22 de outubro de 2002 – uma terça-feira normal para todo mundo, mas não para mim. Ainda me lembro de ter acordado relativamente cedo, tomado café e logo depois ter partido rumo ao hospital, onde não fazia ideia do que me esperava. Menos de uma semana antes, tinha recebido o diagnóstico de que um tumor gigante no meu fígado teria que ser retirado às pressas. Segundo o médico, se por algum motivo o tumor que já tomava boa parte do meu fígado rompesse, eu morreria imediatamente de hemorragia.
Eu, que
nunca tinha sequer dado entrada num hospital, estava chocada demais para ficar
assustada. A única coisa que sabia é que a tal cirurgia me deixaria com uma
cicatriz enorme que atravessaria meu abdomen. Sabia também que precisaria de
transfusão de sangue pelo porte da intervenção, mas para dizer a verdade, não
fazia ideia do risco que corria. Uns chamam de autopreservação, outros de
mecanismo de defesa. O que quer que tenha sido, encarei o dia mais importante
da minha vida, como um dia normal.
Já no
hospital, recebo a visita da representante do banco de sangue. Ela queria me
ver antes da cirurgia e me dizer que eu era uma pessoa muito querida, pois em
pouquíssimos dias tinha conseguido uma doação de sangue record. Ao contrário do
que ela pensava, este mérito nunca foi meu, mas de tantas pessoas que cruzaram
o meu caminho naquele dia. Muitos doadores eram amigos muito próximos e
familiares, mas outros tantos eram amigos de amigos e amigos de amigos de
amigos, que sequer me conheciam. Em pensar que a eles devo a minha vida...a
esta enorme corrente do bem. Devo minha
a minha vida a muita gente – médicos, enfermeiros, amigos, familiares, e até a estranhos
que decidiram que naquele dia iam me salvar.
E 11 horas,
três choques hipovolêmicos e 10 litros
de sangue depois, eu lutava pela vida num leito de CTI. Pouco me lembro das
primeiras e cruciais 72 horas. Me lembro do anestesiologista que acariciava meu
cabelo e me dizia que eu tinha dado muito trabalho durante a cirurgia. Me
lembro dos enfermeiros que se alternavam espremendo chumos de gase molhada nos
meus lábios, me lembro do escuro, do barulho dos aparelhos e da sensação de
solidão que me acompanhou pelos cinco dias que fiquei por lá.
Não me saem
da memória também três “enfermeiros” que guardavam meu sono à noite: uma mulher
ruiva de cabelos ondulados, um homem branco calvo e um homem negro alto. Minha
grande surpresa foi descobrir que ninguém com estas características fazia parte
da equipe de enfermagem do CTI do Copa D’Or... Como existem coisas que ninguém consegue explicar, decidi que
aqueles três eram meus anjos da guarda. Aliás, depois da doença aprendi que existem
muitas coisas sem explicação...e aos poucos, vou aprendendo a conviver com
elas.
Olho para
trás e vejo os últimos 10 anos como um período de aprendizado intensivo. Suo
eternamente grata por ter vivido coisas que no meu caso poderiam facilmente
nunca ter acontecido: conheci pessoas fascinantes, lugares novos, vivi
experiências marcantes – encontrei a minha cara-metade, juntos lutamos e
conseguimos enfim trazer ao mundo nosso filho, Joaquim, que por muito pouco
poderia não estar aqui. E ao olhar para ele esta manhã, foi difícil conter as
lágrimas quando me dei conta que o resto da minha vida havia começado extamente
naquele dia de outrubro de 2002. Durante os últimso dez anos, aprendi bastante,
ganhei muito e também perdi – uma das pessoas mais importantes para mim.
A
experiência da doença me deixou muitos ensinamentos. Depois de tudo que passei,
gostaria de dizer que me tornei uma pessoa mais calma, mais iluminada e melhor.
Mas estaria mentindo. Continuo sendo eu...um pouco mais humilde, muito mais
sensível e 100% humana.
14 comments:
Querida, Dani
Impossível não se tocar com seu relato e sua história. Com certeza uma lição de vida, fé e esperança de q tudo pode dar certo e de q devemos sempre agradecer por nossa vida, saúde, família e amigos. Eventos como esse fazem coisas menores perderem todo o significado. Só posso desejar-lhe muitos mais anos, saúde e conquistas no futuro.
Um abraço bem apertado. Vc é uma vitoriosa!
Grande beijo!
Querida Renata,
Muito obrigada pela visita e pelo carinho. Concordo com você, são eventos assim que nos fazem entender o que realmente vale a pena.
Tudo de bom pra você também!
Beijos
Lindo, lindo, lindo. Impossível não se emocionar... Só posso dizer que sou grata a Deus por você estar aqui nesse mundo!!! Um beijo, Dani!
Lindo, lindo, lindo... Impossível não se emocionar com sua história! Só posso dizer que sou muito grata por você estar aqui nesse mundo! Beijo, Dani!!
Uau Dani, que chocante esse post. Só posso dizer que bom que o CTI ficou pra trás e lá se vão 10 anos que trouxeram muitos momentos felizes, e principalmente o seu marido e filho! Que se multipliquem em muitos outros anos de saúde pra você. E que a saudade da sua avó se torne menos triste e mais doce. Beijos!
Paula, você sempre tão carinhosa! Eu também dou graças a Deus pelo meu segundo ato, quando conheci pessoas novas e passei a ver pessoas que já conhecia de um modo totalmente diferente! Beijos!
Lu, sua colocação é perfeita. Ganhei muito nos últimos 10 anos. Perdi também, mas acho que cresci como ser humano. Obrigada pelo carinho! Bjs
ha poder de Deus!lindo sua historia!
Parabens pela estrutura e conteudo de seu blog, Forte abraço Renato Artesanato em MDF
Dani, andei meio ausente nos ultimos tempos, mas gosto sempre de ler noticias suas e esse post me deixou emocionada e arrepiada.
Sao experiencias fortes e, felizmente, voce as interpretou bem, crescendo, abrindo-se, agradecendo.
Achei incrivel a experiencia com as 3 pessoas que vc viu, embora nao fizessem parte da equipe. Eu acredito em coisas que nao se explicam (ainda).
Espero e desejo que os proximos anos sejam de muita saude e alegrias para voce e sua familia.
Um beijo
Vou lhe mandar um email. Acho que vc esta' no facebook, nao?
Gaby (gabgaby)
em lágrimas... nem dá pra comentar mais...
Renato,
Não poderia concordar mais com você. Há o enorme poder de Deus na minha história sim. Sinto sua presença ao meu lado a cada dia...
Obrigada pela visita!
Dani
Erika,
Obrigada pelo carinho de sempre...
Beijos!
Dani, estava viajando de férias quando você postou. Nossa, 10 anos...meus parabéns pelo seu aniversário de 10 anos! Digo isso pq o filho de uma colega de trabalho sofreu um grave acidente há 2 semanas, está se recuperando e ela disse que vai comemorar 2 aniversários para ele agora. Entendo então que esses 10 anos, apesar dessa irreparável perda, valeram a pena. Que venham mais muitos! Fico feliz de ter te conhecido nesse período. Pensei muito em vc na segunda por que jantamos com amigos e revi a Renatinha, daí quis passar aqui para ver como vc está e as coisas lindas que vc escreve. Bjs, Cris
Oi Cris,
Bom ter notícias suas! Acompanhei sua viagem pelo Facebook, que delícia!
Vamos ver se nos encontramos em janeiro!
Beijos e saudade
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