March 18, 2010

Manuais de Gestao


Confesso que tenho uma certa aversao a manuais de a livros de auto-ajuda. Acho um blablabla danado e na maioria das vezes com pouquissimo conteudo.

Desde cheguei aqui tenho ouvudo cada perola que me da vontade de chorar... Me soam como se tivessem sido tiradas de um manual barato de gestao das Organizacoes Tabajaras. Ou este povo esta muito equivocado, atrasado ou eu nao nasci mesmo para viver no mundo corporativo.

As tres que tenho ouvido mais ultimamente sao de lascar, entao compartilho com voces:

* Nunca admita um erro. Esta eu nao engulo mesmo! E ja ouvi diversas vezes desde que cheguei aqui. "Nao importa o que acontecer, diga que nao sabe do que se trata e negue ate o final." Sinceramente, nao nasci para isto, pois a energia gasta em mentir pode ser muito bem utilizada ao assumir responsabilidade e resolver a questao. Acho que tal "regra" deve ter saido dos livros de Maquiavel, e na atual conjuntura me parece nao ultrapassada. Alem do mais, vai contra tudo que meus pais me ensinaram desde cedo. "Se for inocente e estiver certa, va ate o final. Se tiver cometido um erro, desculpe-se e ofereca-se para consertar o que estiver errado," meus pais sempre me disseram.

Ao meu ver, lideranca tem que ser decente, tem que ser responsavel, tem que saber os limites, e acima de tudo tem que enxergar os erros, admitir culpa, sim, e oferecer uma solucao para o tal problema. Mas nao e isto que teimam em ensinar na Escola dos Sem Escrupulos.

* Nunca peca desculpas, nao importa o motivo. Esta caminha lado a lado com o topico anterior e sinceramente me da ansia de vomito. Desde quando ser arrogante e estrategia de lideranca?! Ja ouvi gente dizer que mesmo lidando com clientes "nos nunca estamos errados e por isto jamais pedimos desculpas." Ainda bem que nunca vou ser cliente deste povo... Vou alem, para mim pedir desculpas nao vale muita coisa, a menos que seja um pedido sincero acompanhado de uma solucao para o problema. Como dizem por ai, "palavras o vento leva..."

* Nunca diga que nao sabe, pois isto demonstra fraqueza. Pois pra mim, nada demonstra mais fraqueza e inseguranca do que uma atitude sabe-tudo. E obvio que na maioria das vezes fica na cara que o tal fulaninho nao sabe lhufas do que esta falando, e quem tem a mais vaga ideia morre de vontade de rir na cara dele, afinal de contas, nada mais patetico do que um sem nocao querendo enganar os outros. No meu mundo, quem nao sabe tem que admitir que nao sabe e perguntar para quem sabe ou procurar se informar. Simples assim. Ninguem pode saber tudo o tempo todo. Melhor admitir e preservar a confianca dos outros do que se passar por idiota na frente de todo mundo. Por incrivel que pareca, isto acontece muito mais do que se imagina.

E e claro que ha outras, muitas outras... E voces? Qual foi a maxima mais ridicula que voces ja escutaram no mundo corporativo?

March 17, 2010

O Futuro E Agora

Sou viciada em livros, revistas, jornais e tudo que veicule informacao. Achei este video fantastico e ate fiquei com vontade de comprar o Ipad, o que me surpreende um pouco, ja que sou viciada no cheiro de livros e revistas, aquele cheiro de tinta no papel que para mim e um dos cheiros mais deliciosos que existem.

Quando o Kindle foi lancado isto sequer chegou a me passar pela cabeca, pois gosto de segurar o livro, folhea-lo lentamente, le-lo de tras para frente, marcar com orelhas, fazer anotacoes, usar caneta fluorescente. Eu sei, sou das antigas!

Mas este video da Wired sobre as enormes possibilidades para a midia me deixou simplesmente de queixo caido.

March 16, 2010

Escolhas Demais


Se tem uma coisa que me incomoda demais nos Estados Unidos e o excesso de tudo. Se esta liberdade de escolha e abundancia de opcoes sao a essencia do American Way of Life, nasci mesmo para ser subdesenvolvida. Nao que eu nao preze a liberdade, direito inalienavel e levado muito a serio neste pais, mas confesso que escolhas demais me deixam frustrada.

Quer exemplo perfeito? Ir a supermercado aqui me deixa tonta! Parece que todo turista adora ir a visitar estes templos do consumo, pois a gente ve coisas que nem imagina, em todas as categorias. Pasta de dente para clarear os dentes, para fortalecer o esmalte, para dentes sensiveis, para gengivas problematicas, sei la...eu so preciso de alguma coisa que combata as caries e deixe o halito bom. So isto. Mas ai e que esta o problema, a gente acaba sem conseguir encontrar o basico do basico. E no meu caso, saio de maos abanando e muito revoltada.

Mas americano ama supermercado e quanto maior, melhor. O povo aqui recebe o tal de Wegman's com o entusiasmo de quem ve uma celebridade. [Parece que vai abrir um perto da minha casa. Precisa ver a animacao do pessoal!] De fato o hipermercado e tao imenso que a gente se perde facilmente. Dentro tem padaria gourmet, uma secao de frutos do mar imensa, outra de comidas internacionais e ate restaurante/buffet com uma infinidade de opcoes. O pessoal vai la como se estivesse indo a um museu e faz compras e mais compras -- os carrinhos sao enormes! Da ultima vez que estive la, estava procurando um desodorante, bem normalzinho que vende em qualquer lugar... Em vez disto, sai com suco de maracuja Maguary, leite condensado e um monte de coisas que sequer tinha pensado em comprar. Depois de chegar ao caixa, me dei conta que a unica coisa que queria realmente comprar tinha ficado fora da lista, entao pensei que teria que percorrer todos aqueles corredores de novo e desanimei. Melhor passar na farmacia no caminho de casa.

Quando digo aqui que nao gosto de tal Wegman's, todo mundo me olha como se fosse louca ou tivesse dito alguma heresia. "Como pode nao gostar de um lugar que tem tudo?" Mas meu problema e justo este: tem coisa demais! Tanta fartura acaba me desconcentrando, me confundindo. Saio de la com dor de cabeca e atordoada. Nao e a toa que faz mais de um ano que nao piso no tal mercado...

Mas hoje felizmente descobri que nao estou sozinha neste barco e que ha pesquisas que comprovam que nao sou louca. A pesquisadora Sheena S. Iyengar, cujo trabalho foi citado em Blink, livro de Malcom Gladwell, acaba de lancar um livro proprio, The Art of Choosing, ou a Arte de Escolher, onde explica direitinho os efeitos e causas desta overdose de escolhas na sociedade moderna.

Ao que parece, gracas ao trabalho dela, hoje ja nao ha mais quase debate quando se diz que opcoes demais podem fazer com as pessoas escolham menos e tornem-se menos satisfeitas com as escolhas feitas. A pesquisa agora estuda os efeitos da tal overdose e procura determinar se atraves de treinamento podemos nos tornar melhores em tal tarefa.

Achei o tema superinteressante e ja vou adicionar o titulo a minha lista de must reads para 2010.

March 14, 2010

De Boas Intenções...

Sexta fui conversar com o diretor de uma das organizações que participo como voluntária. Foi um papo legal e no final ele me perguntou se eu toparia trabalhar com os pacientes de câncer jovens de um hospital em Washington, no início como voluntária, mas depois dirigindo o programa lá como staff.

Achei a ideia bacana, mas fui muito sincera com ele, disse que não me achava preparada. Ele demonstrou supresa...e foi logo dizendo que me achava a pessoa perfeita para o cargo por tudo que já havia feito na organização.

Então expliquei para ele que vistar os pacientes e ficar com eles no hospital é a parte mais fácil para mim. Fácil não seria exatamente a palavra, mas acho que é a parte que entendo melhor, afinal guardadas as devidas diferenças, passei por coisa parecida, então entendo os medos, as frustrações e a solidão que o paciente enfrenta. Por outro lado, não me acho preparada para enfrentar a parte prática da coisa, ou seja, conversar com o paciente sobre seus direitos, que aqui nos EUA são complicadíssimos, variam de estado para estado e de empresa para empresa. Para dizer a verdade, nem sei muito bem os meus, e vou descobrindo à maneira que vou precisando.

Expliquei para ele que me sentiria muito mal ao dar uma informação equivocada ou até mesmo incompleta para alguém que não tem nenhum tempo a perder e que precisa de tudo a tempo e a hora, pois um pequeno detalhe para uns pode ser a diferença entre a vida e a morte destes pacientes. Falei do caso do Mário, que está preso num imbroglio entre os governo federal e o governo estadual e cujo tempo aqui se torna mais escasso a cada dia. Eu entendo este senso de urgência, então sou muito alerta às necessidades. Acho que só um ombro amigo nestas horas não basta, o que o paciente precisa é de muito profissionalismo, muita competência, aliada à compaixão, é claro.

Ele não vê as coisas assim, acho que no fundo pensa que basta ter bom coração. Eles acham que fazendo maratonas e eventos estão lutando contra o câncer. Eu por outro lado entendo que só se pode lutar contra esta terrível doença em duas frentes: estando ao lado do paciente quando ele atravessa tantos problemas e tentando ajudá-lo a navegar o mar da burocracia ao mesmo tempo que oferencedo apoio emocional, ou fazendo pesquisa, se trancando em laboratório e correndo contra o tempo em busca de uma cura. Falando francamente, o resto para mim é balela!

Talvez um dia possa mudar de opinião ou até mesmo me empenhar para refocar minha carreira, com mais treinamento e estudo, é claro. Mas quando vejo um monte de gente vivendo esta fantasia narcisista, me lembro daquele velho ditado "De boas intenções o inferno está cheio." Nestas horas conta mesmo é competência e compaixão, de verdade.

March 11, 2010

Saúde Urgente

Quanto mais tempo passa, menos me conformo com algumas coisas aqui. A questão do sistema de saúde então quase me mata de raiva. É a tal coisa do individual e do coletivo. A maioria das pessoas com quem converso -- fora do trabalho -- é contra o plano do Obama. O argumento é sempre o mesmo "A gente nunca sabe como ele vai mudar as coisas. Provavelmente vai aumentar o preço do meu plano para poder subsidiar a opção pública." Ou no caso dos idosos "Vai tirar dinheiro do Medicare para pagar plano para os mais novos." As palavras mudam, mas o argumento é o mesmo "Para mim está bem assim, então que se dane o outro!"

Talvez se minha vida tivesse tomado um rumo diferente, aliás o rumo planejado, eu pudesse me incluir no grupo "Não se mexe em time que está ganhando" ou "Tira a mão do meu bolso," mas felizmente ou infelizmente os desvios me levaram a um caminho diferente, uma trilha que me impede de ignorar o outro, ainda mais quando o outro está doente, quando o outro está necessitado.

Há algum tempo falei num post do plano de saúde que me rejeitou por causa da meu histórico médico. Para minha sorte, sou casada e tenho plano de saúde do meu trabalho antigo que pude manter a um preço decente, então minha história tem final feliz, por pura sorte.

Não tem final feliz porque eu trabalhei duro, porque eu estudei, porque cumpri com minhas obrigações, paguei meus impostos e sempre fiz tudo que era esperado de mim. A minha história tem final feliz não por mérito, mas pela mais absoluta sorte. E isto está completamente errado.

Hoje conheci o Mario, um boliviano que é cidadão americano e é das pessoas mais eloquentes e carismáticas que já vi. Ele está internado no hospital da Universidade de Maryland, onde eu trabalhei, e por coincidência, acabei indo visitá-lo. Ele tem leucemia e acaba de ter um recidiva, além disso ainda não encontrou doador compatível. (Os médicos duvidam que isto aconteça.) Então está participando de um teste clínico fase 1, sua única esperança.

É claro que a história é tocante, mas o mais triste não é ver uma pessoa doente é ver que além da doença ele tem que se preocupar com tantas outras coisas, pois o Estado de Maryland decidiu que se ele está pedindo ajuda para custear seu tratamento não pode se qualificar para licença-saúde. Não me façam perguntas porque eu também não entendo, mas é claro, me revolto.

Mario trabalhou na mesma empresa por 14 anos, sempre teve plano de saúde, previdência privada, etc. Só que ano passado a empresa faliu e ele foi gerenciar um restaurante, empresa familiar que não oferece benefícios e quando mais precisou, não teve ajuda. Contribuiu a vida toda e agora seus benefícios são negados.

É revoltante e ao mesmo tempo corta o coração ver um homem jovem e orgulhoso dizer "Nunca pedi ajuda de ninguém para nada. Nunca pedi auxílio-desemprego, food stamps, Medicaid e agora impedido de trabalhar os caras dizem que só podem me dar 350 dólares por mês. Quem vive com isto? Pago $1500 por mês na minha casa."

Aqui não tem Defensoria Pública,Procuradoria ou coisa do tipo, a única opção é encontrar um advogado que trabalhe pro bono e ajude o Mario a navegar este mar de ignorância e injustiça... O tempo não está a nosso favor, mas nunca desisti de acreditar em milagres.

Cada vez tenho mais certeza de que não é só o sistema de saúde que está errado aqui...

March 10, 2010

Livre

Ontem foi meu último dia no trabalho. Eles me pediram para ficar part-time, o que quer dizer ir ao escritório uma vez por semana e trabalhar de casa outro dia. Acho que desta forma vou conseguir gerenciar o stress que tinha tomado conta da minha vida desde outubro.

Além de perder mais de duas horas por dia no trânsito, o stress diário estava realmente mexendo comigo, e logo eu que sempre me achei dura na queda. Agora entendo bem quando as americanas resolvem parar de trabalhar depois de ter filhos, ou quando alguém de 40 anos decide dar uma guinada na vida, mudar de carreira e voltar a estudar. Consigo até enxergar o motivo de tantos incidentes/tiroteios/mortes em local de trabalho. Do dia para noite tudo ficou muito claro para mim.

Falando francamente, o trabalho para muita gente neste país é completamente opressor. Muito se fala da China, mas as coisas para muita gente nos EUA não são tão diferentes assim. No país do Tio Sam, não existe lei que garanta licença por motivo de doença, alguns empregadores oferecem, outros não. Licença maternidade? No papel, dizem que a gente pode ficar seis semanas em casa se tiver parto normal e oito se tiver cesariana, mas tem muita gente que não consegue tirar isto. Existe também um tal de Family and Medical Leave Act de 1993 (FMLA) que permite que um emprega possa gozar três meses de licança não remunerada, mas mais uma vez, isto vai depender do empregador. Não há lei federal que o obrigue a nada. Aliás, a maioria das pessoas sequer sabe que tal lei existe.

Sendo brasileira, a gente sempre acha que o Estado impõe leis loucas que oneram demais os empregadores, o que consequentemente contribui para o desemprego no país. Não sou economista, não sou especialista, não sou coisa nenhuma, mas quando digo aqui que todas as minhas amigas no Brasil tem auxílio-creche ou auxílio-escola para os filhos, ninguém acredita. Licença-maternidade de quatro meses...seis para funcionárias federais...os gringos acham que estou brincando...férias de 30 dias corridos? Só pode ser piada. Aqui, se ficar doente perde o emprego e junto com ele o plano de saúde, a licença-médica e todo o resto. É cada um por sim, mesmo. A coisa só fica um pouco mais humana quando se trabalha para o governo ou para uma meia dúzias destas empresas que são ilhas de excelência...

Nunca tive a menor simpatia pelo comunismo, que me parece totalmente anacrônico na atual conjuntura, mas entrar nesta engrenagem louca que é o que se vê por aqui, me parece suicídio. É claro que há exceções. Para nossa sorte o Blake é uma delas -- trabalho superlegal, gerência mais que compreensiva, excelentes benefícios, etc. Mas são poucos, muito poucos que podem se incluir neste seleto grupo. O resto do pessoal rala muito em condições muitas vezes inacreditáveis.

É por isto que por enquanto estou decidida a só aceitar voltar ao trabalho full-time se um emprego bacana aparecer. Se demorar um pouco, obviamente vou ficar mais ansiosa, mas resolvi priorizar a minha saúde e a minha felicidade, ao menos por enquanto.

March 6, 2010

Falando para o Board

Semana passada o Brock, diretor do Ulman Cancer Fund for Young Adults, perguntou se eu teria uns 10 minutos para dar um breve depoimento para o board e o staff dele. Como estaria por aqui e tenho uma relação bem legal com a organização, aceitei prontamente o convite.

Ao contrário da grande maioria das pessoas, não preparo o que vou falar. Detesto ler notas e tenho medo de esquecer alguma frase memorizada e tropeçar no meio do caminho. Além disto, ele tinha me pedido para contar a minha história e falar um pouco do meu envolvimento com a organização. Acho que até meus amigos já sabem a minha história de cor!

O mais engraçado é que apesar da profissão que escolhi e de sempre ter falado em público, sempre morri de medo deste tipo de coisa. Nunca tive nenhum problema de falar para grupos pequenos, numa roda de amigos, mas bastava me colocar de pé e de frente para estranhos ue a coisa mudava de figura. Mesmo sem nunca ter negado um convite, já passei várias noites em claro só de pensar em palestras ou apresentações. Mas de repente, pouco mais de um ano atrás, notei que o tal medo tinha desaparecido... Do dia para noite! De uma forma superestranha, como a maioria das coisas que me acontece nesta vida.

Mas voltando à apresentação para o board, acho que foi bem bacana. Consegui condensar quase oito anos em poucos minutos e ainda sobrou tempo para falar um pouquinho do trabalho voluntário que faço para organização e é lógico que não poderia perder a chance de fazer pressão para que eles investissem mais no trabalho junto aos pacientes nos hospitais, principalmente no Centro de Câncer da Universidade de Maryland.

Não sei dizer se meu depoimento vai ter algum efeito surpreendente, mas sempre que falo o que penso, acho que pelo menos já comecei a fazer a minha parte.

Vamos ver no que dá...