February 11, 2010

Gente Pequena

Uma das maiores e mais bonitas lições que se aprende com a doença tem a ver com a beleza do ser humano. Não me canso de dizer para todos os meus amigos doentes, que abram seus corações e deixem-se envolver pela energia absurda que é enviada por tantos entes queridos, amigos de todas as partes do mundo. Esta é a única parte boa da doença, este poder de união e este lado belo que as notícias ruins têm o poder de fazer despertar nas pessoas boas.

Depois da minha experiência com a doença, carrego comigo uma certeza muito forte: existem no mundo muito mais pessoas boas do que pessoas ruins e é justo isto que faz a vida valer a pena. A gente quer viver justamente por causa destas tantas pessoas boas e no fundo tem a esperança de que algum dia, de alguma forma, possa retribuir tanto carinho.

Mas e quando depois de tantos perrengues a gente começa a esbarrar não com estas pessoas bacanas pelas quais temos tanta gratidão mas com gente que anda de mal com a vida e parece querer contagiar todo mundo com tanta amargura? Confesso que acho queste povo difícil de aturar... Procuro respirar fundo e lidar da melhor forma possível com este tipo de gente, que na minha cabeça não passa de gentalha, mas admito que meu nível de tolerância para este tipo é mínimo.

Se por um lado, depois de tudo que tive que enfrentar, fiquei mais compreensiva, por outro lado muitas vezes de acho no direito de não ter que lidar com tanta mediocridade. Penso que já tive muitos obstáculos de verdade na minha vida e que sinceramente deveria ser poupada desta energia ruim e contagiosa.

Sem querer ser melhor do que ninguém -- até porque não sou mesmo -- acho que este tipo de gente só merece o desprezo, mas é uma pena que às vezes esta não seja uma opção.

Então já que não posso desprezar estes tipinhos, já que não posso apertar um botão para que eles sumam da minha vida para sempre, escrevo e desabafo no blog. Ainda não consegui voltar às minhas aulas de yoga, mas acho que dentro de um mês dou um jeito nisto...mas enquanto a hora não chega, conto os dias e respiro fundo...e penso nas tantas pessoas maravilhosas que já cruzaram e que ainda vão cruzar o meu caminho.

February 10, 2010

Vida de Gata Borralheira...


Desde quinta-feira sem ter contato com a civilização, às vezes a gente acha que vai surtar. Todo mundo sabia que esta nevasca ia ser sinistra, mas o que ninguém previa é que ela fosse durar tanto. Onde já se viu nevasca que dure uma semana sem trégua?!

Eu aqui me recuperando da enésima virose dos últimos meses, mas trabalhando muito de casa. O bom é que em vez de passar as duas horas básicas no trânsito, só um lance de escadas separa meu quarto do escritório, que pela primeira vez tenho usado direto. Normalmente esta ala da casa é de domínio do Blake.

Os dias aqui são praticamente iguais. Acordar, trabalhar, fazer almoço, comer, trabalhar, fazer jantar, jantar, arrumar tudo, dormir, acordar e...fazer tudo de novo! Estranhíssimo!

A cena lá fora é terrível, ventos de 80 km/h, muita neve, tempestade pesada mesmo e temperaturas glaciais...

Pelo menos até agora -- bate na madeira! -- ainda temos eletricidade.

A foto que ilustra o post é só para matar a saudade do sol...do calor...e da Espanha!

February 9, 2010

Mais Imagens do Snowmaggedon




Cabin Fever




É assim que os americanos chamam esta ânsia que dá na gente, que passa o tempo inteiro trancafiado em casa, nesta época do ano. Lembro que durante a minha primeira primavera aqui, em 1993, não entendia direito porque todo mundo queria trocar as salas de aula pelos jardins da faculdade em plena aula de literatura alemã...

Bem, quase 20 anos depois, entendo perfeitamente. Ainda mais quando se está ilhada numa casa desde quinta-feira. Sinceramente, sem querer chover no molhado, ninguém merece!

A tempestade assustadora que caiu por aqui desde sexta feira, já deixa mais de um metro de neve na porta de casa, vai ser substituída por outra tão forte quanto que chega daqui a pouco... Parece que pelo menos mais 30 cm acompanhados por vendavais fortíssimos, o que significa que muita gente vai ficar sem luz. Imaginem só, sem luz, sem calefação no maior frio...coisa de filme de terror! No sábado, o negócio era tão sinistro que tinha até trovoada no meio da tempestade de neve...

Ontem à tarde, logo depois de limparem a nossa rua, saímos correndo para o supermercado, já que ao que parece vamos ficar pelo menos mais uns três dias sem contato com o mundo lá fora... Claro que a cena parecia saída de filmes sobre o fim do mundo: estoques acabados, gente para todo lado, carrinhos em falta, filas enormes, ruas cobertas de gelo e um frio, um frio horrível lá fora.

Nestas horas bate um banzo...e uma vontade de sentir calor...

As fotos, que não mde deixam mentir, ilustram este post.

February 5, 2010

Blue Jean Ball





Os post vai atrasado, mas vale a pena falar da festa do fim de semana passado.

Quando cheguei a Maryland, logo procurei grupos de apoio a jovens portadores de câncer. Queria ser voluntária e ao mesmo tempo encontrar gente que tivesse algo em comum comigo, de verdade.

O tempo foi passando, me envolvi com a American Cancer Society, que era pertinho de casa e esqueci do assunto. Até que a doença resolveu dar as caras mais uma vez... E durante uma das visitas a Hopkins, vi algo sobre o Ulman Cancer Fund e sobre os Imerman Angels. Resolvi pesquisar mais na internet e acabei mandando um email para os Imerman Angels, através do site deles.

Para minha surpresa, no mesmo dia recebi um email do Jonny, o fundador da organização que assim como eu tinha sido surpreendido pela doença não uma, mas duas vezes. Falamos por horas e parecia que nos conhecíamos a vida toda. (Depois percebi que não é privilégio meu, o Jonny é assim com todo mundo.) O cara é do bem mesmo! Topei ser voluntaria dele na hora e dali para frente comecei a receber ligações e emails de pacientes que tinham problemas semelhantes aos que eu tinha tido no passado. E como câncer de fígado é raro e muito agressivo, há bem poucos voluntários, então acho que acabo com praticamente todos.

A organização do Jonny é sediada em Chicago, mas tem alcance mundial. O banco de dados dele "casa" pacientes e sobreviventes com o mesmo tipo de doença e que falem a mesma língua. Ele me disse até que há alguns que falam português.

Por ser uma organização tão bacana, eles trabalham com várias outras, inclusive com o Ulman Cancer Fund e foi através de um email do Jonny que resolvi ir a um evento do UCF e entrei para a organização. Desde então, o Jonny tem vindo para Maryland algumas vezes por ano e a gente sempre se encontra. Às vezes visita pacientes juntos, às vezes vai a festas, mas é sempre bom vê-lo e saber que os Imerman Angels estão cada vez mais fortes e mais numerosos.

A cada ano, durante a festa beneficente, o Ulman Fund premia indivíduos e organizações que fazem a diferença junto a jovens adultos portadores da doença. E este ano, merecidamente, o Jonny foi o ganhador do Hope Award, ou seja, Prêmio Esperança, que é dedicado a profissionais nas áreas de saúde, psico-social e de engajamento social que demonstram paixão por lidar com assuntos pertinentes às necessidades de jovens adultos portadores da doença. No dia a dia, eles oferecem esperança e compaixão aos adultos afetados pelo câncer.

Prêmio mais que merecido, mas o que eu não esperava é que me pedissem para gravar um depoimento sobre o Jonny, o que fiz obviamente com o maior prazer, pois o cara é 10! Até o Blake que às vezes é mais crítico e sempre mais observador que eu, gosta muito do cara. A gente sente que ele realmente se importa com os pacientes e milita muito pela causa. Desnecessário dizer que foi uma honra falar do Jonny e do seu trabalho à frente da organização.

E o mais tocante disto tudo é que quando a gente aceita ser voluntário, imagina que está fazendo a nossa parte ao ajudar alguém. O que a gente não percebe no início é que no final acaba sendo ajudado. Faz parte da jornada de cura cuidar da ferida alheia também. Uma palavra amiga, um gesto de carinho...tudo isto faz um bem enorme ao outro, mas tem um efeito ainda maior em nós. Quando a gente aceita ser "anjo" acha que vai acolher o outro, mas volta e meia acaba surpreendida ao perceber que mesmo sofrendo tanto, no meio de tanta dor e de tanta incerteza, esta pessoa acaba conseguindo te consolar...e os papéis se invertem, ela passa a ser seu anjo.

O trabalho voluntário é assim, transforma duas vidas ao mesmo tempo, pois ao contrário do que se pensa, não há papéis definidos -- todas as partes ajudam e são ajudadas, numa simbiose harmônica, também conhecida como solidariedade.

Muitas vezes a gente pensa no que a doença tirou de nós ou no trauma que ficou, mas esquece de perceber o que ela nos deixou de bom e no que ela transformou dentro da gente. Como diz a minha amiga Lu, que teve um linfoma agressivo mas agora está perfeita, o negócio é não deixar o efeito da pancada passar e jamais esquecer do que realmente vale a pena.

February 2, 2010

Refletindo

Tem peíodos que por algum motivo são bastante complicados na vida da gente. Nada de muito sério, ninguém entre a vida ou a morte, mas coisas e atitudes que têm pouca chance de mudança e isto vai chateando a gente.

Ando num período assim, quando preciso tomar uma decisão série e acabo varrendo a poeira para baixo de tapete, dando uma de avestruz, que realmente não tem muito a ver comigo.

Tem um elefante na sala e eu estou me recusando a ver. Venho tentando ignorar um problema para ver se ele desaparece. Não tenho tido sucesso, pois além de me perseguir o tempo inteiro quando estu acordada, agora resolveu invadir meus sonhos. Está me irritando e me tirando a paz. Tenho medo que acabe atrapalhando outros planos que tenho para mim.

Às vezes penso em jogar a toalha, mas não gosto de desistir. Ao mesmo tempo, penso que se esta situação se estender poso estar desistindo de mim. Penso que por medo, posso ficar ainda mais presa às algemas que tanto me incomodam.

Esta sensação me leva a lugares ruins. Muitas vezes me torna uma pessoa diferente de quem sou de verdade, mais cínica, mais amarga...coisas que eu jurei depois da doença nunca mais me permitir. Preciso ter uma conversa motivacional comigo mesma a cada cinco minutos...realmente não é o ue sonhei pra mim.

Então recebo um aviso que a minha amiga Dawn, que conheci no hospital antes do transplante de medula dela, voltou a escrever o diário online. Nas últimas semanas ela esteve doente demais e delirando.

Dawn está feliz por ter acordado e podido conversar com a família. Está feliz por ter conseguido dar uma voltinha pela ala do hospital. Dawn está contente com a possibilidade de voltar a azer quimioterapia, pois isto significa que ainda existe uma chance para ela. Apesar dos vômitos, apesar dos delírios, dos suores noturnos e do sofrimento, ela continua positiva, continua na luta.

E eu aqui sofrendo por ter que lidar com gente mal amada que resolveu tirar os recalques no mundo... Quanto nonsense!

Preciso levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima... E mais um dia vem pela frente!

Blue Jean Ball



Apesar da neve que caiu por aqui e pegou todo mundo de surpresa, a festa aconteceu, e quem ficou surpresa fui eu. Nunca ia imaginar que fosse aparecer num telão tão grande para tanta gente. Se soubesse, teria retocado melhor a maquiagem!