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March 23, 2008

Os mexicanos e eu

Como prometi, venho aqui contar do filme que vi ontem. Bajo la Luna or Under the Same Moon é um daqueles filminhos muito fofos cujo personagem principal é um menino gorducho e carismático de nove anos. Isto por si só já encanta qualquer um. O filme é uma mistura de Central do Brasil com America, novela da Gloria Perez, e narra a saga de uma mãe solteira que deixa a vida e o filho numa cidade pobre no México em busca do American Dream em Los Angeles. Até aí, nada demais, até que a avó do menino morre e ele arma uma fuga para encontrar a mãe nos EUA. O resto vocês têm que ver.

Cada vez fico mais convencida que gosto muito do México. Gosto das pessoas, gosto da cultura, das cores e de muita coisa que sai dela, entre elas o Gael Garcia...hahaha Falando sério, acho os atores mexicanos muito bons e no filme de ontem não fiquei nem um pouco decepcionada -- trabalho muito bacana.

Como já previa, saí de lá ainda mais confusa sobre a questão da imigração, pois o argumento de que ninguém (ou pelo menos, ninguém normal em sã conciência) deixa as pessoas que ama e o lugar que chama de lar para se sujeitar a condições sub-humanas por um motivo banal. Difícil não se comover com o drama de tantos. Seria tão bom que as pessoas pudessem ter uma vida digna em qualquer canto do mundo. Mas não é o que acontece por aí.

Tenho que admitir que fiquei surpresa de ver um cinema em Bethesda, subúrbio chique de Washington, lotado de gringos curiosos para conhecer mais desta história que se desenrola em todo o canto por aqui -- aposto que a maioria deles tem imigrantes ilegais limpando suas casas.

Mais surpreendente foi ver, bem na fileira da minha frente, vários mexicanos sentadinhos ali, naquele cinema independente, reduto dos pseudo-intelectuais americanos. Estavam eles ali ansiosos, curiosos e prontos para ver a sua história na telona. À primeira vista podiam parecer peixes fora d'água não fossem eles os verdadeiros protagonistas do filme.

March 22, 2008

A ansiedade e os mexicanos

Estou aqui tentando segurar a ansiedade até segunda-feira, mas está difícil. Estou ao mesmo tempo animada e temerosa. Não consigo parar de pensar no assunto. Para não enlouquecer e levar o Blake a loucura junto comigo, resolvemos sair para nos divertir um pouco. Já estou tendo crise de abstinência, pois faz alguns meses que não vejo um filme cabeça.

O Blake também gosta do gênero, Graças a Deus. (Não falei que meu marido era diferente?!) Então daqui a pouco vamos sair para ver um filme mexicano-americano, Under the Same Moon ou Bajo La Luna.



Eu adoro filmes com a temática mexicana, pois me lembram muito do Brasil. Sei que a afirmativa costuma desagradar muitos brasileiros, mas acreditem, depois de mais de 15 anos de experiência aqui nos EUA, cheguei à conclusão de que somos muito mais parecidos com "nuestros hermanos" do que queremos admitir. Depois de muito espernear cada vez que me chamavam de hispanic, resolvi abraçar a minha latinidade. Nós brasileiros gostamos de nos considerar diferentes dos outros latinos, principalmente dos coitados dos mexicanos. Achamos os mexicanos cafonas, exagerados. Deve ser tudo culpa do Sílvio Santos. Pura bobagem. Puro preconceito. Os mexicanos são um povo alegre e trabalhador que fazem malabarismos para sobreviver tanto na sua terra natal quanto nos países para onde emigram. Ñão são nada diferentes da maioria dos brasileiros que vêm para os EUA em busca do tão famoso American Dream.

Ouvi falar que este filme por pouco não foi parar na gaveta de algum executivo, pois algum tempo atrás, imigração era um tema que ninguém queria debater, era uma ferida aberta que ninguém queria tocar, coisa que só interessava aos próprios imigrantes ou ao pessoal que mora na fronteira com o México. Entretanto, com a proximidade das eleições presidenciais americanas, tudo mudou e o tema, que até bem pouco era sempre deixado à margem dos grande debates, foi trazido a tona e ocupa lugar muito importante nos discursos dos pré-candidatos. Tanto o republicano John McCain, quanto os democratas Hillary Clinton e Barack Obama sabem que a reforma nas leis de imigração é mais do que necessária e defendem formas de legalizar imigrantes desde que eles aprendam o idioma inglês e paguem multas. Mas por enquanto isto é mais conversa do que outra coisa. Os três candidatos votaram a favor do polêmico muro entre EUA e México e a "caça às bruxas" corre solta em vários estados americanos, inclusive bem aqui em Maryland.

Esta questão é tão ambígua que é difícil ter uma opinião formada. Se uma parte de mim se pergunta se estes imigrantes ilegais vieram para este país conscientes de estar cometendo um crime -- pois ninguém é idiota a ponto de achar que tem o direito de entrar e trabalhar em qualquer país -- por que deveriam receber anistia? Seria justo com as milhares de pessoas em tantas partes do mundo que acalentavam o mesmo sonho, mas por obediência às leis vigentes não colocaram seus planos em prática? Seria justo comigo e com tantos outros imigrantes que cumpriram todas as exigências -- e foram sujeitados a todo tipo de investigação -- para estar aqui de forma legal? Se a anistia de fato ocorrer, isso não fará que o número de imigrantes ilegais aumente ainda mais, pois sempre haverá a experança de uma nova anistia no futuro? A imigração aqui já não é generosa o bastante? Se o sujeito fica ilegal durante 20 anos mas no fim das contas casa com um/a americano/a, ele/a recebe o greencard. SPor incrível que pareça isto é a mais pura verdade. Eu mesma sei de alguns casos que se encaixam nesta categoria.

Mas a minha outra parte, aquela parte mais sensível, vê de perto a luta destas pessoas que só querem uma vida melhor. Há muitos imigrantes ilegais perigosos e problemáticos, mas há muitos outros honestos e trabalhadores que dariam tudo e pagariam as mais altas multas por uma chance de ficar aqui de forma legal. Será que a culpa é só dos ilegais ou é dos americanos que os empregam pagando um décimo do que pagariam a um americano? Não dizem as leis do capitalismo que só há oferta onde existe demanda? Será que existe outra forma de sanar este problema de dimensões absurdas que não seja legalizar uma situação que já existe há tanto tempo? Obviamente tapar o sol com a peneira -- como os americanos têm feito há séculos -- está fora de cogitação, então o que fazer?

Não sei, sinceramente. Vou ver este filme hoje e tenho certeza que sairei de lá com estas mesmas perguntas, mas duvido que encontre respostas. Aos poucos tenho aprendido que o primeiro passo para enfrentar qualquer problema é aceitar que ele existe. É falar sobre ele, é expor opiniões diversas, é ouvir outras colocações. Então a parte otimista dentro de mim já acha que um filme como este ser sucesso por aqui já é um bom começo.