Como o Zé disse em seu comentário, o inevitável aconteceu e Randy Pausch faleceu ontem pela manhã. Confesso que nas últimas semanas a cada dia que acessava o blog do professor o fazia com o coração apertado, com medo das notícias. No último mês, seus posts foram se tornando mais escassos e tudo levava a crer que o estado de saúde do professor que todos aprendemos a amar piorava rapidamente.
Ontem, na casa da minha irmã Andressa, abrimos o computador para mostrar meu blog para um amigo que tinha ido visitar a Chiara e na página principal vimos a chamada que ninguém queria ler: Morre o professor da última palestra. Nós duas nos olhamos. "Que pena," dissemos ao mesmo tempo antes de ficarmos em silêncio por alguns segundos. Era como se ali tivéssemos perdido um grande amigo de anos. Pouco depois o Blake me ligou para dar a notícia. Sabia que eu ia ficar emocionada. Disse que a cobertura na imprensa americana foi nonstop.
Grande perda. Perda para todos nós que aprendemos tanto com ele em tão pouco tempo. Perda para seus alunos que tiveram a sorte de ter um mestre tão brilhante e dedicado. Perda para seus colegas, mas acima de tudo, perda irreparável para sua esposa Jai e seus três filhos pequenos que vão crescer privados do convívio com um ente tão querido e especial.
Hoje é um dia triste para todos nós que muito embora de certa forma já esperássemos a morte do Randy, lá no fundinho guardávamos a esperança de que ele pudesse enganar a morte. Um professor tão genial poderia escapar de uma sentença tão injusta.
Mas não foi isto que aconteceu, infelizmente. Randy se foi e de certa forma deixou a todos nós órfãos e saudosos de sua inteligência e de seu humor sarcástico.
Como diria um amigo meu de infância, Randy Pausch viveu pouco, mas viveu bem. Em pouquíssimos meses fez mais do que tantos irão fazer. Em meio a tanto sofrimento, achou tempo para exigir do Congresso Americano mais verbas para a pesquisas sobre câncer no pâncreas, fez uma palestra brilhante, escreveu um livro, virou celebridade sem querer e deixou um enorme legado que vai encher seus filhos de orgulho para sempre.
Vá em paz, Randy, siga sua caminhada. Por aqui, sua missão já foi cumprida. Muito obrigada por servir de inspiração a todos nós. Nos veremos de novo, tenho certeza. Até lá, vamos continuar na luta, por mais pesquisas, mais acesso a saúde, mais justiça e mais dignidade.
Sei que prometi traduzir a "Última Aula" de Randy Pausch, mas o tempo é escasso e o texto longo, então traduzi o resumo da palestra. O texto foi publicado pelo Washington Post, em 6 de abril de 2008.
Vou voltar aqui para editar melhor, mas queria dividir isto com vocês o quanto antes. Leiam com atenção. É um testemunho emocionante.
Beijos,
Dani
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As Lições que Estou Deixando para Trás
Por Randy Pausch
Em muitas universidades, professores são convidados a dar uma “última aula”. Nesta conversa, eles refletem sobre o que mais importa para eles. Enquanto eles falam, a platéia se faz a mesma pergunta: Que sabedoria você deixaria para o mundo se soubesse que esta seria sua última chance?
Ano passado, concordei em dar uma última aula na Universidade Carnegie Mellon, onde sou professor no departamento de ciências da computação. Algumas semanas mais tarde, soube que tinha apesas meses de vida – estava morrendo de câncer no pâncreas.
Sabia que podia cancelar. Tenho três filhos pequenos, sou casado com Jai, a mulher dos meus sonhos, e ainda há tantas coisas a fazer. Mas falando, sabia que poderia colocar a mim mesmo numa garrafa, que um dia poderia aparecer na praia para os meus filhos, Dylan, Logan e Chloe. Aqui vai o que quero compartilhar.
Divirta-se Sempre
Antes da minha palestra, o presidente da Carnegie Mellon, Jared Cohon, me disse, “Por favor conte a eles sobre diversão, porque é por isso que vou me lembrar de você”. Cheguei a uma conclusão rapidamente. Cada um de nós deve tomar uma decisão, melhor resumida nos personagens de A.A. Milne, em Winnie-the-Pooh. Sou o Tigre que adora se divertir ou sou uma tristonha Eeyore? Minha posição é bem clara.
No meu último Halloween, Jai, nossos filhos e eu nos fantasiamos de “Os Incríveis”. Coloquei uma foto nossa no meu site e expliquei que a químio não tinha afetado meus superpoderes. Recebi emails com sorrisos como resposta.
Não vou desistir do Tigre dentro de mim. Alguém me perguntou o que quero escrito na minha lápide. Eu disse: Randy Pausch: Viveu 30 Anos Após um Diagnóstico Terminal”. Eu poderia encaixar muita diversão em 30 anos. Mas se não tiver que ser assim, vou encaixar muita diversão no tempo que tenho.
Sonhe alto
Tinha oito anos no verão de 1969, quando o homem chegou à lua. Estava na colônia de férias, nós crianças fomos levados até a casa principal para ver aquele momento na TV. Mas os astronautas estavam demorando, e estava ficando tarde. Os orientadores nos mandaram de volta às nossas barracas para dormir, e nós perdemos os primeiros passos.
Fiquei possesso. Pensei: “Minha espécie sai deste planeta e há um mundo novo pela primeira vez, e vocês aí acham que a hora de dormir ter importância?”
Quando cheguei em casa, meu pai me deu uma foto que ele tinha tirado da TV no segundo exato em que Neal Armstrong pisou na lua. Ainda temos esta foto.
Dê a si mesmo permissão para sonhar. Incentive o sonho de seus filhos também. De vez em quando, isso pode significar deixá-los acordados depois da hora.
Peça o que deseja
Numa viagem à Disney World, meu pai e eu estávamos no monorail com meu filho Dylan, então com quatro anos. Dylan queria sentar na cabine da frente com o motorista, e meu pai achou que seria legal também.
“Pena que eles não deixam qualquer pessoa sentar lá,” meu pai disse.
“Na verdade, aprendi que há um truque para se sentar lá na frente,”eu disse. “Quer ver?”
Caminhei até o atendente e disse: “Com licença. Será que poderíamos sentar no carro da frente, por favor?
“Certamente,” disse o atendente. Ele nos levou até a cabine da frente. Foi uma das únicas vezes que vi meu pai sem palavras. “Falei que era um truque,” disse a ele. “Não falei que era um truque complicado”.
Agora me tornei melhor ainda em “só pedir”. Como todos sabemos, pode-se levar dias para receber resultados de exames médicos. Não quero passar meu tempo esperando, então pergunto: “Quanto antes posso receber estes resultados?”
“Oh,” eles normalmente respondem, “talvez possamos dá-los a você em uma hora”.
Peça. Mais do que você imagina, a resposta que você vai ouvir é “Claro”.
Ouse arriscar
Num curso de realidade-virtual que ministrei, encorajava os alunos a tentar coisas difíceis sem se preocupar com fracasso. No final do semestre, dei um pingüim de pelúcia – “O Primeiro Prêmio Pingüim”— à equipe que apostou mais alto sem alcançar seu objetivo. O prêmio veio da idéia de que quando os pingüins pulam na água onde pode haver predadores, bem, um deles tem que ser o primeiro pingüim. Essencialmente, foi uma prêmio por um “glorioso fracasso”.
Experiência é o que você ganha quando não consegue o que quer. E isto pode ser a coisa mais preciosa que você tem a oferecer.
Procure o melhor em todo mundo
Recebi este conselho de Jon Snoddy, meu herói na Disney Imagineering. “Se vicê esperar o bastante,” ele disse, “as pessoas vão surpreender e impressionar você”. Quando você fica frustrado com as pessoas, quando você está zangado, pode ser porque você ainda não os deu tempo suficiente. Jon me alertou que isto necessitava de muita paciência, talvez anos. “No final,” ele disse, “as pessoas vão te mostrar o lado bom delas. É só ficar esperando. Ele aparece.”
Encontre tempo para o que importa
Quando Jai e eu saímos em lua-de-mel, queríamos ficar sozinhos. Como meu chefe exigia uma forma que as pessoas pudessem entrar em contato comigo, gravei este recado. “Oi, aqui é o Randy. Esperei até os 39 anos para casar, então minha esposa e eu vamos viajar por um mês. Espero que isso não seja um problema para você, mas é para o meu chefe. Aparentemente, tenho que estar disponível”. Então dei os nomes dos pais da Jai e a cidade onde eles moravam. “Se você ligar para a operadora, você consegue o telefone deles. E então, se você conseguir convencer meus sogros de que a sua emergência merece interromper a lua-de-mel da única filha deles, eles têm nosso telefone”. Não recebemos nenhum telefonema.
Tempo é tudo que você tem. E você pode descobrir um dia que você tem menos do que imagina.
Deixe as crianças serem elas mesmas
Por eu ser tão franco sobre meus sonhos de infância, as pessoas me perguntam sobre os sonhos que tenho para os meus próprios filhos. Como professor, já vi como pode ser perturbador quando os pais têm sonhos específicos para seus filhos. Minha tarefa é ajudar meus filhos a cultivar uma alegria de viver e desenvolver mecanismos para satifazer seus próprios desejos. Meus desejos para eles são bem exatos e, considerando que não vou estar presente, quero ser bem claro: Filhos, não tentem descobrir o que eu queria que vocês fossem. Quero que vocês sejam o que vocês quiserem. E quero que vocês sintam como se eu estivesse aí com vocês, qualquer que seja o caminho escolhido.
Tradução livre do texto publicado na revista Parade, do Washington Post, em 6 de abril de 2008. O artigo em inglês é uma adaptaçao do livro The Last Lecture, de Randy Pausch e Jeffrey Zaslow, recém-lançado nos EUA e ainda sem tradução para o português.
Por mais duro que seja aceitar uma má notícia, sempre digo a mim mesma que nada acontece por acaso. São as rejeições e obstáculos de hoje que nos transformam em pessoas melhores e que nos trazem as vitórias de amanhã. Meio cliché, não é? Mas é ma mais pura verdade. Somos meras obras em construção.
Hoje aceito esta conjectura com uma certa serenidade, mas nem sempre fui assim. Durante anos e anos vivi em busca da perfeição e dentro de mim cultivava a ilusão de que a vida seria mais ou menos como uma operação matemática: se cumprisse todas as etapas com sucesso, chegaria certamente ao fim da equação. Por algum motivo, achava que havia um mapa para felicidade a ser encontrado e se cumprisse meu papel, teria acesso a ele.
Para mim, tudo na vida era preto ou branco, não havia espaço algum para matizes de cinza ou nuances de cor. Havia o certo e havia o errado, nunca o intermediário. Minhas convicções eram sempre certas e absolutas.
Até que num piscar de olhos tudo mudou. Num milésimo de segundo todos os meus sonhos estavam ameaçados ali, bem naquela sala escura e fria, assim que a médica encontrou o primeiro tumor no meu fígado.
Melhor ou pior, minha vida nunca mais foi a mesma. Naquele momento perdi a inocência e a arrogância inerentes a qualquer jovem saudável. Ganhei uma visão mais ampla e mais generosa não só do mundo, mas de mim mesma. Se as perdas foram instantâneas, os ganhos foram acontecendo mais lentamente e exigiram mais esforço, mas ao mesmo tempo me abriram as portas para um universo completamente diferente e fascinante, que jamais me aventuraria a conhecer se não viesse a fazer parte dele.
Foram justamente as dificuldades que me fizeram uma pessoa diferente. Foram as minhas limitações que me fizeram mergulhar fundo em mim mesma e querer mudar tantas coisas a meu respeito. Do meu senso de humor à minha alimentação, tudo passou por uma transformação.
Se a minha vida tivesse sido a vida que eu tinha imaginado, livre de imprevistos ou obstáculos, talvez a tivesse vivido na mais pura ignorância. Talvez não tivesse vivido metade das alegrias que vivi, conhecido um décimo das pessoas fascinantes que cruzaram o meu caminho ou aprendido um milésimo das lições que tenho aprendido nos últimos anos.
Tenho plena consciência de que não sou perfeita, nem nunca serei, não importa o quanto me esforce. Mas aos poucos tento não me revoltar com as pedras que encontro no meu caminho. Certos dias tal tarefa me parece impossível, mas então procuro me lembrar de quão rica minha experiência se tornou depois que a minha vida tomou um novo rumo. É muito complicado aceitar uma condição que me foi imposta, mas convivendo com tanta gente que vive dilemas parecidos com aos meus, aprendi que a vida é feita de escolhas. Não podemos escolher os nossos problemas, mas podemos escolher o que fazemos com eles.
Na palestra do Randy Pausch, que vou traduzir e postar aqui, ele coloca muito bem esta questão. Depois da sentença de morte que recebeu, todos esperavam que ele fosse desabar. Obviamente ele tem seus dias bons e ruins, mas a escolha dele já foi feita: entre ser o Tigre e o Burrinho (Eeyore), Andy preferiu aceitar o papel do Tigre. Eu também. Confesso que tenho meus dias de Eeyore, mas nada que um bom banho não espante.
Durante estes últimos meses, dois dos meus piores pesadelos se tornaram realidade: * o câncer voltou a mostrar a sua cara * fiquei sem trabalhar de novo, ou seja, tenho muito tempo para pensar...
Mas sabem o que descobri? Que nem o câncer nem o trabalho definem quem eu sou. Muito embora estas difíceis experiências contribuam ainda mais para construir meu caráter, elas não afetam o meu âmago, pois sou muito maior que um, ou dois, ou três tumores no fígado e um emprego bacana. Eu sou do tamanho do Tigre e ponto final.
Este vídeo é de emocionar qualquer um. É uma versão reduzida da palestra que Randy deu em Carnegie Mellon, a "Última Aula", que o tornou mundialmente famoso. (O texto da "'Ultima Aula" é muito longo, passei quase duas horas sentada aqui no computador contendo, sem muito sucesso, as lágrimas, mas não tirei meu olhos da tela um instante sequer.) Este vídeo é curto e faz parte da campanha para pesquisa relativa ao câncer de pâncreas.
São depoimentos como este que fazem toda a diferença. Quando disse que o câncer de fígado precisava de uma celebridade, foi exatamente isto que eu tinha em mente. Alguém que possa levar nossa mensagem, alguém que possa convencer o público em geral de que há uma real necessidade de pesquisas, de investimento, de cérebros a serviço desta causa.
Uma das frases que mais me marcaram durante a minha jornada foi dita por um pneumologista que me acompanhou durante a minha primeira cirurgia. Sim, tive muitas complicações, inclusive derrame pleural. Sim, os médicos tiveram que fazer várias intervenções para retirar o líquido que se alojara na minha pleura. Depois de duas sessões com a agulha, retirando mais ou menos meio litro de cada vez, chegaram à conclusão de que seria melhor usar um catéter que foi colocado de forma cirúrgica. E lá fui eu pro centro cirúrgico de novo! Só neste procedimento, foram retirandos cerca de quatro litros da minha pleura. Mais ou menos duas garrafas de Big Coke.
Mas voltando ao médico, o nome dele era Renato e ele era simplesmente um amor. Ainda jovem, não tinha a arrogância nem a frieza de alguns médicos mais velhos e conversava com os pacientes de igual para igual. Foi ele então que me disse que eu era uma menina de sorte, pois se meu caso tivesse acontecido apenas cinco anos antes, minhas chances eram ínfimas se existentes. Durante cinco anos a medicina tinha evoluído tanto, tantos novos instrumentos, novas técnicas, novas descobertas, que tudo conspirava a meu favor, tudo isso aumentava as minhas chances de sobrevivência. Tenho certeza que os médicos usaram tudo que estava ao alcance deles, pois meu caso foi dos mais complicados já vistos.
Cinco anos depois, infeliz ou felizmente pude comprovar a veracidade das palavras daquele médico. Já na sala de exames, via coisas que sequer poderiam ser pensadas cinco anos antes, testes minuciosos, avançados, que me davam mais e mais confiança para seguir em frente. Os médicos diziam o mesmo, que eu ia sentir a diferença de tudo que poderia ser feito nos dias de hoje em compração com a minha primeira cirurgia.
Os médicos estavam certos. A cirurgia apesar de muito complicada foi um imenso sucesso e a recuperação foi maravilhosa, graças a Deus e ao talento dos médicos, mas também graças às novas tecnologias que resultaram de novas pesquisas que só foram possíveis porque houve financiamento. Imaginem vocês quantas vidas seriam salvas a cada dia se este investimento aumentasse! Quanto sofrimento seria abreviado.
Tive sorte, muita sorte de ter acesso aos melhores médicos do Brasil e do mundo, mas sou absoluta exceção. A questão da saúde é muito mais séria e infelizmente 90% dos pacientes de câncer não tem a mesma sorte. Não tem a menor chance não só no Brasil mas muitas vezes não têm chance nos EUA, país que apesar de rico não tem um sistema de saúde universal. Tremendo paradoxo.
Quando vejo histórias como a do Randy Pausch, fico triste de saber que o mundo perde alguém de um talento e de um carisma fenomenais, mas fico feliz e orgulhosa ao ver que ele escolheu passar seus últimos dias aqui lutando não só pela própria vida, mas pela vida de milhares de vítimas de câncer. Chamo isto de nobreza de caráter.
Se vocês assistirem o vídeo vão notar que apesar do triste prognóstico, Randy tenta levar uma vida muito normal. Gosto da passagem onde ele diz que um paciente de câncer não tem que ser frágil ou incapacitado. É assim que me sinto e sempre me senti. Jamais me senti doente ou fraca, nem mesmo depois das cirurgias e adoro a cara de espanto quando as pessoas me vêem. Parecem ter dado de cara com um fantasma! Comentários como "você nem parece doente" já passaram a fazer parte da minha vida, mas chego achar graça. Primeiro, porque não estou doente; segundo, porque vaso ruim não quebra!!!
Estou pensando em traduzir a "Última Aula", a palestra que citei no início deste post. O texto é imenso mas lindo, então vou fazer uma votação aqui. Se a maioria do pessoal tiver interesse em assistir o vídeo e depois ler o texto em portugês, eu traduzo. Se o pessoal conseguir ler em inglês e achar desnecessário traduzir, eu posto o texto original aqui. De qualquer forma, vale muito a pena ler/ver a palestra.