaby)

Dani said...

Lindo o que você disse, Gaby. Acho que mesmo os bons por natureza tornam-se ainda melhores quando entendem o sentido de sua missão, como foi o caso da Dawn. Você está certa, ela viverá para sempre, como a gota de orvalho que se despediu da nuvem para alimentar as flores e que para sempre fará parte do universo, se transformando a cada dia...Aliás, foi este o tema do poema que ela escolheu para ser lido na sua missa.
Beijos