Enfim chegaram os resultados da biópsia e, graças a Deus, desta vez não houve surpresas. Desde a cirurgia, os médicos achavam que o tumor seria um adenoma com focos de hepatocarcinoma fibrolamelar e o resultado não foi diferente.
Mas como tudo comigo tem que ser "único", houve certa discussão na conclusão do laudo final. Alguns peritos achavam que o tumor deveria ser classificado como adenoma (que é benigno) e outros afirmavam que deveria ser chamado de hepatocarcinoma (tumor maligno) já que havia presença, mesmo que mínima, de células cancerígenas. Este filme eu também já vi!
A boa notícia é que os focos eram poucos e localizados e meu tumor altamente diferenciado, o que para nós mortais quer dizer que o tumor era pouquíssimo agressivo. Melhor ainda é saber que os médicos trabalharam com uma boa margem, ao contrário da primeira cirurgia, e que a minha chance de cura é próxima de 100%.
A notícia que me deixou um pouco triste é que volto basicamente a estaca zero no que diz respeito aos exames de rotina: a cada três meses no primeiro ano, a cada seis no segundo e a cada ano para o resto da minha vida. É bem estressante passar por ressonãncias e tomografias com tanta frequência, mas um preço pequeno para quem quer viver uma vida longa e saudável. Fiquei chateada também ao saber que terei que esperar dois anos para engravidar. Logo eu, a pessoa mais imediatista e impaciente do mundo! Outra grande lição.
Aliás agora começo a perceber algumas coisas com mais clareza. Sempre quis ter uma família, mas filhos nunca foram a maior prioridade. Se encontrasse um pai maravilhoso e uma boa estrutura de família, obviamente gostaria de tê-los, mas se minha vida me levasse por outros caminhos, não me sentiria tão frustrada. Várias amigas minhas afirmam que terão filhos independente de pai. Até acho a idéia bonita, mas nunca foi a minha bandeira. Queria minha carreira, uma relação estável, conforto antes de pensar em ter filhos. Depois de me mudar para Maryland, esta ordem mudou um pouco, até por falta de opção.
Moramos numa cidade minúscula onde todo mundo tem filho e nos EUA, ao contrário do Brasil, quando se tem filhos, vive-se num universo completamente diferente -- só se fala, se pensa, se vive e se respira filho! Quem não tem, não pode entrar e está alijado para sempre. Não sei se foi por isso, mas no final do ano passado começamos a pensar mais seriamente no assunto. Ter carreira de sucesso e emprego jet-setter morando longe de um grande centro urbano é praticamente impossível e como o Blake não tem a mínima vontade de morar numa cidade grande, pensei ter encontrado a solução perfeita: tenho meus filhos agora, brinco de casinha nos lindos subúrbios americanos, encho a minha SUV de cacarecos e viro a mãe perfeita por uns tempos.
Quando tudo parecia caminhar nesta direção, mais um grande tropeço. Durante o fatídico untrassom, na minha barriga ao invés de um bebê saudável, uma massa doente de 7 cm. Não que eu achasse que estava grávida, mas este exame que traz tanta alegria a tantas mulheres no mundo todo, para mim vem carregado de sofrimento e dor.
Sorte a minha ter fé. Desde pequena, dois dos meus ditados favoritos são "Deus escreve certo por linhas tortas" e "Everything happens for a reason". Então vou acreditando que no meu caso há algo mais urgente do que a maternidade. Talvez eu precise mesmo me encontrar antes de tentar gerar alguém. Talvez eu tenha filhos daqui a dois anos. Talvez não. Talvez possa adotar antes disto. Talvez não. Talvez não tenha nascido para ser mãe. Talvez sim.
Neste momento, mais uma vez, tenho muito mais dúvidas do que certezas, mas este e o verdadeiro propósito da vida, ir aprendendo aos poucos, errar, acertar, chorar, rir, esperar, arriscar, mas sempre seguir em frente. Acho que esta lição aos poucos vou aprendendo, mas a lição que me parece a mais difícil de todas é a tal da paciência, virtude a qual não possuo e, pior, sempre me orgulhei de não possuir, mas isso já é assunto para outro post.