June 28, 2010

As Com e as Sem Bebê

Fica cada vez mais óbvia a divisão na suburbia: de um lado as que ostentam um prole de filhos, do outro, no mais absoluto ostracismo, as que não os tem. E um muro invisível separa os dois grupos que não se misturam jamais.

Já deveria ter previsto tal conflito. Há alguns anos, fui a uma festa na casa de uns amigos do Blake, que na época tinham um filhinho de uns dois anos. Chegando lá, vi muitas crianças correndo, todas fofíssimas. Umas vinham brincar comigo e outras estavam entretidas demais com os amiguinhos. Um menino de pouco mais de um ano, volta e meia vinha até mim e me chamava de mamãe. Ficava esperando que eu lhe desse atenção. Uma coisa fofa. O pai, meio sem graça, se desculpou, mas eu disse que não havia motivo para isto.

Tempos depois, a mãe do tal menininho chegou e, ao ver o filho brincando comigo, aproximou-se. Me disse seu nome, eu me apresentei e ela logo me fez a pergunta fatal: “Você tem filhos.” Sorri e disse, “Ainda não.” Foi o bastante para ela sorrir amarelo, virar as costas e me deixar praticamente falando sozinha. Reparem que eu disse “Ainda não” em vez de “Nem pensar”, ou “Deus me livre!” Mas ela não quis saber, eu não tinha filhos e por isto não era digna de estar na presença dela ou coisa parecida. E dali para frente, a dita-cuja me ignorou a festa inteira. Note-se também que antes da mãe-maravilha chegar quem estava praticamente tomando conta do filho dela era eu, a “estranha sem filhos”. Mas c'ést la vie.

Não preciso nem dizer o quanto aquilo me marcou. Não me magooou porque nunca mais vi a figura e nem sei quem ela é, mas achei aquilo o fim da picada. O Blake contemporiza e diz que ela ficou intimidada comigo ao descobrir que provavelmente eu não me interessaria pelo único assunto que ela dominava – ou que tinha interesse. Seja o que for, acho uma tremenda falta de educação.

Mas a verdade é que desde que me mudei para cá, me deparo com episódios assim frequentemente. A piscina do meu condomínio é o cenário perfeito. Para começar, quen não tem filhos e tem mais de 20 anos não bota os pés lá, mesmo quando o calor beira os 40C. A grande maioria é de mulheres em idade reprodutiva, com ou sem marido. Todas com filhos à tiracolo. Não importa se seu filho tem 20 anos ou 2 meses, existe um código de conduta implícito que toda mulher que é mãe domina e assim passa a fazer parte de um clubinho pra lá de exclusivo. Todas se conhecem, ao que parece há tempos. Seja no parquinho, na escola ou sei lá onde...parece que sempre há uma festa para qual não sou convidada. [A grande maioria não trabalha e fica com os filhos em casa!]

Esta divisão me incomoda. Sempre me incomodou e agora me incomoda mais porque vivo uma espécie de limbo. Ainda não tenho o troféu que me garante entrada no clubinho, mas ao mesmo tempo confesso que pertencer a tal clubinho me apavora, me dá calafrios. Não quero ser como elas!

Claro que sei que a maternidade muda qualquer mulher, mas não quero perder a minha identidade. Quero ampliar meus horizontes, viver novas emoções, mas não quero deixar de ser eu mesma. Aos 36 anos estou mais do que certa do que quero. Minha gravidez foi planejada, mais do que isto, foi sonhada e batalhada, no meio de agulhas, hormônios, ultras e muitas consultas médicas. Mas não é por isto que vou deixar de ter meus interesses, minhas paixões e minha identidade própria.

Não me julguem mal, longe de mim ser uma pessoa egoísta, só não quero perder a minha essência. Não quero me anular e me isolar do mundo no papel de mãe e acordar um dia perguntando para onde a minha vida se foi. Sei que vai ser difícil, principalmente no início, mas pretendo manter minhas amizades, meus interesses e meus horizontes depois que o bebê nascer.

Acho que isto deve ser um fenômeno da suburbia americana, pois jamais notei isto nos meus tempos de Nova York e muito menos com as minhas amigas no Rio. É claro que a rotina muda, a disponibilidade diminui, as preocupações aumentam, mas não penso que nada disto seja motivo para viver isolada numa bolha, cercada de clones.

June 25, 2010

Soccer fever

Por estes lados não se fala em outra coisa. Até nos sites de notícias americanos os assunto anda merecendo o maior destaque. A grande pergunta alardeada aos sete ventos aqui é “Será que desta vez o futebol veio para ficar?” Sim, porque há quem aposte que é onda passageira, que americano não tem saco para ficar noventa minutos grudado na TV e no final do jogo sair sem ver um gol. [Eta mentalidade ridícula!] Mas a verdade é que até os comentadores esportivos andam dando o braço a torcer. Se a máxima “falem mal mas falem de mim” for verdadeira, o futebol tem boas chances aqui na Gringolândia. Há quem diga que o termo soccer vá ser aposentado e o esporte aqui em breve se chamará “futball”. A ver.

Aqui no meu trabalho, em dia de jogo o pessoal some e se espalha pelos bares das redondezas. Depois o assunto é um só. Mas como diz o Blake, meu trabalho não é parâmetro, uma ONG internacional que tem só no staff aqui de Maryland umas 36 nacionalidades diferentes. O povo aqui é granola mesmo, até a grande maioria dos gringos já viveu muito tempo no exterior, grande parte na África ou na América Latina, então não são o americano médio, mas certamente são mais parecidos com o americano que espero que meu/minha filho/a venha a ser: curioso, aberto, generoso e internacional. Claro que como em toda empresa há exceções, mas em geral a galera aqui é do bem.

Como a soccer fever por enquanto é para valer, amanhã vamos vero jogo dos EUA num bar bem animado perto de casa... E vamos chegar cedinho para garantir lugar bom!

June 23, 2010

Forma de Bola



Para que ninguém duvide, a foto acima mostra os contornos generosos que a minha silhueta tem assumido ultimamente. A cara de cansaço é justificada por nove horas de labuta.

E quando já estava me conformando com minha nova silhueta, eis que quase morro de susto. Precavida como sempre, comecei a pesquisar creches, que por aqui se chamam Day Care Centers, nas redondezas. Como não estou na empresa há um ano, não tenho direito a licença-maternidade... Sim, aqui não é China, mas é quase. Então vou tentar ficar os três meses em casa sem receber um centavo!

Como se isto não bastasse, na minha pesquisa descobri que a creche do/ da meu/minha pequerrucho/a vai me custar a bagatela de $1500 por mês! Isto sem contar os outros fees que tem que ser pagos: matrícula, lençol, material, etc, etc... Tudo bem que a criança fica lá de oito da manhã às seis da tarde, mas vai para casa sem banho...

Ainda estou meio chocada com os valores – tinha calculado uns $1000 – mas ao contrário dos ponteiros da balança que não param de subir, a tendência da minha poupança neste momento é de queda-livre. C’ést la vie... Também não dá para pensar em colocar minha cria numa pocilga para economizar uns trocados!

June 22, 2010

Maternity Clothes

Segurei o máximo que pude, afinal perdi grande parte das minhas roupas no primeiro mês – quem manda gostar de cintões e roupas justas na cintura? Mas com vestidos larguinhos, leggings e vestidos/tops mais amplos consegui adiar bastante meu novo guarda-roupa. Até que não deu mais: hoje resolvi aceitar minha condição e minha barriga. Coloquei minha primeira calça com cintura elástica, herdada da minha irmã. Ainda por cima cor de gelo, então devo estar parecendo uns 10 kgs mais gorda!

Esta história de estar grávida nos primeiros meses é engraçada, pois a condição ainda não é óbvia, então volta e meia me pego anunciando a gravidez meio que para justificar a minha nova forma – de bola, diga-se de passagem. O problema é que a gente – digo eu! – não engorda só na barriga...a primeira coisa que vi crescendo assustadoramente em mim foi – advinhem – meu bumbum! Coisa muito esquisita!

O Blake é torturado diariamente pela mesma pergunta: “Estou parecendo grávida ou alguém pode pensar que sou gorda?” Sim, porque até agora para os desavisados pode ser uma coisa ou outra. Ele só ri e me pede para parar com a paranóia. Mas quem sempre foi criança e adolescente gorducha traz muitos e muitos traumas consigo!

No trabalho, só as pessoas mais próximas sabem. Comecei a trabalhar aqui logo com um mês, então deve ter muita gente achando que devo estar comendo feito elefante para justificar o meu ganho de peso. Acho que depois de hoje, pelo menos os mais observadores vão notar alguma coisa... E daqui para frente acho que a mudança só tende a ficar mais óbvia! Agora é só aguardar...

June 18, 2010

Brazilian Dancing Baby

O maior sucesso brasileiro nos últimos tempos. Aqui não se fala em outra coisa!


Gostinho da Vida Antiga...

Hoje passei o dia em Georgetown, uma das minhas partes favoritas de Washington, e o dia teve um delicioso sabor de flashback.

Nos meus tempos de faculdade e nates de conhecer o West Village, achava Georgetown o lugar mais bacana do planeta -- construcoes antigas e gente antenada. O maximo! Depois de morar por muitos anos no West Village, Georgetown, e Washington de uma certa maneira, foram ficando provincianos demais para mim. Junte-se a isto pelo meu enorme desprezo por politicose "wanna-bes", o lugar perdeu muito do encanto para mim.

Continuo achando o West Village mais legal, mas hoje vi mais de perto as coisas que me faziam gostar de Washington. A cidade e bonita, bem planejada, arborizada, apesar de nao ter muito pulso, na minha opiniao.

A visita hoje foi para decidir detalhes sobre a festa de despedida do nosso CEO. Nestas ocasioes acabo sempre sendo arrastada -- e a bem da verdade nao ofereco muita resistencia. Vimos alguns hoteis bacanas na area, e temos algumas opcoes para oferecer ao nosso Board.

Mas legal foi passar uma tarde superagradavel batendo papo e passeando pela parte mais bonita da cidade... Parecia ate que estava de volta ao Rio...

So faltou a praia!

June 16, 2010

Mais sobre o Tratamento

A parte mais difícil do tratamento é segurar a ansiedade. Um dia de cada vez. Acho que é impossível para quem é control freak porque você se sente mesmo como agente da CIA em missão top secret. As instruções mudam a cada dia, de acordo com o resultado dos exames também diários e o telefone toca sempre mais ou menos a mesma hora. Coisa de filme mesmo. “Oi Danielle, tudo bem? Seu nível de estrogênio está X, então hoje você enche a agulha da medicação um até o meio e dissolve em duas garrafinhas do líquido. Coloque 5 mg da medicação dois na seringa. Vamos aguardar até amanhã.”

Lógico que nos primeiros dias, meu estrogênio nem se mexeu, então o médico aumentou a dose...Depois o tal do hormônio deu uma desparada louca... Esta parte é meio mágica, meio alquimia, pois o médico vai mudando a dosagem e tentando fazer com que o estrogênio suba num ritmo compatível com o amadurecimento, com o número e com o tamanho dos óvulos. Se a fórmula não der certo, o tratamento tem que ser interrompido e volta-se a estaca zero.

É por isto que acho mesmo com tantos avanços na medicina, no final fica tudo nas mãos de Deus. O mesmo tratamento pode ser extremamente bem sucedido para uma e ineficaz para outra. Lembro que durante uma das minhas consultas, na sala de espera conheci uma outra paciente, mais ou menos da minha idade que depois do tratamento só tinha conseguido um óvulo e mesmo assim não poderia fazer in-vitro e optaria por um outro procedimento mais low-tech. Ninguém sabia dizer o motivo.

O tratamento é intenso pelo número de consultas e exames, mas como acredito que todas as experiências nos preparam para o futuro, meus dias no CTI me prepararam bastante. Claro que dá uma agitada na rotina, mas fazer tratamento e poder continuar a vida para mim é um grande luxo.

Minhas experiências anteriores também me prepararam para enfrentar o lado psicológico da coisa. Como sempre, a correria dos exames é seguida por uma espera – que parece infinita – pelos resultados. Nestas horas a fé ajuda bastante... Sempre me considero feliz por encontrar problemas que têm solução. Às vezes complica um pouquinho, mas com fé e paciência, e com uma tremenda sorte – que me acompanha sempre – tudo acaba se resolvendo da melhor forma.