February 8, 2012

Expectativa

As semanas que antecedem meus exames semestrais são sempre caregadas de tensão, expectativa, ou em bom português, medo. Confesso que durante a maior parte do ano pouco penso no assunto, mas com a proximidade dos tais exames e das tantas horas que passo em Johns Hopkins, uma sensação desconfortável passa a tomar conta dos meus dias, e das minhas noites.

Mas não foi sempre assim. Durante os primeiros cinco anos depois da primeira cirurgia, este medo não exisita. Inocência? Arrogância talvez... O fato é que nem me passava pela cabeça que algo pudesse dar errado. Por algum motivo, achava que já tinha deixado tudo de ruim para trás, que todos os meus "pecados" estavam pagos. Encarava os exames como algo quase banal, como uma visita ao dentista ou até um hora na manicure: não é das coisas mais agradáveis, mas não causa grandes incômodos.

Marcava a ultrassonografia de manhã cedo e logo ia para o trabalho. Coisa de rotina. Com o passar dos anos, a ideia de que algo pudesse voltar a me afetar me parecia cada vez mais remota. Lembro que em dezembro de 2007, cinco anos após a primeira cirurgia, estava de férias no Rio e tinha marcado um almoço com antigas amigas de trabalho depois do exame. Estava superanimada, afinal já haviam se passado cinco anos e eu estava saudável e feliz. Blake perguntou se eu queria que ele fosse comigo e eu disse que não precisava. Meu pai estava indo para o trabalho e ia me dar uma carona até o hospital. Sorte minha, meu pai resolveu ficar. Estranho falar de sorte ao me referir a um dia em que ela parecia ter me abandonado de vez.

Recidiva. Não existe palavra mais temida na vida de um paciente/sobrevivente ou simplesmente alguém que já tenha visto o câncer de perto, cara a cara. É uma palavra feia que me causa imediatamente um terrível gosto amargo na boca. É pura injustiça. E é por isto mesmo que dizem o câncer é uma doença traiçoeira, quando você pensa que já se viu livre dele, lá vem ele e te puxa pela perna de novo. E te leva ao chão, à lona. Sem dó nem piedade.

Então estaria mentindo se dissesse que esta possibilidade não me causa medo. Procuro me acalmar e convencer a mim mesma de que com o passar do tempo, as minhas chances são cada vez melhores. As estatísticas estão ao meu lado, me garantem os médicos. Com o passar dos anos, a ideia de cura fica cada vez mais sólida, é verdade. Mas o fantasma daquela manhã ensolarada de verão, onde tudo parecia tão absurdamente normal, ainda me assombra. Espero que um dia estas lembranças ruins fiquem para trás e vou me esforçar para que isto aconteça em breve. Enquanto isto, vou tentando viver um dia de cada vez.

3 comments:

Luciana Bordallo Misura said...

Quantos anos tem agora Dani? Com certeza voce tem toda razao em ter medo, acho que qualquer pessoa sensata no seu lugar teria tambem. Mas como voce mesma disse, as estatisticas estao a seu favor, entao e melhor acreditar nelas! Boa sorte, muita saude!

Dani said...

Lu,
Em outubro deste ano serão 10 anos desde o diagnóstico e a primeira cirurgia. Mês passado, a segunda cirurgia completou quatro anos.
Beijos e obrigada pela força!

Só uma menina said...

Deus lhe guarde de todo o mal!