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February 24, 2009

Planeta Bizarro


Ontem, uma notícia me chamou atenção no site da CNN e do Guardian. A chamada fazia menção a uma estrela de TV que, morrendo de câncer, teria fechado um contrato com uma emissora de TV para um reality show. Além disso a tal "estrela", depois de receber o terrível diagnóstico de que só lhe restariam poucos meses de vida, tinha se casado sábado passado e vendido o direito de publicar as fotos para a revista OK!

A foto ilustrando a matéria mostrava uma jovem calva beijando um jovem de cabelos negros. Lendo a história, vi que a tal "estrela de TV" era Jade Goody, uma inglesa de classe baixa que havia se tornado famosa depois de participar de uma edição do Big Brother em 2002, se não me engano. (Pois é, estas coisas não acontecem só no Brasil, onde pessoas sem talento algum conseguem tranformar-se em "estrelas" do dia para a noite.) Depois da temporada no programa, Jade lançou perfume, livros, DVDs de exercícios e se tornou uma empresária de sucesso e "TV personality", como esta tribo passa a ser chamada.

Depois de alcançar a tal fama, em 2007, Jade foi chamada para uma edição especial do Big Brother, "Celebrity Big Brother", onde protagonizou episódios, no mínimo, de mau gosto. Sua performance culminou quando resolveu implicar com a atriz indiana Shilpa Shetty. Depois de muitos protestos, a inglesa foi execrada ao sair da casa pelos comentários de cunho racista.

Depois dos inúmeros pedidos de desculpa, Jade foi convidada a participar da versão indiana do programa que a tinha lançado para a fama. Já na Índia, durante as gravações, recebeu o diagnóstico de câncer cervival (ou do colo do útero) e teve que deixar o país às pressas. De volta à Inglaterra, pareciam que as coisas iam melhorando, mas nos últimos meses, e mais precisamente nas últimas semanas, Jade ouviu dos médicos que a doença se espalhava assustadoramente e não havia nada mais a ser feito, agora só lhe restam alguns meses de vida, ou dias, de vida.

Jade, que só tem 27 anos e é mãe de dois filhos, disse que sua prioridade é deixar algum dinheiro para eles, já que ela não poderá vê-los crescer, sendo assim está tentando levantar dinheiro da maneira que pode e sabe. Dizem que nas últimas semanas a quantia arrecada já chega a mais de 2 milhões de libras, nada mal para uma mulher de classe baixa, pouca instrução e nenhuma habilidade extraordinária.

Não consigo sequer imaginar o que se passa na cabeça desta jovem. Às vezes acho tudo isto de uma morbidez absurda, um produto perverso do nosso "culto à celebridade" que tenta vender jornais à custa do respeito pela vida humana. Às vezes vejo a tal moça como uma vítima, outras vezes como uma ágil manipuladora, tentando se agarrar a fama até o último instante. (Só não consigo entender o porquê.)Algumas vezes vejo a experiência como algo tão surreal que ela tenta encarar a morte como um projeto, mantendo-se ocupada ela tenta mascarar o medo e a dor. Ó único fato é que, salvo um milagre, o tempo de Jade diante das câmeras e longe delas se engota rapidamente.

É válida a tentativa de tornar a doença pública, pois já passei por isto e sei que a compaixão humana é sem limite. A única coisa boa de uma doença tão covarde é a luz que ela lança na maioria dos seres humanos. A generosidade que presenciei, o apoio que tive e as demonstrações de carinho vivenciadas por mim são algo indrescritível e por isto jamais me arrependo da minha decisão de dividir a minha experiência com aqueles que gsotavam de mim. Mas até onde vai o limite? Até onde se pode ir sem perder ocontrole da curiosidade alheia? Em que ponto exato começa a exploração da imagem e da dor alheias? Até quando vale se expor e dividir? Quais são as recompesas e as perdas?

Mas o show tem que continuar, e a tal moça que já foi chamada de racista, de burra, de malvada, agora acaba de virar heroína, pois graças a ela as doações para organizações ligadas ao câncer tem visto um aumento significativo nas últimas semanas, assim como a procura por exames preventivos.

O porta-voz de Jade que não quer que a morte da moça seja mostrada na TV. Segundo o guru Max Clifford, sua cliente deve realizar o batizado dos dois filhos e talvez conceda uma última entrevista ao famoso jornalista de celebridades, Piers Morgan. Segundo Clifford, depois disso Jade deve passar seus últimos dias longe dos olhos de curiosos. Será?