July 23, 2008

Dor de pai e mãe


Apesar da insistência do meu relógio biológico, da minha paixão por crianças (ainda mais agora depois da Chiara), ainda não sou mãe. Nunca fui daquelas adeptas a produções independentes, mas desde que me casei a preocupação em formar a minha própria família tem me acompanhado constantemente. Com a cirurgia do início do ano, estes planos tiveram que ser adiados, o que me deixou bastante frustrada, mas nunca pensei em abrir mão destes sonhos e espero ser mãe um dia -- em breve.

Mas mesmo não sendo mãe, tenho certeza que não há nada mais doloroso do que perder um filho e só a hipótese de que isso possa acontecer é o suficiente para enlouquecer qualquer pai ou mãe. Não imagino o quanto meus pais sofreram e ainda sofrem por tudo que passei -- cirurgias, exames, quimios. O medo de me perder de uma hora para outra aliado à sensação de completa impotência e incerteza. Até hoje quando falo na doença, meus pais preferem mudar de assunto. Ainda é muito difícil para eles lembrar de momentos muito intensos que eles só querem esquecer.

Ontem, pela primeira vez vi a expressão de tristeza e incredulidade dos meus pais em outros pais. Esses pais também têm uma filha que sempre foi saudável, motivo de grande orgulho para eles, mas que agora luta contra o tempo e contra uma doença covarde e até então invisível. Ela tem quase a mesma idade que eu tinha quando a doença invadiu a minha vida. Além do mesmo tipo de tumor hepático, temos várias coisas em comum: nossa enorme fé em Deus, nossa paixão pelas viagens e pelos estudos e o fato de sermos as mais velhas de três irmãos. Até o nome dos nossos pais é o mesmo.

Tanto ela quanto eu só estávamos preocupadas em viver nossas vidas da melhor forma possível - trabalhando, viajando mundo a fora e cultivando amizades diversas. Mas o câncer, esta doença covarde não tem pudores e não pede licença para entrar, de uma hora para a outra invadiu nossas vidas e nos fez reféns - não só a nós, mas aos nossos pais e familiares e a todos que nos amam. Nos trouxe medo, angústia e incerteza. Nos tirou a inocência e a idéia de que jovens são indestrutíveis. Nos roubou a paz.

Ontem, conversando com os pais dela, vi os meus pais -- tão frágeis e tão sozinhos ali. Ouvi do pai dela palavras que tantas vezes haviam saído da boca do meu: "Ela é a minha jóia mais rara e tem muito o que viver pela frente." Vi nos olhos da mãe dela as lágrimas que tantas vezes escorreram pela face da minha. E ao olhar para ela, ali parada atônita, tentando achar um sentido para algo tão absurdo, buscando forças que sequer sabia que tinha, ou como ela mesmo disse "tentando digerir tudo" sem perder a sanidade ou a esperança.

Mas apesar do momento triste e delicado, ela vai vencer, eu sei disto. Ela tem raça, tem força e acima de tudo tem fé. Ela tem sede de vida e vai vencer. É só uma questão de tempo. Sei disto e tenho fé.

1 comment:

Cristina said...

Acabei perdendo os posts quando vc estava aqui (achei que vc não tava postando, ora ora...) e esse vc me fez chorar...lindo! Estou muito preocupada.