June 24, 2008

Hopkins - que decepção!!!!

Como tinha prometido, vou detalhar com mais calma o fiasco que foi a minha consulta em Johns Hopkins. Nestas horas escuto a minha mãe que sempre diz que "os ídolos são de barro" e são mesmo, frágeis e muitas vezes ocos. Johns Hopkins para mim é isso. O maior centro de pesquisa nos Estados Unidos e um dos maiores do mundo; os melhores especialistas em doenças hepáticas; os grandes doutores sábios. Tantos adjetivos que para mim hoje não significam nada, pois e um paciente precisa do melhor tratamento possível, este não pode vir à custa de respeito e humanidade. E foi isso que vi em Hopkins: frieza, pouco caso, desrespeito, falta total de amor ao próximo, isto tudo num estabelecimento de saúde, onde a maior preocupação deveria ser com o bem estar do ser humano.

O que vi e vivi ontem só serviu para que meus sentimentos ficassem mais intensos e a minha opinião mais certa. Posso até estar bem enganada, mas hoje digo que Johns Hopkins, ou pelo menos a unidade de câncer hepático, não é lugar para mim. Se câncer está intimamente ligado a stress, então preciso deixar de lidar com aquele povo o quanto antes, mas em vez de ficar reclamando, vou explicar direitinho o motivo que me levou a pensar assim. Como este blog é terapêutico e vocês são meus analistas, vou tentar organizar minhas idéias de uma forma clara para que possa levá-las ao Dr. Tim Pawlik, já que acredito que ontem não fui muito eficiente tentando me fazer entender.

Mas vamos ao início. Quem lê este blog desde sempre vai lembrar a barra que foi "ser aceita" no hospital. Depois de deixar zilhões de recados, a secretária finalmente retorna a minha ligação com semanas de atraso. O tal Dr Michael Choti está com a agenda lotada, mas o menino-prodígio dele, Dr Tim Pawlik, pode me atender em três semanas. Por mais ridículo que possa parecer, quando consegui a minha consulta me senti como se tivesse acertado na mega-sena. Como tem gente que se contenta com migalha, não é mesmo? E naquela hora eu fui uma destas pessoas. Por se tratar de Hopkins e dos MAIORES ESPECIALISTAS DO MUNDO EM HEPATOCARCINOMA FIBROLAMELAR, esqueci de uma das dicas que aprendi com meu casamento e prometi levar para toda a vida: fornecedor que começa dando problema, vai dar problema até o final. O melhor a fazer é livrar-se dele. Mas como se tratava do bambambam em câncer de fígado, resolvi deixar a minha máxima de lado. Grande erro!!!

Então conforme tinha sido instruída, fui até o hospital munida de todos os meus exames dos últimos cinco anos e meio e do espécimen que tinha trazido comigo do Brasil. Pois é, o tumor em pedacinhos ali pronto para ser analisado. Isso tudo duas ou três semanas antes da consulta. Quem quiser ler o post da consulta, é só clicar aqui.

No dia D, cheguei lá fiz os exames de sangue e a tomografia e depois de esperar horas pela consulta qual a minha surpresa ao perceber que o médico sequer tinha visto meus exames antigos! Enquanto falava comigo, ele lia o relatório e sorrindo dizia que estava tudo bem comigo. Naquela hora me esqueci da espera na sala, da grosseria das assistentes, no pouco caso com que tinha sido tratada até ali. O exames estavam ótimos e o câncer não havia voltado, então tudo bem. Eles poderiam ter pisado em mim, me chutado e me chamado de tudo que jamais ia reclamar, afinal estava saudável.

Ele me pediu que trouxesse o espécimem para que a patologia de Hopkins -- surpresa: A MELHOR PATOLOGIA DO MUNDO! -- examinasse o tumor de novo. Eu e o Blake olhamos para ele atônitos: "Como assim, trazer o tumor?! O tumor foi entregue há semanas! Você não sabia? E os exames, você também não os viu?" Ele disse que não que ia ver com a equipe dele. Não gostei da resposta. Imagina se os loucos resolvem perder meu material. Os exames...e o pior, o tumor! A última coisa que quero no mundo é ter que "fabricar" um outro tumor no fígado para estes malucos olharem!

Saímos de lá preocupados e dias depois quando fui marcar uma nova consulta, perguntei sobre meu material. "Você deixou aonde?" perguntou a sempre simpática e agradável enfermeira. "Como assim, cara-pálida?! Deixei tudo com VOCÊ no dia tal, na hora tal par aque o Dr. Pawlik visse tudo antes da minha consulta! (O que obviamente não tinha acontecido.) Tudo bem que o "cara-pálida" foi inserido aqui, mas que perguntei a ela onde tinha ido parar o tumor, perguntei. A resposta dela foi vaga. "Vamos procurar e lhe daremos um retorno." Ela ligou para vocês? Nem pra mim!

A estas alturas comecei a me preocupar muito. Como deixei vários recados para as duas assitentes do médico, resolvi fazer as coisas do meu jeito. Como boa repórter que sou, descobri uma meia-dúzia de números de patologia em Hopkins e comecei a ligar. E um me transferia para o outro que me transferia para um até que alguém fez a seguinte pergunta: "Mas a senhora é a paciente?! Então por que está ligando para cá? A equipe do seu médico deveria estar fazendo isso." Minha resposta: "Mas elas não estão. Sendo assim faço eu, a maior (ou serei a única?) interessada." A moça do outro lado da linha ficou quieta e logo depois disse que não havia nada meu lá.

Os meses foram passando e recebo pelo correio a confirmação da minha consulta para 7 de julho. Algumas semanas depois, outra carta: consulta transferida para 30 de junho. Dias depois mais uma carta, nova data: 14 de julho. Peraí, paciência tem limite, dia 14 de julho vou estar no Brasil.

Ligo para lá e para minha supresa alguém atende o telefone. Explico a situação, a voz seca me diz que no dia 30 de junho que vai estar fora do país e o Dr. Pawlik e me dá duas opções, 23 de junho ou 30 de julho. Garanto logo a primeira data disponível antes que a bruxa mude de idéia. Confirmo tudo: minha consulta, minha tomo, meu exame de sangue -- tudo marcado para o dia 23 de junho, mesmo horário? Ela diz que sim.

Dias depois recebo um envelope enorme que tem Dr Pawlik como remetente. Abro e vejo que são todos os meus exames feitos no Brasil. Que bom, pelo menos eles ficariam seguros comigo. Procuro por alguma carta, bilhete que me explique alguma coisa. Como sou tola, não há nada lá.

Os dias vão passando e na sexta-feira anterior à consulta de ontem ainda me espanto de não ter recebido um telefonema de confirmação. (Sou mesmo uma idiota!) Fico com a pulga atrás da orelha esperando a bomba estourar. Não, não tenho poderes paranormais, só um pouco de inteligência.

Ontem acordei nervosa. Tive uma noite péssima, cheia de pesadelos, sabia que o dia não seroa fácil, mas não achei que elas chegariam a tanto.

Encontro com o Blake perto do trabalho dele. Deixo meu carro lá e vamos juntos para Hopkins. Estamos lá pontualmente às 14.20 para o exame de sangue marcado para as 14.30. Apresento a minha "identidade Hopkins" e vou ao check-in de pacientes. A recepcionista vê minha consulta às 15.00, o exame de sangue às 13.30, mas não há sinal da tomografia. Ótimo, o médico vai olhar o que? Ela me olha com cara de ponto de interrogação, minha irritação começa... Ela é solícita e diz que vai bipar o Pawlik. Claro que antes ela tentou falar com as simpáticas assistentes dele sem sucesso.

Minutos depois ela me chama. Houve um engano, marcaram minha consulta para 23 de julho!!!! Mas ela ia tentar me encaixar. Menos mal... Faço o exame de sangue, corro para a sala de tomo. Até aí tudo bem, as minhas "moving veins" se comportam bem e em vez de cinco furos como de costume, desta vez só tenho dois!!! (Não falei que me alegro com pouco?)

São 14.45 e ainda não comi nada, começo a ficar tonta e um pouco mal humorada, mas vou logo para a sala de espera do Pawlik. Chegando lá faço amizade com duas senhoras. Uma delas tem câncer no útero e no último laudo da tomo foi constatado um tumor no fígado. Ela se trata num hospital na Virginia e recebeu a sentença de morte na quinta. Mas como não é só no Brasil que o ditado "quem tem padrinho não morre pagão" funciona, um sobrinho oncologista dela conseguiu uma consulta com o Pawlik em 48 horas. Até aí tudo bem. Ela foi encaixada às 16.00. A minha consulta é as 15.00. Às 16.15 ela é chamada. Eu não! Assisto a cena incrédula. Quando pergunto a recepcionista o motivo, ela sem graça me diz: "A enfermeira dele pediu para passá-la na frente." Engulo em seco, morta de ódio, que diga-se de passagem, faz mal ao fígado.

Às 16.50, somos levados da sala de espera para outra sala onde o aguardamos. Ele sai da consulta com as senhoras, entra na sala da equipe e...entra em outra sala onde estão outros pacientes que chegaram muito depois de mim!!! Provavelmente a consulta das 17.00!!! E eu ali mofando!!!

Não agüentei!!! Entrei na tal sala onde a enfermeira simpática estava e perguntei o que estava acontecendo, afinal a minha consulta era às 15.00 e eram mais de 17.00 e eu continuava ali e vários pacientes que chegaram depois de mim já tinham sido atendidos. A víbora olha na minha cara e diz que o que importava não era a hora de chgada, mas a hora da consulta. Então tenho a resposta na ponta da língua: "Mas o primeiro paciente que ele viu era o das 16.00 e a minha consulta estava marcada para as 15.00!!!" Ela disse que não. EU ODEIO QUANDO MENTEM NA MINHA CARA! Fui me enfurecendo, mas por algum motivo, quanto mais meu sangue fervia, mais baixo eu falava e ela mais alto. "Ninguém me disse que aquela senhora estava marcada para as 16.00, ela me mostrou o papel com o horário da consulta dela!" Então a simpática diz que não era isso que estava na agenda do médico!! Mentira, pois a recepcionista tinha me dito que a enfermeira-megera tinha solicitado a mudança! Eu disse que não sabia mais o que dizer, que só queria ser tratada com respeito e dignidade e que isso não era pedir muito. Ela impacientemente limitou-se a dizer. "Errei, sinto muito. Não posso fazer nada. Você vai ser a próxima. Posso voltar a fazer meu trabalho?" E me virou as costas. Eu queria matá-la!! Mas mais uma vez engoli meu choro e meu orgulho e voltei para a tal salinha.

Cinco minutos depois entra o doutor-sorriso. "Olá, desculpe a demora. Tudo bem?" Eu desabo! "Tudo bem?! Tudo péssimo, doutor, estou cansada de ser espezinhada pela sua equipe. Ele me olha atônito: "Foi a demora de hoje?" Eu respondo: "Quem me dera, doutor. Foi tudo, desde o início. Sempre grosseiras, de má vontade, descompromissadas, até o tumor perderam e sequer me deram satisfação. Só sei que você s o acharam porque recebi a conta da patologia lá em casa." Digo a ele que acho que vou ter que me consultar em outro lugar, onde receba o tratamento que mereço. Ele diz que de jeito nenhum, que isso não vai acontecer, que eu ligue quando for mais conveniente para mim para marcar a consulta, etc. Eu respondo que sinceramente tenho medo das assitentes dele e pergunto se há uma forma de contatá-lo direto. Ele me dá o cartão e o email. Ele diz que está sempre conectado e que vai entrar em contato comigo se eu precisar. Não sei bem se acredito nele, mas ele me parece genuíno.

Então depois de um dia exaustivo e de seis horas no hospital recebo as notícias que tanto estava aguardando. Ele lê rapidamente o relatório, olha uns números na tela do computador e diz. "Você está ótima, perfeita. É uma pena você ter que receber as melhores notícias possíveis da pior forma possível."

É isso aí, doutor, falou e disse.

E foi assim, bem anticlimático o meu dia em Hopkins. Um dia tão aguardado -- boas notícias dadas de forma muito ruim. Nas palavras do sábio doutor, estou bem, saúde perfeita. Melhor esperar até o fim do ano para engravidar, só por precaução.

E para terminar, devolvi a pesquisa de satisfação que me entregaram na entrada. No papel tinha a minha hora de chegada, o horário da consulta e a hora da saída. E ainda dizia algo assim: "O tempo é preciso. Você não pode gurdá-lo, mas pode gastá-lo. Não pode medir, mas pode perder.." E outras baboseiras do tipo.

Claro que fiz questão de colocar a hora de saída e ainda acrescentei: "Aparentemente o meu tempo não é tão precioso assim, pois acabo de ver a paciente as 16.00 entrar antes de mim, cuja consulta era as 15.00. Estou muito decepcionada. Só esperava ser tratada com um mínimo de respeito e dignidade que um paciente de câncer (ou qualquer um) merece."

Passar bem, Hopkins. Não sei se vocês vão me ver de novo não...

5 comments:

Cristina said...

Vc deve ter sentido saudade do laboratório daqui do Brasil onde vc imediatamente após o exame recebe um lanchinho embalado, pq ninguém merece o que vc passou, que dirá com fome!!! Desejo que vc receba mais do que uma cartinha dizendo apenas "Sua avaliação é muito importante para nós. Obrigada por ter disponibilizado seu tempo para preenchê-la". No entanto, essa avaliação preenchida na saída pode ser ignorada ou entendida como fruto da "emoção", então procura se não há outra forma de vc expor tudo que vc expôs aqui no blog, um canal no hospital (Setor de Qualidade? Tem isso? Será que já ouviram falar?!). Mas como eu digo para minha mãe qdo ela reclama de ter que fazer o acompanhamento por toda a apurrinhação (imensamente menor que a sua, ela precisa ler rsrs!!!): imagina quem não tem acesso a estes recursos. Vc é abençoada e que Ele te abençoe sempre!

Andréa N. said...

Caracas! Você não vai ter mais que lidar com elas, nem aparecer mais lá. Acabou. Tá tudo no passado agora. Feche o livro, vire a página e concentre-se no futuro. Faz de conta que vc acaba de acordar de um pesadelo. Está nova em folha. Cuide-se como todo mundo tem que se cuidar, respire fundo e volte a viver normalmente. É hora de ser feliz de novo, querida!

Ana Claudia Lintner said...

Dani,
que noticia mais maravilhosa, mesmo que dada desta forma.
Desculpe-me, mas eu estava ausente (viagem) e so agora li o post.
Gracas a Deus voce nem vai mesmo precisar voltar la... e nao e por orgulho, etc e sim pela melhor razao do mundo: voce esta curada.
beijo e que venha o baby.

Debora said...

Dani estou super feliz em saber que vc está bem e que no final do ano vc poderá engravidar... Parabéns, vc merece isso e muitoooooooo mais...

Porém estou indignada com a maneira que vc foi tratada por essas pessoas, quem elas pensam que são para poder tratar o cliente dessa maneira??? Pensam que são as donas do mundo??? Alguém pode, por favor, explicar para essas pessoas que todos que estão alí merecem ser respeitado??? Minha vontade é de ir até lá e bater em todo mundo, isso é um absurdo!!!

Tomara que vc consiga se contactar diretamente com o médico e NUNCA mais tenha que passar por esse problema...


Beijinhos.

Adriana said...

Que noticia boa!
Como diria minha avo, pra chegar no paraiso, eh preciso passar pelo purgatorio!
Agora, pense no futuro, e na familia que voces vao formar!
Felicidades mil!
Adri