Ao que tudo indica o projeto da estratégia de marketing da creche-escola da Capitol Heights já está chegando ao final. Confesso que nunca imaginei que me daria tanto trabalho. O Blake diz que é a “fake company” e que vou ganhar “fake money”, mas então respondo e digo que os créditos com Ele lá em cima são de verdade. Espero que sim porque o negócio acabou tomando uma dimensão enorme e muito além do que eu imaginava. Mas c’ést la vie...da próxima vez já sei!
Esta semana também tenho uma reunião para organizar a campanha de doação de medula aqui em Columbia, MD. Já contei a vocês que vamos conseguir fazer durante um evento em setembro? Fiquei tão feliz porque este foi o último desejo do Todd e para mim vai ser muito importante conseguir realizá-lo. O bacana é que a família dele pediu que em vez de flores, os amigos enviassem doações para o Ulman Fund e para a American Cancer Society e o Ulman Fund, ao que tudo indica, vai usar as doações feitas em nome do Todd para cobrir os custos do evento para recrutamento de doadores de medula. Acho que a Carmi vai ficar feliz de saber que mesmo já não mais aqui, o filho dela vai continuar a ajudar muita gente.
Vamos fazer também um vídeo sobre o “Patient Navigation Program”, que é dirigido pela Elizabeth aqui no Hospital de Universidade de Maryland. Sou voluntária neste programa, onde conheci o Todd, a Monica, a Lilian e tantas outras pessoas bacanas. Acho importante que as pessoas saiba que este tipo de recurso existe. Só quem já passou por isto sabe como umn diagnóstico de câncer abala qualquer pessoa. A gente fica sem chão, sem direção e por uns tempos vira refém do medo.
O programa de apoio ao paciente oferece um espaço para que este paciente possa questionar o tratamento e se abrir completamente sobre a doença num ambiente seguro. Tem gente, como a Monica e o Todd, que praticamente vira família, já outros pacientes preferem mais privacidade, o que é sempre respeitado. O legal é eles saberem que alternativas e recursos existem e podem ser usados a qualquer hora.
Ainda não sei qual será meu papel, mas acho que vou ajudar na produção, formulando perguntas e sugerindo personagens, bem a minha praia. Estou ansiosa para ver o projeto sair logo do papel. Aliás, ando bem sem paciência com cosias que insistem em não sair do papel. Não sou chegada a bla-bla-blá. Meu negócio é ação!
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August 4, 2009
July 30, 2009
Não me chame!
Se você tiver um projeto muito bacana, principalmente que envolva crianças carentes ou jovens doentes, não me chame. Se precisar de alguém que trabalhe horas e horas durante a semana e nos fins de semana sem receber um tostão sequer, por favor, não me chame. Se quiser alguém para contar um história triste e pedir dinheiro para o seu projeto que vai mudar vidas, pelo amor de Deus, não me convide, pois corre o sério risco de eu aceitar!!!!
Tem gente que diz que depois da doença fica mais duro, mais seletivo, mais objetivo. Pena que isto não aconteceu comigo! Depois da doença virei manteiga derretida! Quando chegam envelopes pedindo doações para as zilhões de organizações de caridade na minha casa -- sim, nos EUA chegam vários todo dia, o Blake chega ao ponto de esconder de mim, pois se deixar, eu ajudo todo mundo. Se não puder ajudar financeiramente, entro pro time que faz trabalho pro-bono, compro rifa, ingresso para evento, sei lá, dou um jeito.
Claro que não estou querendo me transformar na próxima Madre Teresa, muito pelo contrário, mas é que este meu coração mole acentua ainda mais uma das minhas piores qualidades, a desorganização, a mania de fazer tudo ao mesmo tempo e tentar sempre dar um jeitinho de fazer mais alguma coisa.
Resultado: trabalho o fim de semana todo, à noite depois de chegar do trabalho e na hora do almoço! Fico morta! Tudo bem que muita gente até sente complexo de culpa por não fazer o suficiente pelo próximo ou por ganhar muita grana ou por trabalhar numa empresa cujo produto pode prejudicar alguém (tipo fábrica de cigarros, salão de bronzeamento). Mas felizmente este não é o meu caso! O meu trabalho é o máximo, já que nossa missão é "eliminar as disparidades em saúde". Sei que isto aqui é um hospício, mas a única prejudicada sou eu! Então pensando friamente a minha dívida com o próximo deveria estar mais que cumprida. Mas não está e percebo isto sempre que me chamam para algum projeto muito bacana mas que é complicado e ninguém quer fazer. Aí vou, salto de cabeça, não só pelo meu austruísmo, mas pelo sabor do desafio. Desafio que muitas vezes me deixa com os nervos à flor da pele.
Então a minha prioridade para 2010 (sim, porque 2009 já quase acabou e estou ainda com MUITOS projetos em andamento!) é me concentrar em poucos mais bons projetos que idealmente me gerem alguma graninha, pois se depender do que fiz em 2009, estou com muito crédito com Ele lá em cima!
Mas como 2009 aindanão acabou, deixa eu sair correndo para uma reunião sobre o website do Cancer Center aqui de Maryland, na minha eterna qualidade de voluntária!
Tem gente que diz que depois da doença fica mais duro, mais seletivo, mais objetivo. Pena que isto não aconteceu comigo! Depois da doença virei manteiga derretida! Quando chegam envelopes pedindo doações para as zilhões de organizações de caridade na minha casa -- sim, nos EUA chegam vários todo dia, o Blake chega ao ponto de esconder de mim, pois se deixar, eu ajudo todo mundo. Se não puder ajudar financeiramente, entro pro time que faz trabalho pro-bono, compro rifa, ingresso para evento, sei lá, dou um jeito.
Claro que não estou querendo me transformar na próxima Madre Teresa, muito pelo contrário, mas é que este meu coração mole acentua ainda mais uma das minhas piores qualidades, a desorganização, a mania de fazer tudo ao mesmo tempo e tentar sempre dar um jeitinho de fazer mais alguma coisa.
Resultado: trabalho o fim de semana todo, à noite depois de chegar do trabalho e na hora do almoço! Fico morta! Tudo bem que muita gente até sente complexo de culpa por não fazer o suficiente pelo próximo ou por ganhar muita grana ou por trabalhar numa empresa cujo produto pode prejudicar alguém (tipo fábrica de cigarros, salão de bronzeamento). Mas felizmente este não é o meu caso! O meu trabalho é o máximo, já que nossa missão é "eliminar as disparidades em saúde". Sei que isto aqui é um hospício, mas a única prejudicada sou eu! Então pensando friamente a minha dívida com o próximo deveria estar mais que cumprida. Mas não está e percebo isto sempre que me chamam para algum projeto muito bacana mas que é complicado e ninguém quer fazer. Aí vou, salto de cabeça, não só pelo meu austruísmo, mas pelo sabor do desafio. Desafio que muitas vezes me deixa com os nervos à flor da pele.
Então a minha prioridade para 2010 (sim, porque 2009 já quase acabou e estou ainda com MUITOS projetos em andamento!) é me concentrar em poucos mais bons projetos que idealmente me gerem alguma graninha, pois se depender do que fiz em 2009, estou com muito crédito com Ele lá em cima!
Mas como 2009 aindanão acabou, deixa eu sair correndo para uma reunião sobre o website do Cancer Center aqui de Maryland, na minha eterna qualidade de voluntária!
July 28, 2009
Fashion Victim

Se tem uma peça no vestuário feminino que eu ADORO é a tal saia lápis, chamada de pencil skirt por estas bandas. Acho chiquérrima! Não posso ver uma que já me imagino dentro dela. Ainda mais se for preta, me passa uma coisa de glamour, meio francesa, sei lá, adoro!
O único problema é que para quem tem cintura fina e a derriere avantajada como eu, a tal da saia lápis é o tipo da roupa que não favorece, pois fica larga na cintura e apertada no quadril, o que acaba num irritante e eterno estica-e-puxa.
Mas como sou teimosa e brasileira e não desisto jamais, ano passado comprei uma. Justo no dia da estreia tive que andar pra caramba. Desnecessário dizer que fiquei irritadíssima e louca de vontade de voltar pra casa e trocar de roupa. Mas aguentei firme até o final do expediente. Vida de peão é assim mesmo. Nunca mais me atrvei a usar a tal da saia. Mas talvez fosse só aquele modelo, que ainda por cima era de cintura alta.
Meses depois, vi um modelo lindo que a minha irmã e a minha mãe tinham comprado. Caí na choradeira e enchi tanto o saco das coitadas que a Andressa não aguentou e acabou voltando na loja para me dar uma de presente. Minha mãe trouxe quando veio aqui em abril. Adorei e fiquei só esperando uma boa ocasião para usar.
Já tinha usado a saia uma vez para ir a uma reunião. O percurso era mínimo e bem básico: carro, estacionamento, reunião, carro, casa. Resolvi arriscar. Claro que a danada ainda continuou subindo e se torcendo, mas como passei a maior parte do dia sentada, tudo bem. Passamos no teste!
Pois hoje de manhã, sem nenhuma inspiração na hora de me vestir, troquei de roupa trocentas vezes e acabei me arriscando a usar a tal saia, mesmo sabendo que caminharia bem mais.
Mudei de roupa rápido, entrei no carro, levei o dobro do tempo pra chegar ao trabalho, graças a uma obra na rua perto da Universidade, estacionei meu carro, saí correndo para tentar diminuir o atraso, quando, já prestes a atravessar a rua, na saída do estacionamento, escuto uma senhora me chamar. "Senhorita, senhoria!" Olhei pra trás supresa, sem fazer ideia do que ela queria. "Tem um furinho na sua saia. É bem pequeno, mas acho que pode aumentar," ela me alerta.
Olhei pra trás para conferir e o danadinho estava mesmo lá, pequeno mas estrategicamente localizado... E agora? Pensei e resolvi voltar para o carro. Na dúvida se deveria ir ao shopping ou voltar pra casa, entrei correndo no carro para me livrar de vergonha maior. Eis que escuto um barulho 'yack!', agora era a fenda da saia que tinha aberto de vez! Mais um movimento e eu estaria praticamente nua! Socorro!
Era o sinal que precisava para voltar imediatamente para um lugar seguro, o meu amado lar! Onde provavelmente passarei o resto do dia trabalhando, pois enfrentar mais uma hora de engarrafamento pra chegar ao trabalho pela segunda vez ao dia, ninguém merece! Acho que vou colocar uma calça de stretch bem confortável pra passar o dia aqui na frente do computador. Adeus saia lápis! Pelo menos por uns tempos...
June 2, 2009
Veia

Ou o pessoal da Unviversidade de Maryland é muito fera, ou tem muita sorte ou algo surpreendente está acontecendo com as minhas veias. Esta semana tive que tirar sangue duas vezes (exames de rotina) e decidi usar o pessoal aqui da Universidade por pura conveniência, afinal pegar carro e ir pra Hopkins....ninguém merece!
Como sempre, já chego avisando aos "vampiros" de plantão "Minhas veias são finas, difíceis de encontrar e bailarinas!" Uns arregalam os olhos, outros suspiram e ainda há outros que sequer demonstram reação. Da última vez que fui a Hopkins não levei nem uma nem duas, mas CINCO picadas, sendo que a penúltima, o cara ficou me cutucando até perder a veia de vez. Sensação nada agradável.
Se fosse um tempo atrás já teria desmaiado, mas quando se é paciente profissional, estas coisas viram rotina. Pra mim não tem mais tempo quente quando se trata de exame ambulatorial. A coisa só complica mesmo quando tem que entrar na faca.
De qualquer forma, sem muita esperança, depois do meu aviso, a flebotomista (nome técnico para os vampiros de laboratório) pegou a tal borboleta (ou agulha de bebê) e de forma certeira perfurou a minha veia...de primeira! E o sangue começou a entrar bonitinho no frasquinho! (Sim, pois há vezes que ele não sai!) Alívio...meu e dela!
Claro que poderia ter sido sorte de principiante... Então dias depois, voltei lá e ela não estava, mas para minha surpresa me indicaram outra flebotomista tão boa quanto. Claro que continuei meus avisos, mas ela disse que tinha conseguido uma veia boa e pimba! Acertou em cheio e conseguiu tirar todos os potinhos necessários. Saí de lá maravilhada! Seria possível sair só com um furo no braço e sem nenhum hematoma?! Milagre!
Não sei a que ou a quem devo creditar a façanha, mas estou feliz, feliz! Pois é, tem gente que realmente precisa de muito pouco pra ser feliz. No meu caso, ultimamente, uma veia decente para ser puncionada tem sido motivo de muita alegria.
February 13, 2009
Limpeza & Mudança


"If you don't like something change it. If you can't change it, change your attitude. Don't complain."
Maya Angelou, escritora americana
A mudança aconteceu mais rápido do que eu esperava e ontem mesmo já trouxe as minhas coisas para cá. Ainda não sei o que penso da situação, mas o tempo vai dizer.
Uma das coisas que acho mais estranhas aqui nos States é a limpeza/arrumação dos escritórios, que sempre deixa a desejar. Vi isto no Reino Unido também. Os gringos dizem que brasileiro é obsecado por limpeza e nós brasileiros achamos praticamente todos os gringos sujos, então acho que os parâmetros são diferentes.
Ao chegar na minha nova sala, cuja vista vocês podem ver nas fotos que ilustram o post, achei estranho ver material de limpeza dentro de um dos armários. Depois de convesar com o pessoal percebi que a limpeza das salas aqui é também no esquema "DIY" ou "do it yourself", o que quer dizer em bom português, por conta do freguês.
Tudo bem que já sabia que aqui nos States não tem a moleza de ter empregada todo dia. Faxineira de quinze em quinze dias já é luxo e elas cobram por hora ou por andar da casa! Mas a famosa "tia da limpeza" figurinha carimbada no Brasil corporativo aqui também não passa de lenda! Tem o pessoal que aspira o carpete quando requisitado, mas o resto é por conta do ocupante da sala!!! Bingo! É esta a explicação para o estado lamentável de alguns escritório que ja visitei.
Já tinha trabalhado aqui, mas sempre em baias ou em salas maiores com outras pessoas, agora tenho o meu cantinho, de paredes roxas, diga-se de passagem. Também tenho direito a vista de Baltimore e algumas gruas e prédios em construção, mas tudo bem, melhor que ficar trancado num cubículo sem janela... Tudo fica por minha conta, uma vez que só as secretárias e eu temos o código da porta. É até parece que trabalho para a CIA!
Então agora além de ter que dar duro em casa, também sou responsável pela faxina aqui. E não achem que é moleza, pois o que já tirei de sujeuira e poeira de um espaço menor do que meu quarto de adolescente é inacreditável. Em vez de ter vindo de blazer e calça social, deveria ter vindo de tênis e moleton! Vida de maria!!! Só espero ficar por aqui por um bom tempo para o trabalho ter valido a pena!
December 1, 2008
Evento em Baltimore
Como existe uma ligação grande a disponibilidade de ensaios clínicos e o sucesso no tratamento de muitas doenças, é indispensável que todos os grupos étnicos e raciais estejam incluídos nas pesquisas. Nós aqui na Universidade de Maryland acabamos de lançar um programa novo MPACT, Maryland Program Advancing Clinical Trials e sábado, dia 13 de dezembro, vamos fazer um evento gratuito para educar a população sobre pesquisa e ensaios clínicos. Quem estiver por perto, vale a pena conferir.
November 21, 2008
Let It Snow, Let It Snow, Let It Snow...



Tem horas que imagens dizem mais que palavras...
Estas fotos acabaram de ser tiradas aqui da porta do meu escritório. Downtown Baltimore na neve... Wow!!! E desde que voltei para a sala, a neve está caindo mais forte!!!
A propósito, eu não gosto de frio, nem de neve! Também detesto e não sei dirigir na neve!!!! Mas ao que parece o inverno vai ser longo...e gélido por aqui.
Faltam três semanas para a minha ida ao Brasil!!!
September 7, 2008
Engajamento
Se tem uma coisa que não me canso de admirar nos americanos é o engajamento social deles. Tem que tirar o chapéu. Gente de todas as classes sociais, etnias, religiões arregaça as mangas e ajuda o próximo mesmo. Eles têm este compromisso com a sociedade e levam a coisa a sério.
Eu, como boa brasileira, sempre tive o pé atrás com este negócio de ONG. Não acredito mesmo, pois não vejo resultados concretos, não vejo prestação de contas e não vejo ações de verdade. Um dos meus chefes também concordava comigo e sempre brincava dizendo que um dia ainda abriria uma ONG chamada "Seu dinheiro pode ser meu". Palhaçadas a parte, sei exatamente do que ele estava falando -- eu é que não vou dar meu suado dinheiro na mão deste povo!
Mas aqui nos EUA tem muita coisa séria, graças a Deus. Gosto muito da American Cancer Society e agora começo a conhecer melhor o trabalho da Escola de Medicina da Universidade de Maryland. Esta semana que passou eles iniciaram um evento anual muito bacana chamado Mini Med School. Durante cinco semanas eles abrem as portas da universidade para a comunidade e a cada quarta-feira dois temas importantes para a comunidade são abordados. Não cobram entrada e ainda pagam o estacionamento do pessoal e fornecem lanche. Semana passada os temas foram Síndrome do Intestino Irritado e Doença Celíaca e Violência (do ponto de vista da saúde pública).
O auditório de 300 pessoas estava lotado e durante as duas horas de palestra ninguém piscava. Estavam todos atentos, prontos para absorver todo o tipo de informação. O público era formado da maioria de pessoas na meia-idade, mais mulheres, mais negros do que brancos, afinal estamos em Baltimore. Algumas mães estavam acompanhadas de filhos adolescentes, outras de amigas.
Bacana mesmo de ver a universidade abrindo as suas portas para a comunidade local. Mais legal ainda foi ver a comunidade local aproveitando esta grande oportunidade. Durante o evento, colocamos nosso material de divulgação e muita gente me perguntava o que tinha que fazer para conseguir exames preventivos. O melhor de tudo foi poder dar a resposta a elas. Dizer que a gente pode ajudar sim, que o que eles têm a fazer é procurar nosso escritório local e se increver em um dos nossos programas. Que alívio poder ver um problema e ter, pelo menos em tese, a solução para ele.
Nos próximos meses vou organizar um evento do mesmo porte para abordar a questão de testes clínicos e da importância deles para o aumento das taxas de sobrevida. Nosso público-alvo vai ser a comunidade local, que muitas vezes desconhece ou desconfia da seriedade e da transparêncis destes testes. O pior é que com base em algo terrível que aconteceu no passado, o chamado Tuskagee Experiment, eles não deixam de ter razão para tanto receio. (É inacreditável como alguns seres humanos são maus!) Então nosso desafio é mostrar a eles que aquela atrocidade jamais vai voltar a acontecer. Hoje temos lei rígidas e mecanismos de proteção ao paciente muito avançados e a participação dos pacientes é crucial para o aumento da expectativa de vida deles.
Eu, como boa brasileira, sempre tive o pé atrás com este negócio de ONG. Não acredito mesmo, pois não vejo resultados concretos, não vejo prestação de contas e não vejo ações de verdade. Um dos meus chefes também concordava comigo e sempre brincava dizendo que um dia ainda abriria uma ONG chamada "Seu dinheiro pode ser meu". Palhaçadas a parte, sei exatamente do que ele estava falando -- eu é que não vou dar meu suado dinheiro na mão deste povo!
Mas aqui nos EUA tem muita coisa séria, graças a Deus. Gosto muito da American Cancer Society e agora começo a conhecer melhor o trabalho da Escola de Medicina da Universidade de Maryland. Esta semana que passou eles iniciaram um evento anual muito bacana chamado Mini Med School. Durante cinco semanas eles abrem as portas da universidade para a comunidade e a cada quarta-feira dois temas importantes para a comunidade são abordados. Não cobram entrada e ainda pagam o estacionamento do pessoal e fornecem lanche. Semana passada os temas foram Síndrome do Intestino Irritado e Doença Celíaca e Violência (do ponto de vista da saúde pública).
O auditório de 300 pessoas estava lotado e durante as duas horas de palestra ninguém piscava. Estavam todos atentos, prontos para absorver todo o tipo de informação. O público era formado da maioria de pessoas na meia-idade, mais mulheres, mais negros do que brancos, afinal estamos em Baltimore. Algumas mães estavam acompanhadas de filhos adolescentes, outras de amigas.
Bacana mesmo de ver a universidade abrindo as suas portas para a comunidade local. Mais legal ainda foi ver a comunidade local aproveitando esta grande oportunidade. Durante o evento, colocamos nosso material de divulgação e muita gente me perguntava o que tinha que fazer para conseguir exames preventivos. O melhor de tudo foi poder dar a resposta a elas. Dizer que a gente pode ajudar sim, que o que eles têm a fazer é procurar nosso escritório local e se increver em um dos nossos programas. Que alívio poder ver um problema e ter, pelo menos em tese, a solução para ele.
Nos próximos meses vou organizar um evento do mesmo porte para abordar a questão de testes clínicos e da importância deles para o aumento das taxas de sobrevida. Nosso público-alvo vai ser a comunidade local, que muitas vezes desconhece ou desconfia da seriedade e da transparêncis destes testes. O pior é que com base em algo terrível que aconteceu no passado, o chamado Tuskagee Experiment, eles não deixam de ter razão para tanto receio. (É inacreditável como alguns seres humanos são maus!) Então nosso desafio é mostrar a eles que aquela atrocidade jamais vai voltar a acontecer. Hoje temos lei rígidas e mecanismos de proteção ao paciente muito avançados e a participação dos pacientes é crucial para o aumento da expectativa de vida deles.
June 29, 2008
Por que falo a verdade?
Uma das decisões mais difíceis que tive que tomar ao longo da doença foi ter que deixar o emprego que tinha acabado de começar. Não que eu amasse o meu trabalho (o que a longo prazo seria um problema, pois não consigo trabalhar se não estiver apaixonada pelo que faço), mas pelo fato de ter sido meu primeiro emprego aqui depois de zilhões de entrevistas e de muito procurar. O salário não era lá essas coisas, a rotina era muito monótona e o trânsito, bem o trânsito estava literalmente acabando comigo: três horas diárias no escuro engarrafada numa highway americana é a minha idéia de inferno. Mas era tudo o que eu tinha. Era meu primeiro degrau, a minha esperança de que um dia poderia alcançar algo melhor, mas que o primeiro passo estava dado.
Então quando soube da cirurgia, do tempo de recuperação e do adiamente do meu retorno a Maryland e de como seria a minha vida na volta ao lar, tive que tomar mais uma decisão difícil. Tentaria negociar com eles a minha permanência? Se optasse por fazer isso, só teria férias provavelmente em 2010 e teria que voltar imediatamente ao trabalho, num lugar pra lá de deprimente onde só há restaurantes de fast-food. A diretora e toda a equipe do instituto foram extremamente amáveis e deixaram claro que me apoiariam qualquer que fosse a minha decisão. Mas no fundo, acho que eles perferiam que eu me desligasse, devido a incerteza de tudo que tinha relação comigo. E se eu tivesse uma nova recorrência? E se eu precisasse me tratar de novo? Quantas vezes eu teria que ir ao médico?
Então depois conversar com os médicos e com a minha família, decidi que o melhor a fazer era me desligar o quanto antes para que a universidade pudesse começar a busca pelo meu substituto. Detesto a palavra "substituto" porque no fundo do meu ego inflado me vejo insubstituível. Como assim encontrar alguém como eu? Impossível! Mas orgulho foi algo que aprendi a engolir bem rápido ao longo destes meses. Liguei para lá e fui direto ao assunto. A diretora foi muito delicada, mas não pude deixar de perceber -- talvez tenha sido a minha imaginação -- um certo alívio no seu tom de voz.
Desliguei o telefone aos prantos, mas já estava feito. Outra coisa que aprendi com a doença foi não chorar sobre o leite derramado. Chorei muito até fazer a ligação, mas depois de comunicar a minha decisão só chorei duas vezes: imediatamente após desligar o telefone e quando cheguei em casa e vi minha carteirinha do seguro-saúde e meus contracheques em cima da mesa... Adeus independência, voltamos ao sistema de contenção de despesas. Foi bom enquanto durou.
Mas depois não chorei mais. Fiquei pensando no que o meu grande amigo e palhaço profissional Horácio tinha me dito assim que contei para ele do tumor em dezembro. "Não pode ser. Está tudo errado. Não é possível. Não estava no script. Não, peraí, tem que ter um motivo. Tem que ter... Já sei! É este emprego que você não está gostando. É a única peça solta. É isso! Só assim você vai ter um motivo mais que nobre para sair desta porcaria que você já não estava gostando mesmo. É isso, uma chance para você deixar este emprego sem maiores dramas."
E parecia que ele tinha achado o xis da questão. Por mais maluca que a idéia do Horácio tenha sido (aliás, ele só tem idéias malucas!) para mim fez todo o sentido naquela hora. Este tumor vai me dar a chance de sair do emprego que eu detesto de uma forma nobre e digna. Bingo! Tudo tem sempre um lado bom.
Para mim, a teoria doida do Horácio virou a verdade mais absoluta. O tumor, além de ser a chave que me libertaria da prisão de um trabalho monótono, também abriria meu mundo para coisas muito mais interessantes.
Assim que voltei para Maryland, minha ex-chefe me convidou para almoçar. Ela é mesmo um amor de pessoa. Conversamos bastante e ela disse que ficaria muito feliz se pudesse me ajudar. Me deu permissão para usá-la como referência e se colocou à disposição para o que eu precisasse. Conversamos bastante e perguntei a ela o que deveria dizer sobre a minha saída da universidade. Como eu havia pensado e como quase todo mundo havia sugerido, ela disse que eu jamais deveria mencionar o fato da doença. Concordei na hora, afinal que futuro empregador daria alguma chance a alguém que teve que se ausentar do trabalho por longos períodos por problemas de saúde graves? Todo mundo morre de pena, mas na hora H, business is business e ponto final. Eu sabia que ela estava certa, mas só tinha um problema, e um problema dos grandes: eu não sei mentir. Nunca soube, toda vez que tentei quando adolescente fui pega e vi logo que não era para mim. Não sei mentir. Odeio mentira. E omitir às vezes também não é opção para mim. Não sou boa atriz.
A cada entrevista eu ia tensa, rezando para ninguém me perguntar o motivo da minha passagem tão meteórica pelo meu último emprego. A meu favor havia meus dois últimos empregos onde fiquei por três anos em cada um, então menos terrível, mas explicar uma passagem de três meses (que na verdade, tirados os dois meses no Brasil, não somava mais que um mês) era bem complicado. Mas não tinha opção. Ou pelo menos não achava que tinha.
Quando fui a entrevista na Escola de Medicina fiquei em choque. Achei que tinha me candidatado a uma vaga para fazer relações públicas para o Hospital Universitário, mas ao chegar na sala de espera reparei que tudo a minha volta falava de câncer. Por mais estranho que possa parecer, me senti em casa. Foi como se uma voz estivesse falando comigo "Bem-vinda. Aqui é o seu lugar."
A entrevista foi ótima e tive a mesma sensação que tinha experimentado nos meus dois últimos empregos. Durante a entrevista me ficou muito claro que ninguém poderia fazer aquele trabalho melhor do que eu. O emprego era meu, soubessem os entrevistadores ou não. Saí de lá muito confiante. Dias depois me ligaram pendindo as minhas referências, mas meses e meses se passaram e não tive mais notícias.
Muito estranho, pensei, mas o que tiver que ser será. Acabei aceitando um emprego de repórter para manter a minha cabeça ocupada e receber uns trocadinhos no fim do mês até que algo melhor aparecesse. Não choro mais sobre o leite derramado.
Três meses depois da entrevista inicial, o pessoal da Escola de Medicina da Universidade de Maryland me telefona de novo perguntando se ainda estava interessada no emprego. "Claro!," respondo na mesma hora. Marcamos nova entrevista com a Dra. Baquet, chefe do departamento, no dia seguinte.
Ao entrar na sala, senti exatamente a mesma coisa, uma sensação enorme de auto-confiança. "Mereço este emprego mais do que ninguém. Ninguém vai saber fazer melhor do que eu." Não era algo pedante ou egocêntrico, mas era exatamente como me sentia. E foi exatamente assim que começamos a conversa. Ela também parecia saber que a vaga era minha e já foi perguntando sobre datas, etc.
Não me lembro bem o rumo que a conversa tomou mas quando me dei conta, as palavras já tinham saído da minha boca e meus olhos já estavam marejados. "Sou voluntária da American Cancer Society. Já tirei três tumores do fígado em duas cirurgias. Conheço o câncer bem de perto, de um jeito que jamais pensei possível. Sou a única pessoa que sobreviveu ao câncer de fígado de que tenho notícias. Minha maior vontade é encontrar outros sobreviventes para não me sentir tão só." Os olhos dela se encheram de lágrimas na mesma hora. Dra. Baquet, um dos maiores expoentes na campanha contra o câncer, alguém que milita nesta causa há muitos anos, ficou imóvel por um instante. Então hesitou um pouco e disse: "Também não conheço, mas juntas vamos encontrar. Pode ter certeza, eles estão por aí."
Naquele momento me senti leve. A verdade tinha me libertado. Eu tinha mostrado a minha parte mais vulnerável e ao mesmo tempo tinha me tornado mais forte. Naquela hora ficou claro que ninguém queria aquela vaga mais do que eu. Aquela vaga era minha por direito. O mesmo motivo que me fazia uma "candidata capenga" para tantos outros empregos era a minha maior vantagem agora.
A vida é muito estranha mesmo. Como diz o ditado "O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?" O que seria da Dani se todos os futuros empregadores procurassem por um boletim médico perfeito?
Vive la Différence! Ainda bem que há muita gente por aí disposta a arriscar... E o mais incrível aconteceu: voltei a trabalhar na Unviersidade de Maryland. Voltei a ser funcionária pública com todos os direitos e benefícios. E tudo que eu tinha deixado para trás de um dia para o outro acabou voltando para mim sem muita explicação, totalmente por acaso. Difícil de acreditar. Chega a ser quase um milagre.
Então quando soube da cirurgia, do tempo de recuperação e do adiamente do meu retorno a Maryland e de como seria a minha vida na volta ao lar, tive que tomar mais uma decisão difícil. Tentaria negociar com eles a minha permanência? Se optasse por fazer isso, só teria férias provavelmente em 2010 e teria que voltar imediatamente ao trabalho, num lugar pra lá de deprimente onde só há restaurantes de fast-food. A diretora e toda a equipe do instituto foram extremamente amáveis e deixaram claro que me apoiariam qualquer que fosse a minha decisão. Mas no fundo, acho que eles perferiam que eu me desligasse, devido a incerteza de tudo que tinha relação comigo. E se eu tivesse uma nova recorrência? E se eu precisasse me tratar de novo? Quantas vezes eu teria que ir ao médico?
Então depois conversar com os médicos e com a minha família, decidi que o melhor a fazer era me desligar o quanto antes para que a universidade pudesse começar a busca pelo meu substituto. Detesto a palavra "substituto" porque no fundo do meu ego inflado me vejo insubstituível. Como assim encontrar alguém como eu? Impossível! Mas orgulho foi algo que aprendi a engolir bem rápido ao longo destes meses. Liguei para lá e fui direto ao assunto. A diretora foi muito delicada, mas não pude deixar de perceber -- talvez tenha sido a minha imaginação -- um certo alívio no seu tom de voz.
Desliguei o telefone aos prantos, mas já estava feito. Outra coisa que aprendi com a doença foi não chorar sobre o leite derramado. Chorei muito até fazer a ligação, mas depois de comunicar a minha decisão só chorei duas vezes: imediatamente após desligar o telefone e quando cheguei em casa e vi minha carteirinha do seguro-saúde e meus contracheques em cima da mesa... Adeus independência, voltamos ao sistema de contenção de despesas. Foi bom enquanto durou.
Mas depois não chorei mais. Fiquei pensando no que o meu grande amigo e palhaço profissional Horácio tinha me dito assim que contei para ele do tumor em dezembro. "Não pode ser. Está tudo errado. Não é possível. Não estava no script. Não, peraí, tem que ter um motivo. Tem que ter... Já sei! É este emprego que você não está gostando. É a única peça solta. É isso! Só assim você vai ter um motivo mais que nobre para sair desta porcaria que você já não estava gostando mesmo. É isso, uma chance para você deixar este emprego sem maiores dramas."
E parecia que ele tinha achado o xis da questão. Por mais maluca que a idéia do Horácio tenha sido (aliás, ele só tem idéias malucas!) para mim fez todo o sentido naquela hora. Este tumor vai me dar a chance de sair do emprego que eu detesto de uma forma nobre e digna. Bingo! Tudo tem sempre um lado bom.
Para mim, a teoria doida do Horácio virou a verdade mais absoluta. O tumor, além de ser a chave que me libertaria da prisão de um trabalho monótono, também abriria meu mundo para coisas muito mais interessantes.
Assim que voltei para Maryland, minha ex-chefe me convidou para almoçar. Ela é mesmo um amor de pessoa. Conversamos bastante e ela disse que ficaria muito feliz se pudesse me ajudar. Me deu permissão para usá-la como referência e se colocou à disposição para o que eu precisasse. Conversamos bastante e perguntei a ela o que deveria dizer sobre a minha saída da universidade. Como eu havia pensado e como quase todo mundo havia sugerido, ela disse que eu jamais deveria mencionar o fato da doença. Concordei na hora, afinal que futuro empregador daria alguma chance a alguém que teve que se ausentar do trabalho por longos períodos por problemas de saúde graves? Todo mundo morre de pena, mas na hora H, business is business e ponto final. Eu sabia que ela estava certa, mas só tinha um problema, e um problema dos grandes: eu não sei mentir. Nunca soube, toda vez que tentei quando adolescente fui pega e vi logo que não era para mim. Não sei mentir. Odeio mentira. E omitir às vezes também não é opção para mim. Não sou boa atriz.
A cada entrevista eu ia tensa, rezando para ninguém me perguntar o motivo da minha passagem tão meteórica pelo meu último emprego. A meu favor havia meus dois últimos empregos onde fiquei por três anos em cada um, então menos terrível, mas explicar uma passagem de três meses (que na verdade, tirados os dois meses no Brasil, não somava mais que um mês) era bem complicado. Mas não tinha opção. Ou pelo menos não achava que tinha.
Quando fui a entrevista na Escola de Medicina fiquei em choque. Achei que tinha me candidatado a uma vaga para fazer relações públicas para o Hospital Universitário, mas ao chegar na sala de espera reparei que tudo a minha volta falava de câncer. Por mais estranho que possa parecer, me senti em casa. Foi como se uma voz estivesse falando comigo "Bem-vinda. Aqui é o seu lugar."
A entrevista foi ótima e tive a mesma sensação que tinha experimentado nos meus dois últimos empregos. Durante a entrevista me ficou muito claro que ninguém poderia fazer aquele trabalho melhor do que eu. O emprego era meu, soubessem os entrevistadores ou não. Saí de lá muito confiante. Dias depois me ligaram pendindo as minhas referências, mas meses e meses se passaram e não tive mais notícias.
Muito estranho, pensei, mas o que tiver que ser será. Acabei aceitando um emprego de repórter para manter a minha cabeça ocupada e receber uns trocadinhos no fim do mês até que algo melhor aparecesse. Não choro mais sobre o leite derramado.
Três meses depois da entrevista inicial, o pessoal da Escola de Medicina da Universidade de Maryland me telefona de novo perguntando se ainda estava interessada no emprego. "Claro!," respondo na mesma hora. Marcamos nova entrevista com a Dra. Baquet, chefe do departamento, no dia seguinte.
Ao entrar na sala, senti exatamente a mesma coisa, uma sensação enorme de auto-confiança. "Mereço este emprego mais do que ninguém. Ninguém vai saber fazer melhor do que eu." Não era algo pedante ou egocêntrico, mas era exatamente como me sentia. E foi exatamente assim que começamos a conversa. Ela também parecia saber que a vaga era minha e já foi perguntando sobre datas, etc.
Não me lembro bem o rumo que a conversa tomou mas quando me dei conta, as palavras já tinham saído da minha boca e meus olhos já estavam marejados. "Sou voluntária da American Cancer Society. Já tirei três tumores do fígado em duas cirurgias. Conheço o câncer bem de perto, de um jeito que jamais pensei possível. Sou a única pessoa que sobreviveu ao câncer de fígado de que tenho notícias. Minha maior vontade é encontrar outros sobreviventes para não me sentir tão só." Os olhos dela se encheram de lágrimas na mesma hora. Dra. Baquet, um dos maiores expoentes na campanha contra o câncer, alguém que milita nesta causa há muitos anos, ficou imóvel por um instante. Então hesitou um pouco e disse: "Também não conheço, mas juntas vamos encontrar. Pode ter certeza, eles estão por aí."
Naquele momento me senti leve. A verdade tinha me libertado. Eu tinha mostrado a minha parte mais vulnerável e ao mesmo tempo tinha me tornado mais forte. Naquela hora ficou claro que ninguém queria aquela vaga mais do que eu. Aquela vaga era minha por direito. O mesmo motivo que me fazia uma "candidata capenga" para tantos outros empregos era a minha maior vantagem agora.
A vida é muito estranha mesmo. Como diz o ditado "O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?" O que seria da Dani se todos os futuros empregadores procurassem por um boletim médico perfeito?
Vive la Différence! Ainda bem que há muita gente por aí disposta a arriscar... E o mais incrível aconteceu: voltei a trabalhar na Unviersidade de Maryland. Voltei a ser funcionária pública com todos os direitos e benefícios. E tudo que eu tinha deixado para trás de um dia para o outro acabou voltando para mim sem muita explicação, totalmente por acaso. Difícil de acreditar. Chega a ser quase um milagre.
June 18, 2008
A Boa nova

Uma coisa inacreditável aconteceu: recebi outra oferta de emprego da Universidade de Maryland. Desta vez no campus de Baltimore, bem mais perto daqui, mais precisamente na Escola de Medicina, e o melhor de tudo: para fazer parte da equipe dos programas de educação e prevenção ao...CÂNCER!
Pois como diz a minha amiga Dani Espejo, agora vou receber salário para fazer o que tenho feito de graça. Estou superfeliz! A gente vai amadurecendo e percebe que as pessoas verdadeiramente felizes são aquelas que fazem o que amam, que usam seu talento em prol de uma causa nobre e justa, o que convenhamos não é nada fácil nos dias de hoje. Então estou me sentindo a mais sortuda dos mortais! E quem diria que todo o meu sofrimento iria se transformar numa coisa boa? Que a minha saúde complicada ia me ajudar a chegar mais perto de um emprego fascinante.
Sou meio cética quanto a tudo, então não quero me encher de muito entusiasmo para não me decepcionar depois, mas estou me sentindo privilegiada de trabalhar com uma das maiores médicas americanas no combate ao câncer. A minha nova chefe tem nada menos do que US$8 milhões em verbas para programas de pesquisa e prevenção ao câncer e é obviamente superengajada na causa. Dra Baquet virou oncologista depois de ter visto a mãe lutar contra um câncer de mama, quando ainda era pequena. O sofrimento da mãe inspirou a vocação da filha.
Eu nunca tive vocação para medicina, por mais que admire os bons médicos e as maravilhosas contribuições da profissão. Durante muito tempo me senti culpada por não poder servir ao meu próximo, mas ultimamente consegui entender que meu talento pode ser usado em prol da mesma causa, mas de outra forma.
Sou comunicativa por natureza, sempre gostei de ler e de escrever. Também gosto muito de falar, de dividir minhas experiências e de aprender com os outros, então acho que este trabalho vai ser ótimo para mim, pois vou atravessar o estado de Maryland justamente divulgando as campanhas educacionais e os recursos acessíveis aos pacientes de câncer. Vou poder ajudar muita gente. Vou acompanhar de perto a mudança das leis no Estado de Maryland (sim, Dra. Baquet é muito atuante em Annapolis e Washington). De certa forma, a minha vida vai ser um eterno Relay for Life, então haja coração.
Confesso que hoje me lembrei das palavras que minha avó Ruth me disse quando me viu desesperada ao saber da segunda cirurgia de fígado, menos de seis meses atrás. "Minha filha, lembre-se de Jó, o homem bom e fiel de quem tudo foi tirado. Ele não se revoltou, mas teve fé e perseverou e Deus lhe deu tudo de volta."
Amém.
January 18, 2008
Colocando Planos em Prática
Hoje, acordei com uma importante missão a cumprir. Preciso ligar para a University of Maryland e colocar meu cargo à disposição. Em teoria foi o que fiz ao descobrir o tumor e a necessidade da cirurgia. Conversei com a minha chefa no dia seguinte e expliquei o acontecido. Disse que não sabia bem quanto tempo precisaria ficar aqui e que entenderia se eles precisassem preencher a minha vaga o mais rápido possível. Ela foi muito amável e compreensiva e disse que não iria tomar nenhuma decisão até que a cirurgia acontecesse.
Achei a atitude muito bonita e confesso que não esperava tanta consideração, tendo em vista que nos EUA não há legislação que protege o empregado num caso destes, pois lá assim como férias, a licença médica é concedida proporcionalmente aos dias trabalhados.
A verdade é que o trabalho não é tão interessante assim, pelo menos não para mim. O foco é muito local e a conexão com a universidade bastante fraca, ao contrário do que eu esperava. Mas o pior de tudo é mesmo a distância, 70 km de ida e mais 70 km de volta, todo santo dia, com ou sem neve. E para quem detesta dirigir como eu este pensamento é aterrorizante.
Meu coração está apertado. Depois de tanto batalhar um trabalho, vou entregá-lo assim de mão beijada. Depois de tantos meses de agonia, vendo a minha conta bancária cada vez mais magrinha, quando finalmente consigo trazê-la de volta a níveis normais, tenho que abrir mão disto? É muito chato. Mas acho que mais chato é me enterrar de vez num emprego que não me satisfaz e ainda exige horas diárias de tortura.
Este período para mim vai ser inesquecível. E o ano de 2007, que começou perfeito, vai ser para mim um ano insuperável, pois como dizia Charles Dickens, foi o melhor dos tempos e foi o pior dos tempos. Num ano que realizei o grande sonho de me unir para sempre à minha alma gêmea, também senti na pele e tive que enfrentar meus maiores temores: a perda mesmo que rápida e momentânea da minha saúde, materializada na forma do tumor, e a perda, mesmo que por escolha, do meu emprego. Eu que tinha sempre vivenciado a minha carreira na mais perfeita ascensão, tive que amargar meses de inércia e incerteza.
Mas o bom disto tudo foi que sobrevivi. E aprendi que com ou sem emprego, saudável ou não, eu continuo a mesma pessoa, cheia de conflitos, cheia de dúvidas, mas cheia de amigos que torcem por mim. E isso deve me bastar.
Então encerro este post ainda tomando coragem para fazer a tal ligação que tenho evitado nos últimos dias, mas deixo aqui uma das minhas passagens preferidas do escritor inglês e imortal Charles Dickens:
It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to heaven, we were all going direct the other way - in short, the period was so far like the present period, that some of its noisiest authorities insisted on its being received, for good or for evil, in the superlative degree of comparison only.
Charles Dickens, A Tale of Two Cities - English novelist (1812 - 1870)
Achei a atitude muito bonita e confesso que não esperava tanta consideração, tendo em vista que nos EUA não há legislação que protege o empregado num caso destes, pois lá assim como férias, a licença médica é concedida proporcionalmente aos dias trabalhados.
A verdade é que o trabalho não é tão interessante assim, pelo menos não para mim. O foco é muito local e a conexão com a universidade bastante fraca, ao contrário do que eu esperava. Mas o pior de tudo é mesmo a distância, 70 km de ida e mais 70 km de volta, todo santo dia, com ou sem neve. E para quem detesta dirigir como eu este pensamento é aterrorizante.
Meu coração está apertado. Depois de tanto batalhar um trabalho, vou entregá-lo assim de mão beijada. Depois de tantos meses de agonia, vendo a minha conta bancária cada vez mais magrinha, quando finalmente consigo trazê-la de volta a níveis normais, tenho que abrir mão disto? É muito chato. Mas acho que mais chato é me enterrar de vez num emprego que não me satisfaz e ainda exige horas diárias de tortura.
Este período para mim vai ser inesquecível. E o ano de 2007, que começou perfeito, vai ser para mim um ano insuperável, pois como dizia Charles Dickens, foi o melhor dos tempos e foi o pior dos tempos. Num ano que realizei o grande sonho de me unir para sempre à minha alma gêmea, também senti na pele e tive que enfrentar meus maiores temores: a perda mesmo que rápida e momentânea da minha saúde, materializada na forma do tumor, e a perda, mesmo que por escolha, do meu emprego. Eu que tinha sempre vivenciado a minha carreira na mais perfeita ascensão, tive que amargar meses de inércia e incerteza.
Mas o bom disto tudo foi que sobrevivi. E aprendi que com ou sem emprego, saudável ou não, eu continuo a mesma pessoa, cheia de conflitos, cheia de dúvidas, mas cheia de amigos que torcem por mim. E isso deve me bastar.
Então encerro este post ainda tomando coragem para fazer a tal ligação que tenho evitado nos últimos dias, mas deixo aqui uma das minhas passagens preferidas do escritor inglês e imortal Charles Dickens:
It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to heaven, we were all going direct the other way - in short, the period was so far like the present period, that some of its noisiest authorities insisted on its being received, for good or for evil, in the superlative degree of comparison only.
Charles Dickens, A Tale of Two Cities - English novelist (1812 - 1870)
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