February 2, 2008

Claro como o Dia

Hoje voltei a ler um livro que comecei há tempos atrás, mas devido ao tema principal volta e meia tenho que dar uma parada. Para falar a verdade, dei uma parada de sete meses, pois o livro estava na minha bolsa da praia que deixei aqui na minha casa no Rio quando me mudei para Maryland, em maio.

Aliás, deixei muita coisa minha por aqui: roupas, objetos pessoais, perfumes, xampus e condicionadores, biquínis, livros, muitos, muitos livros. Pensando bem, metade minha sempre esteve e estará aqui.

Tenho uma dificuldade imensa em me despedir. Sempre fui assim. Nem as minhas andanças mundo a fora, que começaram há tantos anos, me deixaram imune a isso. Eu, que aos 18 anos, saí de casa para fazer faculdade na Virginia, voltei pro Rio só para dois anos depois resolver fazer mestrado em Nova York e ficar por lá nada menos que cinco anos. Sou um grande paradoxo, pois apesar desta minha forte veia cigana conheço poucas pessoas que tem uma relação tão forte com a família.

E lendo este livro vi a importância de ter nossas prioridades em ordem. O livro de Eugene O'Kelly, Claro como o Dia, ou no original Chasing Daylight, é o lindo relato de um grande executivo, presidente da KPMG, que descobre ter um tumor inoperável no cérebro e não mais de três meses de vida. Mas o livro não é sobre a morte, mas sim sobre o tempo, e a forma de lidarmos com ele. O diagnóstico de câncer no cérebro não o faz perder o habito de planejar tudo, mas foi mudando sua maneira de encarar a vida e o executivo consegue transformar seus últimos dias nos melhores que já tinha vivido.

Há trechos emocionantes, mas o que mais me impressionou foram o otimismo e o senso prático do autor, que aplica os mesmos princípios usados nos negócios ao planejamento de sua morte. A fé de Eugene e de sua esposa Corinne também tem um papel importante. Não é uma fé escapista, mas a certeza de estar indo ao encontro do Pai, para onde todos nós com sorte iremos.

Depois de receber o diagnóstico, Eugene traça um círculo com as pessoas de seu relacionamento, das mais íntimas, às mais distantes, como colegas de faculdade ou conhecidos do trabalho. Quando chega ao número 1000, resolve que precisa se despedir de todos, de uma forma ou de outra, e começa a agendar tais ocasiões.

Este planejamento é muito interessante e inspirador. O que mais me impressionou foi a observação de que algumas pessoas contatadas se mostravam resistentes à idéia de uma despedida. Analisando melhor, Eugene concluiu que as pessoas que resistiam a este pedido podiam na maioria das vezes ser classificadas em dois grupos:
a) os que atravessavam crises pessoais ou no relacionamento
b) os que não tinham fé

Para estes dois grupos a idéia da despedida e consequentemente da morte eram insuportáveis, pois os faziam lembrar de quão frágil, e muitas vezes ordinária, era existência deles. Deve ser triste chegar a esta conclusão.


Ainda não acabei o livro, mas tenho tirado muitas lições dele. Não que esteja preparando a minha morte, longe disso, mas quero tentar maximizar os muitos dias que me restam de vida. Quero passar meu tempo reclamando menos e fazendo mais o que eu gosto. Não quero gastar dias preciosos na tentativa de agradar gente que pouco me interessa, mas quero estar ao lado das pessoas que realmente são importantes para mim. Vou fazer um grande esforço para não me sentir obrigada a fazer o que as pessoas esperam de mim, mas o que me faz bem.

Já comecei a dar alguns passos nesta direção desde o meu primeiro susto, mas sinto que meus passos ainda são bem lentos. Preciso me apressar. Depois de um novo susto, só fica a certeza de que não tenho todo o tempo do mundo, e por mais longo que seja o tempo que tenho é precioso demais para ser desperdiçado.

1 comment:

Cristina said...

Dani, é por pensar assim, que estou escrevendo aqui! Para vc ver que alguém leu esse post que tá com 0 comments... Agora encontre tempo para escrever o seu livro!