July 23, 2008
January 30, 2008
Os Pais
Ontem mostrei para os meus pais a figura detalhada da cirurgia, esta que está aí no post abaixo. Achei que era uma forma clara de entender o procedimento e compartilhar esta informação com amigos mais curiosos. Pensei também que meus pais fossem achar interessante, afinal não era o MEU fígado, e nem fígado era, mas o desenho de um fígado qualquer ilustrando um procedimento técnico.
Estava redondamente enganada. Chamei os dois para frente do computador, eles olharam rapidamente o monitor e fizeram a mesma pergunta: "Para quê?" Minha mãe ainda deve ter dito algo como, "Deixa pra lá, já passou. Esquece." Insisti dizendo que não se tratava de nada pessoal, mas satisfazia a minha curiosidade sobre a cirurgia. Mostrei para eles o lobo direito, que no meu caso foi embora, as duas veias que me restaram (a cava, sem ela estaria morta, e a média, que quase se foi, mas em cima da hora os médicos decidiram não sacrificá-la) e o provável arranjo que os cirurgiões devem ter feito no meu fígado, que chamo de "puxadinho". Explico: Normalmente, estas duas veias atravessam o lobo direito do fígado, mas na inexistência deste, como no meu caso, creio que algum arranjo especial deve ser feito.
Toda vez que meu pai me escuta falando isso, sua fisionomia muda visivelmente. Ele odeia pensar que a filha, criada com tanto carinho, não é mais "perfeita", pelo menos fisicamente. Toda vez que olha para minha cicatriz diz: "Daqui a pouco a gente faz outra plástica." Repararam no "a gente"??? Coisa de louco, né? Afinal a barriga é minha e para dizer a verdade a cicatriz não me importa nada, nada. Sempre quis ser diferente, então parece que Deus ouviu as minhas preces. Quantas pessoas vocês conhecem que têm a estrela de três pontas da Mercedes talhada na barriga? Pois é! E é da Mercedes! Não é pra qualquer um não... Será que se mandar a minha foto pra eles, levo um carro?
Quando conversamos sobre este assunto chego mesmo a pensar que isto tudo dói mais nos meus pais do que em mim. Sim, a dor física é intransferível, mas a psicológica é perfeitamente compartilhável. Lembro que da primeira vez, mesmo depois do laudo médico que dizia claramente "hepatocarcinomal fibrolamelar" e não deixava margem para dúvidas, meus pais diziam que aquilo não tinha sido câncer, mas sim "umas celulazinhas ruins" que tinham aparecido. E toda vez que os corrigia -- sim, pois parte da minha estratégia sempre foi encarar os fatos de frente, dando nome aos bois -- eles se desesperavam. A palavra "câncer" simplesmente não fazia parte do vocabulário deles, pelo menos no meu caso.
Mas o tempo vai passando e abrandando todos os sentimentos. Aos poucos conseguíamos falar na experiência, mas nunca entrávamos em detalhe, pois para eles sempre foi dolorido demais. Não sou mãe (ou pai!), então não consigo mensurar bem a dimensão dos sentimentos deles, mas acho que por mais absurdo que possa parecer de vez em quando existe um sentimento de culpa, ou pelo menos um questionamento, "por que isto aconteceu justo com a nossa filha, que é tão jovem e saudável?" É como se sua obra-prima de repente começasse a ser devorada por cupins!
Tenho muita pena dos meus pais, pois imagino o quanto eles vem sofrendo comigo. Posso dizer que sou responsável por 90% dos cabelos brancos do meu pai, pois ele quase não tinha em 2002, até a minha cirurgia, e este mês notamos mais alguns na cabeça do coitado. Da minha mãe, não vou saber nunca, pois ela tem cabelo pintado, mas diz que tem uma mecha totalmente branca que surgiu depois da primeira cirurgia.
Na primeira cirurgia, fiquei quase um mês internada e mais um mês e meio em casa, entre consultas médicas, exames invasivos e quimioterapia por embolização, que envolvia centro de hemodinâmica, anestesia e internação. Pois é, fácil não foi. Mas meus pais estiveram sempre lá, uns dias mais fortes, outros dias mais frágeis, mas sempre dedicados e munidos de muita fé.
Mês passado, após ouvir o diagnóstico na sala de ultrassom, corri direto aos prantos para o meu pai, que estava na sala de espera e não conseguiu conter a emoção também. Ele só dizia: "Tudo vai ficar bem, querida. Tudo vai ficar bem." Mas eu sabia que ele também não tinha esta certeza. Naquela hora certezas simplesmente não existiam. Foi um pouco diferente da cena de 2002, quando saí da mesma sala escura em transe e encontrei a minha mãe na mesma sala de espera. Tumor no fígado? Isto existe mesmo? Cirurgia? Como assim? Era tudo tão novo para nós que o medo vinha em ondas, ao passo que íamos descobrindo mais detalhes da minha condição. Em 2007 foi diferente, fomos atingidos de uma vez só, de frente!
E daquele momento em diante as notícias começavam a chegar, truncadas como sempre. De início os médicos disseram ao meu pai que o tumor tinha uns três centímetros. Horas depois ele tinha por volta de cinco. Quando o exame finalmente chegou às minhas mãos, ele tinha sete!!!! Isso me dava um desespero enorme.
Vale a pena dizer que meu pai tem esta mania de "filtrar" as informações ou selecionar as partes da informação que ele quer que cheguem até mim. (Ele só quer me proteger, pois pensa que já sofri muito.) Mas quando finalmente descobri o tamanho real, me desesperei, pelo tamanho e pela sonegação de informações. Gritei muito com o meu pai que, coitado, estava mais abalado do que eu. Perguntei a ele e a minha mãe se eles tinhas esquecido das lições que aprendemos em 2002. Mas vi ali mesmo, na sala de espera do médico, que eles só queriam me poupar e assim sofrer um pouco menos. Como poderia culpá-los?
O tempo, que abranda os sentimentos, também tem seus efeitos nas pessoas e era inegável que meus pais estavam cinco anos mais velhos, cinco anos mais cansados, cinco anos mais frágeis. Mas isto só foi ficando óbvio para mim aos poucos e hoje, mesmo encarando a minha situação de frente, escolho as minhas palavras ao abordar o assunto com eles. Talvez seja melhor deixar o assunto morrer de vez, pelo menos com eles. A minha aparência é ótima e mesmo os médicos dizem que é difícil acreditar que passei por uma delicada cirurgia. E é isso que meus pais precisam saber, que está tudo bem.
As minhas investigações e questionamentos vão continuar, mas vou poupá-los das minhas descobertas, que afinal só dizem respeito a mim. Eles, apesar de bem jovens e saudáveis, já não têm mais o mesmo vigor de alguns anos e merecem um pouquinho de paz. Já sofreram bastante comigo nestes últimos anos. Para nossa sorte porém, de acordo com os médicos, o pesadelo acabou, pois estou curada. Parece mesmo que esta história vai ter um final feliz.
January 20, 2008
O Fígado

Em algumas espécies animais o metabolismo alcança a atividade máxima logo depois da alimentação; isto lhes diminui a capacidade de reação a estímulos externos. Noutras espécies, o controle metabólico é estacionário, sem diminuição desta reação. A diferença é determinada pelo fígado e sua função reguladora, órgão básico da coordenação fisiológica.
Entre algumas das funções do fígado, podemos citar:
destruição das hemácias
emulsificação de gorduras no processo digestivo, através da secreção da bile
armazenamento e liberação de glicose
síntese de proteínas do plasma
produção de precursores das plaquetas
conversão de amônia em uréia
purificação quanto a diversas toxinas
Além das funções citadas acima, este órgão efetua aproximadamente 220 funções diferentes todas interligadas e co-relacionandas. Para o entendimento do funcionamento dinâmico e complexo do fígado, podemos dizer que uma das suas principais atividades é a formação e excreção da bile, ou bílis; as células hepáticas produzem em torno de 1,5 l por dia, descarregando-a através do ducto hepático. A transformação de glicose em glicogênio, este conhecido como amido animal, e seu armazenamento, se dá nas células hepáticas. Ligada a este processo, há a regulação e a organização de proteínas e gorduras em estruturas químicas utilizáveis pelo organismo da concentração dos aminoácidos no sangue, que resulta na conversão de glicose, esta utilizada pelo organismo no seu metabolismo. Neste mesmo processo, o sub-produto resulta em uréia, eliminada pelo rim. Além disso, paralelamente existe a elaboração da seroalbumina, da seroglobulina e do fibrinogênio, isto tudo ao mesmo tempo em que ocorre a desintegração dos glóbulos vermelhos. Durante este processo, também age em diversos outros, tudo simultaneamente, destruindo, reprocessando e reconstruindo, como se fossem vários órgãos independentes, por exemplo, enquanto destrói as hemácias, o fígado forma o sangue no embrião; a heparina; a vitamina A a partir do caroteno, entre outros.
O fígado, além de produzir em seus processos diversos elementos vitais, ainda age como um depósito, armazenando água, ferro, cobre e as vitaminas A, vitamina D e complexo B. Durante o seu funcionamento produz calor, participando da regulação do volume sanguíneo; tem ação antitóxica importante, processando e eliminando os elementos nocivos de bebidas alcoólicas, café, barbitúricos, gorduras entre outros. Além disso, tem um papel vital no processo de absorção de alimentos. Espiritualmente se diz que no figado armazenamos a raiva.
Este resumo retirado da Wikipedia explica bem a importância deste órgão mais do que vital. O meu continua lá, com as cicatrizes das batalhas, muitos pontos, muitos grampinhos, a veia cava também mexida, mas firme e forte...todo mundo trabalhando pesado para me manter mais viva do que nunca.
Se o fígado normal é parecido com estas ilustrações que coloquei acima, o meu é um pouquinho, para não dizer totalmente, diferente. Ele é só o lado esquerdo, só que gigante. O tamanho deve estar praticamente normal, mas ele é só um grande lobo esquerdo hipertrofiado, costurado, grampeado, com umas veias meio puxadinhas, mas continua lá. Incrível pensar neste arranjo... Quando olho a cicatriz da Mercedes, ainda fresquinha na minha barriga, às vezes penso que tudo que passei está resumido ali, em forma da famosa estrela de três pontas. Ledo engano... A Mercedes é só enfeite do presente que está bem guardadinho aqui dentro da minha barriga.
January 19, 2008
Imagens
Depois do disclaimer acima, sigo em frente. Agora, todo mundo já sabe que este post é para quem tem estômago forte, curiosidade excessiva ou espírito mórbido.
Ontem, pela primeira, vez vi as fotos da cirurgia e revi as fotos do tumor, esta massa doente e silenciosa que habitava meu fígado há tempos...
Pensei se deveria ou não postar as fotos aqui, pois são bem fortes, mas como na minha vida sempre prefiro encarar tudo de frente, isso não seria diferente. E desta forma mostro-me por inteiro, não só despida, mas mostro também as minhas entranhas. Eu, que sempre fui reservada, aos poucos começo a, literalmente, me conhecer melhor, me enxergar de forma diferente, me ver por outros ângulos. E acho que de uma vez por todas entendo que realmente não vim a este mundo a passeio...
Olhando estas imagens dá para ter uma idéia melhor da pauleira que foi esta cirurgia e de quão fundo fui tocada, furada e remexida. Não dá pra passar por uma experiência destas e não repensar a vida. Não dá para ter um troço destes retirado de dentro da gente e não se perguntar o que mais precisa sair. Não dá para olhar para tudo o que passei e me perguntar o que devo tirar desta experiência tão intensa. Como dizem os americanos, some food for thought...
Acima, a parte do fígado que foi ressecada. O tumor é só uma parte dela, a área mais arredondada. Os médicos operaram com uma margem bem generosa. O tumor tinha uns 6 ou 7 cm de diâmetro e os médicos tiraram quase 13 cm, ou 40% do meu fígado.
Mãos milagrosas cortam, recortam e costuram meu fígado de ouro.
Coisa de filme, não? Pois é, devo ter levado uns 2000 pontos!
January 11, 2008
A Hora Mais Difícil
Tenho gravados na minha memória muitos momentos marcantes, desde a reação da Dra. Alice Moll, ao ver um tumor gigante no meu fígado, até as palavras do maqueiro que me levou ao centro cirúrgico para a grande batalha. Tudo como se fosse um filme. E agora as cenas se misturam ao c apítulo mais recente: a mesma médica, o mesmo hospital, a mesma sala fria e escura, e o pior, o mesmo diagnóstico.
Considero o primeiro diagnóstico como uma espécie de "perda da inocência". No auge dos meus vinte e tantos anos a idéia de morte ou mesmo de doença jamais havia passado pela minha cabeça. Sei que algumas famílias sempre têm aquele irmão/filho/primo/tio doente que passa longas temporadas internado, mas na minha simplesmente não há, ou o povo morre velhinho ou morre de acidente. Antes de tudo isso começar só tinha dormido no hospital uma vez, quando a minha irmã tinha sofrido um acidente de carro e precisou ficar em observação. Nem sangue vi.
Então aquilo tudo me parecia surreal. Um dia você está ótima, no outro tem um tumor no fígado que precisa ser retirado urgentemente e no outro está lutando pela vida no leito de um CTI. Como aquilo tinha acontecido comigo? As notícias só pioravam: a cirurgia tinha sido quase impossível, as complicações se multiplicavam e o diagnóstico cada vez mais complexo. Parecia um interminável filme de terror. Mas se alguma lição ficou comigo é de que tudo acaba; todo o sofrimento tem fim. Foi aí que aprendi a rezar assim pedindo apenas que o dia de amanhã seja melhor que o dia de hoje e que Deus aumente a minha fé e a minha força para que eu possa encarar os desafios que se apresentam diante de mim.
Mas justo quando achava que já tinha aprendido e processado todas as tais lições, um outro terremoto se abateu sobre mim. De novo eu ali, deitada na sala de ultrassom, passados mais de cinco anos, mas aquela expressão no rosto da Dra. Alice era inconfundível. Conversávamos animadamente quando de repente um silêncio tomou conta da sala escura. Olhei para ela, que olhava para a tela incrédula. Não podia ser. Tudo de novo?! Não!
Mas era. Ela tinha visto a tal massa no lobo direito do meu fígado, onde tudo tinha começado. Eu implorava para que ela olhasse mais uma vez, para que encontrasse algum engano ou para que tudo aquilo não passasse de um sonho ruim. Mas era a verdade e eu sabia exatamente o caminho a trilhar. Isso era o pior.
Implorei a ela que me dissesse que o caso não era cirúrgico, mas obviamente nós duas sabíamos bem do que se tratava e da estrada que eu tinha pela frente. Saí da sala aos prantos. Na sala de espera vi meu pai que imediatamente percebeu que havia algo de muito errado. Me sentia no meio de um terremoto, via o chão se abrir sob meus pés mas não tinha para onde fugir. Me desesperei e revivi o momento mais assustador da minha vida.
Então tudo acontece como num filme onde sou um misto de espectadora e protagonista. Pareço viver um transe. Saio da sala de espera e me encaminho para a sala de ressonância magnética. Troco as minhas roupas pelo pijama cinza e sento para esperar minha sentença. Num instante surge a enfermeira com a tão temida agulha para a prova de contraste. A minha veia se esconde, como sempre, mas finalmente é puncionada. Sento na cadeira com a veia espetada aguardando o chamado. Olho meu pai sentado no final do corredor, arrasado. Só quero chorar, mas não posso, ainda não. Entro na outra sala escura, deito na maca, entro tubo a dentro. Nem os fones abafam os sons metálicos, uma voz robótica me passa as instruções: "respire fundo, prenda a respiração, expire." Por trinta minutos faço o que me pedem. Rezo e seguro as minhas lágrimas. Saio do tubo, ciente da minha condição, volto para a cabine, troco de roupa e espero o juízo final.
Os médicos evitam me dar detalhes, mas a tal massa está la, não restam dúvidas. Eles se encarregam de entrar em contato com os médicos que me acompanham. Ainda me pergunto se tudo aquilo é real. Peço para que Deus me tire dali imediatamente, mas então penso que se trata de mais uma provação que devo enfrentar.
Ao sair do hospital, resolvo ir à capela, a mesma que fui naquele dia ensolarado de outubro de 2002. Esta tarde de dezembro é assustadoramente semelhante: quente e linda; tudo parece tão normal a minha volta. Olho no rosto de São Francisco, o mesmo santo padroeiro da igreja onde tinha me casado há menos de um ano, vejo a imagem de São José e peço ao Cristo na cruz mais força e fé. Sei que a caminhada será árdua e vou precisar de ajuda.
Aquela viagem de carro foi a mais longa de toda a minha vida. Se na primeira vez, tudo era nebuloso e as dúvidas muitas, desta vez, tudo me parecia muito escuro e algumas respostas eu já tinha, por mais duras que elas pudessem ser.
Enfim falo com a secretária do meu médico que me agenda para o dia seguinte. Será que vou poder esperar? Chego a casa dos meus pais destruída, suada, com o choro engasgado na garganta. Olho nos olhos assustados do meu marido, não consigo me conter. Choramos abraçados. Nosso pior medo ali de frente para nós.
Chorei muitas e muitas vezes, com meus pais, meus irmãos, meus avós, meus amigos e com os médicos, que neste momento mostravam seu lado mais humano. Chorei todas as noites durante semanas até que um dia resolvi que aquilo também tinha que acabar. Pedi a Deus que falasse comigo e apesar de não ter conseguido ouvir nenhum som, percebi que uma uma força poderosa havia me trazido uma sensação de paz. Entendi que minhas preces tinham sido atendidas naquele momento.
Dali para frente algo mudou fundamentalmente em mim. Onde só havia dúvidas já reinava uma tranquilidade soberana. O medo que tinha me engolido havia dias, aos poucos dava uma trégua e eu sentia que estava cada vez mais forte e cada vez mais pronta para encarar o meu algoz. Por incrível que pareça, há uma sensação de paz quando nos vemos face a face com nossos maiores temores, deve ser nosso instinto de sobrevivência que se manifesta nestas horas e sabemos que só nos resta lutar.
January 3, 2008
O Medo
Mas a lição que ficou é a mais simples possível: na vida tudo passa e nestas horas a gente acha forças que nunca imaginava ter. E é aí que chego à minha parte favorita: superação. Acho a capacidade de superação uma das coisas mais emocionantes no ser humano. Não consigo conter minhas lágrimas quando ouço uma história dessas. (Inclusive há algumas neste blog.) Quando ninguém esperava mais nada, eis que o sujeito renasce como uma fênix e vence a corrida. Quando tudo parecia perdido, os amigos dão um jeito e levam um menino doente para uma road trip e atravessa os EUA num trailer adaptado. Quando os médicos já não têm mais soluções parar a menina, ela resolve encarar o câncer de frente, inventa uma dieta doida, larga o emprego, escreve dois livros de sucesso e aparece na Oprah!
Só de escrever estas linhas meus olhos se enchem de lágrimas e aí até me lembro o motivo que me levou a querer ser jornalista desde pequena. Também entendo perfeitamente o que me fez desistir (ao menos temporariamente) da profissão: não quero contar as histórias aterrorizantes do dia a dia, não quero escrever sobre o "cachorro que morde o homem", não quero ficar presa a enredos sensacionalistas que vendem jornal. Quero escrever sobre o que faz o homem diferente dos outros animais irracionais; quero escrever sobre gente que serve de exemplo e inspiração para os outros, sobre gente que supera limites, gente que se supera. Não quero contar histórias de corrupção e covardia, mas quero falar de amor e coragem.
Acho que deveria tomar para mim o conselho que Pablo Neruda deu a Isabel Allende depois de uma entrevista. Ele disse a ela que repórter que quer ser muito criativo não deveria ser repórter e sim escritor. Não me lembro muito bem das palavras exatas (li o Livro Paula, em que ela relata esta cena há muitos anos), mas o sentido é esse. Acho que também serve para mim, a repórter que se recusa a falar do "mundo cão" e que obviamente não se encaixa muito na maioria da mídia sensacionalista de hoje.
Mas o objetivo de hoje não era falar de mídia e sim de coragem. Como sempre digo que vejo mensagens em todo lugar, outro dia na igreja que a família do Blake freqüenta, o pastor mostrou trechos do filme Evan Almighty, não sei o título em português, mas é estrelado por Steve Carell (do The Office) e Morgan Freeman e é uma história moderna da Arca de Noé.
E num dos diálogos entre os personagens principais, Deus (Freeman) explica que quando as pessoas pedem a Deus coragem, acham que no dia seguinte vão acordar sentindo-se fortes como super-heróis e quando isso não acontece, elas se decepcionam, mas não é assim que as coisas funcionam. Quando elas pedem coragem, Deus lhes dá uma oportunidade para que elas descubram a coragem dentro de si mesmas. Quando pedem amor, o mesmo acontece, elas descobrem um sentimento que sequer imaginavam ter. E assim é como todos os pedidos.
Eu sempre pedi que Deus fortalecesse a minha fé e me desse mais coragem. Agora tenho a oportunidade perfeita para mostrá-las. Amanhã vai ser o primeiro dia do resto da minha vida. Um dia de muita fé e de muita coragem. Tenho certeza que Deus vai estar do meu lado como está agora e o pensamento positivo e as orações dos amigos vão me fazer sair daquele hospital caminhando rapidinho!
Então me despeço aqui agradecendo a todos os meus amigos, reais e virtuais, por todo o carinho recebido (esta é a parte linda da dificuldade: a gente se sente muito amada!) e pedindo para que continuem a corrente cada vez mais forte.
Beijos e até breve!


