March 21, 2011

Culpa

Daqui a uma semana, volto a trabalhar full-time e o Joaquim começa na creche, aqui chamada de daycare. Tenho que admitir que sonhei muito com este dia, com o dia que a minha vida iria -- doce ilusão -- voltar ao normal. Dia que eu ia deixar de ser "café com leite" no trabalho e poder me dedicar com o empenho de sempre aos meus projetos e planos. Também pensei que talvez pudesse enfim dormir uma noite inteira...

Antes que me chamem de mãe desnaturada esclareço que não tenho vontade de me separar do meu filho, que aliás lutei muito para que viesse ao mundo. O que tem sido mais difícil para mim é justo este isolamento e dedicação total a um serzinho que depende exclusivamente de mim. Para mim foi muito difícil perceber que meu tempo e a minha vida já não me pertenciam mais e que agora eu respondia a um senhorzinho tirano de poucas semanas de vida.

Depois que a gente tem filho a vida muda de vez. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi esta frase, mas é a mais absoluta verdade. Mesmo depois do casamento a gente consegue manter uma boa independência e até uma certa dose de egoísmo, mas depois de filho, adeus! Então estaria mentindo se disesse que não estranhei muito tudo isto. Até as minhas horas de sono eram cronometradas e passaram a ser motivo de discussão com o Blake.

Depois do nascimento do Joaquim, me dediquei bastante à maternidade mas nunca deixei de me preocupar com o que seria de mim, pois acho que toda mãe sonha que no futuro o filho tenha orgulho dela e de suas escolhas. Sendo assim, não me vejo mãe em tempo integral. Ao contrário de muitas mulheres aqui, nunca achei que ser mãe fosse preencher todas as lacunas da minha vida. Imaginava que iria me tornar mais plena depois de ter um filho, mas que ser mãe seria mais uma faceta minha, claro que a mais importante, mas uma parte e não um todo.

Então sempre tive a certeza de que o Joaquim iria para creche, pois abrir mão da minha carreira jamais me passou pela cabeça e a ideia de uma babá longe de mim também não me agradava nada. Depois de um busca incessante, encontrei uma creche superbacana e mesmo depois de ter feito a minha escolha fui lá várias vezes para ver se não achava nada de errado. E a cada visita gostei mais do que vi.

Então hoje me vi tomada por um sentimento estranho e inesperado. Apesar de todo mundo me dizer, não acreditava muito, mas noto que já estou ficando triste de saber que vou passar cinco dias da semana longe do Joaquim. Claro que ele vai estar em boas mãos, claro que vou continuar dando banho e amamentando, mas o nosso tempo será infinitamente mais curto e isto dói. Mesmo hoje, trabalhando de casa, já está difícil não ficar com ele o tempo todo na sala sabendo que vamos estar longe a partir de semana que vem. É claro que o laço não se rompe, mas acho que segunda vai ser outro parto.

Ser mãe é mesmo mais difícil do que eu pensava!

14 comments:

Monica Lima said...

Dani, que franqueza admirável! Adoro seu blog justamente por isso e passei a te admirar ainda mais com esses posts sobre a sua maternidade.
Vc fala desse assunto e dos seus medos com tanta naturalidade, que é impossível não se tocar.
Eu imagino que essa perda de identidade repentina depois do filho deva ser uma fase muito dificil mesmo, mas a volta ao trabalho deve ser mais dificil ainda. Confesso que me identifico muito com o que vc falou e, apesar de ainda não ser mãe, tenho muito medo de me perder quando isso acontecer.
Obrigada por tocar nesse assunto e dividir com a gente tudo isso que vc está passando, pois faz parte da vida de todas nós.

Um beijo!

Dani said...

Monica,
Obrigada pelas palavras carinhosas. Estava precisando ouvi-las. Agora é curtir estes últimos dias com o Joaquim, que parecendo pressentir as coisas, hoje acordou gripado.
Bjs

A e W said...

Dani,
Vai sim, querida, Ser um parto... Como me identifico com cada palavra que Vc escreveu e sei exatamente o sentimento q vc tem e sente nesse momento. Eu, muitas vezes me perguntei se estava sendo uma boa Mae, ou Se era egoismo Meu de querer continuar a minha carreira mas hoje penso que faco Tudo por ela e Olha q nao falo financeiramente, apenas, mas falo por satisfacao pessoal. Admiro e nao julgo de forma nenhuma a Mae que opta por ficar em casa com seu filho so nao admito jamais Ser julgada pq eu sei que sou uma otima Mae, uma Mae presente, preocupada, cautelosa, cuidadosa e por ai la vai, nao sou melhor e Nem pior que ninguem ( Como fiquei um dia sabendo q uma amiga falou de mim que ela era uma Mae melhor q eu enfim) mas nao Eh facil nao minha querida e nao serah " o Parto" so na Segunda, eu acabei de voltar de ferias e depois de Duas semanas grudadas na minha fofa tive q passar pelo " parto" de novo.... Serao muitos Partos pela frente, nao vou mentir.... Mas toda vez q me sinto down penso nela e faco por ela e uma forca avassaladora me faz sorrir, me faz Feliz!!!! Forca querida! Um bj enorme

erika verginelli | photography said...

Danizinha, falei lá no twitter mas vou repetir aqui.

A gente escuta tanta coisa, sempre as mesmas frases antes de nos tornarmos mães né? E fala a verdade, muitas vezes a gente acha q é exagero de mãe, que quer q a gente fique com pena "delas". Bem, hoje somos uma delas e sabemos que tudo é a mais pura verdade. A mulher de hoje é muito independente, viajamos, trabalhamos fora, fazemos tanta coisa que realmente é dificil qd eles chegam e acabam com a nossa liberdade. Bem, uma coisa posso te dizer, Ela acabou pra sempre. Em parte. Nunca mais vc passará um dia sem preocupação. Mas voltar a rotina de trabalha e poder ter um tempo pra vc, é maravilhoso! Eu achei q fosse chorar no dia q voltasse ao trabalho e foi maravilhoso! Foi um dia muito muito feliz, eu voltei pra casa e pra minha filha, uma mãe muito mais feliz e realizada. Com ela tirei 5 meses e com o Peppe fiquei só 4 meses em casa.

Voltar a trabalhar será bom demais pra vc! E sabe pq será muito mais tranquilo do q vc imagina? Pq vc encontrou um lugar otimo pra deixar seu filho. E essa tranquilidade nao tem preço.

Tenho certeza que vc vai ficar bem e ele tb! ;-)

Bjs da sua amiga (xerox! pelo visto) e que já é mais de 2!!!

camila said...

Otimo post, Dani. Eu tambem penso como voce. Eu acredito muito que filhos de pais resolvidos e felizes serao criancas e adultos resolvidos e felizes. Imagino que deva ser muito dificil voltar ao trabalho, eu nem quero pensar que so vou ter 6 miseras semanas de licenca maternidade, mas eu sei que vai ser importante pra mim. E pra ela tambem.

erika verginelli | photography said...

Pra complementar depois do meu comment testamento...rsss...em cima do título do seu post...culpa, sim teremos sempre. Ser mãe é ter culpa, sempre sempre. Mas precisamos aprender a conviver com ela. E falei uma coisa no meu twitter hoje mesmo: There is so much I can do. But I can't do everything. I've got to learn how to live with it. Period. Não dá pra gente fazer tudo sempre, estar sempre em todos os lugares...é a vida. Isso será um constante aprendizado. Beijocas ;-)

Lola said...

Tentando novamente...

você descreveu exatamente a minha situação quando estava pra voltar a trabalhar e deixar os pequenos na creche. Sim, a mesma culpa aparece independente se é o primeiro ou segundo filho. Eu ouvia taaanto as pessoas dizendo: tadinha (o), vai pra creche tão pequenininho, etc. É um porre. Mas olha, a gente sobrevive. E o que é melhor, a gente cresce. De uma hora pra outra você vê que é perfeitamente possível ser mãe e ter uma carreira de sucesso. É bem mais difícil, mas isso nos torna especialistas em task management. E ohhh, dá um orgulho de si própria... De 9h as 6h sou uma coisa, das 6h em diante, sou mãe dos meus filhos. Uns dias são mais fáceis que outros, mas a vida flui muito bem.
Eu me inspiro muito na minha mãe, que criou 3 filhos e ainda trabalhava fora e gerenciava uma loja. Eu sempre soube que seria capaz de fazer tudo ao mesmo tempo pq via que ela conseguia.

Eu morria de medo de que a Luiza fosse gostar mais da moça que tomava conta dela no daycare do que de mim (tsc tsc)! Mas vc vai ver os olhinhos dele brilhando quando vc chegar pra buscá-lo. É nesse momento que a gente vê que vai dar certo. Eles ficam felizes quando chegam na escolinha e ficam radiantes quando a gente chega pra buscar. É uma coisa louca!

Bem, vamos ver se dessa vez vai!

beijos em vcs!

Luciana Bordallo Misura said...

E assim mesmo Dani, a gente mesmo querendo continuar trabalhando e sabendo que essa e a decisao mais acertada pra nos, na hora H os sentimentos falam mais alto. Mas e uma fase de adaptacao, pra familia toda, e depois voces vao entrar no novo ritmo. Uma nova fase se inicia, diferente, mas a gente se acostuma e depois nao pensa duas vezes (a nao ser quando o filho fica doente ;-). Boa sorte na segunda, certamente e muito mais traumatico pra nos, maes, do que pros bebes :-)

Dani said...

É por isto que não desisto do blog, pois é mistura de terapia e grupo de apoio para mim! Ler o depoimento de cada uma de vocês me faz acreditar que a gente pode fazer as duas coisas sim, que pode criar filhos bem ajustados e felizes sem abrir mão da realização profissional, pois cada uma de vocês vem encontrando esta fórmula e fazendo mágica a cada dia que passa.
Obrigada a todas vocês -- mães atuais e futuras -- do fundo do coração!
Beijos

Helen & Fabien said...

Dani, adorei ler seu post de hoje pois estou gravida de seis meses e penso muito à respeito nesse momento, creche? baby sister? licença deeducaçao parental etc... mas o que mais tem me preocupado mesmo é que eu quero que nosso filho fale o português fluentemente e aqui na França se eu deixar meu filho numa creche o dia todo ouvindo francês, meu marido falando francês com ele as poucas horas do dia que eu passarei com meu filho nao sei se sera suficiente para ele aprender corretamente as duas linguas!
Você também teve essa preocupaçao? Como vocês geram isso?
Obrigada por compartilhar com tanta naturalidade coisas tao importantes na vida de todas nos!
Beijos

Dani said...

Helen,
Tenho muito esta preocupação sim e acho que a creche, neste sentido, vai atrapalhar um pouco o aprendizado do português. Ainda não encontrei uma solução e acho que vou mesmo ter que partir para o famoso método tentativa e erro. Eu só falo português com o Joaquim e em casa, mesmo o Blake sendo americano, falamos muito português. O Blake não é fluente mas se vira muito bem e até nossos gatos recebem ordens na minha língua. Além disso, hoje temos Skype e fala todos os dias com a minha família e nos vamos ao Brasil ao menos duas vezes por ano. Estou contando que as minhas sobrinhas e os filhos de amigos da idade do Joaquim também vao ser aliados nesta tarefa. E mais tarde, vou comprar livros e cartilhas para ensiná-lo a escrever. Tenho uma amiga no trabalho que ensinou polonês às filhas assim e hoje as meninas -- que já são adultas! -- são fluentes! Dá trabalho mas é possível!
Bjs

Só uma menina said...

Ler seu post me fez lembrar do domingo anterior ao dia em que deixaria o Miguel na creche o dia inteiro pela primeira vez. Fiquei com vontade de chorar porque sei que não será fácil. Naquele dia, cheguei ao trabalho chorando. Decidida, certa de que havia feito o melhor, mas com o coração apertadinho. Hoje, Dani, ele entra na creche e nem vira pra me dar ´tchau´ ou mandar beijinho, quer ir logo brincar com os amigos. Em compensação, quando chego pra buscá-lo a felicidade dele em me ver é enorme!! E a minha também... Boa sorte!!

Chelsy Zara said...

Me desculpe meter o bedelho no seu assunto, mas se vc escreve no Blob, estamos ai para ler.
Sempre dei uma passadinha por aqui desde qdo vc esta doente ate ficar gravida. Hj depois de alguns meses volto aqui, vi q o bebezao nasceu. Mas para minha surpresa, e ate me deu uma dor no coracao foi saber que vc, depois de tanta luta pra ter seu filho, deixa esse bebezinho totalmente indefeso numa creche! Sei q muitas maes, por necessidade financeira fazem isso, principalmente no Brasil. Ai nos US nao sei suas necessidades, mas me admira muito depois de tanto querer vc o deixar aos cuidados de estranhos. E como vc disse, passar os dias sem saber se ele ta chorando, dormindo etc.
Coitadinho! Alem de ser indefeso e nao poder se defender de nada q possa lhe acontecer na creche, ainda nao vai ter a mae presente num momento tao importante e especial da vida dele, os 3 primeiros anos de vida. Sera q vale mesmo a pena o q vc ganha $ em troca desses momentos unicos?
Eu acho triste, principalmente no seu caso, que quis tanto ele.

Dani said...

Chelsy,
Obrigada pela visita! Acho sua opinião supeválida e, acredite, não foi uma decisão fácil para mim deixar o Joaquim numa creche, mas fiz o melhor que pude, dentro das minhas possibilidades. Honestamente, parar de trabalhar não é uma opção para mim hoje -- precisamos do meu salário nas despesas da casa -- e mesmo se fosse, não penso que deixaria a minha profissão de lado. Se pudesse, trabalharia de casa ou part-time, mas não ficaria em casa direto não. Não quero que o meu filho carregue a culpa de ter acabado com vida profissional da mãe no futuro e sinto que isto poderia acontecer.
É difícil mas procuro pensar a longo prazo e vejo adultos perfeitamente normais e bem sucedidos que estiveram em creche desde cedo e outros adultos cheios de problemas que tiveram a mãe ao lado 24 horas por dia a vida inteira. Eu vejo a creche como um lugar onde meu filhote será estimulado e aprenderá a ser independente e procuro complementar isto em casa, quando chegamos. Como ele não dorme a noite toda, passamos muito tempo juntos e nos fins de semana, ele tem 100% da minha atenção.
Tem sido um período de ajustes nada fáceis, mas vamos em frente. Também não vejo nada errado em mudar de opinião. O dia que eu achar que o Joaquim não está se dando bem na creche por algum motivo ou se ele precisar de mim ao seu lado o tempo todo, voltamos a estaca zero e revemos nossa estratégia. Só sei que se ser mãe é difícil, ser mãe e profissional é mais difícil ainda...
Beijos!