November 9, 2012

Dois -- parte um

Não me considero uma pessoa supersticiosa. Tenho algumas manias (quem não as tem?), tenho fé, mas acho que sou muito desligada para me apegar a rituais e a superstições. Mas outro dia, refletindo e pensando que este ano tem sido sem dúvida um ano de grandes desafios e dificuldades, me dei conta que em anos terminados em 2 a minha vida sofre uma grande reviravolta.

Obviamente, era nova demais para me dar conta do que aconteceu na minha vida nos idos de 1982...fora derrota do Brasil na Copa para a Itália... Mas dez anos depois, aconteceria algo que ia mudar a minha vida para sempre. 

Em 1992, consegui realizar meu sonho: recebi uma das 18 bolsas de estudo concedidas pelo governo americano a estudantes brasileiros de graduação. É difícil acreditar, mas este tinha sido meu objetivo de vida desde a minha primeira viagem para a Disney, aos 13 anos! Cabeça de adolescente é mesmo incrível.

Só que o meu sonho, logo no início, acabou tendo sabor de pesadelo. Na minha cabeça de adolescente deslumbrada, vida de bolsista na Virginia deveria ser bem parecida com a rotina dos personagens do Barrados no Baile, ou Beverly Hills 91210, um dos meus programas favoritos na época: todo mundo bonito, todo mundo dirigindo carrão, programação intensa, várias atividades e aventuras.

A realidade, no entanto, não poderia ser mais diferente já que meu novo lar era uma faculdade só para mulheres localizada numa região carinhosamente chamada de Bible Belt. E a minha nova cidade era conhecida nacionalmente por ser reduto de um certo Jerry Falwell, fundador de uma megachurch e da Liberty University. Para resumir esta história longa -- e como imagino que a maioria dos leitores jamais vai passar por Lynchburg, Virginia -- para quem achou que ia fazer parte do elenco de Barrados no Baile, acabei virando personagem de Footloose!  Sem Kevin Bacon, é claro.

Acrecente-se a isto tudo o fato da maioridade americana ser de 21 anos -- eu tinha 18 quando vim para cá -- o que tornava a possibilidade de alguma vida social praticamente inviável. Beber nunca foi meu forte -- detesto cerveja -- mas sempre gostei de sair e de dançar e estava cansada de fazer isto no Rio. Na Virginia, tudo era muito diferente do que eu havia imaginado -- nenhum glamour, pouca diversão e uma galera que não tinha nada a ver comigo. Além disto, eu era a primeira aluna brasileira a por os pés na universidade, que estava tentando diversificar o corpo discente, e como tal era uma ave raríssima. Claro que quando me viram pela primeira vez, as recrutadoras ficaram admiradas com o "tom claro da minha pele," mas aí já era tarde demais...a bolsa já era minha! Me disseram que esperavam alguém mais bronzeado e de cabelo ondulado -- e acabaram comigo. Incrível pensar que nunca tinham visto a minha foto, mas é bom levar em consideração que isto tudo aconteceu praticamente numa época pré-Internet.

E apesar da decepção daqueles que achavam que eu ia "dar um pouquinho de cor" à faculdade, comecei a sentir que se as diferenças verdadeiras tinham pouco a ver com o tom da minha pele ou a textura dos meus cabelos. Foi durante a minha temporada em Lynchburg que descobri acidentalmente que para a grande maioria eu não era considerada branca. A minha surpresa foi tanta e a minha indagação tão incessante que me pediram para escrever um artigo para o jornal da faculdade. Assunto: raça e etnia na America! Imaginem...desde quando sou autoridade nisso?! E do alto da sabediria dos meus 18 ou 19 anos...Mas o que nem me passava pela cabeça era que esta questão me acompanharia durante 20 anos, e hoje a minha perspectiva é bem diferente do que era em 1992 -- isto é assunto para outro post!

Com tantas coisas acontecendo de forma tão diferente do que havia imaginado, o início da minha temporada na faculdade foi tão acidentado a ponto de ter que pedir uma audiência com a decana. Na reunião, diplomática como sempre, chamei todo mundo de embusteiro e pedi o cancelamento da minha matrícula e a volta imediata ao meu país de origem. Já estava praticamente de malas prontas para voltar para a UFRJ quando a decana me pediu que esperasse um mês antes de tomar uma decisão. Como que num passe de mágica, neste mês conheci a minha orientadora, um pessoa fantástica, que me desafiou de uma forma tão brilhante quanto sutil...e acabei ficando por lá e me formando. E -- para minha sorte -- nunca mais fui a mesma.

6 comments:

Só uma menina said...

Curiosa nível máximo estou!!!!! Conta logo o resto, Dani!!!! Beijos!!

Luciana Bordallo Misura said...

Nossa, Dani, que historia! Nao sabia de nada disso, muito legal :-) Estou aguardando a parte 2...

Delma said...

Dani
Te admiro muito. Pela sua história de vida, de muita determinação e força. Sinto falta dessa determinação tão grande que vejo em vc. Li o seu post anterior e vc brincando com o secador, sabendo que talvez não pudesse voltar, mas mesmo assim com o rostinho super confiante, é um incentivo muito grande.
Parabéns por todas estas conquistas e que vc tenha muito mais, pois vc merece!
Beijinhos

Dani said...

Paula,
Só agora consegui escrever a parte dois...
Beijos e saudade!

Dani said...

Lu,
Pois é, a minha história aqui já rende 20 anos...ai meu Deus, como estou ficando velha!!! Agora sim, já tem a parte dois!
Beijos

Dani said...

Delma,
Obrigada pelo carinho... Não sou tão determinada assim não, vou tantando seguir em frente e me forço um pouco a olhar menos pra trás. A foto do secador, na verdade foi tirada quando cheguei do CTI e pude enfim tomar o primeiro banho de gente...com direito a lavar o cabelo e tudo! Daí a minha cara de felicidade...Beijos e fique com Deus!