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June 30, 2009

Tylenol e Fígado

Desde que operei o fígado pela primeira vez, mantenho distância de Tylenol e nos últimos anos então aboli completamente da minha vida, junto com praticamente todos os analgésicos, anti-inflamatórios e medicamentos que precisam ser tomados a longo prazo. O meu fígado já aguentou tudo que podia aguentar, depois de passar por duas cirurgias enormes, o coitado merece um descanso.

Esta semana o FDA está debatendo o que fazer com o Tylenol e outras drogas similares. Os mais alarmistas defendem até sua retirada do mercado. Semana que vem um painel de especialistas vai debater como limitar os danos ao fígado causados por pacientes que tomam o remédio.

Mas não é só ot Tylenol, o problema é um ingrediente chamado acetaminofena, também encontrada em remédios que podem ser comprados sem receita, como Exedrin, NyQuil e Theraflu, que pode causar danos ao fígado. Acetaminofena é a droga mais usada nos EUA. No Brasil, não deve ficar atrás.

Embora o FDA defenda que a droga é segura quando tomada na dosagem recomendada, a cada ano cerca de 100 pessoas morrem de overdose acidental de acetaminofena. O grande problema é que o ingrediente está presente ém vários analgésicos, anti-térmicos e xaropes, o que quer dizer que os pacientes não estão cientes de que tomam vários remédios que contem o mesmo ingrediente, o que leva a uma overdose de acetaminofena.

Quando a minha grande amiga Jamie faleceu por falência das funções hepáticas, a maioria de nós ficou sem entender nada. Lembro que na época, pouco antes da minha própria doença no fígado ser descoberta, só se dizia que ela tinha tomado muito Tylenol e que o fígado tinha basicamente explodido, na linguagem leiga. Achei tudo muito estranho, mas me lembro bem que ela se auto-medicava bastante e usava Tylenol como se fosse água...

Como diz a minha chefe, que é médica, não é porque não precisa de receita que deve ser usado como bala. Remédio é sempre remédio e traz sempre efeitos colaterais.

Fica a dica...

Pelo menos desta estou livre!

December 3, 2008

Plano Anti-Stress



Acabo de voltar da médica que escolhi para ser minha clínica geral. Ela é um amor e tem experiência de sobra com pacientes que já enfrentaram câncer. Hoje fizemos juntas um plano anti-stress que vou ter que colocar em prática o quanto antes. A minha meta para 2009 sou eu mesma e ela disse que é melhor começar já.

Saí da consulta bem otimista -- milagre sair de médico mais otimista, mas aconteceu! Ela deu uma olhada rápida nos meus exames do fígado, viu o laudo da mamografia e ficou feliz com a cartinha do meu ginecologista que diz que estou ótima. Disse que ao que parece o último tumor foi residual da primeira cirurgia e a ausência de malignidade nos linfonodos indica isto. "Não há nada que não me convença de que tudo já ficou para trás e que você está perfeitamente bem, basta olhar para você," ela me disse. Saí de lá feliz.

Para que nosso plano não caia no esquecimento, resolvi registrá-lo aqui. Não prometo implementar tudo de uma vez, mas vou procurar chegar ao final da lista.

1) pedir ao médico de Hopkins que faça um plano de acompanhamento que seja implementado pelo clínico-geral (ou seja, ela!). Sendo assim, minhas traumáticas visitas a Hopkins ficariam limitadas a uma ou no máximo duas por ano!

2) escutar uns CDs de "guided imagery" -- uma meditação mais ativa

3)yoga

4) tomar 1 mg de ácido fólico por dia (acho que já tomo, mas vou chegar o rótulo!)

5) acupuntura

6) ler o livro "The Power of Now"


Agora sendo realista:

1) vou ver o que o médico de Hopkins vai fazer -- acho até que ele vai ficar feliz de se ver livre de mim mais um tempinho

2) vou comprar os tais CDs e me forçar a ficar paradinha escutando (vai ser dose!)

3) yoga -- vou visitar um studio que parece ser legal, mas só começo as aulas quando voltar, depois do Natal

4) vou checar o rótulo do complexo vitamínico para ver se preciso aumentar

5) acupuntura -- vou ver se acho algum médico que faça acupuntura, pois meu convênio só paga pelas sessões feitas por médicos. O plano B vai ser tentar um descontinho!

6) vou dar uma olhada na Internet e comprar o livro ou, melhor, ver se acho na biblioteca perto de casa.

Bom, and that's that! Agora é só tentar manter o nível de stress num patamar aceitável. Com a minha chefe isto é semi-impossível, mas há de se ser positiva!!!

August 25, 2008

Acesso à saúde


Das maiores injustiças do mundo está a doença. Ela não escolhe hora para chegar nem vítima para atacar. Um dia se está bem e saudável, outro dia se luta contra a morte. Nada me parece mais injusto, mais covarde.

Aliás só há algo mais covarde que a doença: a falta de acesso à saúde, que em teoria é um direito de todos e não um privilégio. Mas na verdade este direito não é universal e perversamente é negado àqueles que mais precisam: os mais pobres, os mais frágeis, os mais velhos, os mais jovens, os negros, os mestiços e os que moram longe dos grandes centros urbanos.

Isto me incomoda profundamente, me afronta. Cada vez que escuto um caso de alguém que morreu esperando atendimento ou um paciente que aguarda cirurgia enquanto sua saúde se deteriora, sinto uma pontada no coração. Sei que isto não me faz diferente de nenhum ser humano decente, mas acho que em mim isto têm um significado maior, pois sei o que é estar naquela posição de perplexidade, de impotência, mas não imagino o que é precisar de cuidado e não ter. Por que eu tive tudo a tempo e a hora e outros não têm?

Não tenho o que muitos chamam de "survivor's guilt" ou complexo de culpa do sobrevivente, mas me revolta saber que tantos não vão ter a sorte que eu tive. Acho que o problema esta bem aí, saúde não deveria ser uma questão de "sorte", deveria ser direito assegurado a todos.

Não sei o que as autoridades estão fazendo no Brasil, fora colocar na cadeia pessoas inocentes e impedir que médicos possam salvar a vida de pacientes em estado grave, mas felizmente aos poucos vou me inteirando do que acontece por aqui. E graças a Deus, pelo menos aqui em Maryland, as coisas são diferentes.

Sempre soube que saúde era uma questão muito delicada nos EUA, um paradoxo numa potência mundial onde não existe cobertura universal. Agora vejo isto tudo muito de perto, em primeira mão, e me convenço de que o Rio e Baltimore têm muito em comum, uma população pobre e desassistida, violência e miséria. Em muitos aspectos, Baltimore é uma cidade de terceiro mundo, muito semelhante ao Rio, São Paulo ou Salvador.

Se no Rio, escuto algumas histórias tristes, aqui em Baltimore, tenho números e estatísticas que ilustram um quadro deprimente e expõem a fragilidade do sistema de saúde norte-americano.

Por incrível que pareça, um homem negro nascido em Washington, DC, capital dos EUA, tem uma expectativa de vida 57.9 anos -- menor do que os homens nascidos em Ghana (58.3 anos), Bangladesh (58.1 anos) ou na Bolívia (59.8 anos). Em compensação, uma mulher de ascendência asiática nascida em Westchester County (subúrbios ricos fora de Nova York), pode esperar viver em média 90.3 anos.

O meu novo emprego no Departamento de Políticas e Planejamento na Escola de Medicina, se propõe acabar com estas disparidades, facilitando o acesso das minorias à saúde, oferecendo programas desenvolvidos especificamente para estas comunidades negras, latinas, indígenas e rurais, levando em consideração as barreiras geográficas, culturais e lingüísticas. Tenho certeza que será uma experiência inesquecível e que vai me abrir os horizontes de uma forma assustadora. Se no Brasil, faço parte da "maioria", aqui nos EUA, sou latina (com muito orgulho!) e questões como esta assumem uma dimensão completamente diferente para mim.

March 16, 2008

A Balança & Eu

Esta semana fez um mês que começamos nossa "dieta maluca". O que parecia um desafio imenso no início acabou se tornando uma outra aventura memorável. E o que parecia restrito e sem graça tornou-se uma descoberta fascinante.

Várias vezes havia flertado com a possibilidade de mudar minha dieta radicalmente, pois durante a maior parte da minha vida lutei bravamente contra a balança sem muito sucesso. Tentei todas as dietas de moda e mais algumas, fui a todos os "médicos" badalados no Rio de Janeiro em busca da dieta ideal. Tomei vários "remedinhos", também conhecidos como "bombas para emagrecer", aquelas cápsulas "inofensivas" carregadas de anfetamina, diuréticos, hormônio para tireóide, e sei lá mais o que. Fui escrava destas drogas durante anos.

Logo eu, que sempre fui completamente contra a qualquer tipo de droga e me orgulho cada vez que digo que jamais cheguei perto de um cigarro de maconha. Ao contrário da maioria dos adolescentes, nunca cedi à pressão dos amigos, achava de não precisava de coisa nenhuma para relaxar ou me divertir. Isso era coisa pra gente fraca. E eu sempre fui forte. Ou pelo menos achava que era.

Já para me sentir magra valia tudo, ou quase tudo. Minha relação com peso era meu calcanhar de Aquiles, sempre soube disso. Comecei a fazer ballet aos seis ou sete anos justo por causa do meu peso! Sempre fui uma criança fofinha, mas peocupada com as conseqüências de tanta fofura no meu futuro, minha mãe me matriculou numa academia de ballet. Ela dizia que eu faria uma boa atividade física ao mesmo tempo que aprenderia uma dança que tornaria meus movimentos mais graciosos.

Ela só não contava que eu fosse me apaixonar completamente pela dança. Em pouco tempo, minha vida se resumia a ela. Aulas de manhã, aulas à noite e ensaios no fim de semana. Dietas e mais dietas começaram dali: nada de Coca-Cola, sucos sem açúcar e adoçante no meu Nescau. Obviamente emagreci bastante, mas não o suficiente para me tornar uma bailarina profissional. Tive aí minha primeira grande desilusão. Entendi que apesar da minha enorme dedicação e esforço hercúleo, jamais seria a bailarina que eu queria ser pelo simples motivo de são possuir os atributos físicos necessários para o papel. Olhando as fotos hoje, me acho bem magra, mas na época me via uma baleia toda vez que me olhava no espelho. De acordo com a minha professora, meu pé não era bom o suficiente, meus saltos não eram altos o suficiente, minha perna não era fina o suficiente. Em compensação a minha disciplina e a minha determinação tinham me levado até longe demais, pois sem nenhum dos atributos óbvios eu estava ali, uma menina ainda, na companhia de ballet semi-profissional. Entretanto, muito cedo, do alto dos meus treze anos, tinha entendido que nada importava, que eu jamais seria a bailarina que sonhava um dia ser.

Desanimada com as perspectivas medíocres, tempos depois abandonei o ballet, que ao meu ver já tinha me abandonado há muito tempo, ou melhor, que nunca tinha me aceito. Foi ali que pela primeira vez me vi abatida, pela primeira vez na vida fiquei deprimida e comecei a entender que teria que me reinventar. Aos treze ou catorze anos tinha que deixar todos os meus sonhos de lado e começar a pensar em outros. Mal sabia eu que o talento adquirido ali, a habilidade de mudar de foco e de estratégia rapidamente, seria exigido muitas outras vezes durante a minha vida.

March 3, 2008

Médicos made in USA

Nada me irrita mais neste mundo do que lidar com médicos americanos. Realmente só de pensar no assunto perco o pouco humor que me resta. O tal Juramento de Hipócrates, aquele que fala em ajudar ao próximo, servir aos doentes ou coisa parecida não deve valer muita coisa por aqui. Estes seres humanos frios, que se mantém encastelados em consultórios e universidades guardados por secretárias antipáticas e grosseiras, pois é, aqui eles recebem o título de médicos, com raríssimas exceções.

Acabei de ligar para o tal Dr. Choti de novo -- ainda não tive a honra de conhecê-lo, mas já estou de saco cheio dele e da secretária idiota. Liguei para confirmar com a secretária que ela tinha recebido meu fax e para dizer a ela que o tal Dr. Kamel, radiologista, tinha dito que poderia ver meus exames. A débil-mental não fazia idéia de onde estava meu fax e quando comecei a falar do Dr. Kamel, ela ligou a tecla F e atacou com o blablablá default: "A senhora tem que encaminhar seus dados que serão avaliados pela equipe médica. Depois de decidida a conduta, entraremos em contato e decidiremos se há necessidade de marcação de consulta, etc, etc..." Dá vontade de enforcar uma imbecil destas! Será que ela sabe que está lidando com pacientes que têm uma doença seríssima e estão passando por um período muito difícil? Será que esta energúmena sabe o que é ter um tumor que cresce sorrateiramente no seu fígado? Acho que não. Ela não pode ser tão leviana assim.

Desnecessário dizer que estou revoltada. Mas isso não faz bem pro meu fígado, então o Blake vai ter que levar a papelada para o trabalho de novo, mandar o fax e ligar imediatamente para a bendita secretária para ver se ela já nos fez o imenso favor de checar a máquina de fax. E eu aqui que pensava que isto era parte das atribuições dela! Quanta inocência a minha...

Enquanto isso recebo uma cartinha da clínica ginecológica que se Deus quiser -- e os médicos e secretárias deixarem -- passarei a frequentar. Na verdade não se trata de uma carta, mas de uma cartilha com milhares de formulários a serem preenchidos além de uma lacuna onde devo escrever o tipo de plano de saúde que pretendo usar (óbvio, eles não atendem pobre sem plano!) e um lembrete de que se não desmarcar a consulta, paga-se uma multinha de $25.00. Ai que povo mais mercenário! Não me importo tanto com as exigências inúmeras desta máfia de branco por aqui, mas com o modo rude com que os pacientes são tratados, parece que somos lixo!

Agora começo a entender por que os americanos são fanáticos por sites como webmd.org e tantos outros que oferecem informações médicas. O motivo é bem simples: o povo aqui sequer consegue ver a cara do médico, que dirá ter vinte minutos para fazer umas perguntinhas a ele. Uma loucura!

Bem, agora que já desabafei, meu fígado agradece. Como quem está na chuva tem que se molhar, vou lá preencher o formulário da tal ginecologista antes que me esqueça e amanhã volto a encher o saco da idiota da secretária que a estas alturas já está com a orelha quente de tanto que falei mal dela.

Para quem tinha curiosidade, vai mais um pedacinho da minha American Way of Life. A vida no primeiro mundo nem sempre é tão doce quanto parece.

January 21, 2008

Mudanças Alimentares

Que o ano de 2008 será o ano das mudanças não me restam dúvidas. Eu que sou avessa a qualquer tipo de mudança, aos poucos vou me conformando com o rumo que a minha vida vem tomando. Muitas vezes acho que as rédeas da minha própria vida me escapam. Outras vezes acho que sou eu que busco esta "destruição criativa", que preciso de um certo nível de caos, desordem e incerteza para sobreviver.

A verdade é que nunca planejo as famosas faxinas de fim de ano ou sequer faço as listas de ano novo, já tão batidas. Este ano entretanto, as mudanças tem ocorrido numa velocidade assustadora que não me resta nada a fazer a não ser me render a elas.

O catalizador disto tudo foi mais uma vez o meu fígado, que novamente já dava sinais de perigo, mas isto tudo era só o início.

Depois da cirurgia e de um diagnóstico no mínimo complicado, decidi romper com o médico que me acompanhava desde a primeira cirurgia, há cinco anos. E justo o tal médico que era Deus para mim. Que me monitorava atentamente, que decidia o que eu fazia, que era a última palavra em tudo para mim, mas que nas últimas semanas me trouxe mais pânico do que tranqüilidade e por isso deixou de ser referência. Por estes motivos, e a pedido do próprio cirurgião, tive que escolher o meu caminho, que não mais seria guiado por ele.

Logo depois de escolher a corrente médica que ia seguir e decidir que o meu foco principal seria a minha saúde e conseqüentemente a minha felicidade, liguei para a University of Maryland e pedi meu desligamento. Foi triste, já que a minha chefe é uma pessoa ótima, mas o trabalho em si não era o que eu esperava e as três horas diárias no carro eram mais do que eu poderia suportar. Chorei ao falar com ela ao telefone. Desliguei em meio a soluços, mas olhando para trás, foi a decisão mais sábia.

A outra mudança, que implemento aos poucos, é relativa à minha alimentação. Conversando com o Dr. Joaquim, disse a ele que tinha saído do meu emprego e ele elogiou a minha decisão, acrescentando que o mais importante agora era que eu fizesse uma mudança radical na minha alimentação, deixando os corantes artificiais para sempre e substituindo todo alimento processado por muito "verde".

Lembro ter lido muito sobre a famosa dieta dos alimentos crus -- a dieta básica deve ser constituída por 80% de alimentos crus e 20% de alimentos cozidos -- e dos resultados animadores em pacientes de câncer. Confesso que achei a idéia interessante, mas muito pouco prática, principalmente para quem trabalha fora. Queria melhorar a minha qualidade de vida, mas sou muito cética quanto a estas novidades new age e tenho as minhas reservas sobre tudo que me parece muito radical.

Procuramos um meio termo. Como o Blake é muito saudável, compramos um juicer maravilhoso e passamos a tomar um suco milagroso diariamente. Desde que soube do tumor, fizemos um tratamento de choque a base de suco de espinafre, maçã, beterraba e cenoura. Pode parecer uma mistura horrível, mas não é. O gosto é até agradável. De vez em quando acrescentamos laranja, mas só esporadicamente, pois de acordo com o Blake, não se deve misturar legumes e frutas, com exceção da maçã, que é coringa.

Conversei com o Dr. Joaquim rapidamente sobre isso e ele gostou da idéia. Foi muito enfático ao dizer que esta mudança alimentar é urgente e essencial. Ainda não pesquisei muito sobre a dieta, mas aos poucos abandono os refrigerantes, corantes, conservantes e condimentos em busca de uma alimentação mais simples e "natural". Como sei que este assunto interessa a muita gente, vou procurar postar meus achados aqui.

Vai ser uma experiência interessante, pois não tenho nenhuma afinidade com a cozinha e só gosto de comidas exóticas e diferentes, então tenho um desafio e tanto à minha frente. Mas como 2008 já começou com um mega desafio, acho que este vai ser mais fácil do que imagino.

October 18, 2007

O livro está começando...

Durante cinco anos não chorei. Acho que por falta de tempo...ou por falta de coragem. Depois do choque inicial e de algumas poucas lágrimas derramadas, simplesmente mergulhei de cabeça na cura da minha doença. Não tive tempo de discutir, de duvidar, de questionar. Todo tempo que me restava era investido na minha recuperação. Para frente é que se anda, era o que eu dizia a mim mesma todos os dias.

Por incrível que possa parecer, em nenhum momento sequer me perguntei por que tal coisa tinha acontecido comigo. Também não tive chance de me revoltar e ou encontrar culpados. Tudo que eu queria era que aquela tempestade passasse e que eu pudesse voltar a viver a minha vida como se nada tivesse acontecido. Mal sabia que nada jamais seria como antes. Melhor assim.

Fazia algum tempo que me sentia um pouco fraca e cansada, mas achava que tudo era conseqüência da vida atribulada em Nova York no final da década de 90. Estava realizando o meu sonho, vivendo na cidade mais importante do mundo, conhecendo pessoas e lugares fascinantes e tentando aproveitar ao máximo aquela experiência única. Devia ser pressão baixa ou stress, nada preocupante.

E os anos foram passando e o cansaço aumentando...mas eu continuava achando que era a vida de trabalho e compromissos sociais que estava afetando o meu corpo. No final de 2000, fui ao Brasil visitar a família e esperar a minha troca de visto. Foi aí que comecei a prestar mais atenção à minha saúde, muito mais por necessidade que por escolha.

Acabei decidindo não voltar mais a Nova York e aceitando uma proposta de trabalho no Rio para ficar mais perto da família. Meus amigos e meu coração ficaram em Nova York, mas algo me dizia que a festa tinha chegado ao fim e era chegada a hora de voltar para casa.

A adaptação ao Brasil foi difícil, mais difícil do que havia imaginado, mas a minha decisão já tinha sido tomada e eu nunca fui daquelas pessoas que ficam se lamentando pro resto da vida. Esperneei um pouco no início e custei a achar a minha turma, mas aos poucos ia entendendo que precisava fechar um capítulo da minha história de uma vez por todas.

E o tempo foi passando, minha saúde parecia ter melhorado, não me sentia já tão cansada, mas a minha anemia teimava em não me abandonar. Devo ter ido a mais de 15 médicos e feito milhares de exames. Já não aguentava levar mais agulhada! A conclusão, ou melhor, inconclusão era sempre a mesma: stress. Mas eu sabia que havia mais ali...meu corpo dava sinais que ninguém parecia entender, nem eu mesma.

Dica: ESCUTE SEU CORPO