Não sei o motivo mas hoje não acordei bem. Meu humor deve estar lá no pé e voltei a sentir um sentimento que me faz muito mal. Hoje senti raiva. Não de alguém específico, mas do mundo. Me revoltei pela minha situação. Cansada de ter que me conformar com as migalhas que me são dadas. Exausta de ter que sorrir mesmo querendo chorar. Não agüento mais me fazer de forte. Não tenho mais forças para continuar dando uma de Polyanna. Cansei mesmo!
Tenho muita raiva dos médicos que me roubaram cinco anos da minha vida. Cinco anos em que achava estar completamente curada, cinco anos em que fiz exatamente o que me mandaram, que cumpri todas as ordens, desempenhei o papel de doente exemplar com perfeição. Tudo isso para que passados os cinco anos de acompanhamento pudesse ter enfim a minha vida de volta, pudesse ser uma mulher livre. Que nada!
Durante todo este tempo vivi uma grande ilusão! Passados dois meses do marco dos cinco anos, em vez de cruzar a linha de chagada, da cura definitiva, caí na casinha errada e tive que voltar para o começo do jogo! Quanta injustiça! Tinha planejado minha estratégia com tanto cuidado, tanta responsabilidade, nunca deixando de ir ao médico, evitando tudo o que foi recomendado, cumprindo cada uma das exigências, só para ter a certeza de um final feliz. Mas não foi bem assim. Desta vez a dedicação e a disciplina não me leveram aonde eu queria. A vida é realmente um jogo imprevisível e a minha surpresa não foi boa.
Agora casada queria muito começar a constituir minha família. Tudo indicava que isto iria acontecer em breve, até aquele fatídico dia, quando meu mundo, pelo menos o mundo com o qual eu havia sonhado nos últimos cinco anos, literalmente caiu. E todos os planos que eram feitos com todo o cuidado foram adiados indefinidamente. Aquele dia, aquela sala fria e aquela tela maldita não me saem da cabeça desde então.
Isso dói. Dói muito. A espera é dura e angustiante... Uns dias me sinto ótima e acho que vou superar tudo com facilidade. Outros dias, como hoje, tudo me parece tão nebuloso que pouco enxergo à minha frente e o que consigo ver não me traz alegria alguma.
Queria ter escrito um post cheio de otimismo, afinal mal cheguei aqui e já estou querendo fugir, mas antes de tudo preciso arrumar um lugar para depositar toda a dor e toda a raiva que estou sentindo hoje e agora. Raiva, dizem, faz mal para o fígado...e o meu ainda está em recuperação.
Vou tomar um banho para esfriar a cabeça. Amanhã é outro dia.