June 7, 2011

O processo ou o evento?

Outro dia a minha amiga que acabava de voltar da Etiópia, onde vai adotaar dois meninos, estava aos prantos quando entrei na sala dela. Eu, que vinha rindo e pronta para contar o que tinha acontecido na reunião anterior, imediatamente entendi o motivo da agonia dela. Durante a viagem, ela tinha finalmente conhecido os filhos e tudo fazia crer que em dois ou três meses os meninos estariam aqui. Só que na hora da audiência, a juíza notou que faltava uma carta de um ministério local, autorizando a adoção. A agência garantiu que em poucos dias a carta aparecia e o problema seria sanado. Uma semana depois, ela recebe um email com uma nova data para audiência, 23 de junho. Obviamente, ela ficou decepcionada.

Tentei, como sempre, mostrar a ela o lado positivo. "Pense bem, pelo menos eles têm um prazo razoável para emitir o documento e nem falta tanto tempo assim para o dia 23." Ela, como os olhos vermelhos,respondeu; "Eu sei, mas imagine você saber que vai ficar três semanas longe do Joaquim?" Ela respirou e continuou "Tudo bem, eu sei que não é a mesma coisa..." Foi então que, para minah surpresa, eu sequer deixei que ela terminasse a frase e fui incisiva dizendo "É sim, é sim."

Se na hora, falei sem pensar muito, agora tenho a maior para tranquilidade para dizer que acho que é a mesma coisa sim. Filho é filho do mesmo jeito, biológico, adotivo, do coração, do que seja... Agora, depois de ter esperado muito para ter meu filho que hoje tem seis meses, acho sinceramente que o amor mesmo vem a cada dia. Amo o Joaquim hoje muito mais do que o amei quando ele saiu da minha barriga. A sensação de ver sua carinha pela primeira vez foi maravilhosa, mas nada supera a felicidade que sinto ao ouvir sua gargalhada a cada manhã, quando ele acorda. Ser mãe não é um evento, é um processo.

É natural que o ser humano queira se eternizar de alguma forma. Saber que parte de nós viverá além de nós mesmos pode ser um tipo de consolo, ou vaidade pura. Olhar para um bebê e tentar saber com quem ele se parece é sempre interessante, mas ser mãe vai muito além. Uma vez, ouvi que adotar é ser mãe duas vezes e acompanhando o martírio -- sim pois o que ela passa parece um sofrimento sem fim -- da minha amiga só me faz ter mais certeza disto.

Acho que o nosso foco está errado. Parir, para muita gente, é fácil, mas educar um ser humano é uma tarefa árdua e constante, muitas vezes inglória. O mesmo vale para o casamento. Organizar uma festa é fácil, usar um lindo vestido é glamouroso, mas sustentar uma relação na base do respeito, da verdade e do amor é um desafio. Muito além da aliança no dedo, casamento é um projeto comum de duas pessoas e construído a cada dia. E vale a pena. Vale a pena lutar pelo que se acredita, vale a pena passar noites em claro, vale a pena abrir mão de certas coisas em troca de outras de maior significado. Apesar do trabalho, vale muito mais a pena focar no processo do que no evento em si.

4 comments:

Só uma menina said...

Concordo, concordo e concordo, Dani!!! E a frase na qual acredito muito "Life is a journey, not a destination" se encaixa perfeitamente aí. Amei o post!

Bia said...

Também acho que para ser mãe, pai, avó, etc. não precisa "nascer" da pessoa, ser sangue do seu sangue... com tanto que seja filho do coração, o amor é o mesmo. Tem tanta gente que ama cachorro e gato como se fosse filho, pq não um outro ser humano?

bjs

Roy said...

Pois e, Dani. Sabe que hoje em dia me pego pensando que quero mesmo ser papai, e sei que tudo muda, e meus amigos solteiros me dizem: "Po, Roy, olha o Thiago (meu cunhado, que teve uma filha ano passado e esse mes vem o segundo :-)), olha como a vida dele mudou" etc. Nada, eu sinto que a vida muda pro bem, e sinto que quero ser pai e que estou parcialmente pronto (mais do que nunca) para se-lo. Basta achar a vitima da mae rsrs. Twittei!

beijao

Roy

Lola said...

Dani, eu não poderia ter descrito melhor a minha opinião sobre filhos e casamento.

bjs!