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October 29, 2009

Halloween é o ....


Tenho um segredo para confessar. Correndo o risco de ser tachada de chata ou estraga-prazer, digo que detesto Halloween. Vivendo aqui nos States, isto tem o mesmo peso do que um carioca dizer que detesta carnaval. É mais ou menos por ai... Claro que guardadas as devidas proporcoes. Halloween nem feriado é, entao o martírio é ínfimo se comparado aos quatro dias de carnaval para os que detestam a folia do Momo.

Não sei muito bem o motivo desta minha aversão, mas desconfio que haja varios. Em primeiro lugar, morro de medo de almas penadas, bruxas, vampiros e tudo do gênero. Vi o Fantasma da Ópera quando pequena e quase surtei, até para terapia tive que ir. Twilight?! Estou fora, nem pensar, pra mim a vida ja e assustadora o bastante. Já vivo estressada naturalmente para que procurar razões sobrenaturais?

Também não gosto de me fantasiar. Acho que este tipo de coisa tem data de validade. É fofo em crianças, mas em raras exceções, em adulto parece coisa de retardado. Não nego que já tenha ido a muitas fantasias no Rio, estilo Tere Fantasy e coisa do tipo – aliás quem nunca foi a uma destas? Mas o stress de procurar fantasia é totalmente desnecessário. Nunca me esqueço de uma vez que aluguei uma fantasia pra mim e outra para a Andressa, uma dançarina de flamenco e outra de dançarina do ventre. No final, nós duas queriamos e mesma fantasia e quase saimos no tapa!

Mas acho que o grande trauma vem mesmo dos meus tempos em Nova York, quando a parada de Halloween acontecia na minha rua e justo na vespera do meu aniversário, quando eu sempre me organizava para o dia seguinte, comprando coisas para a festa. Alguém já experimentou atravessar a Sexta Avenida no meio da parada? Melhor nem tentar... Coisa infernal! Eu, que já sou estressada por natureza, morria de vontade de esganar todo Drácula ou Frankenstein que me aparecesse pela frente. Nem as simpáticas vaquinhas holandesas escapavam da minha ira...

Mas os anos foram passando e eu quase me esqueci desta minha implicância...até que voltei a morar aqui. E não é que hoje recebo um memorandum simpático da diretoria do emprego novo “convidando todos a vestirem suas fantasias amanhã”!

Ninguem merece...muito menos eu! Será o fim do meu inferno astral? ;)

September 1, 2009

Remédios Americanos

Uma das coisas que me chamam mais atenção aqui nos EUA é o número de comerciais de remédios na TV. Claro que os núncios em jornais e revistas também nãoficam atrás, mas já acordar, ligar a TV e dar de cara com nomes feito Symbalta, Lunesta, Rituxan, Chantix ou Areva é dose. Pois é, estes são só alguns nomes que me vem à cabeça, provavelente porque os vi hoje quando assistia TV ao me arrumava para o trabalho.

Reparem que não estou me referindo a Tylenol, Advil ou coisinhas mais básicas, esta galera ai de cima é harcore. Tem remédio para depressão, artrite reumatóide, tem até remédio para parar de fumar. Confesso que quando vi o tal coemrcial, que prometia ser a oitava maravilha, quase liguei pra mimha mãe, que há séculos tenta se livrar do vício sem sucesso. Mas quando já ia pegar o telefone, animada com tantas boas-novas, ouvi um aviso no final do filme. O narrador lia rápido o script abaixo:


Important Safety Information

Some people have had changes in behavior, hostility, agitation, depressed mood, suicidal thoughts or actions while using CHANTIX to help them quit smoking. Some people had these symptoms when they began taking CHANTIX, and others developed them after several weeks of treatment or after stopping CHANTIX. If you, your family, or caregiver notice agitation, hostility, depression, or changes in behavior, thinking, or mood that are not typical for you, or you develop suicidal thoughts or actions, anxiety, panic, aggression, anger, mania, abnormal sensations, hallucinations, paranoia, or confusion, stop taking CHANTIX and call your doctor right away. Also tell your doctor about any history of depression or other mental health problems before taking CHANTIX, as these symptoms may worsen while taking CHANTIX.

Some people can have serious skin reactions while taking CHANTIX, some of which can become life-threatening. These can include rash, swelling, redness, and peeling of the skin. Some people can have allergic reactions to CHANTIX, some of which can be life-threatening and include: swelling of the face, mouth, and throat that can cause trouble breathing. If you have these symptoms or have a rash with peeling skin or blisters in your mouth, stop taking CHANTIX and get medical attention right away.

The most common side effects include nausea (30%), sleep problems, constipation, gas, and/or vomiting. If you have side effects that bother you or don’t go away, tell your doctor.

You may have trouble sleeping, vivid, unusual, or strange dreams while taking CHANTIX. Use caution driving or operating machinery until you know how CHANTIX may affect you.

CHANTIX should not be taken with other quit-smoking products. You may need a lower dose of CHANTIX if you have kidney problems or get dialysis.

Before starting CHANTIX, tell your doctor if you are pregnant, plan to become pregnant, or if you take insulin, asthma medicines, or blood thinners. Medicines like these may work differently when you quit smoking.

CHANTIX is a prescription medicine to help adults 18 and over stop smoking. You may benefit from quit-smoking support programs and/or counseling during your quit attempt. It’s possible that you might slip-up and smoke while taking CHANTIX. If you do, you can stay on CHANTIX and keep trying to quit.


Claro que depois de ouvir tantos possíveis efeitos colaterais, desisti da minha ideia de ligar para minha mãe. Afinal, antes fumante do que paranoica, antes viva fumante do que morta!

Ai que horror! Não é a toa que aqui tem até organizações cuja missão é desvendar o verdadeiro conteúdo destes anúncios aparentemente inofensivos e até mesmo úteis.



Gente, este povo não tem mesmo medo de karma!

February 6, 2009

Pátria Amada

No início da semana recebi um email de uma amiga, que foi minha vizinha em Nova York, mas é paulistana e está de volta ao Brasil. Na verdade, ela já voltou para casa há anos, mas quem já fez esta viagem sabe que o processo é longo e às vezes doloroso.

Como nós duas somos jornalistas e adoramos devaneios, às vezes a conversa toma um rumo mais filosófico e a gente começa a falar da vida no Brasil e da vida nos EUA. Então, no email, quando ela me perguntou como eu me sentia, ela não queria a resposta básica, também não se referia à minha saúde, que graças a Deus, está ótima. A pergunta dela veio logo carregada. Reproduzo na íntegra: “Mas e você, me conta mais, como se sente nos United States of America? Se sente americana, carioca, brasileira, de outro mundo”,? perguntou a Jenny, que apesar do nome é brasileiríssima!

O impulso foi cantar aquela música dos Titãs para ela: "Não sou brasileiro, não sou estrangeiro / Não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum, sou de lugar nenhum / Não sou de São Paulo, não sou japonês / Não sou carioca, não sou português / Não sou de Brasília, não sou do Brasil / Nenhuma pátria me pariu!”

Mas estranhamente os versos já não me descreviam mais! Não agora, do alto dos meus 35 anos. É verdade, foi assim que me vi a vida toda, um verdadeiro ET, mas hoje apesar de viver longe, não tenho dúvidas de quem sou e de onde vim, uma grata supresa para mim, que passei a vida me questionando. A história é longa...

Na infância, não gostava de boneca, preferia livros. Na adolescência só pensava em programas de intercâmbio que pudessem me trazer para os EUA, nada no Brasil me interessava muito. E na faculdade, depois de ter conseguido a bolsa de estudos, quando cheguei aqui, tomei um susto ao meu primeiro contato com as Barbies deslumbradas, que era como eu carinhosamente chamava as minhas colegas. Resultado: fui parar no grupinho das lésbicas – sem ser lésbica!!! E pior sem nunca ter sido e nunca ter tido a menor vontade. Vai entender! Nasci para ser gauche na vida!

Depois da faculdade, apesar dos pesares a casa da gente é sempre a casa da gente, então voltei correndo para o Brasil, mas ao chegar à pátria amada, assim como a nossa Carmem Miranda, também disseram que eu tinha voltado americanizada! Fala sério!!! Mas a voz do povo deve ser mesmo a voz de Deus e a minha passagem pela terra-mãe não durou muito tempo e em menos de dois anos já estava eu fazendo as pazes com o Tio Sam e me mudando de mala e cuia para Nova York. E pela primeira vez na vida me senti em casa!

Passei cinco anos maravilhosos naquela cidade, onde fiz muitos dos meus melhores amigos, todos interessantíssimos e muito diferentes entre si. Pertencia a vários grupos e navegava com muita naturalidade em todos eles. Só tinha um probleminha: como eu não era americana, precisava de visto toda hora que mudava de emprego, o que é muito complicado, principalmente para quem está em início de carreira, principalmente em jornalismo. Juntaram-se então os aborrecimentos com a imigração e os invernos gélidos de Nova York, depois de cinco anos, acabei voltando para casa e fui ficando, quase que por acaso. Comecei a trabalhar, mas avisei ao chefe que não contasse comigo para mais de um ano, pois estava decidida a voltar para Nova York assim que ajeitasse a minha vida. Sub-loquei meu apartamento fofo no West Village para que a qualquer momento pudesse voltar para a Manhattan. Tinha um pé no Rio e o outro em Nova Yok e estava pronta para abandonar o navio brasileiro ao primeiro sinal de perigo ou frustração.

O primeiro ano foi trevas!!! O trabalho era legal, mas voltar para casa depois de tanto tempo fora é muito complicado. Tive que aos poucos reaprender a viver no Rio e desenterrar a carioca que deveria existir em algum lugar em mim. Mas o tempo foi passando e como dizem os mais sábios, o tempo cura tudo... Quando percebi já estava de volta havia mais de cinco anos e por mais incrível que pudesse parecer estava gostando da minha vida! Estava enfim aproveitando o lugar que tinha nascido e completamente readaptada. Estava conformada com a minha brasilidade e por que não satisfeita com ela? Apesar de tantos problemas, vejo muita coisa absolutamente fantástica no nosso país e no nosso povo. Não sou ufanista nem fanática, mas confesso que tenho orgulho do meu país, das pessoas que trabalham, da mistura de raças e credos, da simpatia dos meus conterrâneos, tenho sim.

Se durante tanto tempo, sofri por não saber onde me encaixava e tentava desesperadamente descobrir se haveria um tal lugar onde eu realmente “pertencesse”, hoje sei bem quem eu sou e de onde venho. Quanto mais o tempo passa e quanto mais fico aqui fora, mais sinto que a minha casa é mesmo o Brasil, com tudo de ruim e de bom do nosso país.

Carrego tudo isto dentro de mim e não tenho a menor vontade de ser outra coisa. Aprendi a gostar dos americanos e dos ingleses e dos indianos e dos chineses de tanto conviver com eles, mas mesmo morando aqui por muitos anos, não tenho a menor intenção de me americanizar e renegar o meu país. Tenho até pena de quem se acha americano tendo nascido em outro lugar, pois aos olhos dos americanos nascidos aqui, vai ser sempre outsider, e aí sim não vai ser brasileiro, nem estrangeiro, vai ser ET!

Eu já me senti ET durante muito tempo, mas assim como a minha amiga, fiz as pazes comigo, com o Rio e com o Brasil, onde tenho minhas raízes e referências. Por melhor que tenha sido a minha acolhida aqui, por mais que tenha escolhido morar nos EUA, nunca quero deixar de ser quem eu sou. Apesar de algumas influências americanas (tem muita coisa que aprecio neles aqui), continuo sendo 100% brasileira! Apesar do Lula, da Dilma, do Zé Dirceu, do Collor, do Maluf, do Sérgio Cabral, do Eduardo Paes, do Bispo Crivella, do Sarney e de tantos outros picaretas que se multiplicam numa velocidade absurda nas páginas dos jornais...falo com orgulho do meu país.

Como boa brasileira, tenho muita fé de que um dia nosso país vai ser um lugar melhor. E é por isto que quando for mãe, vou fazer questão de ensinar português aos meus filhos, que vão ser misturados. Espero que eles tenham a disciplina e a tenacidade dos americanos, mas o bom-humor e a diplomacia dos brasileiros. E acima de tudo, espero que eles saibam exatamente de onde vieram e tenham orgulho disso. Afinal, como diz o Obama, somos todos vira-latas.

March 3, 2008

Médicos made in USA

Nada me irrita mais neste mundo do que lidar com médicos americanos. Realmente só de pensar no assunto perco o pouco humor que me resta. O tal Juramento de Hipócrates, aquele que fala em ajudar ao próximo, servir aos doentes ou coisa parecida não deve valer muita coisa por aqui. Estes seres humanos frios, que se mantém encastelados em consultórios e universidades guardados por secretárias antipáticas e grosseiras, pois é, aqui eles recebem o título de médicos, com raríssimas exceções.

Acabei de ligar para o tal Dr. Choti de novo -- ainda não tive a honra de conhecê-lo, mas já estou de saco cheio dele e da secretária idiota. Liguei para confirmar com a secretária que ela tinha recebido meu fax e para dizer a ela que o tal Dr. Kamel, radiologista, tinha dito que poderia ver meus exames. A débil-mental não fazia idéia de onde estava meu fax e quando comecei a falar do Dr. Kamel, ela ligou a tecla F e atacou com o blablablá default: "A senhora tem que encaminhar seus dados que serão avaliados pela equipe médica. Depois de decidida a conduta, entraremos em contato e decidiremos se há necessidade de marcação de consulta, etc, etc..." Dá vontade de enforcar uma imbecil destas! Será que ela sabe que está lidando com pacientes que têm uma doença seríssima e estão passando por um período muito difícil? Será que esta energúmena sabe o que é ter um tumor que cresce sorrateiramente no seu fígado? Acho que não. Ela não pode ser tão leviana assim.

Desnecessário dizer que estou revoltada. Mas isso não faz bem pro meu fígado, então o Blake vai ter que levar a papelada para o trabalho de novo, mandar o fax e ligar imediatamente para a bendita secretária para ver se ela já nos fez o imenso favor de checar a máquina de fax. E eu aqui que pensava que isto era parte das atribuições dela! Quanta inocência a minha...

Enquanto isso recebo uma cartinha da clínica ginecológica que se Deus quiser -- e os médicos e secretárias deixarem -- passarei a frequentar. Na verdade não se trata de uma carta, mas de uma cartilha com milhares de formulários a serem preenchidos além de uma lacuna onde devo escrever o tipo de plano de saúde que pretendo usar (óbvio, eles não atendem pobre sem plano!) e um lembrete de que se não desmarcar a consulta, paga-se uma multinha de $25.00. Ai que povo mais mercenário! Não me importo tanto com as exigências inúmeras desta máfia de branco por aqui, mas com o modo rude com que os pacientes são tratados, parece que somos lixo!

Agora começo a entender por que os americanos são fanáticos por sites como webmd.org e tantos outros que oferecem informações médicas. O motivo é bem simples: o povo aqui sequer consegue ver a cara do médico, que dirá ter vinte minutos para fazer umas perguntinhas a ele. Uma loucura!

Bem, agora que já desabafei, meu fígado agradece. Como quem está na chuva tem que se molhar, vou lá preencher o formulário da tal ginecologista antes que me esqueça e amanhã volto a encher o saco da idiota da secretária que a estas alturas já está com a orelha quente de tanto que falei mal dela.

Para quem tinha curiosidade, vai mais um pedacinho da minha American Way of Life. A vida no primeiro mundo nem sempre é tão doce quanto parece.