August 21, 2008
Mais sobre o fígado
Achei uma matéria bem bacana (e antiga!) na superinteressante e resolvi dividir com quem tiver interesse por este órgão tão importante e às vezes mal-tratado. Quem tiver interesse, basta clicar aqui
April 28, 2008
Cirurgia pode curar câncer de fígado
Saiu no G1. Olhem só que boa notícia!!!!
Esse tipo de tumor era, até agora, considerado inoperável. Método usa capacidade regenerativa do órgão.
Um grupo de pesquisadores do Hospital Universitário de Zurique desenvolveu um novo sistema de cirurgia que pode ser usado em casos de câncer de fígado considerados até então não operáveis, aliado a sessões de quimioterapia.O método, anunciado hoje na revista médica "The New England Journal of Medicine" e no jornal local suíço "Le Temps", usa a capacidade única de regeneração do fígado, o que, nos últimos anos, permitiu desenvolver novas técnicas em cirurgia hepática e transplantes.
Na primeira cirurgia, são retiradas as metástases visíveis do lóbulo esquerdo do fígado e obstruída a veia que irriga a outra parte do órgão, a mais atingida pelos tumores. Ao mesmo tempo, há a administração de quimioterapia diretamente no fígado pela artéria hepática, o que pode fazer com que a massa tumoral reduza até 60%, um resultado "espetacular", de acordo com o responsável de cirurgia do Hospital Universitário de Zurique, Alain Clavien.
A parte do órgão que não recebe irrigação fica atrofiada e é retirada em uma segunda operação, realizada três meses após a primeira, enquanto a outra parte sofre hipertrofia, ou seja, aumenta de tamanho, ao mesmo tempo em que os tumores que ainda permanecem na região regridem graças ao efeito da quimioterapia.
A administração local de quimioterapia "é muito eficaz, não provoca muitos efeitos secundários e pode ser administrada em massa porque o remédio é rapidamente destruído pelo fígado", disse Clavien. Apesar do sucesso da técnica, "por enquanto, (o método) só é aplicado nos pacientes cujo diagnóstico é muito pessimista", acrescentou o médico ao jornal suíço.
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PS: Ninguém merece duas cirurgias hepáticas -- muito menos eu! -- mas se é para salvar a vida do paciente, tudo é válido. Fico tão feliz quando vejo estes avanços que podem aumetar dramaticamente a sobreviência de pacientes. É como se estivesse dando um soco na cara do inimigo!
Como posso atestar pessoalmente, a capacidade de regeneração do fígado é impressionante... Depois de retirar 70% em 2002 e 40% em 2008, hoje tenho um fígado 110% novo! Não é a toa que me chamam de mulher biônica: fígado mutante, vesícula inexistente, pulmão direto meio esquisitinho e diafragma picotado...continuo mais viva do que nunca!
January 30, 2008
Os Pais
Ontem mostrei para os meus pais a figura detalhada da cirurgia, esta que está aí no post abaixo. Achei que era uma forma clara de entender o procedimento e compartilhar esta informação com amigos mais curiosos. Pensei também que meus pais fossem achar interessante, afinal não era o MEU fígado, e nem fígado era, mas o desenho de um fígado qualquer ilustrando um procedimento técnico.
Estava redondamente enganada. Chamei os dois para frente do computador, eles olharam rapidamente o monitor e fizeram a mesma pergunta: "Para quê?" Minha mãe ainda deve ter dito algo como, "Deixa pra lá, já passou. Esquece." Insisti dizendo que não se tratava de nada pessoal, mas satisfazia a minha curiosidade sobre a cirurgia. Mostrei para eles o lobo direito, que no meu caso foi embora, as duas veias que me restaram (a cava, sem ela estaria morta, e a média, que quase se foi, mas em cima da hora os médicos decidiram não sacrificá-la) e o provável arranjo que os cirurgiões devem ter feito no meu fígado, que chamo de "puxadinho". Explico: Normalmente, estas duas veias atravessam o lobo direito do fígado, mas na inexistência deste, como no meu caso, creio que algum arranjo especial deve ser feito.
Toda vez que meu pai me escuta falando isso, sua fisionomia muda visivelmente. Ele odeia pensar que a filha, criada com tanto carinho, não é mais "perfeita", pelo menos fisicamente. Toda vez que olha para minha cicatriz diz: "Daqui a pouco a gente faz outra plástica." Repararam no "a gente"??? Coisa de louco, né? Afinal a barriga é minha e para dizer a verdade a cicatriz não me importa nada, nada. Sempre quis ser diferente, então parece que Deus ouviu as minhas preces. Quantas pessoas vocês conhecem que têm a estrela de três pontas da Mercedes talhada na barriga? Pois é! E é da Mercedes! Não é pra qualquer um não... Será que se mandar a minha foto pra eles, levo um carro?
Quando conversamos sobre este assunto chego mesmo a pensar que isto tudo dói mais nos meus pais do que em mim. Sim, a dor física é intransferível, mas a psicológica é perfeitamente compartilhável. Lembro que da primeira vez, mesmo depois do laudo médico que dizia claramente "hepatocarcinomal fibrolamelar" e não deixava margem para dúvidas, meus pais diziam que aquilo não tinha sido câncer, mas sim "umas celulazinhas ruins" que tinham aparecido. E toda vez que os corrigia -- sim, pois parte da minha estratégia sempre foi encarar os fatos de frente, dando nome aos bois -- eles se desesperavam. A palavra "câncer" simplesmente não fazia parte do vocabulário deles, pelo menos no meu caso.
Mas o tempo vai passando e abrandando todos os sentimentos. Aos poucos conseguíamos falar na experiência, mas nunca entrávamos em detalhe, pois para eles sempre foi dolorido demais. Não sou mãe (ou pai!), então não consigo mensurar bem a dimensão dos sentimentos deles, mas acho que por mais absurdo que possa parecer de vez em quando existe um sentimento de culpa, ou pelo menos um questionamento, "por que isto aconteceu justo com a nossa filha, que é tão jovem e saudável?" É como se sua obra-prima de repente começasse a ser devorada por cupins!
Tenho muita pena dos meus pais, pois imagino o quanto eles vem sofrendo comigo. Posso dizer que sou responsável por 90% dos cabelos brancos do meu pai, pois ele quase não tinha em 2002, até a minha cirurgia, e este mês notamos mais alguns na cabeça do coitado. Da minha mãe, não vou saber nunca, pois ela tem cabelo pintado, mas diz que tem uma mecha totalmente branca que surgiu depois da primeira cirurgia.
Na primeira cirurgia, fiquei quase um mês internada e mais um mês e meio em casa, entre consultas médicas, exames invasivos e quimioterapia por embolização, que envolvia centro de hemodinâmica, anestesia e internação. Pois é, fácil não foi. Mas meus pais estiveram sempre lá, uns dias mais fortes, outros dias mais frágeis, mas sempre dedicados e munidos de muita fé.
Mês passado, após ouvir o diagnóstico na sala de ultrassom, corri direto aos prantos para o meu pai, que estava na sala de espera e não conseguiu conter a emoção também. Ele só dizia: "Tudo vai ficar bem, querida. Tudo vai ficar bem." Mas eu sabia que ele também não tinha esta certeza. Naquela hora certezas simplesmente não existiam. Foi um pouco diferente da cena de 2002, quando saí da mesma sala escura em transe e encontrei a minha mãe na mesma sala de espera. Tumor no fígado? Isto existe mesmo? Cirurgia? Como assim? Era tudo tão novo para nós que o medo vinha em ondas, ao passo que íamos descobrindo mais detalhes da minha condição. Em 2007 foi diferente, fomos atingidos de uma vez só, de frente!
E daquele momento em diante as notícias começavam a chegar, truncadas como sempre. De início os médicos disseram ao meu pai que o tumor tinha uns três centímetros. Horas depois ele tinha por volta de cinco. Quando o exame finalmente chegou às minhas mãos, ele tinha sete!!!! Isso me dava um desespero enorme.
Vale a pena dizer que meu pai tem esta mania de "filtrar" as informações ou selecionar as partes da informação que ele quer que cheguem até mim. (Ele só quer me proteger, pois pensa que já sofri muito.) Mas quando finalmente descobri o tamanho real, me desesperei, pelo tamanho e pela sonegação de informações. Gritei muito com o meu pai que, coitado, estava mais abalado do que eu. Perguntei a ele e a minha mãe se eles tinhas esquecido das lições que aprendemos em 2002. Mas vi ali mesmo, na sala de espera do médico, que eles só queriam me poupar e assim sofrer um pouco menos. Como poderia culpá-los?
O tempo, que abranda os sentimentos, também tem seus efeitos nas pessoas e era inegável que meus pais estavam cinco anos mais velhos, cinco anos mais cansados, cinco anos mais frágeis. Mas isto só foi ficando óbvio para mim aos poucos e hoje, mesmo encarando a minha situação de frente, escolho as minhas palavras ao abordar o assunto com eles. Talvez seja melhor deixar o assunto morrer de vez, pelo menos com eles. A minha aparência é ótima e mesmo os médicos dizem que é difícil acreditar que passei por uma delicada cirurgia. E é isso que meus pais precisam saber, que está tudo bem.
As minhas investigações e questionamentos vão continuar, mas vou poupá-los das minhas descobertas, que afinal só dizem respeito a mim. Eles, apesar de bem jovens e saudáveis, já não têm mais o mesmo vigor de alguns anos e merecem um pouquinho de paz. Já sofreram bastante comigo nestes últimos anos. Para nossa sorte porém, de acordo com os médicos, o pesadelo acabou, pois estou curada. Parece mesmo que esta história vai ter um final feliz.
January 20, 2008
O Fígado
Em algumas espécies animais o metabolismo alcança a atividade máxima logo depois da alimentação; isto lhes diminui a capacidade de reação a estímulos externos. Noutras espécies, o controle metabólico é estacionário, sem diminuição desta reação. A diferença é determinada pelo fígado e sua função reguladora, órgão básico da coordenação fisiológica.
Entre algumas das funções do fígado, podemos citar:
destruição das hemácias
emulsificação de gorduras no processo digestivo, através da secreção da bile
armazenamento e liberação de glicose
síntese de proteínas do plasma
produção de precursores das plaquetas
conversão de amônia em uréia
purificação quanto a diversas toxinas
Além das funções citadas acima, este órgão efetua aproximadamente 220 funções diferentes todas interligadas e co-relacionandas. Para o entendimento do funcionamento dinâmico e complexo do fígado, podemos dizer que uma das suas principais atividades é a formação e excreção da bile, ou bílis; as células hepáticas produzem em torno de 1,5 l por dia, descarregando-a através do ducto hepático. A transformação de glicose em glicogênio, este conhecido como amido animal, e seu armazenamento, se dá nas células hepáticas. Ligada a este processo, há a regulação e a organização de proteínas e gorduras em estruturas químicas utilizáveis pelo organismo da concentração dos aminoácidos no sangue, que resulta na conversão de glicose, esta utilizada pelo organismo no seu metabolismo. Neste mesmo processo, o sub-produto resulta em uréia, eliminada pelo rim. Além disso, paralelamente existe a elaboração da seroalbumina, da seroglobulina e do fibrinogênio, isto tudo ao mesmo tempo em que ocorre a desintegração dos glóbulos vermelhos. Durante este processo, também age em diversos outros, tudo simultaneamente, destruindo, reprocessando e reconstruindo, como se fossem vários órgãos independentes, por exemplo, enquanto destrói as hemácias, o fígado forma o sangue no embrião; a heparina; a vitamina A a partir do caroteno, entre outros.
O fígado, além de produzir em seus processos diversos elementos vitais, ainda age como um depósito, armazenando água, ferro, cobre e as vitaminas A, vitamina D e complexo B. Durante o seu funcionamento produz calor, participando da regulação do volume sanguíneo; tem ação antitóxica importante, processando e eliminando os elementos nocivos de bebidas alcoólicas, café, barbitúricos, gorduras entre outros. Além disso, tem um papel vital no processo de absorção de alimentos. Espiritualmente se diz que no figado armazenamos a raiva.
Este resumo retirado da Wikipedia explica bem a importância deste órgão mais do que vital. O meu continua lá, com as cicatrizes das batalhas, muitos pontos, muitos grampinhos, a veia cava também mexida, mas firme e forte...todo mundo trabalhando pesado para me manter mais viva do que nunca.
Se o fígado normal é parecido com estas ilustrações que coloquei acima, o meu é um pouquinho, para não dizer totalmente, diferente. Ele é só o lado esquerdo, só que gigante. O tamanho deve estar praticamente normal, mas ele é só um grande lobo esquerdo hipertrofiado, costurado, grampeado, com umas veias meio puxadinhas, mas continua lá. Incrível pensar neste arranjo... Quando olho a cicatriz da Mercedes, ainda fresquinha na minha barriga, às vezes penso que tudo que passei está resumido ali, em forma da famosa estrela de três pontas. Ledo engano... A Mercedes é só enfeite do presente que está bem guardadinho aqui dentro da minha barriga.
October 19, 2007
Pesquisa...
Hoje soube que a minha "amiga" Kris Carr vai estar no programa da Oprah segunda-feira, dia 22 de outubro. Justo no meu quinto aniversário e no dia que eu me torno oficialmente "cancer-free"!!! Como diz a minha mãe, nada acontence por acaso. Muito legal esta menina aparecer na Oprah... Minhas ambições são menores...só quero ver meu livro lançado e uma entrevista pro Jô já está de ótimo tamanho.
Por conta da Kris, ouvi falar do Dr. Randy Pausch. Para encurtar a história, o cara é um gênio, professor de "Realidade Virtual" na Carnegie Mellon University. Há pouco tempo ele soube que tinha câncer no pâncreas. Fez a cirurgia, mas o raio da doença desgraçada parece ter voltado e os médicos deram a ele entre seis e três meses de "boa saúde". De cortar o coração. O cara é super bom astral, tem uma esposa maravilhosa e três filhinhos lindos. Ele diz que não acredita muito em milagres, mas eu acredito neles cegamente e já incluí mais um nome na minha listinha.
O Dr. Rasch fez um discurso de despedida lindo na universidade mês passado. Quem tiver curiosidade de conhecer este ser humano de tirar o chapéu, vale a pena entrar no site dele e se emocionar: www.randypausch.com.
Lendo o site dele, segui um link e fui para numa página bem educativa sobre "câncer em geral". E olhem só o que eu descobri sobre o meu caso:
Across the world, 7 out of every 100 people diagnosed with liver cancer (7%) will be alive 5 years later. But 8 out of 10 liver cancer cases (80%) are found in developing countries, where it can be difficult to get treatment. The outlook may be better for the UK. The figures also vary widely depending on the type of treatment that you have.
(...)
For those who have surgery to remove the cancer
- About 3 out of 4 (75%) live for at least 1 year
- About 1 in 2 (50%) live for at least 3 years
- About 3 out of 10 (30%) live for at least 5 years
Para quem tem alguma dúvida é só checar a fonte: http://www.cancerhelp.org.uk/help/default.asp?page=4907
Pois é, agora vai dormir com um barulho desses!
É nestas horas que até eu tenho que concordar com o ditado gringo "Ignorance is a bliss." Mas ignorância é ou não é uma bênção?!
Hoje, exatos cinco anos após meu diagnóstico, acabo de descobrir que somente 7 (SETE!!!!) em cada 100 pacientes diagnosticados com câncer de fígado estão vivos cinco anos mais tarde!!! E dos que fazem cirurgia só 30% vivem mais de 5 anos.
Gente, EU sou uma destes SETE!!!!! Não vou nem entrar no mérito do estágio do câncer porque assim a coisa ainda fica mais assustadora. Nem dá para acreditar... Aliás, hoje também faz um ano que me casei no civil por procuração com a minha cara metade e com o homem mais fascinante do mundo. Sou ou não sou uma "escolhida"?!!!
Imaginem se eu tivesse lido esta informação há uns anos...acho que teria enlouquecido. Minha mãe está certa, nada acontece por acaso mesmo!!!
Então hoje encerro o meu post agradecendo primeiro a Deus, por ter me dado esta chance única de uma vida nova e muito mais feliz, depois à minha família, que sempre esteve ao meu lado e nunca perdeu a fé, aos meus médicos, que foram incasáveis em sua dedicação e profissionalismo, e aos meus muitos amigos que me doaram seu sangue e jamais deixaram de torcer por mim.
Já disse isso mais de uma vez, mas aqui vou eu de novo "AMO MUITO VOCÊS."