July 3, 2008

Cinderella Contemporânea eu?

Volta e meia penso em mudar o nome deste blog, pois "Contemporary Cinderella" não ilustra em nada o conteúdo dos meus posts aqui. O mais engraçado é que quando comecei este diário virtual não fazia a menor idéia de onde ele iria me levar.

Recém-casada, tinha acabado de me mudar para uma cidade microscópica em Maryland e estava cheia de medos e expectativas. Como fui uma noiva muito engajada, mas jamais uma bridezilla, achei que deveria passar para frente todos os segredos e lições aprendidas nos preparativos do casamento. Contemporary Cinderella então seria o nome perfeito, pois o meu casamento foi mesmo um verdadeiro conto de fadas. Tudo muito mágico, desde o encontro insólito com o noivo até a cerimônia numa linda igreja barroca no alto de uma colina, bem no centro do Rio, e uma festa numa casa história cercada de palmeiras centenárias.

Mas por um outro motivo comecei a me distanciar do propósito original. Na verdade 2007 marcaria o ano da minha alta médica e cura definitiva do câncer que tinha me assombrado nos últimos cinco anos. Depois de cinco anos de tortura, o grito "estou curada" estava engasgado na minha garganta e louco para escapar.

Desde aquele fatídico dia em outubro de 2002, tudo que eu mais queria na vida era estar livre de novo. Sonhava com o dia que o médico me diria "Você está de alta, agora pode seguir a sua vida sem medo." E não é que este dia finalmente tinha chegado?! Pouco antes do meu casamento, seis meses antes do "prazo", ouvi exatamente estas palavras do médico que me acompanhava. Parecia um sonho que se tornava realidade, era a mais linda melodia para os meus ouvidos, já tão calejados, e um bálsamo para a minha alma tão sofrida. (Descupem o tom dramático, mas não resisti!)

Ali, naquele exato momento, tinha recebido permissão para viver minha vida sem medo e isso significava muito para mim. Tinha chegado a hora de colocar muitos projetos em prática: engravidar, trabalhar como voluntária com pacientes de câncer, falar sobre a minha experiência, dividir meus sonhos e medos e fazer tudo que eu quisesse. Eu estava livre. Finalmente.

Ainda com muito cuidado, comecei a pensar na possibilidade de reunir meus pensamentos em um livro que pudesse ajudar a novos pacientes de câncer, seria um guia, um passo a passo de muita coisa que a maioria iria encontrar em seu caminho, algo que não tinha achado quando soube da minha doença.

Mas aos poucos a idéia foi caindo no esquecimento. Se uma parte de mim queria muito dividir estas experiências, outra parte só queria deixar tudo para trás e seguir a minha vida feliz e sem medo, na minha nova condição de "curada". E este impasse durou alguns meses...mais precisamente até 18 de dezembro de 2007, quando a minha frágil condição de "curada" se esfacelou diante da dura realidade mostrada no monitor de uma sala de ultra-sonografia. A minha aparente cura tinha sido soterrada pela imagem nítida de um tumor hepático de 6cm, no mesmo lugar onde a primeira "massa" tinha aparecido havia mais de cinco anos.

Meu mundo caiu...mais uma vez, o que me deu a chance de reconstruí-lo de novo. Pena que na hora não foi bem nisso que pensei. Aliás nem me lembro direito no que pensei. Nestas horas a gente se vê como se estivesse num filme de ficção científica, fica tudo meio nebuloso a nossa volta, uma sensação terrivelmente estranha. Bem de acordo com a filosofia dos marines americanos, cujo lema é destruir para construir, não tive outra opção. A sensação era de ter caído da cobertura onde a vista era linda e perfeita, de cara no abismo...e agora para voltar ao topo teria que subir de escada, degrau por degrau, o que não seria nada fácil. Mas ao menos não era impossível.

E foi assim que o Contemporary Cinderella que existe hoje nasceu. Nasceu da minha dor sem tamanho que me sufocava de novo. Nasceu do meu desespero angustiante e da minha absoluta necessidade de extravasar, de expurgar tudo aquilo de ruim que estava dentro de mim há tanto tempo. Não pude parar para pensar em organizar meus pensamentos ou objetivos, me deixei levar completamente pelo que se passava dentro de mim. Simplesmente expulsei para a tela os pensamentos que se continuassem na minha cabeça poderiam me enlouquecer.

E este diário virtual tem me levado a lugares onde jamais imaginei estar. Não estes lugares lindos vistos nos postais, mas muitas vezes a lugares escuros, bem escondidos na minha alma, e lugares perfeitos que também só podem existir dentro de mim.

Este blog foi uma tentativa desesperadora de me manter viva, pensando e acreditando que existe um plano maior para mim e que cabe a mim fazer com que ele se concretize. Através destes blog comecei a me ver mais de perto e a conhecer realmente quem sou. Foi através dele também que recebi mais carinho e apoio que jamais imaginaria possível. Fiz novas e resgatei antigas amizades, organizei meus pensamentos, troquei idéias, aprendi, li histórias lindas, me emocionei e chorei tantas vezes comovida com o que vi aqui.

Como disse na entrevista da Folha que saiu hoje, o jovem que se vê cara a cara com o câncer perde a inocência prematuramente, percebe-se mortal e frágil muito cedo, mas o lado positivo é ter a vida inteira para colocar este aprendizado em prática. Não digo que o câncer seja uma bênção, mas tem sido meu guru e meu melhor rival. Tem me ensinado a aceitar a minha mortalidade, mas ao mesmo tempo tem me feito perceber que a vida, ainda que cheia de imperfeições e riscos, vale muito a pena.

4 comments:

Adriana said...

Lindo texto!
Gracas a deus tenho uma saude perfeita, mas venho de uma familia onde todos os membros que morreram ateh hoje, se foram vitimas do cancer. Todos, sem excessoes. Perdia bisavos, avos, tias. O cancer sempre foi uma coisa e uma preocupacao presente na minha familia: oque se poe no prato, oque se poe na pele, estilo de vida, exercicios etc. Sempre fazendo o possivel para manter esse karma familiar o mais longe possivel.
Comecei a ler seu blog meio que por acaso, quando um blog linka em outro, depois em outro, e acabei te reconhecendo, do Orkut e de alguns e-mails que trocamos ha muito tempo atras sobre a Villa Riso (tambem vou casar lah, daqui a 3 semanas!).
E acabei encontrando aqui a luz de um problema que ainda nao existe em meu corpo, mas que com certeza mudou bastante meu conceito e aliviou meu medo.
Te desejo toda sorte, saude e felicidade do mundo!
Bjs
Adri

Debora Rocha Muscutt. said...

Acho que o nome Cinderella é perfeito para o blog. Na estória, a Cinderella é acima de tudo, uma vencedora, alguém que enfrentou um monte de coisas difíceis e no final venceu. Assim como você. Sua jornada pela dor hoje em dia é passado. Seu blog é uma inspiração para muitos, uma fonte de encorajamento, força e fé, tal qual alguns contos de fada. Por que não este nome então? Beijos e bom feriado.

Anonymous said...

Olá Dani,
Ainda não tive oportunidade de ler todo o teu blog, mas quero fazê-lo logo. Pesquisando sobre a doença no figado cheguei até aqui. Minha mãe descobriu em abril um câncer no intestino e ao fazer o estadiamento antes da cirurgia apareceu um pequeno tumor no fígado. Já passou (passamos) pela cirurgia no intestino e 5 ciclos de quimio. Falta a 6ª quimio para então operar o fígado, o que será em outubro.
Desejo toda a sorte e felicidade para ti. Lindo o blog!
Raffaella, Pelotas, RS.
raffahadler@hotmail.com

Anonymous said...

Olá Dani! quanto tempo querida... nao preciso dizer que ler vc aqui e ter a oportunidade de estar perto de vc de alguma forma...
Sua historia e sua vibração pela vida sempre me emocionou e emociona.Toda vez que leio vc, é impossivel nao refletir, sobre a vida e o quanto somos vulneraveis, mesmo que tentemos nos esqueçer disso. Amo vc. Com grande amizade. Simone Borges