March 31, 2008
Poesia e Pedra
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
De vez em quando fico a me perguntar por que existem tantas pedras no meu caminho, mas em vez de parar para responder a pergunta, sigo em frente, querendo apenas seguir meu caminho, mas eis então que surge a tal pedra, que cisma de aparecer justo no meu caminho...
March 29, 2008
Capitalismo Selvagem
Resmungo, sinto muita falta de casa, mas gosto daqui. Acho o sistema educacional o melhor do mundo e tenho orgulho de ser produto dele, mas se tem uma coisa que me incomoda muito por aqui é a ausência de um sistema público de saúde. Não me canso de perguntar a tantos amigos americanos como pode o país mais poderoso do mundo ter um sistema de saúde tão capenga? Como podem as leis de proteção ao trabalhador serem tão incipientes? Há pouco vivi isto em primeira mão. Foi opção minha me desligar da Universidade de Maryland, mas não creio que eles tivessem condições de me manter na folha de pagamento. Aqui não tem licença de saúde paga pelo INSS. Seus "sick days", o equivalente à licença-saúde, são ganhos pro-rata, a medida que você acumula dias de serviço. Não é nada automático como no Brasil.
Mas voltando à questão da saúde, grande parte dos americanos é "underinsured" ou sub-segurados, ou seja, eles até têm plano de saúde, mas que não cobre praticamente nada. As seguradoras aqui são fortíssimas e a pressão para que os pacientes permaneçam o menor tempo possível no hospital é imensa.
Não me julguem mal. Não há ninguém que deteste hospital mais do que eu e que queira ter a estada lá abreviada ao máximo, mas tudo tem um limite. O sujeito faz uma cirurgia invasiva, leva uma baita anestesia e sai andando uma hora depois?
Por aqui estas coisas acontecem. Fiquei abobalhada quando o Blake me falou que a cirurgia de hérnia dupla dele seria ambulatorial. E nem foi por videolaparoscopia, foi no facão mesmo. Ele deu entrada umas 10:00 da manhã e meio-dia já estavam enxotando o coitado. Entra no centro cirúrgico, sai num piscar de olhos, toma um suquinho e "have a good day." Não é de se espantar que o coitado quase cai duro antes de sair do hospital. Foi preciso que nada menos que seis enfermeiras o amparassem.
Não bastasse esta disparate agora os planos de saúde estão forçando a barra para emplacar a idéia da "mastectomia drive-thru". No país do fast-food, agora a tendência é fast-surgery. A proposta é assustadora, mas muito real. Então agora em vez dos dois dias de internação depois da mastectomia, eles querem mandar as pacientes para casa, cheia de drenos e curativos para que elas se virem sozinhas. Uma covardia!
Mas parece que há algo que, pelo menos nós que moramos nos EUA, podemos fazer. Há uma petição dirigida ao Congresso Americano para que esta proposta aburda seja barrada. Quem quiser assinar, é só clicar aqui.
Não custa nada e pode evitar que esta barbárie se torne realidade.
Mil perdões pelo post inflamado e panfletário, mas não podia deixar passar.
March 28, 2008
Declaração de Direitos dos Jovens e Adolescentes Portadores de Câncer
A tabela aí em cima ilustra a triste situação dos jovens pacientes de câncer. Preste atenção nas colunas em vermelho. Repare nos números, nas idades. Pois é, as chances de sobrevivência de gente com eu estão mostradas (os escondidas?) ali numa das colunas vermelhinhas. Triste. Isto precisa mudar. Logo.Há 70.000 pessoas entre 15 e 39 anos que recebem o diagnóstico de câncer a cada ano nos EUA. Nas últimas duas décadas o aumento nos índices de sobrevivência nesta faixa etária foi ínfimo ou nulo. Ao assinar esta declração você está apoiando a Declaração de Direitos dos Jovens e Adolescentes para que ela se transforme num padrão para o tratamento e que venha a atender as necessidades desta população mal servida.
Acho que algo deste porte deveria ser feito no Brasil, onde não temos nada documentado sobre o câncer em pacientes jovens.
Nos EUA, país onde não existe sistema de saúde universal, há muitos problemas que precisam de uma solução imediata: acesso à saúde e proteção legal são exemplos.
No Brasil, o acesso à saúde é problemático, mas temos um sistema de saúde pública existente e leis que amparam os pacientes de câncer. Por outro lado, os planos de saúde são mais intransigentes que os americanos e os médicos muitas vezes minimizam o papel do paciente em seu próprio tratamento.
O fato é que cada vez mais jovens têm que lidar com o câncer no Brasil e no mundo e muito pouco tem sido feito para amenizar este sofrimento.
Achei interessante o que encontrei aqui.
Declaração de Direitos dos Jovens e Adolescentes Portadores de Câncer
Não somos casos pediátricos nem geriátricos
Temos necessidades únicas – médicas, sociais e econômicas
Entretanto, os direitos e a dignidade de adolescentes e jovens adultos são iguais aos de todos os indivíduos.
Merecemos ter nossas crenças, privacidade e valores pessoais respeitados.
Acesso à saúde é um direito, não um privilégio.
Nossos direitos, como os entendemos e queremos preservá-los, são:
1. O direito de ser levados a sério quando buscamos atenção médica para evitar o diagnóstico tardio ou errôneo, e o privilégio de ter discussões confidenciais com respeito ao nosso próprio tratamento.
2. O direito a um plano de saúde dentro das nossas possibilidades, assim como testes para detecção de doenças em estágio inicial, sem interferência de seguradoras de saúde ou status socioeconômico.
3. O direito aos métodos preservação de fertilidade e a informações e pesquisas sobre possíveis efeitos atuais ou futuros que o tratamento do câncer possa ter sobre nossa fertilidade.
4. O direito de ser informado sobre testes clínicos disponíveis e acesso razoável aos mesmos.
5. O direito de acesso direto a especialistas em câncer em adolescentes ou jovens e, quanda requisitada, uma segunda opinião independente de plano de saúde ou localização geográfica.
6. O direito de acesso a um(a) assistente social ou profissional especializado em pacientes de câncer jovens ou adolescentes.
7. O direito ao suporte psicológico “normalmente aplicável”.
8. O direito de ter nossa posição como estudantes ou profissionais protegida por lei enquanto tratamos o câncer a fim de minimizar discriminação.
9. O direito a explicações claras sobre os efeitos colaterais da doença e do tratamento a longo prazo e a todas as opções para procedimentos reconstrutivos ou de reabilitação.
10. O direito de ter todas as opções de tratamento explicadas a nós em detalhes, ter todas as nossas perguntas respondidas, e receber esclarecimento quando necessário para que possamos ser parte ativa de nosso tratamento.
Nenê Hilário

Mais uma ótima notícia.
Nenê Hilário voltou às quadras dois meses depois da cirurgia para remoção de um tumor no testículo e um mês após a quimioterapia. Obviamente a platéia aplaudiu de pé a estréia do atleta que entrou na quadra dois minutos antes do final da partida, ontem à noite.
Foi um momento eomcionante não só para Nenê para como todo o time dos Denver Nuggets, que terminou vencendo os Dallas Mavericks de lavada e está cada vez mais perto das playoffs na região oeste.
Nestas horas me vêm à cabeça uma frase que é muito usada por outros sobreviventes: O câncer não é uma sentença de morte, mas uma convocação à vida.
Fico feliz quando vejo alguém tão jovem que enfrenta este problema com tanta coragem e garra. Uma vez uma amiga minha disse que toda vez que via a Ana Maria Braga se sentia feliz, por saber que assim como ela, a Ana tinha vencido a batalha. Me sinto exatamente assim ao ver não só a Ana, mas o Nenê e tantas outras pessoas. Tenho certeza que ontem o Nenê não entrou em campo sozinho, pois levou com ele um pedacinho de cada um de nós, companheiros de batalha.
Depois do jogo, já no vestiário ele disse:
"Sobrevivi, ainda estou aqui. Sou um novo homem, mais forte do que nunca, só digo, obrigada a todos".
Que ontem tenha sido só o começo de uma volta memorável. Talento e coragem o Nenê já provou que tem de sobra. Mais um belo exemplo de superação. Ganhei o dia.
March 27, 2008
Dinheiro compra felicidade...desde que gasto com os outros!!!

Como adoro uma pesquisa, resolvi colocar a prova o último estudo divulgado pela mídia americana que diz que aqueles que gastam dinheiro com os outros sentem maior satisfação do que aqueles que preferem gastar comprando presentes para si mesmos.
Ontem, depois de uma semana muito feliz, quando pude deixar para trás tantas preocupações e tanto sofrimento, fiz o que meu coração já vinha pedindo há tempos. Resolvi fazer duas doações para duas causas que têm se tornado cada vez mais importantes para mim: American Cancer Society e St. Joseph Catholic Community.
É incrível como nosso humor muda quando enfim resolvemos fazer algo de bom. Entrei na igreja sorridente e saí de lá mais feliz ainda. Agora sou "registered parishoner" da igrejinha aqui no fim da minha rua. Decidi que queria ter uma relação maior com a igreja depois de ir à Missa dos Enfermos, que foi linda. Longe de mim ser fanática religiosa, mas já está mais do que na hora de me dedicar um pouco mais à minha fé.
Saí da igreja e fui direto para a American Cancer Society. Com a minha doação, comprei duas tochas e uma luminárias que serão acesas durante a Cerimônia dos Sobreviventes que abre o Relay For Life, em junho. Comprei uma para a minha avó, que sobreviveu a um linfoma não-Hodgkins, outra para mim e ainda uma luminária para o Ivan Karlos, um rapaz corajoso que luta bravamente contra um câncer de pulmão, mas que com a Graça de Deus, estará curado muito em breve.
Voltei para casa sorridente, afinal quem não gosta de ver outras pessoas sorrindo. E não custa tanto assim... Acho que os cientistas de Harvard mais uma vez estão certos.
Para quem tiver interesse, aqui embaixo há mais informações sobre o estudo.
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Uma pesquisa recente revelou que aqueles que gastam uma quantia razoável com outras pessoas experimentam maior satisfação do que aqueles que compram presentes para si mesmos, Cientistas da Universidade de Harvard reuniram 632 americanos e fizeram perguntas sobre sua renda, seus hábitos de consumo e seu nível de felicidade.
Separadamente, os especialistas reuniram 16 profissionais que estavam prestes a receber um bônus entre US$3.000 e US$8.000, e fizeram as mesmas peguntas oito semanas antes e depois do bônus.
Na primeira experiência, os resultados mostraram que o nível de renda dos entrevistados não era um fator a ser considerado no nível de felicidade, que era mais alto naqueles que gastavam dinheiro com outros, se comparados com aqueles que gastavam consigo mesmos. A segunda pesquisa mostrou que o aumento no índice de felicidade dos funcionários Não foi afetado pelo tamanho do bônus. Entretanto, este mesmo índice parecia aumentar em relação à quantia que os funcionários gastaram com outras pessoas ou doaram para caridade, de acordo com o jornal britânico The Guardian.
“A maioria das pessoas imaginaria que se você ganha mais dinheiro você vai ser muito mais feliz,” disse o Professor Michael Norton, da Universidade Harvard. “Nossos resultados, e os resultados de muitas outras pesquisas, mostram que ganhar mais dinheiro tornam você uma pessoa um pouco mais feliz, mas não tem um impacto imenso. Nossos estudos mostram que talvez sejam as pequenas mudanças na forma como você gasta este dinheiro que fazem a diferença”.
The Telegraph, um outro diário britânico, reportou que um estudo seguinte onde os especialistas deram aos pesquisados US$5 ou US$20 para gastarem como quisessem, revelou que aqueles que gastaram o dinheiro com outras pessoas se disseram mais felizes se comparados àqueles que gastaram o dinheiro em si mesmos.
“Então em vez de comprar um cafezinho para você, compre um café para o seu amigo e isso pode fazer de você realmente uma pessoa mais feliz”, disse Norton.
Norton é co-autor do estudo realizado em parceria com Dr. Elizabeth Dunn e a mestranda Lara Aknin, da Universidade de British Columbia, no Canadá.
March 26, 2008
Enfim Hopkins!

Ainda estou em ritmo de comemoração. Sempre achei que tivesse nascido para ser rainha mesmo, pois comemoração na corte sempre dura no mínimo uma semana inteira. Não faço por menos: estou comemorando a ida a Johns Hopkins até hoje. Acho que merecidamente.
Depois de penar para conseguir marcar uma consulta com o pessoal da equipe de Câncer de Fígado de Hopkins, segunda-feira enfim consegui realizar meu sonho. (Tem gente que sonha em entrar para o Big Brother ou ser artista da Globo, eu sonho em ser paciente do Centro de Câncer de Hopkins. Cada louco com a sua mania!) Para quem não lembra, antes de concordar em me ver, o médico me pediu que enviasse zilhões de laudos e exames por fax. Além disso, precisei fazer uma redação explicando o motivo pelo qual eu deveria ser examinada pela equipe. Não é brincadeira. Alguns dias depois de mandar tudo o que me foi pedido, recebi a ligação da enfermeira, mas que para mim teve o mesmo sabor de um ticket de loteria premiado. Desliguei aos pulos e liguei para o Blake na mesma hora. "Fui aceita em Hopkins! Fui aceita em Hopkins!" Obviamente não como estudante, mas desta vez como paciente. A última vez que gritei tanto assim foi quando ganhei uma bolsa para vir fazer faculdade aqui nos EUA. Tinha de dezessete para dezoito anos...
Depois de tornar a consulta oficial, fiquei aguardando ansiosamente. Aqui nos EUA a coisa é bem diferente do que no Brasil. No país que inventou a máxima, "tempo é dinheiro", o povo cumpre ao pé da letra. Em vez de preencher a ficha quando chega ao consultório do médico, já na hora marcada, aqui o paciente recebe a ficha pelo correio, assim que marca a consulta, e é instruído a já levá-la devidamente preenchida no dia marcado para agilizar o processo de "check-in", que nos EUA não é coisa exclusiva de hotel!
É claro que preenchi minha ficha no mesmo dia que recebi o envelope pelo correio. Verifiquei todos os exames, li todos os relatórios só para ter certeza de que toda a informação ali contida era exata, afinal, tempo é dinheiro e ninguém quer deixar o que está fazendo para consertar coisa alguma. Já pensou se eles acham de não me atender por que esqueci o número de bolsas de sangue que tomei?! Nem pensar!
Fiz a pilha de exames, laudos e relatórios e deixei tudo arrumadinho em cima da mesa. Coloquei tudo em ordem. Me certifiquei do horário e da localização do hospital. A tal ficha vinha com instruções detalhadas de como chegar ao local, onde deixar o carro e o passo a passo já dentro do Outpatient Center, onde seria atendida.
No Brasil, o sujeito vai ao médico pegar a requisição, depois vai ao laboratório fazer o exame, espera tantos dias para receber o laudo, pega o exame, marca a consulta com o médico. Neste vai e vem lá se vão não sei quantos dias. Se o paciente não for muito organizado, na hora da consulta o tal exame já até caducou. Nos EUA é tudo muito diferente. O médico contata o plano de saúde diretamente, recebe a autorização e marca o exame do paciente. Em Hopkins a coisa vai mais além: todos os exames são realizados no dia da consulta e chegam ao médico em questão de pouquíssimo tempo, tudo informatizado através da rede do hospital. Tudo muito organizado. Coisa de primeiro mundo, como diria a minha mãe.
Semanas antes da minha consulta, juntamente com a ficha e com o mapa, recebi a minha agenda detalhada para o dia 24 de março de 2008. Resumindo tudo, eles pediam para que eu me apresentasse ao "patient check-in", no lobby até as 13:30 para meu primeiro exame, uma tomografia computadorizada, marcado para às 13:50. No lobby, assim que fizesse o check-in, recebeira a minha identidade de Johns Hopkins, que é mais ou menos um VIP pass para a boate mais chique ou um American Express Black no mundo hospitalar, ou seja, só um grupo muito seleto (ou muito doente?) tem acesso a tal regalia. Fiquei toda contente quando ganhei meu cartãozinho laranja. Além do cartão VIP, ganhei uma pulseira branca com a data do dia. Ganhei também uma outra pulserinha que era a cópia do cartão VIP.
Segundo a cartinha, que parecia o mapa da mina, depois do check-in no lobby, deveria me dirigir ao terceiro andar para a tomografia. Chego lá, assino a lista de chamada e espero ser chamada. Pontualmente às 13:50, ouço meu nome. A enfermeira simpática me leva para uma outra sala de espera, já na área restrita, e de lá me leva para o "vampiro", que é o coitado encarregado de espetar a gente. Esta é uma das horas mais chatas para mim, já que por uma grande ironia do destino, minhas veias são péssimas! Além de quase invisíveis ou inexistentes elas ainda pulam quando espetadas. Minha mãe diz que veia assim chama-se "veia bailarina". Faz sentido.
Fico lá esperando o tal vampiro aparecer quando de repente avisto um negro dois por dois, que mais parece jogador de futebol americano do que enfermeiro, mas um amor de pessoa. "Hi, my name is Phil. How are you today?" Gente boa o cara. Me apresento e já vou dando meu recado "Minhas veias são um pouco complicadas e temperamentais." Ele ri e depois de examinar meus braços, me dá razão. Normalmente peço para que eles usem "butterfly", o tipo de agulha que eles usam em bebê, mas para este exame eles precisam de uma agulha bem grossa. Azar o meu.
Primeiro o Phil olha o braço direito com atenção, como não vê nada promissor, passa para o esquerdo. Ao notar que a coisa piora deste lado, volta ao direito e se concentra. Respira fundo, mira numa das veias transparentes e fura. Nem dói tanto assim, mas a coitada não sangra!!! Até aí tudo bem, é raro eles conseguirem de primeira. Prendo a respiração, mordo o indicador mais uma vez e ai! outro furo no meu braço. Faço pensamento positivo para a desgraçada da veia sangrar. Parece que está tudo certo. Ele testa o acesso com o soro, tudo OK desta vez. Estou pronta para o exame.
Depois de devidamente furada, sou encaminhada para sala de imagem. Acho estranho ninguém ter me pedido para trocar de roupa ainda, afinal se esbarro em algum ligar, é fácil perder o acesso. Chego na sala, o enfermeiro sorri, elegia meu sapato, me manda deitar na maca, me cobrir com o lençol e abaixar minha calça jeans até o meio da coxa. Nunca vi nada assim em nenhuma das zilhões de tomos que já fiz. O lance é rápido. Faço o que me mandam. Respiro. Prendo. Solto. Respiro. Prendo. Solto. Pronto! Já estou liberada. Inacreditável. Passei da tarefa dois para tarefa três. Pulo uma casinha no jogo. Volto ao primeiro andar.
Fico com o acesso no braço para que eles possam coletar sangue sem me furar de novo, ou assim espero. Sigo as intruções no plano de ataque, de volta ao primeiro andar, me dirijo ao "express check-in", assino a lista e aguardo a minha vez. Em pouco tempo meu número é chamado. Como paciente profissional que sou, já aviso à enfermeira-vampira que vou facilitar a vida dela, pois já venho com acesso pronto. Ela sorri, ainda mais depois de olhar minhas veias invisíveis. Posso ver a cara de alívio dela. Então só para conferir, ela testa o acesso e...surpresa!!! Não funciona mais! Em menos de cinco minutos o perdi! Começa a batalha de novo. Olha daqui, olha de lá. Pouquíssimas opções e dois furos no braço. Ela arrisca o terceiro, mas nada, a veia não dá sinal de vida. Lá vou eu para quarta espetada..e só sai um mera gota de sangue. Nada feito! Na quinta vez, ela pega uma veia boa e eu respiro aliviada ao ver o sangue jorrando e enchendo todos aqueles potinhos coloridos. Aleluia!!! A tortura chega ao fim.
Pelo menos a física, pois a psicológica só vai acabar quando o Dr. Pawlik olhar para mim e disser que está tudo bem. Minha gincana continua. Olho para o mapa, só me falta uma etapa: a consulta médica. Eu e Blake nem acreditamos. São três horas da tarde e eu só tomei um cereal antes das nove, mas não sinto fome nenhuma. Sigo as instruções do papel e me dirijo ao oitavo andar, onde os médicos fazem os atendimentos. Assino a chamada de novo e sento para esperar. Minutos depois, a mesma rotina se repete: ouço meu nome, sou encaminhada para uma outra salinha onde vou esperar para ser atendida. Minutos depois, sou levada para o consultório onde aguardo o Dr. Pawlik, que está um pouco atrasado. O Blake tenta esconder a ansiedade e me pede calma, mas nós dois mal conseguimos ficar sentados na sala. Finalmente Dr. Pawlik chega, minutos depois.
Ele aparenta ainda menos do que seus trinta e poucos anos. Para falar a verdade, aparenta uns 15, no máximo uns 19, recém saído da puberdade. Pawlik é franquizo e branquinho, mas sorridente e acessível. Entra no consultório apressado e logo pede desculpas. Senta na minha frente e olha para a tela computador, onde vê os exames que acabei de fazer no mesmo dia. Mal consigo respirar, quando ele sorri e diz animadamente: "Vejo um fígado enorme e saudável. Isso é ótimo. Então o que você quer de mim? Que eu te monitore daqui para frente? Por mim, tudo bem." A minha vontade ali é me jogar no chão de joelhos e beijar aquele médico. Melhor notícia impossível. Depois de tanto sofrimento, tanta luta, parece que as coisas começam a melhorar para mim. Conversamos sobre meu caso e ele me explica uns detalhes mas se apressa em dizer que precisa examinar meus espécimens novamente. Em alguns casos, nem tão raros assim, os patologistas de Hopkins discordam dos laudos dados por laboratórios externos e este laudo certo é o principal para a conduta de acompanhamento.
Depois das explanações iniciais, tomo coragem e faço as perguntas que me não me saem da cabeça há meses:
* Vou poder engravidar?
* Tenho que esperar dois anos? Por quê?
* Tenho alguma restrição alimentar?
* Quando vou estar liberada para beber um champagne de vez em quando?
* Qual vai ser o método de controle? Qual o perigo da exposição à radiação?
* Qual meu prognóstico de cura? Vou morrer daqui a cinco anos?
Pawlik então sorri e responde: "Pode engravidar amanhã se quiser. Isto é uma opção pessoal sua. Obviamente o risco de uma recidiva diminui com o tempo, então se puder esperar um pouco, melhor, mas se você me disser que ter filhos é uma prioridade sua e que você quer começar agora, não vou me opor. Ao que tudo indica, a gravidez não aumenta seu risco em nada."
Isso era tudo que eu mais queria ouvir. Não porque pretenda ter filhos amanhã, mas saber que tenho esta opção é maravilhoso. Sobre as restrições alimentares, Pawlik disse que não existem, mas elogiou meu empanho em me alimentar de uma forma saudável, o que quer dizer que continuo na dieta vegana. Sobre álcool a reposta dele foi na verdade uma pergunta: "Por que não? Seu fígado está 100% recuperado, então pode beber a hora que quiser, desde que use de bom senso." O fato é que liberada ou não, o álcool, que nunca foi importante para mim, jamais vai ter o mesmo gostinho, então vou continuar tentando evitar ao máximo. (Confesso que depois da consulta, brindei um dia tão especial com uma Mimosa, mas quer ocasião mais especial que esta?)
Sobre o controle, Pawlik diz que tem que ser feito por tomografia, mas isso até eu já sabia. Nos EUA, ninguém usa untrassom para procurar recidivas, mas c'ést la vie. Quando perguntei a ele sobre radiação, ele mais uma vez riu e disse que se recebe mais radiação viajando num avião a jato do que numa máquina de ressonância. Na hora penso, este médico é bom: pão-pão, queijo-queijo.
Finalmente com relação ao meu prognóstico e à suposta morte iminente, Pawlik ri de novo e responde: "De jeito nenhum. Você está curada. O risco de uma recidência sempre existe, por menor que seja, mas nada aqui me faz acreditar que isso vai acontecer. Vamos monitorar você para sempre, mas só. Agora vai viver a sua vida e a gente se vê daqui a quatro meses."
E com estas palavras encerramos a maratona Johns Hopkins. E assim o tão esperado dia 24 de março de 2008 acaba, com um grande sabor de vitória para mim e para o Blake, que vencemos mais um obstáculo no nosso caminho. Um ano de casados, duas cirurgias, muitas batalhas (casamento por procuração, dispensa da arquidiocese para casamento misto, visto americano, mudança, green card, etc), mas acima de tudo muita, muita felicidade. Se o dia 24 de março de 2007 foi o mais feliz da minha vida, o dia 24 de março de 2008 não ficou atrás.
Amém.
Muito legal...
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