August 16, 2010

Explicando melhor Honduras…





Muita gente anda me perguntando o que fomos fazer em Honduras, então vou fazer um resuminho básico aqui.

Em abril, comecei a trabalhar para uma organização não-governamental que se dedica a ajuda humanitária e desenvolvimento internacional chamada CHF International. Apesar de pouco conhecida pelo público em geral, a organização tem mais de 50 anos e é a quarta maior receptora de fundos do governo norte-americano, estando presente em quase 30 países, incluindo Iraque, Paquistão, Afeganistão e na América Latina, principalmente na Colômbia, em Hoduras e obviamente no Haiti.

Trabalho no departamento de comunicação e meu foco são as parcerias com a iniciativa privada e comunicação corporativa, principalmente. Como não há sofrimento que dure para sempre, depois de peregrinar e pagar todos os meus pecados trabalhando para pessoas de difícil convívio – para não dizer coisa pior – finalmente consegui um chefe inteligente, competente e humano! E de quebra uma equipe de gente muito bacana. Dizer que a organização não tem seus problemas seria mentira, mas se comparado ao que vi lá fora, isto aqui é o paraíso. Mas voltando ao assunto, nosso departamente é reponsável por toda a estratégia de comunicação de todas as operações no mundo, então este ano quatro países foram escolhidos para uma análise mais detalhada e para um trabalho mais cuidadoso.

Honduras é um caso bem interessante, já que ao contrário de todos os outros países onde operamos, não há dinheiro nenhum oriundo da USAID (Agência Americana para Ajuda Internacional). A liderança conseguiu diversificar os doadores, projetos e tipos de financiamento, tornando-se uma grande história de sucesso. Os programas da CHF em Honduras vão desde projetos de infraestrutura agrícola, até programas de combate à malária e de apoio a pacientes soropositivos, passando por tráfico humano e educação.

Então depois de tudo programado, tivemos doze dias para percorrer o país inteiro e conhecer as pessoas que estão sendo ajudadas pelos nossos programas. Dizer que foi emocionante é pouco. Entrevistei cerca de 60 pessoas, que abriram suas casas e seus corações ao compartilhar conosco suas histórias, de luta, muitas vezes de dor, mas na maioria das vezes de superação e vitória. Conhecemos Wendy, uma jovem mãe de 30 anos que se beneficiou de um dos nossos programas em paceria com a Alcoa. Conseguiu uma bolsa de estudos num instituto politécnico e nós financiamos seu transporte e sua alimentação ao longo dos dois anos de curso. Wendy, que trabalhava nove horas em média numa máquina de costura, hoje é técnica de qualidade, tem um trabalho melhor, salário mensal e benefícios garantidos. Já comprou duas casas: uma para ela e para os filhos e outra, ao lado, para a mãe. Wendy ainda luta com um problema renal da filha de 11 anos, mas não perde a garra e a vontade de crescer.

Conhecemos também Gabriela, que enganada com promessas de dinheiro fácil e rápido, foi levada à Guatemala onde teve que se prostituir para viver. Engravidou, numa das brigas com o dono do estabelecimento, apanhou tanto que foi parar no hospital, onde os médicos, desconfiados, alertaram a polícia e contataram o Ministério Público. Ficou três meses escondida e depois foi enviada a Honduras, onde vive em um abrigo com dois de seus três filhos. Foi uma das entrevistas mais difíceis da minha vida. O olhar dela era puro pavor e antes de dizer qualquer coisa, desabou. Aliás, desabamos, eu e ela. O que dizer a alguém que com tão pouca idade já sofreu tanto? Mas no final, ao mostrar-me sua filha de 21 dias, ela já esboçava um sorriso. Apesar do medo e do trauma enorme, Gabriela quer viver. Quando pergunto a ela o que ela mais deseja, ela diz sem pensar: “Um trabalho, qualquer trabalho, desde que seja de dia.”

Conversamos também com pessoas que vivem com o vírus HIV e que apesar de tantos obstáculos, como pobreza, pouca instrução, poucas alternativas de trabalho, tentam levar a vida da melhor forma possível, criando seus filhos com amor e com carinho, provando que pobreza não é sinônimo de violência ou abuso.

Uma viagem é sempre uma jornada de autoconhecimento, um mergulho dentro de nós mesmos... Todo mundo sabe que sou terminantemente contra favela tours e coisas do tipo, que ao mesmo tempo glamurizam e exploram a miséria alheia. Fico enojada quando escuto comentários do tipo “Vendo como este povo vive, temos que dar graças a Deus por tudo que temos.” Nada me deixa com mais raiva do que este tipo de comentário ao mesmo tempo hipócrita e patético. Acho que a única razão que pode levar alguém a querer ver como vive “a outra metade” é um desejo genuíno de fazer a diferença, de ajudar.

O Blake desde o início embarcou direto na aventura, dizendo que preferia mil vezes passar as férias fazendo algo útil do que sentado de perna para o ar num resort no Caribe... (Quanto a mim, acho que combinaria os dois!) Ele acabou trabalhando tanto quanto eu e sendo o fotógrafo oficial da organização, para minha sorte.

O que vi em Honduras foram pessoas absolutamente normais, muitas vivendo sob circustâncias absolutamente cruéis, mas todas, sem exceção, gratas por cada um dos programas que a organização desenvolve em suas comunidades. Senti também que muitas delas tinham um carinho especial por mim, só por estar ali, perguntando e ouvindo um pouquinho da realidade delas. O que elas mal sabem é que quem tem que agradecer sou eu, por ter tido o privilégio de conhecer uma realidade tão diferente da minha e de certa forma poder ter feito parte dela por alguns dias.

7 comments:

Liège said...

Dani, parabéns por esse trabalho tão bonito!
É muito agradável e gratificante ter um bom ambiente de trabalho.
E fazer algo pelo bem de outras pessoas consiste em uma tarefa grandiosa por seu valor humano!
Não raras vezes, a maior carência é a de afeto, de alguém que se interesse, que escute e leve atenção e carinho àquelas pessoas. Mas, como você mesma disse, quem dá também recebe e aprende muito.
Beijos.

Mi said...

Q otimo fazer um trabalho tao gratificante! E gracas a Deus q mudou para melhor a qualidade de pessoas com quem estas trabalhando, ninguem merece so trabalhar com figurinhas chatas/incompetentes, etc. Bjos!!!

Ana said...

Dani, que trabaho bonito e eles tem sorte em ter alguém como você que tem empatia pra entender o sofrimento alheio. Que outras jornadas bonitas como essa venham pela frente. Beijos.

Dani said...

Meninas,
Obrigada pelo carinho... Foi uma viagem bem bacana mesmo!
Bjs

Daniele said...

Seria otimo se todos, pelo menos uma vez na vida, tivessem uma experiencia assim como a sua viagem.
Ah uma pergunta, como vc fez com o quesito malaria??? Pois vc nao pode tomar os tabletes neh?? Entao como vc esta se prevenindo?

Dani said...

Como só passamos dois dias na área de epidemia, usei Off e me tranquei no quarto com mosquiteiros das seis da tarde às sete da manhã. Paguei extra pelo ventilador para que pudesse funcionar a noite toda!
Bjs

Dani said...

Como só passamos dois dias na área de epidemia, usei Off e me tranquei no quarto com mosquiteiros das seis da tarde às sete da manhã. Paguei extra pelo ventilador para que pudesse funcionar a noite toda!
Bjs