August 9, 2008

De volta


Estou de volta finalmente e cheia de novidades para contar. Na verdade não são tantas novidades assim, mas tenho muito, muito o que colocar para fora. Justo na semana das minhas merecidas férias com o Blake, recebo a notícia da prisão do meu médico e amigo Dr. Joaquim Ribeiro Filho, vítima de gente ardilosa e de mentes perigosas e mesquinhas que manipulam a opinião pública de forma irresponsável e impressionante.

Como o acesso à internet era quase inexistente no navio, fui tomada por uma enorme sensação de impotência. Não que eu achasse que as minhas palavras tivessem o poder de solucionar ou sequer ajudar de alguma forma a equipe médica que salvou a minha vida mais de uma vez, mas a idéia de ficar calada perante uma situação tão absurda quase me enlouqueceu. Me senti amordaçada, presa e completamente impotente.

Amanhã posto com mais calma. Quem conhece a minha história sabe o quanto eu devo ao Dr. Joaquim Ribeiro Filho, médico excepcional e das melhores pessoas que já cruzaram o meu caminho. Devo a minha a vida a ele, aos jovens médicos Eduardo Fernandes e Samanta Basto e ao Dr. João Ricardo, que estiveram sempre ao meu lado, nos piores e nos melhores momentos da minha vida. Estes mesmos médicos que o MP acusa de peculato. Nunca vi coisa mais louca!

Esta investigação de araque não é de hoje, conheço esta história desde o início e vou contar para vocês tudo que sei. A verdade precisa ser dita e os justos não podem calar. Neste imbroglio surreal os grande prjudicados não são os pacientes ricos que podem arcar com custos da cirurgia ou do transplante em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, mas sim os menos favorecidos que contavam com o talento e bondade do Dr. Joaquim para sobreviver. Este mesmo médico acusado de "vender órgãos" (expressão igualmente absurda) atendia e operava muita gente de graça, mas isto não rende pauta para a mídia medíocre e sensacionalista.

Fico feliz de saber que o Dr. Joaquim foi colocado em liberdade, mas confesso que muito me preocupa o fato de ele estar impossibilitado de exercer sua profissão, de salvar vidas! Vidas como a minha e tantas outras que foram salvas pelas mãos firmes e pela competência de um dos melhores cirurgiões do mundo. Tive sorte de ter ficado doente no início do ano, muita sorte. Mas ainda assim fico indignada de pensar naqueles que não tiveram a mesma sorte que eu. Só no Brasil alguém é impedido de salvar vidas. Só no Brasil.

Mas como sei muito mais do que a maioria das pessoas que insistem em fazer comentários mentirosos nos sites dos grandes jornais, não posso ficar calada, pois conheço a verdade. Não posso permitir o linchamento moral da equipe que por duas vezes salvou a minha vida.

Fico triste de ver uma polícia política no Brasil. Também morro de medo e percebo que capítulos tristes da história humana teimam em se repetir. A situação atual é no mínimo perturbadora e por isto uma citação que vi há tempos no Museu do Holocausto me veio à cabeça:

"In Germany, they came first for the communists, and I didn't speak up because I wasn't a communist. Then they came for the Jews, and I didn't speak up because I wasn't a Jew. Then they came for the trade unionists but I didn't speak up because I was not a trade unionist. Then they came for the Catholics, and I didn't speak up because I was a Protestant. Then they came for me, and by that time nobody was left to speak up."

Martin Niemoeller, Dachau, 1944


Na minha tradução livre:

"Na Alemanha, eles vieram primeiro atrás dos comunistas, e eu não me manifestei porque eu não era comunista. Então eles vieram atrás dos judeus, e eu não me manifestei porque eu não era judeu. Depois eles vieram atrás dos sindicalistas, e eu não me manifestei porque eu não era sindicalista. Então eles vieram atrás dos católicos, e eu não me manifestei porque eu era protestante. Então vieram atrás de mim, e a esta hora não havia mais ninguém para se manifestar."


Martin Niemoeller, Dachau (campo de concentração próximo a Munique), 1944

August 8, 2008

ALERTA URGENTE - SOLIDARIEDADE AO DR JOAQUIM RIBEIRO FILHO

Ainda bem que tem gente indignada no Brasil!

Abaixo o Macartismo as avessas!

Carta de apoio:

O GRUPO TORTURA NUNCA MAIS/RJ vem a público denunciar a truculência do Estado brasileiro contra o cirurgião Joaquim Ribeiro Filho, chefe da equipe de transplantes do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição de referência internacional em transplantes de fígado. Acusado pelo Ministério Público de desrespeitar a fila dos transplantes no Rio de Janeiro, Joaquim Ribeiro Filho foi preso no último dia 30 de julho, pela Polícia Federal, que protagonizou um lamentável espetáculo midiático, para o qual a imprensa brasileira foi convocada a acompanhar e registrar, iniciando campanha difamatória, destinada a transformar uma acusação em condenação, pelo tribunal da opinião pública.
Condenado a priori pela operação policial, denominada "Operação Fura-Fila", o médico pioneiro na realização de transplantes de fígado no Rio de Janeiro, doutor pela Universidade de Paris, foi mantido preso e incomunicável por oito dias no presídio Bangu 8, sob a alegação de que poderia prejudicar as investigações, quando, na verdade, tenha manifestado, todo o tempo, por meio de seus advogados, a disposição de colaborar com as investigações em curso, respondendo às acusações que pesam sobre ele.
O GRUPO TORTURA NUNCA MAIS/RJ repudia esta demonstração de flagrante arbítrio e desrespeito à honra e à dignidade do Dr. Joaquim Ribeiro Filho, a quem hipoteca inequívoca solidariedade. Sua prisão ocasionou o desmonte repentino do serviço de transplantes no Hospital Clementino Fraga, onde centenas de pacientes esperam por uma chance de vida. O expediente da prisão preventiva contra o Dr. Joaquim Ribeiro Filho fortalece e banaliza um modelo de Estado penal e punitivo, no qual o libelo acusatório da imprensa substitui o processo e as garantias de defesa, os direitos humanos são ignorados e as práticas repressivas de exceção são naturalizadas. Solicitamos que este alerta seja amplamente divulgado e que mensagens de apoio sejam enviadas para o blog:
http://transplantevida.blogspot.com/

PELA VIDA PELA PAZ TORTURA NUNCA MAIS!
www.torturanuncamais-rj.org.br/
Rio de Janeiro, 06 de agosto de 2008

August 4, 2008

Injusto

Acompanhando de longe a saga do Dr. Joaquim, me revolto. Como pode algo assim acontecer em pleno seculo XXI?! Tenho vergonha de um país que vive na era do macartismo e se julga democrático. Como prendem alguém sem provas e usam de forma irresponsável pessoas humildes e ignorantes como massa de manobra?

Estou chocada e entristecida. Sinto pelo Dr. Joaquim, por sua família e por seus amigos. Mas sinto mais, muito mais por pacientes inocentes que perdem tempo valioso e que por questões absurdas não vão ter acesso aos cuidados e a competência do maior cirurgião hepático do Rio de Janeiro.

Hoje houve missa em apoio ao Dr Joaquim Ribeiro Filho. Eu, de longe, não pude participar, mas deixo aqui todo meu apoio a quem me devolveu a vida.

Em apoio ao Dr. Joaquim.

July 31, 2008

Trilha Sonora

Por motivos óbvios esta música não me sai da cabeça...



Para quem não se lembra da letra:

Que País é esse?

Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No amazonas, no araguaia iá, iá,
Na baixada fluminense
Mato grosso, minas gerais e no
Nordeste tudo em paz
Na morte o meu descanso, mas o
Sangue anda solto
Manchando os papéis e documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo, se for
Piada no exterior
Mas o brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Tristeza e protesto



A foto, que passou grande parte do dia de ontem na página de abertura do Globo Online choca. Choca, revolta e machuca demais. A que ponto chegamos? A que ponto a politicagem tomou conta do meu país? Será mesmo que ele ainda é meu? Às vezes é difícil acreditar que em pleno século XXI a Inquisição ainda existe. Não a religiosa, mas a política.

Logo depois de chegar aos EUA e ser recebida pelo Blake no aeroporto, recebi um telefonema do Brasil que me pareceu surreal. Minha irmã e minha mãe estavam nervosíssimas ao telefone me dizendo que o médico que salvou minha vida duas vezes tinha sido preso naquela manhã.

Por alguns instantes fiquei paralisada e incrédula, só podia ser um triste engano. Como podem prender um dos maiores cirurgiões hepáticos do mundo assim do nada? Usando provas mais que capengas e acusações injustas e sórdidas? Não é possível! Como podem invadir a casa de um indivíduo a quem muitos outros (eu inclusive) devem a vida e escoltá-lo como se fosse um marginal?

O pior de tudo é ler a matéria publicada no Globo: exemplo de jornalismo da pior qualidade, altamente tendenciosa, sem nenhuma apuração decente ou original. É nestas horas que me dá vergonha de ser jornalista. O que mais me revolta é ver os comentários dos leitores que desconhecem a verdade, mas baseados numa reportagem mal feita (pois o dever do jornalista é manter a imparcialidade e ouvir os dois lados, conceito que os repórteres do Globo desconhecem) tecem os comentários mais esdrúxulos e absurdos. A mídia é mesmo poderosa e quanta gente é usada como massa de manobra, vítima da própria ignorância e de enorme arrogância. Incrível como todo mundo acha que pode falar de tudo, sem ter conhecimento ou provas.

Mal dormi esta noite ao imaginar o Dr. Joaquim, um cirurgião cujo trabalho é respeitado mundialmente, e uma pessoa extremamente idealista, preso ao lado de verdadeiros criminosos. Sinto muito por ele, que é inocente, e por sua família, mais inocente ainda, mas sinto muito mais pelos pacientes que aguardam desesperadamente por uma cirurgia hepática, sua única chance de permanecer vivos.

Se para o Dr. Joaquim e sua família o consolo é que a justiça tarda mais não falha (mesmo que esta justiça seja a justiça divina), para os pacientes hepáticos o tempo é um luxo ao qual eles não têm direito. Os pacientes que esperam uma cirurgia hepática ou um transplante de fígado não podem esperar que tudo seja esclarecido. Eles não têm tempo, pois estão MORRENDO um pouco a cada dia. Eles precisam de atendimento hoje!

Quem é o verdadeiro criminoso aqui, o Dr. Joaquim, contra quem não existem provas convincentes, ou a mídia e a Polícia Federal, que invadem a casa de um cidadão de bem, devassam sua vida e o jogam na cadeia e lincham sua reputação enquanto seus pacientes aguardam desesperados por uma cirurgia que poderá salvar suas vidas? Quem será o culpado por estas mortes? Todos sabemos que negligência também é crime, então o que a PF vai dizer à família de um destes pacientes cujas vidas dependem de uma cirurgia complexa que poucos podem realizar quando não houver mais tempo? Alguém já pensou nisso?

Será que estes repórteres inescrupulosos e esta polícia política dormiram esta noite? Será que vão dormir para o resto de suas vidas? Eu não consegui, só de pensar que tem gente que conheço e gosto aguardando que o Dr. Joaquim seja solto e que consiga realizar uma cirurgia.

Estou triste, muito triste.

July 28, 2008

Fazendo as malas

Hojé é meu último dia inteiro no Rio. Volto para os EUA amanhã à noite. Estou morta de saudade do Blake mas já com coração apertado por deixar a família, os amigos e o Rio. Como dizia o genial e carioca Tom Jobim, "morar no exterior é bom mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda mas é bom." É exatamente assim que me sinto. Meio lá, meio cá. Sempre dividida, mas tudo bem, não se pode ter tudo sempre no mesmo lugar. Sei disso.

Estou superanimada com os contatos que fiz aqui, com as oportunidades que estão aparecendo e com o trabalho que me espera por lá. Cada vez fico mais certa que meu lugar é ao lado de quem precisa e não tem força ou meios para ter acesso à saúde. Sempre fui frustrada por não ter nascido com vocação para medicina, mas aos poucos descubro que tenho outras vocações e talentos, entre elas uma boca enorme e uma língua mais que afiada.

Aproveito e peço para vocês rezarem pela Thalita, que aguarda por uma solução para o seu problema, e que tem muitas decisões importantes a tomar em muito pouco tempo. Que Deus dê a ela fé e coragem, que foram exatamente as duas coisas que pedi que Ele me desse quando atravessei situação parecida. Pedi e fui atendida. A Thalita também será.

July 26, 2008

O inevitável aconteceu - Randy Pausch partiu




Como o Zé disse em seu comentário, o inevitável aconteceu e Randy Pausch faleceu ontem pela manhã. Confesso que nas últimas semanas a cada dia que acessava o blog do professor o fazia com o coração apertado, com medo das notícias. No último mês, seus posts foram se tornando mais escassos e tudo levava a crer que o estado de saúde do professor que todos aprendemos a amar piorava rapidamente.

Ontem, na casa da minha irmã Andressa, abrimos o computador para mostrar meu blog para um amigo que tinha ido visitar a Chiara e na página principal vimos a chamada que ninguém queria ler: Morre o professor da última palestra. Nós duas nos olhamos. "Que pena," dissemos ao mesmo tempo antes de ficarmos em silêncio por alguns segundos. Era como se ali tivéssemos perdido um grande amigo de anos. Pouco depois o Blake me ligou para dar a notícia. Sabia que eu ia ficar emocionada. Disse que a cobertura na imprensa americana foi nonstop.

Grande perda. Perda para todos nós que aprendemos tanto com ele em tão pouco tempo. Perda para seus alunos que tiveram a sorte de ter um mestre tão brilhante e dedicado. Perda para seus colegas, mas acima de tudo, perda irreparável para sua esposa Jai e seus três filhos pequenos que vão crescer privados do convívio com um ente tão querido e especial.

Hoje é um dia triste para todos nós que muito embora de certa forma já esperássemos a morte do Randy, lá no fundinho guardávamos a esperança de que ele pudesse enganar a morte. Um professor tão genial poderia escapar de uma sentença tão injusta.

Mas não foi isto que aconteceu, infelizmente. Randy se foi e de certa forma deixou a todos nós órfãos e saudosos de sua inteligência e de seu humor sarcástico.

Como diria um amigo meu de infância, Randy Pausch viveu pouco, mas viveu bem. Em pouquíssimos meses fez mais do que tantos irão fazer. Em meio a tanto sofrimento, achou tempo para exigir do Congresso Americano mais verbas para a pesquisas sobre câncer no pâncreas, fez uma palestra brilhante, escreveu um livro, virou celebridade sem querer e deixou um enorme legado que vai encher seus filhos de orgulho para sempre.

Vá em paz, Randy, siga sua caminhada. Por aqui, sua missão já foi cumprida. Muito obrigada por servir de inspiração a todos nós. Nos veremos de novo, tenho certeza. Até lá, vamos continuar na luta, por mais pesquisas, mais acesso a saúde, mais justiça e mais dignidade.