



Muita gente anda me perguntando o que fomos fazer em Honduras, então vou fazer um resuminho básico aqui.
Em abril, comecei a trabalhar para uma organização não-governamental que se dedica a ajuda humanitária e desenvolvimento internacional chamada CHF International. Apesar de pouco conhecida pelo público em geral, a organização tem mais de 50 anos e é a quarta maior receptora de fundos do governo norte-americano, estando presente em quase 30 países, incluindo Iraque, Paquistão, Afeganistão e na América Latina, principalmente na Colômbia, em Hoduras e obviamente no Haiti.
Trabalho no departamento de comunicação e meu foco são as parcerias com a iniciativa privada e comunicação corporativa, principalmente. Como não há sofrimento que dure para sempre, depois de peregrinar e pagar todos os meus pecados trabalhando para pessoas de difícil convívio – para não dizer coisa pior – finalmente consegui um chefe inteligente, competente e humano! E de quebra uma equipe de gente muito bacana. Dizer que a organização não tem seus problemas seria mentira, mas se comparado ao que vi lá fora, isto aqui é o paraíso. Mas voltando ao assunto, nosso departamente é reponsável por toda a estratégia de comunicação de todas as operações no mundo, então este ano quatro países foram escolhidos para uma análise mais detalhada e para um trabalho mais cuidadoso.
Honduras é um caso bem interessante, já que ao contrário de todos os outros países onde operamos, não há dinheiro nenhum oriundo da USAID (Agência Americana para Ajuda Internacional). A liderança conseguiu diversificar os doadores, projetos e tipos de financiamento, tornando-se uma grande história de sucesso. Os programas da CHF em Honduras vão desde projetos de infraestrutura agrícola, até programas de combate à malária e de apoio a pacientes soropositivos, passando por tráfico humano e educação.
Então depois de tudo programado, tivemos doze dias para percorrer o país inteiro e conhecer as pessoas que estão sendo ajudadas pelos nossos programas. Dizer que foi emocionante é pouco. Entrevistei cerca de 60 pessoas, que abriram suas casas e seus corações ao compartilhar conosco suas histórias, de luta, muitas vezes de dor, mas na maioria das vezes de superação e vitória. Conhecemos Wendy, uma jovem mãe de 30 anos que se beneficiou de um dos nossos programas em paceria com a Alcoa. Conseguiu uma bolsa de estudos num instituto politécnico e nós financiamos seu transporte e sua alimentação ao longo dos dois anos de curso. Wendy, que trabalhava nove horas em média numa máquina de costura, hoje é técnica de qualidade, tem um trabalho melhor, salário mensal e benefícios garantidos. Já comprou duas casas: uma para ela e para os filhos e outra, ao lado, para a mãe. Wendy ainda luta com um problema renal da filha de 11 anos, mas não perde a garra e a vontade de crescer.
Conhecemos também Gabriela, que enganada com promessas de dinheiro fácil e rápido, foi levada à Guatemala onde teve que se prostituir para viver. Engravidou, numa das brigas com o dono do estabelecimento, apanhou tanto que foi parar no hospital, onde os médicos, desconfiados, alertaram a polícia e contataram o Ministério Público. Ficou três meses escondida e depois foi enviada a Honduras, onde vive em um abrigo com dois de seus três filhos. Foi uma das entrevistas mais difíceis da minha vida. O olhar dela era puro pavor e antes de dizer qualquer coisa, desabou. Aliás, desabamos, eu e ela. O que dizer a alguém que com tão pouca idade já sofreu tanto? Mas no final, ao mostrar-me sua filha de 21 dias, ela já esboçava um sorriso. Apesar do medo e do trauma enorme, Gabriela quer viver. Quando pergunto a ela o que ela mais deseja, ela diz sem pensar: “Um trabalho, qualquer trabalho, desde que seja de dia.”
Conversamos também com pessoas que vivem com o vírus HIV e que apesar de tantos obstáculos, como pobreza, pouca instrução, poucas alternativas de trabalho, tentam levar a vida da melhor forma possível, criando seus filhos com amor e com carinho, provando que pobreza não é sinônimo de violência ou abuso.
Uma viagem é sempre uma jornada de autoconhecimento, um mergulho dentro de nós mesmos... Todo mundo sabe que sou terminantemente contra favela tours e coisas do tipo, que ao mesmo tempo glamurizam e exploram a miséria alheia. Fico enojada quando escuto comentários do tipo “Vendo como este povo vive, temos que dar graças a Deus por tudo que temos.” Nada me deixa com mais raiva do que este tipo de comentário ao mesmo tempo hipócrita e patético. Acho que a única razão que pode levar alguém a querer ver como vive “a outra metade” é um desejo genuíno de fazer a diferença, de ajudar.
O Blake desde o início embarcou direto na aventura, dizendo que preferia mil vezes passar as férias fazendo algo útil do que sentado de perna para o ar num resort no Caribe... (Quanto a mim, acho que combinaria os dois!) Ele acabou trabalhando tanto quanto eu e sendo o fotógrafo oficial da organização, para minha sorte.
O que vi em Honduras foram pessoas absolutamente normais, muitas vivendo sob circustâncias absolutamente cruéis, mas todas, sem exceção, gratas por cada um dos programas que a organização desenvolve em suas comunidades. Senti também que muitas delas tinham um carinho especial por mim, só por estar ali, perguntando e ouvindo um pouquinho da realidade delas. O que elas mal sabem é que quem tem que agradecer sou eu, por ter tido o privilégio de conhecer uma realidade tão diferente da minha e de certa forma poder ter feito parte dela por alguns dias.