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October 28, 2009

Requiem de Um Sonho (Americano)

Ainda nao li todas as propostas de reformas para o sistema de saude norte-americano. Para ser sincera, duvido que algum dia eu venha a completar esta tarefa. Nao por falta de interesse, mas po falta de tempo para me dedicar a algo que merece uma analise mais do que cuidadosa.

Esta semana, a midia americana, que tinha declarado morta a opcao por uma alternativa publica, foi surpreendida com a declaracao do lider da maioria, que revelou que encaminharia a proposta com a tal opcao publica. Claro que ha criticos e ardentes defensores dos dois lados da questao.

Eu nao tenho condicao de julgar coisa nenhuma, mas a unica pergunta que me persegue e o que sera feito com as pessoas que nao podem obter cobertura de um plano de saude. Nao estou falando de imigrantes ilegais, ou de jovens ou trabalhadores de baixo nivel educacional cujos empregos nao oferecem tais beneficios, pois em teoria a unica coisa que os impede de ter acesso aos planos de saude existentes e o custo. Nao que isto nao seja um problema, e grave, mas a solucao ainda que dificil e obvia. Eles tem acesso aos planos, mas nao tem dinheiro para pagar a mensalidade, entao ha de que se criar planos de qualidade e preco acessivel que atendam este tipo de demanda mais do que justa.

O grupo ao qual me refiro se encontra em situacao ainda pior. Este grupo e formado de pessoas que se dispoem a pagar os precos muitas vezes abusivos dos tais planos, mas sequer tem esta opcao. Voces acham que este tipo de gente nao existe? E se eu disser que este grupo marginalizado e o grupo no qual me incluo? E a mais pura verdade. Eu, residente legal, com faculdade e mestrado realizados nos EUA, ex-bolsista do governo americano, que pago meus impostos em dia e contribuo para a economia deste pais, nao posso comprar um plano de saude individual se eu quiser. Repito, NAO POSSO. Mesmo que me disponha a pagar $1000 por mes, esta opcao nao existe para mim. Esta semana o plano de saude Blue Cross Blue Shield, que coincidentemente e o mesmo plano que tenho atraves de meu empregador, me enviou uma carta me explicando que devido ao meu historico medico, que inclui hepatocarcinoma nos ultimos dois anos, meu pedido de inclusao nao pode ser aceito. Sem mais. Passar bem.

Gostaria de dizer que fiquei surpresa, mas estaria mentindo. Tambem nao fiquei desesperada, pois afinal tenho outras opcoes. Mas a resposta do tal plano de saude me deixou ainda assim indignada. Me sinto enganada por todo mundo que um dia me disse que se eu estudasse e trabalhasse com seriedade poderia ser totalmente independente, me sustentando e tomando conta de mim mesma. Me senti ofendida ao perceber que em pleno seculo XXI eu tenho sorte de ser casada, e mais, de ter um marido que tem um bom emprego e boa cobertura de plano de saude. Coisa mais ridicula!

Entao imaginei um cenario um pouquinho diferente...so um pouco. Por um instante pensei que eu poderia estar aqui nos EUA ja com meu green card [que teria conseguido de qualquer forma ficando aqui no mesmo emprego por seis anos] mas estaria solteira. Depois de muitos anos de carreira, teria decido ter meu proprio negocio e trabalhar por conta propria, atendendo alguns clientes [o que ja fiz antes de receber meu work permit.] Tudo estaria indo muito bem, mas como autonoma, precisaria comprar um plano de saude individual, ja que sempre fui precavida, e...do dia pra noite descubriria que nao posso. Entao minha alternativa seria abandonar meu proprio negocio e tentar encontrar um emprego qualquer, por mais mundano que seja, que pudesse me oferecer os tais beneficios, como plano de saude. Entao acabaria ai meu tao sonhado “American Dream” .

E aquela historia de que todos sao iguais perante a lei? Parece que nao vale para os que um dica ficaram gravemente doentes...

E dificil entender como algo assim ainda possa acontecer em pleno seculo XXI. E triste demais.

October 9, 2009

Obama, me chama que eu vou!

Ontem comentando com uma colega de trabalho sobre a recusa que recebi do plano de saúde, ela disse imediatamente: "Está vendo por que quando a hora chegar eu vou lá para Washington marchar a favor da reforma da saúde? Você é a primeira pessoa do meu círculo que me relata uma coisa destas, mas tem muito mais gente por aí," disse Allison, que normalmente é uma das pessoas mais calmas e ponderadas que conheço. "E ainda tem aquela gente idiota que faz escândalo nos town-hall meetings," ela emendou.

E ali, naquele momento, tive certeza absoluta de que lado eu estava. Claro que sempre fui e serei a favor da reforma deste sistema de saúde tão perverso, mas sem ler as mais de mil páginas do tal documento, simplesmente não me sentia à vontade de tomar uma posição mais clara, ou seria radical? Ontem, mais uma vez, vi que eu havia tomado esta posição há muito tempo, só não tinha enxergado isto ainda e conversando com a Allison ficou tudo muito claro.

Voltei para o escritório e recebi o email da Melody, uma mulher de 56 anos que descobriu há pouco um câncer no fígado e buscava alguém que tivesse passado por experiência parecida. Ligou para a Immerman Angels, organização do Jonny, e recebeu meus dados de contato.

Melody me conta que recentemente descobriu ser portadora do vírus da hepatite C, que causou-lhe cirrose hepática que evoluiu para câncer. Ao que tudo indica, sua única salvação é um transplante, mas pelo tamanho e localização do tumor, não é possível/indicado. Só lhe resta então tentar radioterapia/quimioterapia para tentar diminuir o tamanho do tumor para depois quem sabe poder pleitear o transplante. Mas apesar de ter plano de saúde, o pedido de seu médico foi NEGADO!!!! Melody então me pergunta como ficar otimista numa situação destas!

Como?! Ficar otimista quando pessoas sórdidas e mesquinhas lhe negam o direito de viver?! Não faço a menor ideia! Enfrentar uma doença como esta sem perder a cabeça já uma tarefa e tanto. Enfrentar esta doença e ainda ter que lidar com a crueldade de terceiros é missão impossível. A que ponto chegam a ambição e pequinez do ser humano?!

Quando o assunto é saúde e principalmente o acesso a ela, saio do sério. Claro que percebo o quanto tenho sorte em todos os sentidos -- tive um tumor que pode ser ressecado, minha família tinha condições financeiras para custear o tratamento, o seguro-saúde nos reembolsou boa parte das despesas. Infelizmente a maioria das pessoas não tem a mesma sorte.

Então pensei num cenário um pouquinho diferente: eu, solteira, perco meu emprego ou saio dele para realizar o sonho de começar meu próprio negócio de consultoria de comunicação e marketing, por exemplo. Eu, que sempre ouvi dos meus pais que poderia fazer tudo que eu quisesse, que estudei, que trabalhei sério, que sempre acreditei que com instrução e competência seria capaz de tomar conta de mim mesma, me sustentar e viver a vida que sonhei para mim, de repente percebo que nada disto é verdade. A verdade é que por algo completamente alheio a minha vontade, por algo do qual não tive a menor culpa, serei eternamente presa a um emprego, por mais desisteressante que seja, que me dê os tais benefícios, como plano de saúde, de preferência um bom, que cubra os tantos exames e consultas que faço a cada ano. A verdade é que mesmo disposta a pagar uma fortuna por algum tipo de cobertura médica, nenhum plano irá me considerar por causa daquele famoso "C" que eu levo no meu boletim.

E nestas horas o mundo me parece mesquinho e pequeno demais. Injusto e desigual. Felizmente não preciso me preocupar tanto assim com o tal plano de saúde, pois tenho algumas alternativas, mas milhares de pessoas como a Melody não tem. Milhares de americanos tem planos de saúde mas são reféns deles quando realmente precisam dos recursos mais avançados. Outros milhares -- ou seriam milhões -- sequer tem plano, pois seus empregadores não oferecem. Como aqui não há SUS, só que está abaixo do nível de pobreza se qualifica para o Medicaid, assistência do governo, e Medicare é só para idosos. Claro que tem muita gente, incluindo imigrantes ilegais, que abusam do sistema, mas como sempre a grande maioria acaba sendo prejudicada por uma minoria irresponsável.

Ainda não entendo completamente as propostas de reformas do sistema de saúde, mas só sei que do jeito que está não pode ficar. É por estas e outras que agora só aguardo o chamado. Obama, quando chegar a hora de marchar em Washington, me chama que eu vou!